Concorrência
4 Capítulo 2
Notas iniciais
Decidi postar o capítulo hoje, porque estou ansiosa para ver a reação de vocês. Uma pena que não alcançamos 20 comentários e vocês perderam a oportunidade de degustar os próximos eventos de Concorrência. But, acompanhem as notas finais (que temo estar ficando maior a cada capítulo) e exprimam as suas opiniões. ~please, respondam a pergunta do capítulo~
Boa leitura!
Músicas do capítulo (nesta ordem):
Sweet Dreams Marilyn Manson
The Blessed Hellride (Acoustic) Black Label Society
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CAPÍTULO 2
“Quando Tristão dela se aproximava e tentava consolá-la com doces palavras, ela se irritava, e o ódio lhe invadia o coração.” — Tristão & Isolda.
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Ainda bêbada de sono, Mary ergueu-se do colchão macio. Os braços bronzeados cercavam sua cintura em uma atitude possessiva, um aviso silencioso do que aconteceria se ela ousasse sair. Desorientada, olhou para os dois lados e se não houvesse olhado teria o mesmo efeito; a escuridão transformava a realidade em neblina e fumaça, uma coisa tão substancial e estável quanto às nuvens no céu.
Seu pescoço estava duro pelo aperto de Rhage; ela havia tentado manter-se o mais longe possível do peito dele, mas quanto mais ela se afastasse, mais parecia que ele fazia questão de puxar e pressionar. Após comunicar-se com — o que ela estava chamando de — a voz, seus únicos movimentos foram submissos o suficiente para assistir ele deitando-se do seu lado e não reagir. Na realidade, ela não soubera discernir o que sentiu quando Rhage passou uma perna musculosa por cima de sua cintura, imobilizando-a sob seu corpanzil pesado e feito exclusivamente de músculos. Ela não soube se fora realmente medo, mas algo foi ativado em sua cabeça. Um sentimento de quase... Cumplicidade.
Sim, isso que é estranho, pensou ela ressentida consigo mesma.
Mary pegou ambos os pulsos de Rhage, esforçando-se para tirá-los de sua cintura. Ela nunca gostara de cintos, principalmente se fossem feitos de carne e pesassem como tijolos. Inicialmente havia uma resistência natural, mas logo eles cederam. Ela viu-se livre do aperto por alguns instantes.
Instantes esses que foram usados para sumir do alcance sufocante de Rhage.
Na primeira oportunidade, Mary procurou as velas que ficavam no chão, buscando algumas; se seu plano desse certo, naquela mesma noite estaria... Longe dali. Achando três, caminhou precariamente pelo quarto, encostada na parede, dedilhando o rodapé.
Droga, pensou ela, onde estão os sentidos vampirescos?
Ela sentiu uma leve inclinação e perguntou-se onde estava. Será o corredor, o closet ou o banheiro? Mary espalmou uma das mãos no chão e sentiu-o gelado; sem dúvida, era o banheiro. Os ladrilhos deveriam ter resfriado com a temperatura noturna. Continuando, logo seus dedos tocaram em algo aveludado, e ela lembrou-se vagamente do tapete que cobria todos os cantos do closet. Engatinhando mais um pouco, achou a saída.
Pondo-se de pé continuou seu percurso colada a parede, tateando o carpete e sentindo-se aliviada quando sua visão começou a clarear. Viu o contorno cinzento dos móveis da cozinha, e avistou o que seria a sala, animando-se com a perspectiva de que a porta estaria não muito longe.
Mas qual foi a sua surpresa ao descobrir de que não havia porta.
Seu coração afundou na direção do estomago, embolando-se todo, e Mary sentiu que logo vomitaria o que havia comido.
Porém, a sua vontade de livrar-se de toda aquela pressão psicológica era tamanha que se viu procurando passagens secretas, que seu subconsciente sussurrara a existência. Antes, ainda apalpando a parede, buscou fósforos na cozinha, achando apenas um isqueiro e com ele ligando as três velas em pontos estratégicos dos três cômodos. Espalmou as mãos na parede, procurando por pontos ocos ou contornados, lugares possíveis como estantes, e no meio de sua investigação achou um artigo. Ela não soube se era a cegueira momentânea, ou talvez o sono pregando-lhe peças, mas ela estava vendo algo inadmissível. Talvez até impossível. Rhage, o ogro, amante de arte?
