Concorrência
2 Prólogo
Notas iniciais
PRÓLOGO
"Quando Isolda, a Loura, soube que seria entregue a esse covarde, deu a principio uma grande risada, mas depois começou a lamentar-se." — Tristão & Isolda.
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Mais um dia de trabalho e Mary estava exausta.
Seus bíceps gritavam a qualquer movimento brusco e seus tríceps latejavam longamente, em um pulsar irritante e completamente desmotivador. Sem citar as pernas e a enxaqueca que a perseguia desde o seu primeiro dia no bar; a boate vivia sem um dia em que estivesse lotada, sendo um sucesso para o dono e um tormento para os funcionários. Principalmente as garotas.
Garotas, nada! Principalmente para ela.
Os homens eram afixados pela pobre da bargirl, que infelizmente, era ela.
Era uma disputa incessante de quem pegava na bunda da bargirl, de quem roubava um beijo da bargirl, de quem levava primeiro a bargirl para a cama, que Mary já havia pensado na possibilidade de largar o emprego — que não apenas pagava bem, mas abria portas nunca antes abertas — e arrumar qualquer outro que não a rebaixasse a tanto.
Mas eventos estranhos começaram a acontecer.
Inicialmente, a sua intolerância ao sol devia-se ao fato de trabalhar a noite e passar o período diurno dormindo. Porém, há alguns dias, apenas ao abrir a janela, uma forte tontura a assaltava e ela via-se obrigada a fechar-se em um casulo escuro e completamente impenetrável; a luz do sol, os raios ultravioleta, ou qualquer outra fonte de iluminação mais forte que uma lâmpada fluorescente de cor azul, pinicava seu rosto e qualquer outro canto de pele que pegasse, e causava uma forte dormência.
Ela nunca havia sido avisada pela mãe de que sofria algum tipo de alergia ao sol. Ela lembrava-se bem de que na infância seu passatempo favorito era brincar na luz calmante das sete horas da manhã, em seu tanque de areia no quintal de cercas amarelo esfumaçado, com a mãe contando histórias de mundos que não existiam, aonde a noite predominava e em todos os cantos ameaças brancas espreitavam e tiravam o sossego de bons guerreiros. Mas ela lembrava-se também de que aguardava ansiosamente à hora noturna, quando um homem de cabelo multicolorido surgia sem barulho algum e a beijava carinhosamente na testa.
As únicas lembranças que restavam, agora, sumiram com o rosto de tal homem.
E outra coisa que não saia da sua cabeça era que os homens que apostavam se iriam levá-la para um motel qualquer ou um banheiro imundo, sumiam repentinamente na noite e apareciam aos pedaços na manhã seguinte. Aos pedaços, ela corrigiu-se, significa tão violentados que não conseguiam ao menos erguer-se.
Balançando vigorosamente a cabeça, para espantar os pensamentos ruins, ela ergueu-se da cama iluminada por uma fraca luz proveniente do abajur lilás; agachando-se, revirou a pequena bolsa de mantimentos que tinha no quarto e de lá retirou uma calça jeans de lavagem escura e uma blusa de tiras nas costas.
Deixando a roupa na cama, andou um pouco e adentrou o pequeno espaço que a hospedaria também chamava de banheiro. Mary ligou o chuveiro e deixou que a água esquentasse, enquanto retirava a blusa do pijama pela cabeça. A imagem no espelho mostrava os grandes olhos cinzentos herdados da mãe, os cabelos longos e lisos de cores diferentes de que ela tanto se orgulhava; o rosto era composto por um nariz fino e nobre, uma boca bem desenhada e maçãs altas. Na clavícula magra e pálida, emoldurava o pescoço um delicado colar de ouro branco com um relicário em forma de maçã, que continha a foto da mãe e um espaço vazio com a palavra pai escrita em elegantes letras do antigo inglês.
Retirando o sutiã e as calcinhas, entrou na ducha quente e perdeu-se nos 10 minutos de paz que apenas a água poderia trazer-lhe.
