Notas iniciais
Olá, chicas!
Estou muito, muito, muito feliz em encontra-las novamente!
Bom, nos encontramos nas notas finais. Boa leitura.

CAPÍTULO 1

“Mas não era vinho: era a paixão, era a cruel alegria e a angústia sem fim, era a morte.” — Tristão & Isolda.

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E Mary, ainda embasbacada pela descoberta, ficou estática.

Rhage, de pescoço roxo e duas feridas minúsculas, estendia para ela uma taça de conteúdo vermelho e espesso. Seu peito desnudo demonstrava que estava errada na primeira analise: Rhage realmente era lindo, mas não era uma maquina de sexo; ele simplesmente era sexo em duas pernas. Com a cintura delgada tão fina quanto a de uma mulher, mas de peito largo e forte, ele mostrava um físico de dar inveja, e Mary logo teve a certeza de que era disciplinado quando se tratava da academia.

Porém, o que fazia ela na — o que ela imaginava que era — casa de Rhage, era um mistério. E esse era o primeiro de muitos. Por que Rhage havia levado-a para lá? Como ele soube do que ela precisava? E a mais perturbadora: quem era Rhage?

Vendo que Mary não iria pegar a taça, ele sentou-se placidamente no colchão, nunca deixando de encará-la; poderia parecer doentio, até mesmo arrogante da parte de Mary, mas ela teve o mais leve dos pensamentos de que o olhar de Rhage era tão devoto quanto o de um cristão. Os olhos azuis nunca estiveram tão escuros quanto naquele ambiente, ou melhor, naquela situação. Rhage segurou a mão de Mary, enrolando-a na taça.

— É apenas um tonificante de frutas vermelhas e vitaminas — ele disse, sorrindo com os olhos — Imaginei que estivesse com sede, ou quem sabe, com fome, e preparei rapidinho. Posso fazer alguma coisa mais substancial, mas não agora. Seu estomago não está preparado.

Mary continuou a encará-lo, não fazendo menção de beber o liquido que cintilava. A bebida condensava-se rapidamente, tornando com que a mão de Mary ficasse úmida em questão de segundos. Ela continuava a encarar Rhage, com um olhar inquisidor e questionador, cheia de dúvidas e temores. O que havia acontecido, ela se perguntava. O que eu sou?

— Você beberá — disse ele, um pouco impaciente — Por favor, Mary, faça o que eu digo. Eu sei o que é melhor pra você.

— Ah, é, você sabe? — perguntou ela, levantando-se e apoiando o copo em um criado mudo de madeira de lei do lado da cama — Quem é você? Dar-me carona foi premeditado? O que aconteceu? Por que eu bebi seu sangue, ahn? Pode me responder, ou você sabe tanto o que é melhor pra mim que ignora o fato de que estou cega perante estes fatos?

Rhage pareceu momentaneamente desnorteado perante o ataque efusivo de perguntas. Ele olhou para o tônico, ou o que ele afirmou ser um tônico, e suspirou.

— Beba e eu lhe direi.

Mary olhou para ele por alguns segundos e desatou-se em gargalhadas. A escuridão completa do lugar deu um cenário sinistro ao gargalhar infernal e infame dela. Rhage franziu os lábios.

— Você me tem como ingênua? Eu leio os jornais. Não vou beber nada de que eu desconheça a origem — disse ela — E outra, eu trabalho como bargirl tempo o suficiente para saber que pôr soníferos e boa-noite-cinderelas em uma bebida é a coisa mais fácil do mundo. Então, não, não beberei nada do que me oferecer. Quem poderá afirmar que não foi você que manipulou minha bebida para que eu achasse que estava morrendo, hein?

O homem a sua frente suspirou pesadamente, ainda inconformado.

— Do que está falando, Mary? Isso é para o seu bem — falou ele — Por que eu iria me esforçar tanto para salva-la se eu queria seu mal?

Mary cruzou os braços, não sem antes jogar os cabelos insolentemente.

— Smooth tem alguma coisa haver com isso? Eu nunca deveria ter confiado nele — esquivou-se Mary — Não entrarei no seu jogo, Rhage. Para mim tanto faz. — não satisfeita com todo o seu discurso, Mary ainda provocou mais — Qual seu nome verdadeiro? É Rhage mesmo? Claro que n-

Antes que Mary continuasse com seu tagarelar sem fim, Rhage pegou-a pelo queixo, abrindo a boca dela o suficiente para que o líquido do tônico entrasse. Ela ainda tentou evitar engolir, mas a bebida era tão densa e coagulada, que fora descendo por seus lábios, a carne das bochechas e a língua, em um rolar viciante e perturbador pela garganta. O sabor era rico, exatamente como ele afirmara: frutas vermelhas, podendo distinguir o sabor cítrico do morango e o doce das amoras. Já dominada, Mary bebeu por si mesma, tomando a taça da mão de Rhage, entornando-a.