Meneando vigorosamente a cabeça, ela largou a moldura e continuou a buscar, em um estado neurótico enlouquecido. Apenas um dia, e já estava pirada. Imaginava o que aconteceria com uma semana, ou se já poderia se aposentar com um mês. A moldura laqueada caiu com um baque surdo no carpete, escondendo a revelação perturbadora.
Mary bateu com a cabeça nas paredes algumas vezes — acidentalmente ou não —, encontrando coisas que ela gostaria de ter continuado ignorante a sua existência, e outras que vieram a calhar, como um agasalho de lã e suas botas. Seus pés pareciam não encaixar-se como antes, quase desconfortavelmente, mas eram melhor botas conhecidas do que nada em sua empreitada.
Ela encontrou, realmente, uma pequena passagem; um túnel claustrofóbico e sombrio, como tudo naquela casa, em uma imensidão profunda e sem fim. O medo, o terror de ficar presa e morrer sem o conhecimento do mundo a assolou. Mas era preferível morrer indigente a morrer nos braços de um sádico.
Na sua busca por uma lanterna ou aqueles tubinhos brilhosos, ela descuidadamente tocou no aparelho de som, liberando a música de Marilyn Manson. Que irônico! Sweet Dreams como tema de sua fuga. Mary desligou o mais rápido que pode, mas pelo visto, não rápido o suficiente. Mesmo no corredor, ela pode ouvir o bocejo de Rhage e a cama reclamando de seu peso.
E não houve momento mais inoportuno para uma fuga.
Com ou sem lanterna, Mary estava convicta de que não passaria nem mais um dia ali, e com isso, meteu-se na estreita passagem, cobrindo a entrada com a placa de cortiça de antes. Só havia um caminho agora, com uma quantidade de oxigênio limitada, e ela tentou não pensar em todos os filmes de suspense que assistira, ou nos de terror, em que o vilão descobria aonde a mocinha se escondia, e em uma saída estratégica qualquer, puxava seu pé e a revelava ao público. Ela decidiu, custasse sua vida ou não, que sairia dali à força; ela não ouviria da boca de um desconhecido tamanha injúria contra sua mãe, difamando-a de forma grosseira, a custa de um homem orgulhoso que nem conheceu.
E pirando o aspecto, a letra da música não saia dos seus pensamentos, aquele maldito Sweet dreams are made of these, ou os gritos agudos e enervantes de Manson. Há algo pior do que ficar pensando em tal letra quando se foge do descontrole total?
Completando o coreto, o túnel estava tão sujo e empoeirado, que seu nariz logo começou a coçar e ela perguntou-se se morreria de asfixia ou de uma crise de tosse por inalar tanta sujeira. Ela encontrou tufos de mofo e poeira cinzenta, com alguns ratos envenenados apodrecidos liberando o doce odor da morte, e outros ratos cor de barro ainda vivos, tão anoréxicos que Mary viu-se penalizada. Ela também conseguiu discernir aranhas peludas, de patas magricelas, produzindo suas teias prateadas.
Perdendo o ar, ela viu-se em uma queda não prevista, caindo sobre seu estomago mais tonta do que antes.
Tecnicamente, havia um buraco nos tubos de calefação, e ela não o vira por estar em seus pensamentos sombrios e auto-conspiratórios, com o mundo externo tão escuro e perigoso quanto o pequeno aposento de Rhage.
Porque, ao visualizar o vestíbulo, ela deu-se conta de que dormiu em um cubículo.
Era amplo, mas mesmo em sua falta de luz, podiam-se distinguir facilmente as cores vívidas distribuídas em moveis, colunas e quadros. O piso, ladrilhado em mosaicos coloridos, brilhava até mesmo na mal distribuída luz noturna. Porém, o que mais animou Mary naquele ambiente foi a porta larga de madeira firme.
Mesmo com o ombro latejando pela queda, o salto de uma das botas partido e a cabeça zunindo mais do que nunca, Mary ergueu-se de sua postura derrotada, e encaminhou-se a passos vagarosos para a liberdade.
Porém, Mary perdida na escuridão infinda do quarto-e-sala de Rhage, esqueceu-se de que seu relógio biológico estava desregulado e de que não era noite, mas sim, o mais que temido dia. E ao puxar a pesada maçaneta de bronze, que não protestou e que — por azar — estava aberta, a porta abriu-se, revelando o maior inimigo vampiresco.
Os temidos raios ultravioletas.