Ao final do banho, com os cabelos ainda encharcados de água e exalando o delicioso aroma do xampu de cereja, Mary vestiu-se com a roupa de baixo e começou o preparo para a noite. Uma escova, o secador e a prancha deram um jeito no cabelo; a maquiagem era composta de sombra, delineador e rímel negro, com um translúcido brilho labial. Ela prendeu o cabelo com a fivela de prata, a única que conseguia agüentar o cabelo totalmente preso em um coque.
Com a roupa de serviço já posta, ela foi ao cabide atrás da porta e pegou o sobretudo negro de lã revestido de zibelina de gola e mangas felpudas, a pequena bolsa tiracolo e as chaves, saindo para o fétido corredor da hospedaria. Descendo os três lances de escada, deu de cara com o gerente magricela e mal humorado, que adorava tirar sarro de sua condição financeira e que não deixava de oferecer a ela modos menos honoríficos de pagar a sua constante dívida com o hotel.
— Como vai, Mike? — falou, ainda que estivesse atrasando-se para bater o ponto e detestasse conversas frívolas e sem sentido algum.
— E ai, doçura? Como está hoje? — respondeu ele, aproximando-se com seu hálito podre — Disposta a pagar o que me deve?
Ela sorriu com os lábios juntos, esgueirando-se para não encostar o seu adorado sobretudo no homem.
— Que tal outra hora, outro dia ou outro milênio? — respondeu — Talvez esta noite ou amanhã, Mike.
Mary não se importava com o sentido compreendido pelo homem, ou pelos olhares carrancudos da esposa dele; ela apenas queria ver-se livre daquele lugar por algumas horas. Ela queria chegar ao seu trabalho também miserável, fazer algumas bebidas, receber algumas cantadas, ganhar os seus vinte e quatro dólares por hora e as gorjetas, ser a escória por algum tempo. E talvez, se chegasse ainda às cinco da manhã no quarto que ela começou a chamar de casa desde o incidente de novembro, ela gostaria de acompanhar o nascer do sol até que suas retinas queimassem e ela se visse obrigada a trancar-se em seu casulo energúmeno.
A rua mantinha uma temperatura gélida, com uma espessa neblina que apenas a Caldwell noturna poderia oferecer. O cheiro de flores escuras invadia os pulmões esgotados de Mary enquanto ela buscava a lua no meio de tantas nuvens púrpuras. Um forte aroma de cigarro desmanchou a paisagem outonal perfeita que Mary havia formado em seu cérebro e ela lembrou-se de que ainda vivia no gueto de uma grande cidade, e de que havia um trabalho a ser feito e uma vida a ser mantida, e que sonhos pueris eram para outras: não para ela.
Chegando à estreita avenida, ela fez um sinal com o polegar ao léu, a espera de um táxi. Um carro qualquer parou no meio fio, e sem titubear, Mary entrou. Mas, ao sentar-se no confortável banco de couro e visualizar toda a estrutura que a abrigava, a confusão estampou o seu rosto. Rosto esse que deu de cara com o homem mais perfeito que Mary nunca havia visto.
Olhos azuis iridescentes, emoldurados por pestanas loiras escuras e uma boca completamente lasciva, encararam-na por alguns instantes. Então, ele sorriu como ela havia sorrido para Mike. Um sorriso sardônico, de alguém que sabia os segredos mundanos e queria dividi-los com ela.
— Você está bem? — as belas sobrancelhas franziram-se, dando lugar a uma ruga de preocupação na bela tez bronzeada.
Os lábios de Mary separaram-se instantaneamente, mas som algum saiu. Ela estava em um estado de catatonia surpresa. Seu coração martelava nos ouvidos, a pulsação corria aceleradamente e ela ficou com medo de ter um AVC no carro de um completo estranho.
— Hmmmm... — sua mão foi para a testa em um 'clec' audível — Me desculpe. Entrei no seu carro por acidente.
Ele sorriu aquele sorrisinho de vilões novamente, estendendo a mão para o volante. Ela sentiu o mais leve dos rugidos debaixo das pernas e logo o carro estava em movimento. Mary observou o estranho dirigindo por algum tempo, enquanto ele trocava as marchas e acelerava.
— Com licença?
