Notas iniciais
É o inicio de uma jornada.

Precisamos aprender e saber que quando se sente medo de algo é uma prova viva de que devemos nos arriscar e provar que podemos lutar ou fazer algo extraordinário.

Eu resolvi tentar.

Eu estava de pé, recobrando o fôlego logo após correr uma boa distância deixando que meus pés decidissem o caminho para onde eu ia, segurando aquela pequena pedrinha de crisoprásio equivalente ao tamanho do meu dedo mindinho, que era achatada com um formato irregular semelhante ao retângulo. Minha mente aflora-se com as possibilidades do que poderia fazer, em como eu me sentia tendo as em minha mão e se ela me faria mudar.

Escuto os passos se aproximando. Olho ao redor procurando um local, eu precisava esconder aquilo, minhas mãos começam a suar e me aproximo da vela apoiada no suporte para iluminar melhor o local, onde ficava o material do mestre ao qual servia, papeis com mapas, cartas de amantes e outras coisas ao qual não me dera o trabalho de ir conferir o que era.

Então acho um pano já gasto e rasgo um pedaço suficiente para cobri-la, puxo o extenso tecido que me cobria até as canelas apenas o suficiente para que pudesse arrumar melhor na altura do busto. Coloco o embrulho entre os meus seios pequenos, puxo um pouco a faixa que improvisara ajustando-a para que ficasse mais apertada, assim evitando que o pedaço da pedra caísse, e finalizo com um laço mal feito, mas bem preso. Levanto o pano novamente e o arrumo no lugar.

Escuto uma voz conhecida, ela está cada vez mais próxima, procuro o apoio da vela e com a cera tento fixa-la no mesmo lugar, pensando que já era o suficiente a posiciono em pé e suspiro aliviada.

Porém, não estava firme como deveria, e em segundos ela pende para o lado e cai em cima dos papelões do chão que o forravam, não consigo chegar a ela a tempo, então o fogo instantaneamente toma toda aquela extensão, os papeis, os panos tudo o fogo queimava como se suas chamas lambessem aquilo que eu deveria ter evitado que acontecesse, com meus temores subindo a cabeça me viro para procurar um recipiente para apagar aquele incêndio que crescia cada vez mais, exatamente nessa hora a cortina se abre.

O meu mestre entra no aposento e se limita a olhar para mim e para o fogo, mesmo a distância vejo a ira crescendo nos seus olhos. Então outra voz se ouve e ambos olhamos em direção a entrada, o grande líder da comunidade estava ali, procurava meu mestre em seus aposentos provavelmente para lhe falar algo ou pedir seus conselhos, mas ao ver o fogo ele se detém. O mestre berra meu nome e vem até onde estou com passadas largas, me puxa bruscamente pelo braço e corremos para fora dali, ao passar pelo líder ele me sorri com compaixão, mas nos seus olhos vi decepção e tristeza. Ao sair, puxo o tambor mais próximo e bato quatro vezes e o gesto se repete por outros que o escutam avisando-os do fogo, um tumulto vai se formando e as pessoas começam a correr de um lado para o outro com grandes recipientes de água. Com a ajuda de todos conseguimos apagar o fogo, mas ele dizimara toda a construção, e isso me traria consequências que nem eu mesma conseguia imaginar.

Acordo em um sobressalto, estou suada mesmo com o vento frio circulando ali, a memória viva do deslize que cometi naquela noite me fez ter um calafrio do quanto as coisas deram errado logo depois. Me sento na rede puxando a coberta para o lado e me levanto devagar, começara a sentir tonturas ao me mexer tão rápido então passara a evitar movimentos bruscos. Olho para a porta, ela ainda estava emperrada desde o dia em que assim a deixara para uma tentativa de proteção própria, a janela ficava coberta por uma placa de madeira que se encaixava completamente no buraco para a mesma, com mais algumas cordas e uma tábua por dentro para mantê-la fechada quando desejasse, mas ontem não havia o por que fazer isso, já que não havia mais do que me proteger.

Vou até ela observando o céu, me apoio e dou impulso com o peso do corpo sobre os braços lançando minhas pernas para o outro lado, caio agachada em cima de uma poça de lama que me cobre até os joelhos. Havia chovido forte na noite passada, e o chão ainda se encontrava molhado com a terra a amaciar meus pés desnudos, caminho pesadamente até o outro lado longe do meu cubículo e encontro as construções com lonas ainda armadas, a fila para uso do banheiro já estava enorme.