A pele de Mary chiou ao contato com a luz solar, e fora tão impactante que não lhe restou alternativa a não ser ficar estática e receber seu destino. Ela sentiu a tenra carne de seu pescoço e do colo não coberto, fritar, e o cheiro a repugnou. Seus olhos perderam o foco e logo não pode enxergar nem mesmo as arvores que eram distribuídas pelo pátio. As suas bochechas ardiam, e ela deu-se conta de que não estava lutando contra o processo que a mataria. Seus olhos estavam mais quentes do que se realmente estivessem pegando fogo, e seus lábios estavam com gosto de sangue. Ela impressionou-se de ainda poder identificar. Em nenhum momento gritou. Ela abraçou a calcificação como uma saída e agradeceu os deuses, ou o Deus.
Seu dilema teológico fora interrompido quando dois braços frios como gelo a abraçaram.
A escuridão engoliu-a, e tudo o que pode sentir fora o ninar trêmulo de Rhage.
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— O que realmente aconteceu, meu Irmão? Talvez você não seja apropriado para tutelá-la.
— O próprio pai dela me deu essa honra. Não é o senhor que vai tirá-la.
— Você está pessoalmente envolvido, meu Irmão. Isso não é bom.
O silêncio tomou conta do aposento.
— Olha, eu quero tomar conta dela. Da primeira vez essa oportunidade me foi tirada.
— Não devemos questionar as decisões da Virgem Escriba. Você sabe disso, Rhage.
— Sim, eu sei. Eu convivo com essas decisões.
— Sim, e o que fará agora?
Uma risada baixa ecoou.
— O que eu sempre faço?
Uma porta abriu-se e fechou-se.
— Aqui está, Rhage.
— Obrigado, Beth. E não só por isso. Você sabe.
— Não é preciso agradecer. Estou disposta a contribuir com tudo o que puder fazer.
— É melhor irmos, leelan. Deixemos Rhage com ela.
— Será o melhor, Wrath? Eu não tenho certeza.
— Você os conhece, Elizabeth. Agora vamos.
Neste momento, a porta voltou a abrir e fechar suavemente. Rhage suspirou alto, e logo seus dedos entraram em contato com a tez quente e avermelhada de Mary. Em seus dedos, sorvete de baunilha derretido, usado como uma mistura curativa para vampiros queimados. Ele esfregou delicadamente por toda a testa e bochecha, acrescentando mais do que o recomendado no nariz delicado e nos lábios; sua mente divagava com a memória daquela primeira vez em que o método fora usado, só que nele mesmo e por ela. Os lábios, aqueles que por séculos havia amado, perderam a película que os protegia, deformando-os. Parecia mais macarrão com molho de tomate.
Ele retirou a blusa, revelando um sutiã bege que o encheu de repugnante despeito, mas agradeceu à Virgem por ela te-lo vestido. Caso não o houvesse, as coisas sairiam do controle, e a relação deles já não ia bem. Então, com os dedos untados da massa gelada, ele cobriu toda a superfície com o creme branco, assistindo a pele curar-se diante de seus olhos.
Passou para os braços e os delicados dedos. Mas a área que mais o preocupava eram os olhos, e lá, ele não poderia manipular o sorvete de baunilha. Os olhos, tão belos, dourados e ainda assim prateados estavam envoltos pela pálpebra de cor lavanda. Então, com o trabalho terminado e a ansiedade consumindo-o, ele — pela segunda vez — segurou a mão de Mary e esperou.
Esperou que ela acordasse.
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A primeira coisa que Mary lembrou-se foi da luz.
Uma luz forte e hipnotizante que não se deixava abandonar tão facilmente.
Ela ainda pode sentir o calor abrasador causado por essa luz, aquele que queimava sua pele lentamente, mas que ainda assim era acolhedor. O abraço mortal, pelo menos para pessoas como ela, Mary compreendeu. E também entendeu que fora tolice sua tentar fugir da casa.
Pelo que Rhage disse, a sociedade vampiresca era cheia de protocolos, um pouco paradoxal demais para o gosto dela. Ele citou de que era o responsável por sua educação, e sentiu-se frustrada por não ter se lembrado disso antes. Talvez houvesse um anel ou qualquer coisa do tipo, que os salvassem da prisão diurna. Ok, talvez estivesse muito hollywoodiana, mas o que custava?
Então, voltando algumas horas, ela sentiu novamente o aperto da mão de Rhage na sua, só que agora, a temperatura de seu corpo parecia quente demais em comparação a dele. Mary sentiu novamente o temor, o medo angustiante, a esperança e uma... Saudade inexplicável. Ela sentiu também sentimentos confusos, uma mistura doce de ternura com uma espécie rara de decepção. Tudo o que Mary desejava era livrar-se da mão dele, de seus sentimentos contraditórios e desses conflitos que apertavam seu coração.