Ele suspirou, dirigindo.
— Não foi por acidente.
Mary franziu o cenho, segurando a bolsa apertada contra o peito.
— Se importaria de explicar?
— Mas não foi você quem fez o sinal? — ele riu um pouco, passando da segunda marcha para a terceira em um rápido movimento.
— Ah sim — ela respondeu, mordendo o lábio — Você dá caronas, assim, para qualquer garota?
Ele olhou para ela do retrovisor, balançando a cabeça com seus belos olhos azuis.
— Apenas para as morenas.
Ela riu um pouco, um nervoso sorrisinho constrangedor.
— Então, — ele falou — não vai pôr o cinto?
Mary olhou para si mesma, pensando em que decisão tomar e no que fazer quando um estranho te dá uma carona. Devia existir um manual a ser seguido em certas situações.
— Desde que você fale seu nome.
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Rhage, ou o homem que disse se chamar Rhage, deixou-a na entrada de funcionários da boate com um sorriso e um desejo de boa noite e bom trabalho. Mesmo com sua beleza exacerbante e tendo um bom papo, Rhage não parecia alguém de ter uma relação estável. Parecia uma daquelas máquinas de fazer sexo que se comprometiam desde que a mulher possuísse um senso de conservação de um cachorro, e esquecesse-se do telefone dele nas piores horas.
Mary não negou a si mesma de que ficara encantada com o cabelo loiro liso, com o corpo e a altura de Rhage, até mesmo com a sua voz de locutor de programa de rádio, mas ela logo se desenganou. Ele fazia aquele tipinho que pedia a bebida mais cara e a induzia a ir ao banheiro, ou em um carro importado, para dar uma... Rapidinha. E Mary sendo Mary não iria envergonhar a mãe prestando-se a isso. Ela possuía um caráter, e isso, nem um hotel fuleiro nem o emprego mixuruca que conseguira iriam tirar dela.
Ao abrir a porta de madeira pintado em um tom esdrúxulo de vermelho ela sentiu uma baforada da temperatura da boate e sentiu-se suja; era uma mistura de calor corporal com o calor produzido pelos freezers e aquecedores de pior qualidade, com o fedor de cigarros e guimbas, sem falar nos baseados e cachimbos. Em plena oito horas da noite, Mary surpreendeu-se de haver tanta gente na boate. Em sua maioria eram cafetões, cafetinas e seus escravos sexuais perambulando em pontos que muito brevemente haveria traficantes de drogas, mafiosos e manipuladores de maquinas caça-níqueis. Mas também havia a minoria de civis que iam na Fire & Blood para beber, dançar e curtir o happy hour estendido.
Batendo seu ponto rapidamente, ela correu para a sala de funcionários, aonde abriu seu armário e enfiou a bolsa e o sobretudo as pressas. A fivela que prendia seu cabelo fora guardada em um dos compartimentos da bolsa, revelando as mechas onduladas de várias tonalidades, que caiam suavemente pelos ombros pálidos e encovados, nas costas definidas e nas tiras de cetim de marcavam a cintura delgada. O corpete de um profundo tom verde conversava animadamente com a calça skinny de lavagem escura, e a bela bota de bico grosso, formando um autentico look gótico que apenas a bargirl conseguia manter.
No bar, o tampo de mármore negro já estava cheio de garrafas das mais variadas bebidas espalhadas em cantos alternados; seus consumidores haviam partido há muito, deixando apenas a condensação quente e uma marca circular de água. O ajudante — ou do que ele era chamado — estava tendo uma conversa para lá de bem sucedida com uma loira estonteante. A moleza acabou quando viu Mary, de longe, caminhando com um olhar resignado.
A persona Mary, a bargirl, havia entrado em ação logo que ela atravessara o piso touch screen da boate, que se debruava em névoa no lugar pisado. Todos os homens davam uma bela conferida no seu material antes mesmo que suas costas aparecessem; as poucas mulheres civis, e as muitas prostitutas, roíam-se de inveja dela. Seu corpo era monumental, e seu cabelo vermelho, castanho e com mechas douradas era alvo constante de perguntas indiscretas e comentários obscenos. O ar mudou quando seu rosto fora visualizado, e esquentou quando seu corpo fora avistado. Todos do bar a admiravam em segredo.
