Notas iniciais
Blacks note: Hey babies!
Xx Gostaria de comunicar que os erros gráficos de português em capítulos anteriores devem-se ao fato de que meu Word 2007 estava DESATUALIZADO, com as normas da antiga reforma ortográfica portuguesa, se não me engano. Então, encontrando um idéia ou um pseudo alguma coisa, ou auto não sei o quê com hífen, não foi erro meu. Correção automática gramatical do próprio programa. Pessoas que fazem backup da história em seus macros (como eu, rs), não salvem Concorrência! Estou preparando um PDF com os capítulos. xX
Acho que esse é o capítulo que tem o intervalo de tempo mais curto entre as postagens, fala a verdade. Ando com uma maré boa, tratando-se de internet e seus pormenores, bla bla bla. Mas enfim, gostaria que dessem uma passadinha básica no meu perfil e dessem uma lida no horário de postagem das fics. Melhor dizendo: postei alguns esclarecimentos, coisinha básica. Não é ESSENCIAL, mas eu sou dramática e é isto. E outra: leiam as notas finais. Gosto quando há um tipo de dialogo entre nós (risos).
Boa leitura!
Músicas do capítulo (nesta ordem):
If I Was Your Vampire (Marilyn Manson)
All These Things I Hate (Bullet For My Valentine)

CAPÍTULO 3

“Senhor, tenho medo. Vi tanta cólera em seu olhar!” — Tristão & Isolda.

~~~∞~~~

O sentimento que intitulou como angústia, após a saída de Rhage, tomou-a por um longo tempo. Soube que a decisão de abordar tal tema fora ruim logo que não pode fazer mais nada que se debater e se contorcer, com o nó na garganta a sufocando e o peito latejando. Imaginou Rhage com tamanha dor, e sentiu-se culpada. Ela realmente não devia ter dito nada para ele.

Mas por que não? Ele havia invadido seu espaço como ninguém havia feito. Ele realmente não tinha nenhum direito de tomá-la como sua. Ora, eles se conheciam apenas a, o que, dois dias. Ele era um desconhecido que a socorreu porque seu finado pai havia o incumbido como seu pseudossalvador, mas na realidade, tornou-se o seu pseudocarcereiro. Ela imaginou o porquê de tamanha insegurança. Não era apenas a possibilidade da fuga, mas da perda de um objeto, e talvez o trabalho em reavê-lo.

E não soube o porquê de tamanha possessividade aquecer cada centímetro de seu corpo.

Irrequieta, caminhou pelo carpete, dedilhando o papel de parede bege com pequenas flores azuis, passando os dedos pela mobília de mogno, abrindo gavetas e compartimentos, revelando um vazio exasperante. Realmente, existiam tantos quartos assim?

Em meio a sua exploração, se assustou com o ‘toc toc’ na porta.

— Sim?

A porta se abriu sem nenhum protesto, revelando um senhor calvo e de pele enrugada.

— Com licença, senhora — disse ele. — Deixe que me apresente. Sou Fritz, seu fiel servidor, também conhecido no mundo moderno como mordomo.

Ela assustou-se um pouco. Aquela casa enorme deveria realmente ter um Fritz da vida. Ele parecia tão devoto ao seu trabalho como Rhage à sua rainha.

Apenas o pensamento de Rhage sendo fiel a alguém senão ela, apertou o seu peito como um punho apertando carne.

— Sou Marilyn Lucevaille, prazer — ela estendeu os longos e pálidos dedos para o pequeno senhor, que pareceu maravilhado com a ideia. — Mas pode me chamar apenas de Mary, senhor.

Ele apertou-os suavemente, com o vigor de um homem muito mais novo, e sorriu com dentes perolados.

— Ô ama, estou tão feliz que tenha chegado. O amo estava ansioso por sua vinda — ele disse, olhando os dedos como uma criança surpresa. — Que bom que finalmente chegou.

— O amo? Você quer dizer meu pai?

Ele olhou para ela com o cenho franzido.