Ela desejou ir embora, e deixar apenas essa maçaroca palpitante.
— Mary? — a voz vacilante de Rhage fora ouvida, enquanto sua mão era apertada levemente — Mary, sou eu, Rhage.
Mary surpreendeu-se com a onda de repugnância que invadiu seu corpo; o arrepio começou dos pés até o pescoço, tornando-a consciente de cada pelo. Cada centímetro de seu rosto parecia revertido de pontiagudos espinhos, as veias capilares dilatadas, o arrepio a instigando a separar-se do toque sedoso da mão de Rhage. O que fez de imediato.
O contato só a faria mal, conformou-se Mary, mesmo sabendo que provavelmente sua atitude exagerada era a principal prova de o quanto estava histérica.
— Sei que é você, pseudo-carcereiro — respondeu Mary, atrevidamente.
Ela ouviu e sentiu os lençóis se moverem por baixo de seu corpo, e logo sentiu o dedilhar morno dos dígitos de Rhage. Ele passeou os dedos por sua bochecha, em uma caricia estranhamente reconfortante. Os sentimentos conflitantes se instalaram em seu coração egoísta e calouro nas artes de adoração, e sentindo-se culpada por sua decisão anterior, espalmou a palma nos dedos longos, pressionando-os contra seu rosto.
— Por que insiste em me tratar assim? — perguntou ele, suavemente — Afinal, que mal lhe fiz, Mary? Tudo o que tenho feito é para o seu bem.
Ela vacilou ao ouvir a constatação da verdade pela boca do homem que tanto tripudiou nas últimas... trinta e seis horas, talvez.
— Me tirou do meu mundo, Rhage. Esse foi seu erro crasso.
— Só pra lembrar-lhe, Mary, que seu mundo não é o mundo medíocre dos humanos. Seu mundo é soturno, cheio de sombras, e carnificina. Seu mundo não é puro, e disso você já sabe. Por isso foge tanto. E lembrando a noite de ontem, eu quero saber o que ocorreu em novembro.
Ela afastou-se milimetricamente, mas Rhage preocupou-se em cobrir o seu corpo, tornando qualquer distancia entre eles, inexistente.
— Não lhe devo satisfações, Rhage — disse ela. — Respeite o meu silêncio.
Ele sorriu com escárnio, os dentes cerrados.
— Da mesma forma que respeitou o meu, querida mártir? — respondeu ele, impaciente — Sinceramente, Mary, você é a rainha do drama.
Rhage puxou sua mão debaixo da de Mary com brusquidão, levantando da cama e afastando-se com o rosto tenso.
— Você ainda me deve explicações da palhaçada de hoje. Quase, foi por pouco. Imagine se eu não houvesse estado lá. Eu, sinceramente — ele engasgou — não quero pensar na possibilidade da sua morte — ele cuspiu a palavra com asco.
Foi então que Mary visualizou os braços, tensos e extremamente vermelhos; a tez e o nariz também vermelhos e descamados; até mesmo o pescoço estava visivelmente recuperando-se de queimaduras.
Ela então imaginou como estaria esteticamente.
— Rhage...
Ele andava pelo quarto frustrado, com ambas as mãos no cabelo, despenteando-o e atormentando Mary com os pensamentos dela mesma bagunçando-o. Rhage parecia desesperado, atormentado e até mesmo desolado, preso em pensamentos obscuros e ameaças que não existiam mais.
— Rhage...!
Ele estancou no meio do quarto, virando-se para Mary, com os dentes prendendo o gordo lábio inferior ao ponto de sangrar um pouco. Sua expressão facial era lívida, extremamente zangada, inconformada. Sua mandíbula estava tensa e seus olhos ganharam aquele brilho esbranquiçado que começava de a pupila e tomava conta de toda a íris.
— Por que você estava tentando fugir? — gritou ele, com os pulsos enrolados em um punho — Aqui não tem tudo o que necessita, droga?! Eu não te servi corretamente? Que inferno!
Rhage não parecia em seu melhor estado de ânimo, tendo uma luta interna, grunhindo e rosnando, com os olhos brilhantes e vivos como gelo.