— Custava beber a porra do tônico de uma vez? — perguntou ele, com o cenho franzido — Detesto machucar você, ainda que seja uma ameaça inofensiva, eu odeio coisas desse tipo. Então, Mary, não me teste. Eu farei o que for preciso para que você esteja bem.

Ela, que limpava os cantos da boca com as costas da mão, espantou-se com o tom de Rhage; era sério, régio, e ainda assim suavizado com a promessa de proteção.

— O que continha nisso? Eram apenas vitaminas? — recomeçou ela — Você pretende responder minhas perguntas?

Ele olhou-a, examinando seu rosto a procura de algo que Mary não fazia idéia de possuir. Erguendo a mão, ele tomou a taça das mãos alvas e delicadas dela, acariciando os dedos no processo.

— Que tal um banho enquanto eu troco os panos da cama? — ele disse — Você precisa se recompor.

Mary não soube como, mas levantou-se da cama. Suas botas haviam sido tiradas em algum momento de seu sono perturbado, das dores infernais, ou enquanto sugava o pescoço de Rhage; seja como for, ela encontrava-se apenas com as calcinhas e o sutiã modelador. O corpo coberto por uma camada de suor, os cabelos cheios de nós, e ainda assim havia certo pudor na frente de Rhage, mesmo sabendo que ele já havia visto seu corpo naquela mesma noite.

Ele guiou-a para o banheiro, um espaço maior que seu quarto na hospedaria, muito luxuoso e confortável; os artigos todos em uma fina porcelana, com os mais ricos detalhes que se poderia imaginar, e até mesmo uma jacuzzi. Na pia, uma pilha de roupas finas e brancas aguardava-na. Eram da sua medida, de um material como malha fria. Um pomposo robe, como daqueles filmes de gente granfina, também fazia parte do kit Mary-fora-de-casa. Mary, em toda sua vida, nunca havia usado nem mesmo roupões de algodão por achar não apenas fútil, mas esnobe; porém, não poderia negar que diante das predileções do anfitrião, seria melhor usar. As calcinhas de algodão também faziam parte do pacote. Sutiãs não foram encontrados e ela achou melhor não perguntar por eles.

Entre os artigos de higiene, ela encontrou seu sabonete favorito de hortelã, o xampu de cereja e o condicionador sem sal; a pasta de dente era diferente, sem flúor e com um componente qualquer que tornava os dentes mais brancos. Havia duas escovas: uma azul e uma rosa. Mary achou ridícula a distinção, e perguntou se a rosa seria mesmo a sua. Também poderiam distinguir-se as toalhas, na mesma tonalidade que as escovas. Um desavisado poderia achar que Mary e Rhage moravam juntos por um tempo longo, por ele saber suas predileções e por haver coisas em pares.

Fechando a porta e passando a chave, ela começou a desembaraçar o cabelo com uma escova semelhante a sua. Interessante, pensou ela, neste banheiro não há espelho. Ela riu-se um pouco, com pensamento tão inútil.

Retirando a lingerie, ela começou o tradicional ritual do banho: ligou o chuveiro e deixou a água esquentar, caminhando enquanto desembaraçava o cabelo com os dedos. Ela procurou uma navalha para depilar as pernas, como fazia todas as noites antes de ir trabalhar, mas o susto que levara ao constatar que não havia pelos nas pernas, axilas e braços fora o bastante. Entrando no chuveiro, a idéia de que deixara de ser escrava dos malditos pelos castanhos deixou-a catatônica. O que mais havia mudado? Necessito de um espelho, pensou ela, enquanto esfregava vigorosamente o couro cabeludo.

E a idéia de ir trabalhar também a deixou abismada. Ela perdera o sentido horário após ser resgatada por Rhage.

Terminando o banho, os vidros do banheiro estavam embaçados pela fumaça. Ela enxugou o cabelo e aplicou um pouco do creme sem enxágüe, penteando-o com os dedos. Vestindo-se rapidamente com as roupas, e com seu próprio sutiã, ela calçou um mocassin branco que encontrou na entrada e fora à procura de Rhage.