— Não, ama. Não o senhor Phury. Mas sim o senhor Rhage — explicou ele. — Sua chegada há muito fora profetizada, mas o senhor Phury já não estava aqui para desfrutar da antecipação. O senhor Rhage caminhava noite e dia e... Eu não deveria estar falando disto — ele ruborizou. — Estou sendo inconveniente. O amo mandou-me aqui para pedir-lhe que tomasse um banho e que logo tragar-lhe-á uma roupa.

Mary sentiu-se tonta.

— Por favor, senhor Fritz, me explique duas coisas. Primeiro: qual o amo? E depois: que roupa? E uma terceira coisa, porque estou com muitas duvidas: ele me pediu?

Fritz sorriu sem graça diante das perguntas, mas inclinou a cabeça e apontou-lhe uma porta.

— Bom, senhora, aquela porta dá direto para o banheiro adjunto da suíte. O amo pediu para anunciar-lhe que este é o seu quarto. O amo é o senhor Rhage, como já havia esclarecido-lhe antes. A roupa apropriada para o jantar, senhora, e isto é tudo o que posso lhe adiantar. E sinceramente falando, se a senhora me permite, o seu tom era exigente, quase como um comando, mas quem sou eu para interferir nas ordens de meu amo, não é mesmo? — ele soltou um sorrisinho franco.

Ela soube que aquele realmente era Rhage, comandando e exigindo, de uma maneira quase despótica, e sentiu-se feliz por saber que não era a única que se abstém diante das ordens do homem tirano que coube a ela chamar de tuhtor.

— Obrigada, Fritz. Agradeceria se pedisse à Rhage que trouxesse as minhas coisas que estão em seus aposentos.

— Oh, senhora, mas ele já providenciou. As coisas estarão em seu guarda-roupa antes mesmo que saia do banheiro.

Fora reconfortante saber que não necessitaria encarar Rhage tão cedo naquele dia, e ao mesmo tempo, decepcionante, que ele já antecipara suas decisões e desistisse tão fácil dela. Ela agradeceu mais uma vez, e acompanhou com o olhar o pequeno senhor, enquanto ele partia por um corredor muito bem iluminado.

Mary fechou a porta com suavidade, partindo para o banheiro. Lá, trancou-se e viu-se em uma réplica do banheiro de Rhage; com exceção das toalhas, e de seus pertences, o banheiro era idêntico. No lugar de seu xampu e condicionador, havia um xampu de leite com um condicionador da mesma linha, acompanhado de sabonete também de leite e pasta dental comum. Ela conformou-se de que não haveria mais mimos, porque francamente, havia acabado de dispensar o homem que a mimava.

Retirando a camisola de flanela pela cabeça, ela ligou o chuveiro e deixou a água esquentar. Olhando-se no espelho com o dobro de seu tamanho e largura, ela notou as mudanças: o cabelo estava mais comprido e mais liso do que antes, as íris etéreas mudaram para um tom diferente de dourado — como ouro puro — de pupila cinza, a pele parecia porcelana, os caninos despontando em seus lábios, o rosto cheio, as bochechas altas e, o que mais a agradou, a falta de pelos.

Com exceção das contradições dos seus sentimentos, e da fome sanguinária que sentia, a mudança para o time dos vampiros, realmente havia lhe feito bem. Não era que toda a sua infância havia sonhado em ser vampira, mas já que se tornara, o quanto ruim era aproveitar? Afinal, era sua espécie natural.

Usando do que tinha em mãos, tomou um banho revigorante, demorando nas sensações e texturas de seu novo corpo. Ela deleitou-se em ser o que era, uma predadora, no topo da cadeia alimentar, e em nenhum momento pensou em desistir de ser o que nascera para ser. Parecia que seu estado de luto havia sido breve, e já estava na fase de aceitação.

Suas costelas não apareciam mais na pele, mas sua cintura estava muito mais delgada, magra e curvilínea como nunca havia sido como humana. Sim, seu corpo já era belo, mas agora ela sentia-se a própria Afrodite encarnada. Claro, seu sonho sempre fora ser Ártemis, mas cavalo dado nunca se olha os dentes.