— Então vieram eles, dizendo que sou incapacitado, que não tenho responsabilidade, que não posso cuidar de você, mas que... — Rhage soou apavorado — Tentando roubar você de mim de novo, nalla. De novo. Eu não posso agüentar isso mais uma vez, não posso!
E Mary viu o que ela nunca pôde imaginar: Rhage, jogando-se no chão com abandono, usando suas mãos como escudo, cobrindo-lhe o rosto visivelmente transtornado, e tentando impedi-la de ver o que já sabia que ocorria; as lágrimas e o rosto vermelho de uma pessoa desesperada. Pela primeira vez em anos Mary foi pega desprevenida, não sabendo como agir, achando suas mãos toscas e inúteis, já que não teriam serventia na hora de acolher e reconfortar, exatamente como ele fazia antes.
Pega de surpresa, ela viu-se andando na direção de Rhage; pés descalços, apenas com uma camisola de flanela, o cabelo revolto e embaraçado, mas ainda assim perfeita para o que estava prestes a fazer. Os pés tocaram o carpete grosso, sem ruído algum, porém, os ombros de Rhage pararam de sacudir tanto. Ela aproximou-se, agachando-se na altura dos largos ombros dele, tocando-o sobre a camisa. Uma cantiga antiga, e que nunca havia ouvido na vida, escapou de seus lábios.
A canção não era nem mesmo em sua língua, mas ela de certa forma, sabia. Era calma, e até mesmo pueril, mas Rhage aquietou-se. Suas respirações tornaram-se regulares, e de certa forma, Mary soube que seus olhos voltaram a ser tão azuis como sempre. A vermelhidão nos ombros dele estava quente, mas a pele não parecia tão maltratada como ela imaginava. Atrevendo-se, ela puxou as mãos que tapavam a obra mais perfeita da natureza. O seu rosto estava relaxado, em um tom de róseo mais escuro, revelando que sua tentativa de acalmá-lo deu certo.
Entretanto, o seu lábio continuava vertendo o sangue da ferida que ele abrira com seus dentes, e ela viu-se presa em um frenesi por um pouco dele. Tudo o que ela poderia ver era o vermelho escuro e espesso que era desperdiçado, escorrendo pelo queixo e pelo pescoço, em vez de descer por sua garganta, alimentando-a. Não calculou aonde seu próximo ato poderia levá-la, e abaixando o torso, aproximou-se do pescoço daquele homem enorme e dócil, lambendo-lhe o fio fino de cobre.
Ele gemeu um pouco, os braços relaxando, a postura ficando mais leve, os olhos sem ser fechados por impedir de ver, mas pelo prazer de estarem fechados. Ela viu-se repentinamente presa naquele casulo do qual fugiu naquela mesma manhã; os braços possessivos, a jaula que a prenderia por toda a vida se não fugisse, foram um consolo bem vindo no momento. Mary seguiu bebendo do que já havia sido derramado, chegando rapidamente na fonte. Ela segurou o rosto de Rhage entre suas mãos, separando o lábio inferior com os dentes, e metendo-o entre os próprios lábios, passando a língua na ferida, para estimulá-la. A pústula seguia sangrando, mas era um sangue tão mínimo, e egoísta, que o primitivismo invadiu o peito de Mary, e separando-se por mínimos nanosegundos, fincou os dentes no pescoço de Rhage, nas feridas ainda vermelhas de sua primeira alimentação.
O ronronar no peito de Rhage aumentou para uma intensidade considerável, como um motor de carro, e ele pegou Mary pelas pernas, prendendo-a em uma posição mais cômoda. Seu nariz achou um lugar nos cabelos de Mary, seus dedos fazendo um cafuné enquanto a mulher sugava. O toque dos dedos de Mary em suas omoplatas tornou-na consciente da felicidade animalesca que irradiava dele. Ela ainda não compreendia aquela invasão de sentimentos, o toque quente e ainda assim evasivo, a experiência extracorpórea. Mary ainda não estava acostumada com a intensidade que era ser uma vampira, mas teve certeza de que aquilo não era comum.
Trêmula, separou os dentes da carne tenra, lambendo as perfurações estreitas. O sangue parou de escorrer, o que a aliviou e a decepcionou em proporções iguais. Mary encostou a cabeça na curvatura de seu pescoço, ofegando e eufórica, tornando-se pouco a pouco lúcida, e capaz de deleitar-se nos carinhos de Rhage. Ele estava cantarolando, em uma calmaria tão doce e incomum que ela perguntou-se quem era aquele e o que havia acontecido com seu pseudo-carcereiro.