Ele estava na cozinha, rodeado por panelas e temperos, e com um avental negro que destacava os músculos das costas e do abdômen. Por alguns segundos, Mary não soube o que fazer consigo mesma; voltar pra cama ou continuar com o interrogatório? Ela sobreviveria a todo aquele charme ou seria demais para a sua abstinência? Porém, todas aquelas perguntas foram desnecessárias quando Rhage olhou-a. Ela sentiu-se arrebatada apenas por seus olhos, e soube que seu lugar era ali, naquela cozinha, mesmo que seu estomago se revolvesse com os aromas exalados.

— Você tem uma aparência muito melhor, Mary — disse ele, enquanto enxugava as mãos em um pano de algodão branco — Você sabe cozinhar?

Ela passou pelo balcão de madeira que divisava a cozinha, apalpando alguns dentes de alho e um cálice com pimentas amassadas.

— Bom, eu sei fazer algumas coisas — respondeu ela. — Mas os termos gastronômicos me são desconhecidos, chef.

Ele sorriu um pouco, voltando para as panelas, remexendo calmamente um molho que borbulhava. Em uma continha um inegável arroz branco, com um delicioso cheiro de alho e cebola. Na outra, parecia com algo próximo de macarrão ao molho branco, e havia uma frigideira untada com óleo, cebolas e salsinha.

— Qual o menu esta noite, meu bom lorde? — perguntou ela, fazendo gracinha.

Rhage virou-se, olhou-a por um momento, e voltou para as panelas.

— Almôndegas ao molho de vinho tinto seco e cogumelos, arroz branco temperado com gergelim e macarrão ao molho branco, acompanhados por uma taça de tônico de vitaminas para você, e um belo vinho italiano para mim.

Ela sentou-se em um dos bancos altos da cozinha moderna e fez um muxoxo.

— Isso não parece justo — reclamou ela — Por que tenho que beber tônico? Tenho mais de vinte e um!

Ele riu sonoramente enquanto pegava uma vasilha de plástico cheia de bolinhas de carne apertadas com agrião e sal. Suavemente, jogou três na frigideira, que chiou ao contato com a carne.

— Que tal você assistir tevê enquanto eu termino por aqui? — falou Rhage, esquivando-se da pergunta.

Mary, que já havia compreendido que ele necessitava de um tempo antes do interrogatório começar, pegou uma faca e a tábua de cortar carne.

— Olha, vou cortar alguns pimentões, porque estou com saudade de comê-los com sal.

Enquanto cortava os pimentões verdes, ela assistia Rhage cozinhar e sentiu-se enfeitiçada; todos os movimentos de seu corpanzil eram graciosos, belos e completamente contemplativos. Com uma espátula, ele virava as almôndegas e colocava-as em um prato coberto por guardanapos de papel. Para Mary, a quantidade era excessiva.

Já salpicados de sal, os pimentões foram degustados com um pouco do tônico coagulado que Rhage lhe oferecera. Mary distraiu-se assistindo uma sitcom qualquer que passava na pequena tevê quatorze polegadas instalada na cozinha, vendo de esguelha ele mexer com as panelas. Logo que a sitcom idiota tinha acabado, começara Gladiador, que por muito tempo fora o filme favorito de Mary. Ela logo se entusiasmou e começou a falar todas as frases do filme, amando voltar à normalidade, mesmo que por um filme antigo.

Ela nem notou Rhage montar o prato, mas lá estava na sua frente: três almôndegas perfeitamente redondas, cobertas por uma crosta macia e perfumada do molho castanho, o arroz com alguns pedacinhos de alho e gergelim, e o macarrão espesso e salpicado de queijo por cima do molho branco. O nome dela, Mary, havia sido escrito com o molho castanho em uma perfeita caligrafia.

— Nossa! — ela contemplou o prato e o achou esplendido — Sabe, eu nunca fui a um restaurante desses, chiquíssimos, mas estou me sentindo a maior gourmet da história.

Ele sorriu, abaixando-se para pegar a garrafa do vinho tinto italiano que ele disse que iria tomar. Por um momento, uma frustração maligna subira pelo peito de Mary: ela queria vinho, ela não era mais criança. Mas, ao invés de liberá-la, ela pegou o garfo que estava ao lado do prato e misturou o macarrão com um pouco do arroz, rompendo a superfície crocante da almôndega, amontoando tudo em uma pequena pilha, e levando a boca.