Pegando a toalha felpuda, ela secou cada canto de seu corpo, e de seu cabelo, feliz pelo comprimento e pelo peso. Sempre fora seu sonho ter um cabelo comprido, mas agora, oh agora, ele estava divino; batendo na altura dos quadris, ela parecia uma deusa após um mergulho no lago de ambrósia* do rejuvenescimento.

Seus lábios, gordos e vermelhos como fruta, estavam tentadores até mesmo para ela. Mary ficaria presa naquele banheiro, mergulhada em narcisismo e autoapreciação se não houvessem batido na porta do quarto.

Uma batida que retumbou todo o aposento.

Apressada, enrolou o cabelo em uma toalha e cobriu-se com um roupão também branco e impessoal. Destrancando a porta do banheiro com dedos intumescidos, correu para a porta, abrindo-a e deparando-se com a glória da beleza bem na sua frente. E de repente, ela não era Afrodite, senão uma Górgona (não Medusa, por favor), em frente a Eros, o deus da beleza e do... amor.

Os coturnos perfeitamente alinhados, a calça de couro colada em cada pedaço de músculo, uma blusa de flanela solta na cintura, mas colada no peito musculoso e duro — o qual ela havia negligenciado pelas duas vezes que tivera o privilégio de dormir sobre ele —, e uma mandíbula tensa que dava toda a graça em seu visual macho man. Mas, o que desfez toda a áurea de adoração do momento fora seus olhos azuis duros e gélidos como um lago ártico congelado.

Em suas mãos, uma nécessaire e uma bolsa de proporções continentais se comparadas com as que Mary possuía.

— Aqui estão os seus pertences — disse ele, indiferente. — Tanto os seus, como os que foram comprados agora. Acho que algumas das roupas ficarão folgadas diante do seu novo... — seus olhos a avaliaram de cima a baixo — manequim. Qualquer coisa, chame Fritz pelo telefone — ele apontou um pequeno aparelho na cômoda ao lado do sofá de couro branco. — Ao lado há uma lista de números de emergência. Escolha algo e se vista. Estarei aqui em quinze minutos. Contado, agora.

Ele não esperou por sua resposta, ou uma expressão qualquer; ele fora embora sem uma segunda olhada.

Mary pôs suas coisas para dentro do quarto, fechando a porta e passando a chave — apenas por garantia. Abrindo a bolsa branca de rodinhas em cima da cama, deparou-se com uma infinidade de roupas, algumas conhecidas e outras não; mas não havia tempo para investigações profundas. Ela escolheu uma calça de lavagem escura e uma blusa de decote quadrado e manga apertada nos punhos de um tom claro de pêssego, escavando para encontrar o sutiã sustentador preto e uma calcinha boxer da mesma cor.

Já vestida, passou um pouco de pó compacto (do seu tom e encontrado misteriosamente na nécessaire) por puro costume, delineando os olhos com um lápis preto, completando com seu já usual gloss transparente. Seu cabelo ainda estava úmido, por isso só o penteou e passou um pouco do creme de cereja, deixando-o para secar naturalmente.

Antecipado em cinco minutos, ouviu a maçaneta girar, mas a ignorou. Ainda estava procurando o que calçar quando Rhage começou a bater na porta.

— Abre logo essa droga de porta, Mary! Abra! — rugiu ele.

Ela abriu o guarda-roupa e deparou-se com uma grande diversidade de chinelos de dedo, tênis e salto-alto — todas as cores e formas estavam ali, e todos de seu agrado; porém, a prateleira que ganhou o seu afeto especial fora a de Mary Jane’s, todas distintas e exclusivas. Ela até mesmo encontrou um coturno feminino, semelhante a sua bota perdida. Mas optou por um chinelinho macio de dedo, com a borracha branca decorada com caveirinhas com olhos em forma de coração. Suas unhas estavam compridas e pálidas, e por um momento, ela quis ter ido a uma pedicure.