O pensamento com o apelido insolente a fez sorrir, o que atraiu a atenção do homem como um farol em uma noite escura.
— Do que sorri, nalla? — perguntou, retirando uma mecha castanha do rosto e prendendo-a atrás da orelha.
Ela mordeu os lábios antes de responder.
— Pensando na minha insolência. Mas foi apenas isso.
Ele sorriu, com um aspecto sonolento. Porém, mesmo que seu rosto carregasse uma expressão de puro cansaço, ele fora capaz de erguê-la e carregá-la em seus braços rumo à cama; em nenhum momento soltou-a. Deitou-se com Mary por cima de seu corpo duro e esguio, aproximando seu rosto da dobra de seu pescoço como quando estavam no chão, e de esguelha, ela pode notar que os olhos já não abriam.
Ela puxou o edredom branco ignorado sob seus pés, e embrulhou-os em uma concha de proteção e reconforto mutuo. Mas não de perdão, e muito menos de esquecimento.
Pois Mary poderia ser muitas coisas, tudo, menos uma beata de igreja.
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Logo ao despertar, Mary soube que era noite.
Ela não soube se era pela temperatura — mas estava excessivamente quente para ser noite —, ou pela ação de ir dormir e acordar, como faziam as crianças. Talvez fosse o cheiro, um cheiro divinamente delicioso, escuro e temperado, que empesteava seu nariz como o cheiro de capim do campo, ou o de chuva sobre a terra, ou o de manteiga sobre pipoca. Apenas o pensamento de algo, ou alguém, possuir cheiro de manteiga a fez sorrir.
Mary ergueu os braços e esticou as pernas, espreguiçando-se como um gatinho, quando sentiu o movimento do seu lado. E seus pensamentos foram clareando-se, lembrando-a do que havia ocorrido em menos de vinte e quatro horas, vindo à consciência da fuga mal calculada, do despertar, da briga sem qualquer resolução e de alimentar-se de Rhage em seu momento de maior fragilidade. Ela poderia ter arrancado algumas respostas, o chateado até que ele a expulsasse da mansão, ou até mesmo passando-a aos cuidados de outro, mas não; ela tinha de ter ir confortá-lo e cantar para ele, ao ponto de acalmá-lo e alimentar-se de seu lábio e de seu pescoço.
Rhage não esperou muito para alcançá-la e abraçar a sua cintura, espremendo o nariz de Mary na carne suave de seu pescoço, revelando — e assuntando-a na constatação — de que estava deitada sobre ele. Ela tentou apartar-se do abraço, mas suas mãos acariciaram o peito duro, e deu-se conta do quão longe havia chegado com a proximidade cedida.
— Rhage — sussurrou ela, sem força.
Ela sentiu seu sorriso. Como ela poderia ter feito isso, perguntou-se, assustada.
— Sim, querida? — o nariz dele afundou-se em seu cabelo, aspirando fortemente.
— Me solte.
Aquelas duas palavras, ditas secamente, foram o bastante para que Rhage paralisasse. Seu peito retumbou com força sob os dedos de Mary, e ela preocupou-se se vampiros poderiam sofrer ataques cardíacos.
— Me solte, Rhage — disse ela. — É tudo o que lhe peço.
Os dedos de Rhage, um por um, soltaram sua cintura; a distancia fora imposta por Mary após as mãos dele libertarem-na. Ela ficou alguns palmos de distancia, podendo observar Rhage em sua postura deliberadamente tensa e com a aparência exausta retornando pouco a pouco, enquanto sentavam-se com as costas apoiadas na cabeceira da cama.
As mãos dele ergueram-se lentamente, como se cada movimento lhe custasse muito, esfregando o rosto com força. Ela examinou-o, avaliando sua reação.
— Gostaria de falar uma coisa com você.
O som da sua voz pareceu verberar cada músculo do corpo de Rhage, como uma barra de ferro contra a outra.
— Fale. Estou ouvindo.
Mas o tom distante da sua voz pareceu gelo, e Mary viu-se coagida.
Poderia ela abordar o que tinha em mente?
— Ande Mary, não titubeie. Você é insolente demais para ser tímida — sussurrou Rhage, com uma voz tremendamente intimidante.
Então ela pigarreou, acabando com toda a coragem acumulada.
— Se bem me lembro, você disse que é meu... como se chama?
— Tuhtor.
— Bem, tutor.
Rhage ergueu-se nos cotovelos, encarando-a com olhos opacos e frios.