Chegando a seu ambiente de trabalho, ela organizou todas as garrafas em caixas de papelão, passou um pano úmido no espaço do tampo que havia sido utilizado e atendeu alguns clientes, em pedidos menos incrementados. O atendente, apelidado por ela de Smooth (pois se transformava em fumaça quando o horário de pico chegava), começava a lavar os copos e taças utilizados quando o primeiro apostador da noite chegou.
Seu cabelo castanho levemente encaracolado passava uma imagem totalmente díspar de sua personalidade; toda a inocência emprestada por seus olhos azuis bebê e sua pele totalmente uniforme havia sido esquecida quando a língua entrava em ação.
— Uma vodka, por favor — a voz era sonora e limpa.
Droga, Mary odiava os mauricinhos.
— Ta aí! — disse ela, após colocar um copo e encher dois dedos com a Grey Goose em temperatura ambiente — Mais alguma coisa?
Ele bebericou e a encarou, em seu melhor olhar galanteador. Internamente, Mary ria da cena e perguntava-se de quanto havia sido a aposta e o que seria dessa vez. Os lábios gordos e vermelhos como flor cereja aflorada, estavam levemente umedecidos com uma mistura de vodka e saliva, e ele ainda com o olhar, mordeu-os.
Mary tentou, mas não se agüentou, e soltou uma sonora gargalhada.
— O que? — o tom ofendido de sua voz estimulou a gargalhada de Mary — 'Tá me achando com cara de palhaço ou algo do tipo?
Em uma atitude totalmente impensada, ele bateu o copo com vodka no tampo negro, espirrando bebida tanto na impecável blusa branca quanto no topo dos seios de Mary. Um olhou para o outro; Mary com seu sorriso controlado, e o playboy com o rosto tão vermelho quanto um pimentão.
— Eu poderia chamar o segurança apenas por você ter se insinuado para mim, — ela começou com o tom de voz contido — ou por você ter danificado o patrimônio da Fire & Blood. Mas eu gostei do seu joguinho de sedução o bastante para ficar penalizada com a sua tentativa de me levar pra cama, ou qualquer coisa do tipo. Então, antes que eu mude de idéia, dá o fora do meu bar. E fala pro teus amiguinhos que a bargirl aqui não é indefesa e nem muito menos precisa do pau de garotinhos mimados pra se satisfazer.
E com o fundo musical de S.E.X., ela deu o autentico sorriso sardônico que apenas ela havia visto no inicio da noite. Os olhos do garoto se esbugalharam tanto que por alguns instantes ela temeu que fossem sacar. Ele tropeçou nos próprios pés enquanto sacava duas notas de cem dólares da carteira de couro bege, e deixava-as no tampo negro, saindo sorrateiramente para a mesa de panacas que o aguardavam.
Mary dançou um pouco ao som de Nickelback, balançando os quadris e os braços e cantando a letra a qual ela conhecia tão bem, servindo doses de uísque e incrementando com coca-cola diet ou qualquer outra coisa que fosse pedida. Os clientes mais famosos começaram a chegar, estendendo os braços e insistindo para que fossem atendidos em suas respectivas mesas, as músicas foram rolando e Mary seguia dançando. Os pedidos começaram a aumentar, de diversos tipos, com ingredientes que a fazia movimentar-se em busca de um pouco de gelo ou aquele suco de fruta que Smooth esquecia-se de pegar, fazendo-a ligar-se apenas ao som do liquidificador e do misturador, esquecendo um pouco o som ambiente ou a música que tocava.
Houve um momento na terceira hora em que Mary realmente irritou-se com a ineptidão do garoto; ele não soube fazer o Dry Martini da puta de um dos traficantes. O homem branco cheio de tatuagens veio reclamando de que faltava vodka na bebida e de que a mulher havia pedido cereja, no lugar da maldita azeitona que puseram. Ele jogou o copo no chão do bar, espalhando suco de limão e vodka por todo o canto, provocando clientes igualmente importantes e de status, que poderiam não apenas retirar seu emprego, mas também o que restava da sua vida. E no fim de todo o espetáculo, enquanto mulheres com vestidos curtíssimos e ainda assim extravagantes, soltavam gritinhos enojados, ele exigiu a bebida feita corretamente pela puta da bargirl.
