Comum Acordo
1 1. O Amigo dos Cônjuges
Notas iniciais
Malu
Existem três sinais infalíveis de que um relacionamento terminou de verdade, e eu tinha os três.
Primeiro: eu já tinha mudado o cabelo, um belo corte que o deixou na altura dos meus seios. Segundo: eu já tinha reorganizado a estante de livros, tirando os que ele "emprestou e nunca leu" e jogando numa caixa que eu ia doar assim que juntasse coragem de descer ao térreo. Terceiro, e mais importante: eu já conseguia pensar no nome dele sem sentir vontade de quebrar um prato.
Tecnicamente, eu só precisava do terceiro sinal.
Mas eu sou a pessoa que organiza a vida por listas, então contei os três, riscando cada item com uma caneta vermelha no meu caderno de rascunhos, debaixo de um desenho qualquer que eu tinha feito para um cliente de embalagem de granola.
O Rodrigo não tinha sido um namorado ruim, no sentido clássico. Nunca levantou a mão, nunca gritou, nunca sumiu por dias. O problema do Rodrigo era mais sutil e, de um jeito irritante, mais difícil de explicar para quem perguntava "mas o que ele fez de errado, exatamente?".
Ele tinha uma opinião formada sobre absolutamente tudo na minha vida, e a pior parte é que ele achava que estava me ajudando.
"Você não devia trabalhar como freelancer, Malu, isso não dá estabilidade nenhuma." "Você muda de ideia demais, isso é falta de foco." "Você devia se organizar mais, olha essa sua mesa." "Eu só estou falando isso porque te amo e quero o seu melhor." Um ano e meio ouvindo variações da mesma frase, até a minha identidade inteira passar a soar, na boca dele, como um defeito de fabricação que precisava de conserto urgente.
Enquanto eu regava a minha jibóia, a planta, que já estava quase cobrindo a prateleira inteira da sala, tentei lembrar a última vez que ele tinha elogiado alguma coisa que eu fiz sem colocar um "mas" no final.
"Você tem um talento criativo incrível, Malu, mas falta estrutura. Você não tem um propósito claro."
A frase que ficou martelando na minha cabeça, na última briga, antes de eu finalmente juntar as coisas dele numa sacola e deixar na portaria, foi simples, mas definitiva:
Eu não quero outro homem tentando me explicar quem eu sou.
Dei descarga nisso mentalmente, peguei o estojo de sudoku que ficava na mesinha de cabeceira, sim, eu tenho um estojo de sudoku, como uma senhora de sessenta anos que faz hidroginástica às terças, e não, eu não aceito comentários sobre isso, e me preparei para o jantar do grupo, decidida a não deixar que nenhum resquício daquela relação estragasse a minha noite.
\* \* \*
Morar na Tijuca tinha sido a melhor decisão financeira e emocional da minha vida adulta.
O apartamento era pequeno, o prédio era antigo, a escada rolava um pouco quando chovia muito forte, mas eu tinha uma varanda cheia de vasos, uma vizinhança que conhecia o meu nome, e um preço de aluguel que me permitia viver confortavelmente sem precisar aceitar todo projeto de design medíocre que aparecia na minha caixa de entrada.
Enquanto me arrumava, cantarolando uma música antiga que tocava na Alexa na cozinha, regava as samambaias da sacada e verificava se a terra da orquídea nova, uma phalaenopsis branca que eu tinha comprado para me presentear pelo "aniversário de solteira", como a Helena brincou quando contei, ainda estava úmida o suficiente, me dei conta de que estava genuinamente feliz.
Não aquela felicidade performática de pós-término, mas uma felicidade quieta, de quem finalmente conseguia respirar sem ninguém opinando sobre o ritmo da própria respiração.
O restaurante que a Helena escolheu para o jantar ficava em Botafogo, um lugar pequeno e intimista que ela e o Arthur adoravam desde que começaram a namorar, voltando à mesma mesa de sempre com a cumplicidade de quem construiu uma vida inteira em cima daquela história improvável de secretária e chefe.
Cheguei um pouco atrasada, como sempre, e encontrei o grupo já reunido: a Helena com aquele brilho particular que ela andava carregando ultimamente, o Arthur com a mão protetora nas costas dela, a Lívia rindo de alguma coisa que o Gustavo tinha acabado de falar, e o Marcos, do outro lado da mesa, conversando animadamente com o garçom sobre alguma cerveja artesanal nova.
— Finalmente! — a Helena exclamou, se levantando parcialmente para me abraçar. — Achei que você ia inventar uma desculpa de última hora.
Helena estava linda, como sempre, com os cabelos em um tom mel caindo soltos pelos ombros e aquele sorriso fácil que fazia parecer que ela estava sempre prestes a contar alguma coisa.