— Você não vai abrir a porta? Vou ter de arrombar mesmo? — gritou ele — Eu não gostaria que você perdesse a sua privacidade, mas droga, se você não abrir em cinco, quatro, três, dois...

Antes que ele dissesse dois, ela havia destrancado a porta e abria ao grito de um. Ele entrou como um touro cego e correu, até que estancou quando já estava próximo de bater na parede da cama.

Fora tão engraçado, mas tão engraçado, que Mary temeu fazer xixi em suas caras calças. O mais engraçado fora a cara exasperada de Rhage após notar seu divertimento; mas tal expressão derreteu-se na mais pura ternura, e seus olhos de lago ártico derreteram como a lava de um vulcão havaiano. Notando que ela havia parado de sorrir e prestara atenção em seu rosto sentimentalóide, ele cobriu o doce que era seu sorriso torto com a carranca de uma boca enrugada.

— Está pronta ou não?

— O que parece a você?

— Então vamos.

Antes que saíssem do quarto, ele segurou seu braço, aproximando-a de seu rosto impassível. Ela pensou em beijos e carícias, mas seus pensamentos mudaram de curso ao visualizar a expressão férrea dele.

— Nunca mais fuja de mim. Está entendendo?

— Conselho de tuhtor? — zombou ela.

— Conselho de um homem sem limites. Agora vamos.

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A mesa parecia posta para um banquete com dez pessoas ou mais. Entretanto, pratos e talheres correspondiam apenas a duas. A cadeira de respaldo alto de madeira com assento estofado coberto com cetim negro da cabeceira correspondia a Rhage; ao seu lado esquerdo estava a de Mary.

Ele não fora nenhum pouco cavalheiro. Não puxara a cadeira, não ofereceu o comodismo de uma conversa trivial, nem mesmo lhe disse ‘você parece bem melhor agora’, como fez na noite de ontem. Ele só... Comeu. E comeu muito. Rhage parecia um monstro com um pratarraz da altura do Monte Everest. Entretanto, logo que Mary selecionou tudo o que queria comer, entendeu aquele afã por comida desenvolvido por ele, e sua resistência em falar. O tempero estava excelente, uma mistura exótica de casa com restaurante caro.

Ela o observou de esguelha, vendo o quanto ele era civilizado, comendo com os talheres pesados de prata e respeitando regras de etiqueta. Ele parecia sentir as texturas e os sabores de maneira semelhante a ela, absorvendo tudo o que podia daquilo, as sensações e os pequenos prazeres oferecidos na arte de se alimentar. Mesmo que seu prato fosse o dobro daquilo que ela serviu para si, ele parecia igualmente satisfeito com a quantidade e não se sentia constrangido.

Hábitos alimentares. Sim. Este devia ser o primeiro assunto a ser discutido com seu tuhtor.

— Rhage — chamou ela, pondo os talheres virados dentro do prato quase vazio.

Ele virou-se enquanto ainda mastigava, erguendo as sobrancelhas.

— Quando começará as... — ela buscou uma palavra que coubesse em situação tão inusitada. — Devo chamar de ‘aula’? Bom, porque não sei bem aplicar a sua definição de tuhtor na minha opinião formada.

Rhage limpou os lábios com o guardanapo alvíssimo de bordas douradas, largando-o ao lado do prato.

— Hoje mesmo. Por quê? Há alguma dúvida?

Ela apoiou os cotovelos na mesa, oferecendo um sorrisinho debochado.

— Acabei de sofrer uma transformação, soube que a espécie que eu achava que pertencia não era realmente a minha. Você ainda tem dúvidas de que eu tenha dúvidas? Faça-me o favor, Rhage. Você é obtuso ou algo assim?

Ele ignorou visivelmente o ataque verbal de Mary, afastando um pouco a cadeira e cruzando o tornozelo por cima da coxa musculosa.