Inexplicavelmente, ela ligou-se a música que tocava no momento. Outro sucesso do Nickelback, If Today Is Your Last Day. Em uma atitude totalmente subserviente, ela preparou a bebida e entregou na mesa do traficante. O homem soltou uma baforada de um charuto fedorento em seu rosto, e a puta dele deu-lhe um sorriso satisfeito e completamente prepotente.
Enquanto voltava para o bar, uma mão agarrou sua cintura e lábios aproximaram-se de seu ouvido.
— Você está linda nesse corpete — sussurrou a voz para ela — Era isso que escondia no sobretudo?
Ela reconheceu a voz, enquanto a mão forte embalava-os sensualmente pela pista de dança, mexendo seus quadris contra os dele, no ritmo forte da guitarra de No One Like You. Ela arrepiou-se ao pensar na possibilidade daquele movimento todo em outro lugar, talvez em uma cama aconchegante com travesseiros de cetim, com aquelas mãos na mesma posição em que estavam agora, só que na horizontal e ele por cima.
Os lábios de Rhage aconchegaram-se suavemente na dobra de seu pescoço, enquanto uma de suas mãos subia suavemente pelo veludo do corpete e dedilhava o contorno de seus seios, alcançando a clavícula marmórea e o pescoço de cisne, elevando o queixo anguloso de Mary para poder alcançar os lábios ainda cobertos pela fina camada de brilho translúcido. Mary abandonou-se naquela carícia, ainda rebolando contra os quadris largos e fortes de Rhage, aconchegando-se ao peito dele. Ela sentiu os lábios gordos e sarcásticos dele aproximando-se cuidadosamente dos dela, plantando beijos no canto da boca, fustigando toda a ansiedade de Mary.
A mão que circulava sua cintura afastou o comprido cabelo do pescoço, abrindo espaço por todo o ombro esquerdo, dando a liberdade que ele necessitava.
— Sabe, Mary, eu venho observando você trabalhar e não gostei nada do que vi.
O tom de voz de Rhage era sério, completamente inquisidor. A mão que havia partido voltou para a cintura, em uma carícia exigente. Seus lábios voltaram para o ouvido de Mary, enquanto Klaus Meine cantava o seu rock histericamente nas caixas amplificadas da Fire & Blood. Mary podia sentir que todos os olhos estavam nela; desde a mesa dos mauricinhos até o canto nevoento do traficante. Finalmente alguém havia fisgado a bargirl, e ninguém havia apostado nele.
— Todos esses homens te encarando, — ele continuou — te desejando e te querendo, e você é boa demais para qualquer um deles. Isso me encheu de esperança.
Ela não compreendia o idioma que Rhage estava falando, nem ao menos o significado das palavras, enquanto estava compenetrada na guitarra, nos dedos que brincavam com a pele sob o corpete aveludado e os dentes que a mordiam lascivamente.
— Em todos eles falta o mistério da caçada, — falou ele em seu ouvido — a pegada animalesca, toda a escuridão que a ronda, não é mesmo? Em todos eles falta o perigo, a excitação, o medo. Por que isso, Mary? Por que não dar uma chance a eles? Por quê?
Talvez Mary estivesse escutando coisas, mas um rugido — como o do carro — atravessou o peito de Rhage como uma flecha. Esse rugido, que qualquer outra mulher em sã – e até mesmo insana – consciência acharia tremendamente sexy e untaria suas calcinhas, fez com Mary despertasse de seu mundo encantado e soltasse-se de Rhage com um empurrão nada delicado. A boate suspirou aliviada: fora apenas um engano. Um carinha qualquer veio molestar a bargirl. Fora apenas isso.