O sabor, assim como o prato, estava esplendido. Uma mistura agridoce, e ainda assim picante, instigava a sua língua a misturar tudo e logo engolir. Mas ela queria degustar; estava quentinho, e o sabor bem vindo não atacou o seu estomago como ela pensava que faria. De olhos fechados, ela mastigou calmamente, pois os seus caninos ainda latejavam e pareciam ainda maiores do que antes.

O prato de Rhage, diferente do dela, era comum e grosseiro: tudo misturado em uma gororoba que não parecia em nada com sua. Na realidade, o prato enorme que Rhage prepara para si nem parecia comida para uma só pessoa. Mas ele comia com sofreguidão, ainda que educado.

— Então, o que achou?

A pergunta que ele fez não parecia abranger somente a comida, mas tudo o que vinha acontecendo desde o bar.

— Você responderá minhas perguntas agora? — rebateu ela, enquanto esfregava o macarrão suavemente no seu nome.

Ele encarou-a enquanto mastigava, tomando um gole de vinho.

— Antes uma pergunta: você sabe o que significa esse pingente no seu pescoço?

A mão de Mary subiu o colo e logo tocou o relicário em forma de maçã que pendia no osso de sua clavícula. Pareceu quase quente ao toque.

— Meu relicário? Desde que me lembre, ele esteve em meu pescoço. — respondeu ela, evasivamente.

Sua mãe, em mais uma de suas histórias místicas, havia contado o suposto significado do relicário: um símbolo de proteção de uma santidade qualquer da noite, que tinha como símbolos as corujas brancas e as maçãs verdes. A imagem de sua mãe continuava dentro, mas a de seu pai, que um dia esteve lá, sumira.

Rhage estendeu a mão e com o mais leve dos apertões, abriu o feixe do relicário, revelando a imagem de uma mulher jovem de longos cabelos castanhos e profundos olhos cinzentos. A mãe de Mary, Lya, nunca se pareceu com uma mãe. Sua personalidade forte e nada autoritária fez com que Mary crescesse na instabilidade constante da juventude, e ainda assim, na estabilidade do amor incondicional que apenas uma mãe pode dar a filha. Sua mãe falava constantemente do pai, de como a amava, e sempre havia lembranças e presentes preciosos deixados por essa figura acética e relapsa.

E agora, com essas lembranças antes enterradas voltando à tona, Mary não tinha certeza se queria que Rhage respondesse seus questionamentos.

— Sua mãe era muito bonita — disse ele — Eu me lembro dela.

O modo como ele falou trouxe uma áurea nostálgica ao ambiente. O prato de Rhage já havia sido limpo, enquanto o de Mary estava pela metade; em contraste, o gargalo do tônico estava terminando, ainda em um lento processo de degelo.

— Impossível. — falou ela — Quantos anos tinha quando conheceu minha mãe? Dois?

Ele olhou, perscrutando seu rosto.

— Mary, você está preparada para a verdade da sua vida?

— Sinceramente?

— Obviamente.

— Não — a sinceridade exalada na voz de Mary desestabilizou os dois.

Ele sorriu, enrugando o canto de seus olhos, fazendo com que o néon brilhasse.

— Você já faz uma idéia do que seja não é? — ele falou, e tudo o que seu rosto escondeu fora revelado na sua voz — É por isso que está evitando o confronto.

— Não é tão fácil quanto parece — respondeu ela, esmigalhando a última das almôndegas.

— Mas também não é tão difícil — ele esticou a mão e agarrou a dela — Por favor, Mary, você tem que admitir para si mesma o que está acontecendo. Se você não aceitar, ninguém mais poderá fazê-lo.

Eles encararam-se por um longo tempo, e a sensação de que Rhage era um tigre a espreita de uma presa, veio à tona novamente.

— Até esta manhã eu era uma humana comum, com problemas e sem dinheiro, que trabalhava na Fire & Blood, que gostava de assistir o nascer do sol e que não queria nem saber de tornar-se responsável. Eu era uma Mary diferente, que não ia para casa a sete meses, que fugia da verdade e que se escondia em um cobertor quando as sombras chegavam — disse ela. — E agora, no meio da tempestade de areia que assolou o meu destino, surge você com seu GTO púrpura, querendo que eu aceite uma verdade da qual eu fujo desde novembro. Não sei se é arrogância ou puro despeito, mas quem é você pra me dizer o que fazer?

Ela sentiu os nódulos de seus dedos estalarem quando a mão de Rhage pressionou a dela.