— É tuhtor. Não é apenas uma palavra em inglês, mas sim em um idioma diferente. Tem uma pequena diferença — explicou ele, com um ar professoral. — Tuh-tor. Como tuh fosse uma palavra e tor fosse outra. Como se diz? Uma palavra composta.
Mary repetiu-a algumas vezes, até que Rhage estivesse satisfeito.
— Bem, como aprendi agora, você é meu tuhtor. Não sei no mundo dos vampiros-
— Que é seu mundo, apesar de tudo.
— -mas em meu mundo, — continuou ela, como se ele nunca houvesse a interrompido — um tutor seria como um professor, ou um defensor. Como se eu fosse sua protegida, por direitos legais. Você deveria cuidar de minhas necessidades, apesar de tudo. Acho que nessa situação, você me ensinaria sobre os hábitos, costumes, religião e alimentação vampiresca. Este último eu já faço uma idéia, mas gostaria que você complementasse as minhas escassas informações.
— É o que eu pretendo fazer.
— Mas você pretende fazer enquanto me expõe aos seus caprichos ardilosos e impõe a sua companhia?
Rhage a encarou, os olhos brilhando de incompreensão.
— O que quer dizer com isso?
— Antes de abrir aquela porta eu notei o quanto essa casa é grande, e não é possível que nós sejamos os únicos habitantes dela — respondeu ela, a impertinência brilhando em seus olhos. — E ainda me ocorre à idéia de que estava naquele cubículo-
Rhage ergueu-se, sentando na cabeceira da cama como ela, interrompendo sua linha de pensamento.
— Cubículo? Mas como ousa-
— Como ousa você, me interrompendo! — gritou ela, subindo sobre seus calcanhares, agachando-se inconscientemente em posição de ataque. — Cubículo sim, se comparado com esta enormidade. Faça-me o favor, Sr. Eu Sei O Que É Melhor Pra Você. Por um acaso você está me escondendo, ahn? Há algum motivo para me esconder, já que, hipoteticamente isto daqui é tão meu quanto seu, pois meu pai fazia parte dessa tal ‘Irmandade’ — completou ela, fazendo aspas com os dedos.
O homem a sua frente parecia não apenas transtornado, mas também decepcionado com a reação dela.
— Isto não é meu, também não é seu. Não julgue antes de saber todos os pormenores, garota — repreendeu ele. — Só pra sua informação, isto aqui é de Elizabeth Randall Wrathson*, a Rainha dos Vampiros. Estamos aqui por uma medida de segurança. Já ouviu aquela frase, ‘a união faz a força’? É exatamente por isso. E já ouviu aquela outra, ‘conhecimento é poder’? Isso se aplica a você melhor do que a qualquer outra pessoa. Ponha-a em prática.
No final de sua frase, Rhage parecia tão zangado quanto um verdadeiro tutor tentando ensinar álgebra para um acéfalo; era um tipo de frustração de intensidade mais forte, misturada com impotência. Mas o principal era que parecia genuinamente ofendido, e não por ele, mas por sua rainha. Por essa tal de Elizabeth. A fidelidade era palpável, um tipo de lealdade que Mary nunca tivera.
E ela a desejou para si.
Acovardada — mas não menos zangada —, abaixou-se e se sentou sobre os calcanhares, cruzando os braços.
— Não tinha a intenção de ofender nem a você, nem a rainha — disse ela, um tom mais baixo. — Pois não faço questão de casas ou de quartos, muito menos deste aqui. Tudo o que quero é ir embora- — ela própria se interrompeu quando Rhage entreabriu os lábios. — Escute, eu não vou embora, raios! Estou tentando argumentar aqui. Você me escutará ou não, inferno?
Ele balançou a cabeça lentamente, ainda hesitante.
— Continuando quando você grosseiramente me interrompeu: eu não vou embora. Não agora, pelo menos. Vejo que realmente é necessária minha presença aqui, não por vocês, mas por mim mesma. Descobri que sou uma vampira, e se jogar ‘vampiro’ em qualquer ferramenta de busca, serei alvejada por informações fúteis e inúteis, que apenas atrapalharão meu desenvolvimento.
Ela continuou após um breve suspiro.
— Não faço a mínima idéia do que terei que fazer. Se terei que abandonar ao Deus que acredito, se terei de matar para sobreviver, se terei de me esconder do sol eternamente; mas dessas três coisas que citei, duas já são quase que comprovadas. Mas enfim: não tenho idéia das coisas que terei de substituir, mudar, ou me desfazer, mas sei que aqui obterei o conhecimento que necessito. E sei que é você quem me dará. Pois é meu tuhtor.