Procuro a cor verde que era equivalente ao meu grupo e me dirijo até ela, estava suja e mal cheirosa, fora que algo parecia ter morrido na minha boca nos últimos dois dias, e só havia melhorado porque depois de procurar por um dia inteiro algo que ajudasse nisso, achei algumas folhas de ervas medicinais que deixaram tudo bem melhor, peguei um punhado delas e andava com ele amarrado ou guardado em algum lugar da moradia minúscula a qual dormia.
Não sabia bem quantos dias já havia se passado e nem se era o suficiente, mas resolvera arriscar outra vez, eu não podia simplesmente ficar parada e aceitar.

Uma mão se põe firme em frente ao meu corpo me fazendo parar e confirmar que os deuses não estavam realmente me agraciando aquela semana. Ele estava ali, o meu mestre, com um sorriso maldoso estampado em seu rosto, marcando aquela cicatriz grossa que começava em sua sobrancelha e atravessava até depois do olho quase chegando perto da boca, ele perdera a visão do olho direito em uma briga por poder, alguém havia ganho ascensão na hierarquia e já que não conseguia pelos métodos convencionais, como méritos próprios para tal recebimento iria por outros, lutara e ganhara justamente e assim os pertences do rapaz lhe foram dados como era o costume, nada havia de glorioso naquilo na minha opinião, mas ele a exibia como um troféu para provar sua vitória.

Ele nada diz, apenas balança a cabeça em negativa e me enxota dali com um empurrão forte, ninguém se atreve a me ajudar ou ri do ocorrido, apenas viram o rosto como se nada vissem. Me retiro mas não antes de lançar a todos um olhar de desprezo.

Eu precisava de uma coisa agora, quando fora do alcance da vista de todos ali presentes, corro na direção oposto aos alojamentos, observando as pessoas em sua rotina com as crianças brincando, mulheres cortando a lenha e homens lavando suas roupas, todos ao ar livre.

Ela dera a ideia da escolha de quais papeis cada um serviria de acordo com suas necessidades em casa e as da comunidade, algumas mulheres queriam fazer afazeres que antes eram apenas dos homens e a rotina pros homens já se tornara cansativa, todos a tinham procurado na época um por um confessando isso em uma conversa habitual, mas ela resolvera levar aquilo adiante.

Longos meses se passaram e o grande restante não queria mudar e aceitar algo tão radical, tão ultrajante do ponto de vista que eles mesmo expuseram. Mas acabei convencendo quando perceberam que no final mudava quem queria, caso preferissem deixar como estava ninguém iria obriga-los a mudar. Então houve vitória e ver isso em prática me motivara por dias a lutar por coisas assim, mesmo que me perseguissem outra vez. Afasto o pensamento balançando a cabeça.

Vou para a floresta com um sentimento maior do que o de revolta que antes me assolara, saudades se instalava agora em meu peito, queria me sentir útil outra vez, tantos projetos ainda estavam pairando no meu pensamento e não poder pôr eles em prática estava me matando.

Diminuo o passo e adentro-a contando as árvores para me localizar.

Olho para trás buscando algum sinal de ser seguida ou vista por alguém, mas nada havia e eu me encontrava sozinha, sento no chão inspirando profundamente o ar como que para me acalmar.

Olho para as flores que cresciam ali, estava ali na décima segunda flor, um copo de leite que brotara único. Era a minha favorita mesmo diante de uma diversidade de outras, além de bela era também um ótimo esconderijo.

De dentro dela retiro a pedra que muito me custara até ali. Aperto-a em minhas mãos com força acreditando que ela poderia me proteger, em uma nota mental digo a mim mesma que logo não haverá locais suficientes para que eu possa simplesmente correr e me esconder, nos últimos dias haviam sido assim, eu precisava enfrentar todos as coisas até que pudesse assumir minhas responsabilidades, mesmo que estivesse com medo e começando a ficar paranoica, eu não tinha um alguém ali para confiar e segredar meus temores.

A ideia me atormentara tanto que eu quis que ela criasse asas e voasse para longe da minha cabeça, mas ela se fez âncora e se enterrou para não mais sair.

Desde que recebera as consequências do desastre que causara, eu perdi tantas coisas, o respeito do meu próprio grupo inicialmente e humilhações diárias para servir de exemplo aos demais. Não pude mais tomar banho, comia o restante das comidas que iria se perder quando era hora do banquete, formas e mais formas de humilhação pública sem data de validade.