— Eu sou o responsável a botar você nos trilhos. Eu sou aquele que pretende cuidar de você. Mas sou também o que te esperou. O que te vigiou. Sou o que seu pai escolheu para ser seu tuhtor, e também para ser seu futuro. — ele sorriu, revelando presas peroladas — Eu sou um vampiro, assim como você. E quero que você aceite sua espécie e seus costumes.

Pela segunda vez no dia, Mary ficou estática.

Ela já imaginava que uma coisa desse tipo poderia acontecer, mas falar com todas as letras, ela nunca faria. E encarar as presas de Rhage, assim, a primeira mão, era aterrador.

— O que quer dizer com ser meu... tuhtor?

Rhage gargalhou, ainda segurando sua mão.

— De tudo o que lhe disse, foi a isso que atentou? — ele sorria com mais liberdade agora — Bom, eu serei responsável por sua educação, por manter a sua honra, e por escolher quem a desposará.

O que ele queria dizer com isso, perguntou-se ela. O olhar de Rhage parecia ainda mais sádico do que antes, meio louco, encarando-a.

— Me desposará?

— Sim. Quem será o macho afortunado escolhido para ser seu hellren. Ele terá de me superar em tudo. Assim, ninguém chegará a você.

Superá-lo. Meu Deus.

— Rhage, você enlouqueceu? Do que está falando? — contestou ela, tentando soltar-se do aperto — Quero ir para casa.

Ele olhou-a, passeando os dedos pelas maçãs altas, os cabelos multicolores, chegando aos lábios, aonde ergueu o superior e viu os seus dentes.

— Você já está em casa, Mary. Não se faça de tola — respondeu ele, passando os dedos pelo canino dela. — Acho que já está bem alimentada por essa noite. Está quase amanhecendo, e não a quero exposta aos raios solares.

E, como — Mary vinha percebendo — a última palavra fosse sua, ele ergueu-a do banquinho, com a mão dela ainda presa a sua, apenas o balcão separando-os. Ele caminhou como se houvesse ganhado o dia, em um resplandecer dourado, todo músculos e dentes. Parecia haver uma platéia a qual Rhage gostaria de impressionar, com sua postura imperial e seu caminhar gracioso; mas ainda mais preocupante, havia o olhar que ele revelava a Mary: totalmente presunçoso, arrogante e ainda assim, terno.

Enquanto era guiada, Mary espantou-se com seu nível de aceitação diante das revelações feitas. Ontem, neste mesmo horário, ela estaria chegando em casa, exausta e com os ouvidos latejando pela cacofonia de sentidos que era a boate. Mas, os eventos mostraram-se cíclicos, como se a preparando para esse momento. Sua vida, literalmente, estava uma droga. Nunca antes fora sociável, e não havia parentes para dar satisfações. Então, foda-se, pensou ela em uma atitude precipitada e obtusa.

Mesmo estando atrás de aventuras que a tirassem da mesmice de seu dia-a-dia, Mary não avaliou no que estava se metendo. Aliás, com quem.

No quarto, com as cobertas trocadas e velas acesas, Rhage deitou-a delicadamente na cama, chegando até mesmo a cobri-la, enquanto buscava um conjunto novo de toalhas e enfiava-se no banheiro. Durante seu ritual, um acesso de ansiedade tomou Mary, tornando-a estranhamente consciente dos perigos de dividir um apartamento com um estranho. Principalmente, um estranho vampiro garboso e encorpado como Rhage.

Batendo de leve o calcanhar no colchão, revirando-se na cama, ela ouviu todo o processo de banho dele, imaginando a água entupindo todos os poros do corpo bronzeado, ele esfregando meticulosamente o couro cabeludo, com seus braços fortes e bíceps pronunciados, sua cintura delgada, os quadris tão dotados quanto à parte superior do corpo, e momentamente temeu que ele também pudesse ler seus pensamentos. Um forte rubor cobriu todo o seu rosto, em um coral fulminante, brilhante e delator.

Ela virou-se de bruços, ainda com a batida ritmada do calcanhar, em uma amostra involuntária de ansiedade. Sentando-se, ela retirou o robe, largando-o no chão. Ao ouvir a porta do banheiro, Mary jogou-se novamente na cama e fingiu dormir.

Ela sentiu a presença de Rhage no pé da cama, e logo sua risada ecoou pelas paredes pentagonais do aposento.

— Não finja, Mary luz-das-estrelas — disse ele. — Eu sempre saberei quando mentir.

Mary espiou pela brecha de um olho.

— Do que me chamou?

Rhage tossiu um pouco, caminhando até o closet, perdendo-se na escuridão e deixando Mary sem resposta.