Rhage fez menção de falar, mas ela ergueu umas das mãos, calando-o.
— O que estou tentando falar, é que apenas o farei se você me der espaço. Não entendo o que há com você. Realmente, não sei o que acontece quando você está próximo. Parece que eu sou uma propriedade e a todo o momento você quer me lembrar disso. Mas acho que está enganado. Sou sua pupila. Como diz você, sou filha fora do casamento do seu amigo, e sabe, você tem que cuidar de mim. Então, faça o que tem que fazer, mas da maneira certa. Respeite o meu limite, respeite o meu espaço. E quando falo isso, eu peço que você arrume um quarto para mim. Não quero que volte a acontecer os eventos de hoje. Ou voltarei a escapar, e a noite. Desta forma não poderá me impedir, e você sofrerá com a culpa de que posso ser pega pelo sol, ou morra de inanição. Isso não é uma ameaça, isso é um fato. Por favor, compreenda.
O silêncio que escorregou pelo recinto, se instalou como uma tensão entre os dois corpos. Mary sentiu um arrepio invadir todo o seu corpo, uma agonia instalando-se no seu peito e pesando no estomago; um nó na garganta, uma impotência languida e desesperadora, uma tontura. Ela sentiu-se mal, instantaneamente, após terminar seu discurso de liberdade. E estranhou. Dentro de si, Mary sabia que aquela sensação não era sua; ela sabia discernir o que pensava, o modo como agia, e julgou as suas palavras como corretas. Então, por que aquele sentimento de derrota diante do seu discurso?
Alguma coisa lhe dizia que Rhage saberia explicar suas sensações.
Esfregando o peito, para tentar aliviar a sensação, ela apoiou-se no dossel da cama, tonta.
— Rhage...
Ele permaneceu quieto, como se em transe. Mas ela notava a mandíbula tensa e as mãos enroladas em punhos.
— Rhage, não me sinto bem...
Ele levantou-se da cama, arrastando o corpanzil esguio até a porta. Antes de sair, deixando uma Mary estática e confusa, ele falou:
— Você consumiu meu sangue. E como tal, sente o que eu sinto. Lamento por isso. **
Fechando a porta, ele se foi.
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Notas finais
** Sei que no livro não há nenhuma descrição de que coisas como essa possam acontecer, mas achei que se ousasse um pouco, a história ficaria mais incrementada, e eu poderia criar diversas situações, como na Introdução, quando o corpo da Mary ficou gélido... De raiva e ciúme, sem que os sentimentos fossem dela.
N/a: Antes de mais nada, gostaria de dizer um OBRIGADA em alto e bom som a Tumn Cipriano por favoritar e recomendar Concorrência. Fofa, você é demais. Acompanha a história desde a Introdução, o que torna as suas ações ainda mais especiais. Você é dez! Ok, peoples, voltando aos negócios, sei que sou eu quem escreve, mas nada me impede de ficar com uma peninha básica do Rhage. Sério. Era necessário mesmo a Mary chegar nele com essas pedradas? Pelo amor da Virgem! rs. Mas adoro ver um homem sofrendo, fala a verdade. É uma espécie de vingança. Putz. Sem falar que foi bem merecido. Estava lendo os comentários e algumas de vocês ficaram, realmente, zangadas com a atitude de Rhage. Fico embasbacada com as minhas leitoras, com a reação pelo tema abordado em cada capítulo. Bom, ainda não respondi os comentários do capítulo um por PURA FALTA DE OPORTUNIDADE. Não tenho internet em casa (todos choram), por isso posto quando estou no curso, logo na sexta feira, e olhe lá. Tomei a decisão de não pressionar, nem implorar comentário, porque não necessito disto. Tenho minhas leitoras assíduas, que me estimulam o suficiente, e penso que os leitores fantasmas é quem perderão com a bizarrice de ler e não comentar. Um beijo todo especial as lindas: Mayara Lima, Amando, e a digníssima Tumn Cipriano. Este capítulo foi dedicado a vocês. Aos fantasmas concorrentes, comentem! O capítulo poderá vir mais rápido se os dois lados se unirem com um único propósito. Uno beso en lo corazón de ustedes. Blackxx
Pergunta do Capítulo: Mary pegou pesado com o Rhage? Quem merece uma punição: ele ou ela?
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