— Antes de qualquer coisa, Mary, você me deve respeito. Tenho certeza que se eu fosse seu professor de espanhol ou qualquer babaquice humana, você me respeitaria. Qual o seu real problema?

Ele não esperou que Mary respondesse e continuou com o contra-ataque.

— Que inferno, você já tem o quarto que desejava, você já tem a sua privacidade, a sua individualidade. Você não pode nem ao menos agradecer-me?

Os punhos de Mary fecharam-se sob o seu queixo.

— Agradecer por você me deixar só? Agradecer por você dar aquilo o que é sua obrigação? — uma carranca formou-se em seus lábios — Rhage, você pode ser qualquer coisa, exceto altruísta. Era seu dever como tuhtor. E outra: não sou sua esposa ou algo do gênero, então não é obrigação minha dividir um quarto ou uma vida com você.

Dentro de Mary, um sentimento frio e perigoso despertou em seu âmago; era quase como uma dor gélida, alojando-se na boca do estomago e latejando nas têmporas. Ela soube que não era nada que já tivesse sentido antes, como a transformação ou a angústia desperta por Rhage. Ademais, ela já sabia que poderia sentir tudo o que Rhage sentia. E tal sentimento era perigoso demais para ser divido. Essa fúria intensa que apenas um macho vampiro poderia sentir.

— Rhage. Pare. Com. Isso. Agora. — grunhiu ela, cada palavra uma sentença.

Os olhos dele, cheios daquele sentimento que preenchia seu ser, focaram-se nela. A boca de Mary secou ao avistá-los; um sentimento ainda mais perigoso, que rivalizava de igual para igual com a fúria primitiva estava alojado ali: uma possessão doentia.

Mary não soube o que sentir. A lisonja estava ali, assim como a apreensão.

Mas em um piscar de olhos, aquele techinocolor de dores e ilusões havia sido fantasiado com a máscara de antes. Ele respirou fundo, escondendo os olhos com pupilas brancas dentro de suas pálpebras enquanto o leque de sensações sumia feito fumaça dentro de Mary. Ela mordiscou os lábios enquanto ele procurou debilmente a taça de vinho e degustava um pouco.

Sua voz saiu áspera e rouca.

— Nós, denominados como vampiros, somos uma espécie derivada do homo sapiens. Nossa criadora, a Virgem Escriba, usou de seus dons e recursos únicos para dar-nos a vida e após o nosso... Poderia chamar de nascimento, mas foi como o Deus dos humanos criou Adão e Eva... Então, após a nossa real criação, ela não pode dar origem a nenhum outro ser. Dependemos de sangue, sangue do sexo oposto, e sangue vampiro. Não é aconselhável alimentar-se de humanos, pois além do risco de exauri-los até a morte, seu sangue é fraco demais. Geralmente a troca de sangue acontece entre emparelhados, termo que usamos para classificar os casais casados, chamados de shellans e hellrens — ele suspirou, bebeu um trago do vinho e abriu os olhos. — A semântica da nossa espécie pode parecer complicada, mas torna-se cada vez mais simples.

“Há séculos que os melhores machos — em melhores classifico os mais ágeis, mais fortes, mais inteligentes — cruzam com as Escolhidas, fêmeas destinadas à Virgem Escriba. De tal cruzamento surgiu uma subespécie. A função desta subespécie é proteger a raça vampiresca, e continuar com o cruzamento. Compreende? Os Irmãos atuais são filhos tanto de Escolhidas quanto de fêmeas da glymera, pelos genes que acabamos por desenvolver.”

Mary fez menção de falar, mas ele apenas a encarou, calando-a.

— Eu me lembro de você citar algo sobre ‘a casa ser muito grande para duas pessoas’, mas atualmente é este o estado da mansão. Somos os dois únicos moradores, com exceção dos doggens que trabalham aqui, como Fritz — ele explicou. — Explico sobre os doggens na próxima aula — falou ele, zombando. — Mas o que estou querendo explicar aqui é: a espécie vampiresca será eternamente agradecida pela estadia aqui nos EUA, mas a nossa casa é na Hungria. Imigramos para cá existe alguns séculos, mas fomos descobertos e caçados. Agora, com o Wrath no trono, ele impôs leis de segurança que a maioria não quer aceitar. A única saída será nos mudarmos para o Velho Mundo, que é nosso lugar, mas agora como refúgio. Os outros guerreiros da Irmandade estão arrumando as coisas por lá, medidas de segurança. Mas para nossa segurança, desta vez.