Que ótimo, pensou ela, mais uma no meio de milhares.

Ela, indignada, empurrou as cobertas, amontoando-as. Resignada, embrenhou-se na escuridão do closet, rezando para que ele já houvesse se vestido, mas também implorando para que não.

Rhage estava virado, de costas para ela, apenas com uma boxer negra. Isso não surpreendeu Mary; ele parecia combinar com a cor.

— Olha, quer saber, eu cansei! — disse ela, chamando a atenção dele — Cansei de toda essa maluquice, esse sonho gótico e vampiresco, dessa história de sangue, maçãs e pais inaptos para o oficio. Conte-me agora.

A ameaça não deixou de ser ouvida pelos ouvidos experientes de Rhage. Seus olhos — duas bolas incandescentes de fogo azul — focaram-se em Mary, e por alguns instantes de contato fixo, ela sentiu-se queimando. Seus lábios estavam juntos, tão juntos que o tom róseo sumiu, deixando-os pálidos.

— Você quer que eu te conte? — perguntou ele, igualmente frustrado — Que seu pai traíra a confiança de toda a Irmandade, de sua shellan e do rei por ter se deitado com uma mestiça no cio e dado origem a você? Que, por algum motivo muito banal, ele continuava a visitá-la, mesmo havendo o risco de redutores te descobrirem e exterminarem a ti e a tua mãe? E que eu, que nem fui o melhor amigo dele em vida, fui o incumbido de cuidar de ti e de salvar a ti, logo na sua transição? É isso que você quer que eu diga? Ou melhor, exige que eu te conte?

Mary abaixou a cabeça, pensando nas respostas contraditórias que ele havia dado de mau gosto. Seu pai nunca se apaixonara por sua mãe; ele apenas deitou-se com ela... No cio? Fora essa palavra pífia que usara? Mas os termos não importam. Ela havia sido a outra, e Mary, pensou sombriamente, tinha sido a erva daninha que nascera de tal união.

Dando a volta, ela começou a caminhar para o aposento soturno e frio, quando a voz de Rhage preencheu seus ouvidos novamente.

— Eu não terminei.

Mas ela, em seu estado sorumbático e profundamente afetado, não deu ouvidos a repreenda dele, apenas balançando a mão em redenção. Ela não queria mais ouvir. Ela queria ver-se livre de toda aquela apreensão, toda a calúnia indireta, todos esses movimentos imprecisos e reviravoltas da vida, que sempre puxava seu tapete logo quando ela estabilizava-se.

E, quando a precária luz proporcionada pela velas encheu seus olhos, os dedos de Rhage apertaram sua carne e puxaram-na novamente para a sobriedade do closet.

— Eu disse: não terminei — falou ele, segurando ambos os braços de Mary com suas mãos e pressionando-a contra seu corpo — E quando falo isso, você deve ficar estática e me escutar. Consegue me entender?

Os lábios de Mary tremeram diante da perspectiva do que ele poderia fazer com ela naquele buraco insípido e inóspito.

— Quem você acha que é para falar assim comigo? — gritou ela, sacudindo-se — Isso é cárcere privado! Quero ir pra casa!

— Acha que isso me importa? Você ficará aqui — sinalizou ele, com seus olhos brilhando com pupilas tão brancas quanto à lua. — Comigo. Compreende?

— Foda-se você! — gritou ela, debatendo-se.

Uma voz gutural, que ela soube ter saído dos mesmos lábios gordos e vermelhos de Rhage, responderam. E Mary, que achava ter visto o pior, temeu por sua sanidade.

— Sua casa é aqui, doce Mary. — com um beijo carinhoso, totalmente contrário ao tom de voz, continuou — Agora, cale-se.

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Notas finais
N/a: Yep, em Concorrência Rhage está amaldiçoado. Mas não pelo mesmo motivo que em Amante Eterno. Há toda uma história. É o ponto crucial da fic. Alguém já imagina como ele adquiriu a besta? Ah, gostaria de mencionar que AMEI os comentários do Prólogo, sacou? Apareceram alguns comentários inesperados, que não haviam comentado na Introdução, o que eu achei ainda melhor. Sério mesmo. Agradeço imensamente cada um de vocês. Ei, o que acharam da capinha? Gostaria de agradecer à Aniqueen que favoritou E recomendou a fic. Então, fofa, um super obrigada. Encontro vocês nos comentários. Besitos! Blackxx
p.s.: se alcançarmos 20 comentários, no próximo capítulo apareço com um spoiler.