Retirando a franja dos olhos com a mão tremula, Mary encarou os olhos azuis néon de Rhage incredulamente. Ele fez menção de aproximar-se, mas uma mão masculina em seu ombro o impediu; era o Reverendo, que desceu de seu pedestal inescrutável por alguma razão incompreensível.
— Problemas aqui, Mary? — perguntou ele, com a voz retumbante que ecoou nas paredes soturnas da Fire & Blood — O mauricinho não aceita um não?
Por alguma razão, Mary teve o pressentimento de que Rhage arrancaria os dedos, o pulso e o braço de Reverendo se desejasse; em seus olhos muito azuis de pupilas brilhantes havia uma periculosidade, e a segurança que emitia era quase inumana. Os motivos para que Rhage não atacasse o homem atarracado pareciam estar acabando e Mary não queria incitar ainda mais aquele belo desconhecido.
— Hm, estou bem. Não é necessária essa balbúrdia toda por minha causa, Reverendo. — disse ela, ainda instável — Bem, vou para o bar.
O rock havia acabado, e uma multidão de homens e mulheres vinha em direção à pista de dança ao som de uma música qualquer de Shakira. As mulheres rebolavam suas bundas plastificadas ao som da batida latina e completamente erótica. Quantos bastardos seriam feitos naquela noite, Mary não saberia dizer.
Rhage livrou-se da mão do homem moreno e parecia ter uma conversa nada amigável com ele, enquanto Mary voltava para o bar; estava quieto. Músicas latinas atraiam os convivas como moscas para uma carne descoberta. E a hora dos latinos veio, com uma sequência inesperada de Pitbull, Belinda, e alguns flashbacks de Ricky Martin que fizeram Mary ter náuseas. Enquanto o bar estava numa agradável calmaria, Mary bebeu alguns drinks de vodka com suco de laranja, tentando atenuar a dor de cabeça que quase a fazer perder a consciência. Poderia ser coisa apenas da sua cabeça, mas a proximidade com Rhage fez com que seus olhos ardessem ainda mais, e que até mesmo a luz multicolorida dos refletores a fizessem querer fechar os olhos e dormir.
Smooth limpava o balcão obsessivamente, levando as caixas de papelão lotadas com garrafas de cerveja barata, vodka e champagne de marca, trocando os refis de frutas em conserva, botando algumas caixas de suco de fruta no pequeno freezer que mantinham debaixo do balcão; Mary poderia dizer que estava surpresa, mas a vista turva e o incessante latejar nas suas têmporas retiraram toda a sua capacidade intelectual.
A bile subiu-lhe pela garganta, enquanto segurava o estomago; uma cólica terrível começou desde o seu ventre até o peito, cortando, parecendo que iria despedaçá-la. Ela sentiu braços rodeando-lhe, uma mão erguendo seu queixo e batendo levemente em sua bochecha. Mary não se deu conta de quando havia caído, mas conseguiu prestar atenção na música que tocava. Ironicamente, decidiram botar Emergency Room, e Rihanna reclamava nos estéreos de um relacionamento completamente abusivo e adultero com Akon. Ela conseguiu esboçar um sorriso enquanto sentiu o chão sumir e levitar. Os braços pareciam mais fortes do que os que Smooth supostamente possuiria. Talvez seja um dos seguranças, pensou ela, zonza.
Um cheiro doce e sedutor subiu-lhe pelo nariz, fazendo-a procurar a fonte de tal aroma. O ar frio da noite cobriu-lhe dos pés a cabeça, e ela imaginou que iriam levá-la ao hospital. Isso não é normal, essa dor quente que sobe e não desce. Que se aloja apenas nos órgãos vitais. E a ardência nos olhos, sem citar a coceira nos dentes e o latejar nas têmporas estavam roubando-lhe o juízo lentamente.
Acomodando-a em um lugar macio e quente, aonde Mary espreguiçou-se e logo se enrolou em um apertado caracol dentro de si. Um beijo fora sapecado em sua boca, deixando-a com um gosto de amoras, mel e luxúria, e ainda assim sentia-se mal. Todos esses sentimentos tumultuando-se dentro dela, criando uma bola de incerteza que a enlouquecia; essas dores, essa pessoa desconhecida e Mary formavam uma mistura inflamável.