O coração retumbou no peito como uma máquina de lavar ao ouvir que eles estavam se mudando.

— Este ‘nós’, me inclui? — perguntou ela, mordendo o lábio inferior.

— Não.

A resposta fora seca, e o coração de Mary bateu ainda mais forte.

— Por que não? — perguntou ela, indignada.

— Você não quer tanto ir embora? Será a oportunidade perfeita. A Irmandade não é babá de ninguém e seu pai me incumbiu de cuidar de você apenas durante a transformação.

— Mas você é meu tuhtor.

— Acho que você já é grandinha o suficiente, não acha? Já tem seu próprio quarto! — ele ergueu as mãos, frustrado.

Ela bateu com os punhos na mesa, chateada.

— Sempre voltaremos a esse tópico? Pare de remoer tanto, droga! Sou dona de minha própria vida. E posso cuidar de meu nariz.

Ela levantou-se da mesa, batendo os pés como uma criança a quem foi negada um doce, caminhando ao léu pelos corredores. Sua raiva não era nem um décimo se comparada a de Rhage, mas ela ainda saiu bufando como uma Maria Fumaça.

— Volte aqui, Mary! Ainda não terminei com você!

Novamente naquela noite ela arrependeu-se do que havia feito logo pela manhã. Beber do sangue dele havia sido uma atitude impensada que só vinha causando transtornos para seu pobre corpo. Tantas transformações em um só dia estavam desgastando-a rápido demais. Louca. Logo ela ficaria louca.

— Eu disse que não terminei com você.

Mary não havia ouvido os passos de Rhage e mais uma vez surpreendeu-se com a sua facilidade de esgueirar-se como um rato, mediante seu peso e altura. Ele agarrou seu braço bruscamente, chocando-a contra o peito largo e firme. Seus olhos prenderam-se, azul contra dourado, e ela suspirou aquele aroma com o qual tinha acordado. Aquele aroma que podia alimentá-la pelo resto de sua vida. Seus lábios tornaram-se secos, sedentos por um trago do sangue de Rhage, a língua espreitando por sua boca, escapando. Ela estava tão próxima de seu pescoço que não resistiu, e deu a si mesma uma lambida na pele dourada e perfeita daquele homem.

— Mary.

O sussurro de seu nome, vindo daqueles lindos e preciosos lábios gordos fizeram-na erguer os braços e eclipsar toda a raiva sentida em um sedutor ronronar. Mary esfregou o nariz no pescoço de Rhage, uma ou duas vezes, antes de fincar-lhe os dentes. Ele estremeceu, mais uma vez como uma barra de metal contra a outra, enquanto o sangue escorria para dentro da boca dela. Mary parecia faminta enquanto segurava-o pelos ombros, fazendo-o abaixar-se, tornando o ato de sugar mais confortável para ela. Sua atitude era egoísta, mas ela sentia-se no direito de usufruir de tudo o que ele poderia dar, pois ele era dela. Apenas o pensamento de tal frase a assustou, a lucidez afastando a neblina de seu cérebro, tornando-a parcialmente sã para saber que aquele pensamento não era dela, senão dele.

As mãos de Rhage friccionavam os seus braços, aquecendo-a de fora para dentro. Um de seus braços pegou-a pelo joelho, o outro pelos ombros, e ele saiu carregando-a pelos intermináveis corredores iluminados com lâmpadas fluorescentes azuis. Seu nariz fazia carinho em seus cabelos, e Mary sentia-se contente por aquele ‘lanchinho’ no meio da noite. Seu sentido horário ainda não estava ajustado, mas ela sabia que ainda era noite.