Ninguém queria fazer nada, me evitavam e fingiam que eu não os havia ajudado sempre que recorriam a mim. As leis sobre punições variavam de acordo com cada grupo e seu mestre. O meu decidira que assim, eu nunca mais cometeria tal erro e aprenderia a ser menos desastrada enquanto me escondia dele e de seus comandos. Não me dissera quando acabaria esse castigo, portanto eu só o enfrentava da melhor forma possível.

Eu tentava constantemente ir até o grande líder, pois havia dias que se encontrava acamado e eu precisava de seus conselhos e de alguém que conversasse comigo que me mostrasse um sorriso amigável.

Guardo a pedrinha no mesmo lugar e saio dali sem muita demora, deixando que o dia se passe em um borrão, mesmo na hora em que estou caminhando na prancha do navio com o mar me chacoalhando de um lado a outro, já era começo da noite iluminada.

Sou acordada por trovões, em alerta olho para fora da janela, todos estavam correndo em direção a tenda do mestre, havia algo de muito errado e o céu parecia me querer dizer isso.

Levanto rapidamente e corro o máximo que posso, as pessoas vão se afastando quando chego, o mal cheiro começara a incomoda-los e creio que a minha aparência não era das melhores.

O líder ainda estava acamado, e as pessoas iam jorrando as informações enquanto conversavam entre si, estavam fazendo tudo que podiam, mas a doença que se alastrara pelo seu corpo era desconhecida e assim os curandeiros nada podiam fazer a não ser diminuir suas dores.

Sinto as lágrimas virem aos olhos, as pessoas logo precisariam de uma nova pessoa ocupando seu lugar.

Como todos ali sinto um misto de ansiedade e tristeza que me invadem de forma bruta.

Ele me fora tão bom desde criança cuidando de mim. Eu não era em nada especial, não possuía seu favoritismo ou coisa assim, mas todas as crianças brincavam e eu nunca conseguia acompanha-las no mesmo ritmo porque tinha ideias próprias e pequenos projetos em criação, por isso passava tardes com ele, que me contava sobre a história do nosso povo, sobre os nossos deuses e nossas crenças.

Ele sempre dera tudo de si por todos ali presentes e por aqueles que ainda estavam na barriga das mães, fora mais que uma família para mim, ele era a minha ligação com os deuses, era a minha base de existência. Foi quem me apoiara na minha pequena revolução de divisão de tarefas. E foi isso que me fez aceitar a dor naquela exata noite.

Saio do tumulto e ando até a floresta, para a mesma árvore, me abaixo e cato a pedra, sinto um leve tremor como um choque elétrico passando pelo meu corpo, eu escuto.

Fecho a pedra com força na mão, mas com discrição suficiente a puxo para frente do meu corpo, e então fecho os olhos e me apoio na árvore a frente, estou no navio outra vez, ele está como sempre no começo, o mar está calmo e o céu límpido de um azul brilhante. E então um frio se instala ali, de baixo para cima sobre mim, me sinto despida com aquele clima, e agora sinto o vento em toda parte do meu corpo, o tempo fecha e o mar fica revolto outra vez, e sei que o pirata chegou, ele veio navegar seu navio e preciso me mover de acordo com seu comando.

O navio agora está em águas tenebrosas e sendo assim ele se movimenta para as direções que deseja, respiro fundo e me concentro apenas na dureza e força que ponho na pedra em minhas mãos. Então o mar vai se aquietando até sossegar e o movimento cessar de vez. Tudo se esvai da minha mente e assim que escuto apenas o meu silêncio, abro os olhos outra vez.

Passo um bom tempo olhando a árvore a minha frente, até que se escuta os berros guturais um por um de cada homem que ali vivia, o líder se fora, esse era o recado que diziam, e como se os deuses me confirmassem isso uma tempestade se forma e cai sem demora.

Caio no chão de joelhos como no costume das mulheres, choro até não ser capaz de não enxergar nada na minha frente por conta do borrão na minha visão, deixo que as lágrimas me limpem pela dor que me invadira todas as vezes e a engoli por não ser capaz de não fazer ela ir embora, grito em alto e bom som deixando a chuva me lavar, para que tire toda a minha sujeira e leve fora as minhas impurezas de corpo e alma.

Olho a pedra em minhas mãos, não haveria mais o pirata e seu navio, o clima descontrolado e os movimentos bruscos, aquela havia sido a sua última vez, sorrio apesar de saber que uma tempestade agora se formava em mim. Tudo bem se tornar feroz e lutar pelas coisas que importa.

Notas finais
Digam me,

valeu me arriscar?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.