E o primeiro grito da noite explodiu dos lábios de Mary quando o carro fora ligado.
Um grito seco e que cortou a sua garganta seca.
O motorista acariciou o seu joelho enquanto o carro corria em uma velocidade alta, em um zigue-e-zague, depois zapeando uma avenida qualquer e logo fazendo uma curva tão fechada que Mary debateu-se no banco de couro como uma bola de beisebol acertada por um bastão de madeira.
A dor não atenuava, latejando; Mary escutava a melodia de seu corpo entoando um cântico de morte que não poderia ser negado por ninguém. Neste momento, Mary soube que em breve encontraria seus amados, e que não estaria mais sozinha no mundo.
Mas, o carro deu um solavanco, lançando-a displicentemente ao léu. Ela, cega e surda aos ruídos mundanos, ficou estirada no piso de borracha que o carro de luxo lhe oferecia como mortalha, esperando o óbito e a expiração de sua vida terráquea.
Os mesmo braços macios e cheirosos que antes a haviam abraçado exalavam um temor e resignação nunca sentida antes por Mary. E logo após esta constatação, ela perguntou-se como sentia tal coisa. Como era capaz de determinar os sentimentos de uma pessoa apenas por sua pele encostar-se à da outra. E tal pele era tão macia e quente que Mary viu-se tentada de encostar-se a ela a cabeça e nunca mais erguer-se.
Sua consciência, que ela havia conseguido manter por todo o percurso, perdeu-se em um caminho enevoado e arrefecido, que abraçava suas pernas e braços, comprimindo-a e exigindo que ela continuasse a andar. Um brilho, efusivo e causticante emanava de tal luz, cegando-a e queimando-a, mas ainda assim tão carismático e afetuoso que ela viu-se capaz de perdoar.
E no fim, lá na fonte da névoa espessa e pesada, o homem sem rosto de suas lembranças, de mãos dadas com uma mulher de olhos cinzentos, aguardava-a. Sua mão esticou-se, tentando alcançar o tão desejado premio pelo sofrimento gratuito passado desde novembro, mas o gosto metálico e doce de sua boca impediu-na de continuar.
Quando abaixou os olhos para visualizar suas mãos, os cabelos multicoloridos ofereceram uma macabra moldura para a tintura rubra em contraste com os dedos alvos. E as pessoas amadas, ainda que desconhecidas, foram esvanecendo-se de suas vistas, até que apenas restasse um fundo cinza que escurecia.
O gosto em sua língua encheu-se de um sabor doce e pecador, e sua viagem alucinógena deu lugar a um ambiente inóspito e soturno, com seus dentes cravados em um pescoço bronzeado e sua língua sugando mais do néctar dos deuses emanado.
E Mary, voltando aos poucos a si, deu-se conta de que sugar pescoços não era comum. Canibalismo? Vampirismo? No que ela havia se tornado?
Tentando afastar-se, empurrou suavemente o ombro do homem, despregando os lábios da pele doce e sudorosa. Mas, ao invés de ver-se livre, dois braços poderosos cercaram sua cintura, impossibilitando-a de sair. Uma jaula feita de ossos e músculos.
— Fique quieta e beba. Saiba que estou bem e que não planejo solta-la — disse a voz, que soava conhecida nos ouvidos desacostumados de Mary.
Ela ainda balançou-se, recebendo uma palmada na nádega esquerda. Aquele toque, que pareceu-lhe intimo demais, a incomodou. Afastando-se um pouco do peito do homem, sua boca voltou à pústula, sugando a secreção sanguinária e adorando o ato. O homem parecia estar também em um estado alfa de prazer, pois poderia sentir uma proeminência pelo frágil tecido de sua calça.
Um fraco rosnar parecia estar sendo emitido pelo homem. As mãos dele subiam e desciam por suas costas, em uma caricia perturbadoramente afetuosa. Algumas palavras incompreensíveis eram soltas aleatoriamente por seus lábios e Mary soube que se não fosse pelo fato de estar sugando seu pescoço, ele já teria beijado-a.