Suas mãos, que estavam sobre a camisa, desceram lentamente e encontraram pele, sentindo todos os sentimentos de Rhage com uma intensidade crescente. O desespero ainda estava ali, mas coberto de felicidade e egoísmo, porque ele estava proporcionando-lhe a vida, o conforto, o teto e os cuidados. Porque ele estava cumprindo o seu dever, a sua palavra, mas ainda assim, as suas vontades. Porque ele poderia ser altruísta e egoísta. E porque Mary era dele.

Assim que fora tocada, ela afastou-se, separando os dentes da sujeira que havia feito em seu pescoço. A ferida parecia ainda pior do que a que havia feito da segunda vez, uma mistura de arranhões brutais com sangue e saliva. Ela olhou o outro lado do pescoço e notou que ambos estavam feridos. Ela havia feito suas próprias marcas, com os dentes proeminentes que havia ganhado. Rhage notou sua hesitação, mas em nenhum momento parou, continuando o percurso para o quarto de Mary como se todos os dias houvesse uma mulher lambuzada de sangue nos seus braços.

Ele abriu a porta e deixou-a no chão. O sentimento dilacerador da separação invadindo o peito de Mary, custando muito segurar as lágrimas. Oh, por que tinha que ter o mordido uma segunda vez? Não poderia manter seus dentes dentro da boca?

— Rhage, eu-

— Está tudo bem, Mary. É uma necessidade sua, que é missão minha aplacar — ele respondeu, taciturno. — Tenha uma boa noite.

E por uma segunda vez naquele dia, ele deixou-a sozinha e confusa dentro do quarto.

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Notas finais
* Lago de Ambrósia, como citado no livro A Viagem do Tigre, é uma espécie de banheira do rejuvenescimento dos deuses; entra-se lá apenas aquele com sangue divino. Mortais morrem congelados, ou queimam após tocar na água.
N/a: Bom, gostaria de dizer que fiquei bastante feliz com o rendimento do capítulo 2, não pelo número de comentários, mas sim por serem GRANDEEES. Gente, lágrimas vieram aos olhos *enxuga e assoa o nariz*. Sinto-me honrada com a oportunidade que vocês me dão a cada capítulo, SÉRIO. But, leitores fantasmas, apareçam! Vocês são bem vindos no debate. Quanto ao capítulo, foi um dos que eu mais gostei de escrever. Este e o capítulo dois vieram no mesmo dia, muito rápido mesmo. Quanto aos personagens... Não podia faltar o Fritz, ok? Acho ele super hiper mega power fofo. Sem falar que ele tem um lugarzinho especial na trama. Vocês devem estar achando estranho a interação Mary-Rhage, Mary-Fritz e Mary-Alter-ego, mas para o desenvolvimento da história tem que acontecer isso. Quanto as citações de mitologia, cara, não vão faltar. Sou alucinada por mitologia. Muito minha praia. Então... Mais uma vez o Rhage é tratado como um cachorro pela Mary, mas existiu um finalzinho bom ali. O que vocês acham da atitude da Mary? Apenas autodefesa ou é algo mais? Vocês fariam igual? Respondam-me! E claro, metam o bedelho. Adoro ler os comentários de vocês. Novamente digo um olá especial à minhas leitoras de sempre: Mayara Lima, Amando, Tumn Cipriano (sempre muuuito dignas do ronrono da besta). Digo boas vindas, também, à biola_01, VanBlack e Carolina Romeny, que assinaram seu primeiro comentário em Concorrência. Bem vindas, concorrentes! A todos os fantasminhas, um beijo da Blackxx
p.s.: Pretendo escrever uma história (mais uma) Mary/Rhage com a ordem cronológica de Ilíada, livro que inspirou o filme Tróia. Os meus gatinhos como Briseis/Aquiles, imagine! Bom, uma idéia. O que acham? Vocês leriam?
Pergunta do capítulo: O que vocês pensam do Rhage? Apenas um perseguidor ou um homem de sentimentos?