— Como esperei por esse momento, leelan — sussurrou ele, carinhosamente — Dar-lhe a vida é tão...
A frase soou entrecortada, como se o prazer de tal ato tirasse-lhe o poder de falar.
Mas logo o ar acético do processo sumira, pelas contrações do ventre e estomago de Mary; a cólica intensificada por mil, que fez-lhe retirar os dentes da pele do homem e soltar um grito estrangulado. O homem continuou abraçado ao seu corpo, deitando-a em um lugar almofadado e confortável.
As horas seguintes foram um misto de dor agonizante, viradas para tentar aplacá-la e uma mão que a mantinha interligada com o mundo exterior. Nada de gritos ou choro. Mary permanecia calada.
E quando a lucidez começou a tomá-la, novas sensações começaram a surgir pela superfície de sua pele, até o mais fundo de seu âmago; como as contrações involuntárias da mão carnuda e leve do homem, algumas sirenes e ruídos caseiros dos vizinhos, o latir de um cachorro a dois quarteirões e o cheiro de detergente, frutas apodrecidas, queijo nacho, leite vencido e coco de bebê que vinham de algum lugar na esquerda. Talvez algum tonel de lixo ainda não esvaziado.
Sua testa enrugou-se com a constatação de tais aromas — ainda que desagradáveis — e ruídos. Nunca em sua vida havia sido boa em direção, principalmente após ficar vinte e cinco por cento mais surda do ouvido esquerdo soltando bombinhas no 4 de julho de seus 11 anos. Mas, ao que parece, essa sua debilidade havia sido milagrosamente curada.
Alguma coisa lhe dizia que o ato canibalesco cometido há algumas horas interferira nessa cura.
Seus olhos permaneceram fechados, com ouvidos atentos a todo e qualquer movimento feito pelo homem ao seu lado. Ela soube que ele estava com medo apenas por tocá-lo. A outra mão do homem, a livre, ergueu-se, acariciando a ruga mínima que se formara em sua testa. A temperatura, que antes lhe parecia abrasivamente quente, encontrava-se igual a sua. Era reconfortante e terrivelmente familiar, o toque dos dedos sedosos e levemente enrugados.
A cama mudou, e ela viu-se sendo abandonada pela mão que deu sentido a sua vida por àquelas horas terríveis. O calor que o homem emitia também se foi dando Mary a impressão de ser o único ser vivo no planeta.
Mary viu-se obrigada a abrir os olhos, ainda que lentamente para acostumar-se, e deparou-se com quatro dosséis imponentes, e um mosqueteiro de um frágil tecido semitransparente, cobrindo-a como os que cobriam princesas medievais. A fraca sombra do homem havia sumido de suas vistas, deixando-a tentada a ir procurá-lo. Suaves ruídos denunciaram-no, fazendo-a decidir que ficar seria melhor. Ele iria voltar.
As colchas da cama estavam encharcadas de um suor salgado que impregnava sua pele, e ainda pela substancia vermelha e deliciosamente cheirosa que ela ingeriu. Os olhos não ardiam mais, e as têmporas encontravam-se em um agradecido estado de paz. As cólicas também passaram, e Mary teve a impressão de nunca ter se sentido melhor.
A sombra do homem voltou, bruxelando pela fraca iluminação dos aposentos, e uma ansiedade tomou o corpo de Mary. Quem seria este homem que salvou-lhe da perdição completa e do não compreensível? Que seria este nobre cavalheiro?
E ao ver quem era seu galante salvador, o coração de Mary perdera duas batidas.
— Rhage?
Notas finais
Antes de mais nada, gostaria de agradecer a todas vocês por seus comentários. Sinceramente? Foram lindos! Apenas pelo fato de estarem me incentivando a escrever já é muito. Eu havia estancado no capítulo dois, mas ao ver o quanto fui bem recebida, vi que a história tem futuro.
E também gostaria de agradecer, brevemente, às que leram o meu pequeno one-shot. Eu investi nele toda a minha imaginação, gente! Agradeço-lhes com todo o meu coração.
Responderei as comentários. Ju-ro!
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Bejitos en las mejitas, niñas. Blackxx
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