Ao lado dela, Arthur parecia exatamente o homem que era: alto, largo nos ombros, sempre impecável mesmo quando tentava parecer casual. Tinha os cabelos loiros penteados para trás, barba curta e aquele olhar sério que costumava intimidar qualquer pessoa que não o conhecesse. Helena, felizmente, conhecia e parecia ser uma das poucas pessoas no mundo capazes de fazê-lo sorrir sem esforço.
— Eu quase inventei — admiti, sentando na cadeira vazia entre a Lívia e a Malu que não existia, porque a única vaga livre, claro, era do outro lado do Marcos. — Mas decidi que merecia uma noite de glamour depois da semana que eu tive.
Lívia estava radiante. Ela tem essa beleza serena e despretensiosa, com os olhos castanhos expressivos e inteligentes de quem passa metade do dia salvando animais na fundação onde trabalha. Os cabelos escuros e ondulados estavam soltos sobre os ombros, e o sorriso verdadeiro que ela ostentava, contrastando com a pose durona de veterinária de emergência que ela costumava vestir no trabalho, deixava claro o quanto ela estava feliz.
O Gustavo sempre teve aquela presença imponente de quem parece ter saído direto do catálogo de uma revista de negócios: alto, de ombros largos, com os cabelos escuros impecavelmente cortados e aqueles olhos verdes profundos que pareciam calcular três passos à frente de todo mundo. Mas ali, com o terno sem gravata e o olhar suave fixo na Lívia, a rigidez corporativa dele simplesmente evaporava.
Eles pareciam o encaixe perfeito entre o controle e a leveza.
— Semana de "terminei com o Rodrigo e finalmente posso respirar"? — a Lívia perguntou, baixinho, apertando a minha mão por baixo da mesa.
— Exatamente essa.
O Marcos ergueu os olhos do cardápio, me olhando pela primeira vez desde que eu tinha chegado, com aquele meio sorriso de quem sempre parecia prestes a soltar uma piada.
— Então o Red Pill finalmente foi derrotado — comentou, erguendo a taça de vinho numa espécie de brinde irônico. — Parabéns, Malu. O mundo é um lugar mais seguro.
— Obrigada pela solidariedade emocional, Marcos.
— Disponha — sorriu pra mim. — É o que eu faço de melhor.
Era sempre assim entre nós dois.
Comentários rápidos, trocados de lado a lado da mesa, nunca ultrapassando a linha de uma proximidade real. Éramos, há quase três anos, exatamente isso: os dois que apareciam juntos porque os cônjuges dos nossos amigos eram amigos entre si, sem nunca termos construído, por conta própria, absolutamente nada além disso.
Eu sabia pouco sobre o Marcos, além do óbvio: corretor de imóveis de luxo, bonito de um jeito que deveria ser ilegal, engraçado o suficiente para prender a atenção de qualquer mesa, e dono de uma reputação, entre as nossas amigas em comum, de homem que conquistava sem esforço e nunca ficava por muito tempo.
Ele sabia, provavelmente, igualmente pouco sobre mim, além de que eu desenhava coisas para viver e tinha uma queda inexplicável por jogos de tabuleiro.
Não me incomodava.
Gostava até da simplicidade daquilo. Ele gostava de rock, eu de MPB. Ele jogava videogame até tarde, eu preferia um bom livro com uma xícara de chá. Éramos, nas palavras exatas que eu tinha usado uma vez para a Lívia, "dois planetas que só se cruzam na órbita dos amigos em comum, e é assim que deve continuar".
Olhei para ele de relance, enquanto pegava o cardápio, reparando, como sempre reparava sem admitir em voz alta, no jeito que a camisa social marcava os ombros dele.
Era um homem bonito. Isso nunca foi segredo para ninguém, muito menos para mim.
De todos nós ali na mesa, ele era, sem dúvidas, o mais carioca. Tinha aquele ar despretensioso e praiano de quem parecia ter acabado de sair de um fim de tarde no Arpoador, mesmo usando uma camisa social com as mangas dobradas até o cotovelo. Alto, moreno, com a pele bronzeada pelo sol do Rio de Janeiro e ombros que marcavam bem o tecido, ele tinha uma beleza sem esforço.
Mas o verdadeiro perigo estava no rosto: um maxilar bem trabalhado e um par de olhos castanhos expressivos, intensos, com um brilho de deboche e charme que parecia arrebatador à primeira vista.
Mas ele nunca olhava de volta. Pelo menos não daquele jeito. E, para ser sincera, era mais fácil assim.
O jantar correu no ritmo gostoso de sempre, entre risadas, histórias repetidas pela milésima vez e o Arthur tentando, sem sucesso, convencer a Helena a dividir uma sobremesa com ele.
— Eu já disse que não divido sobremesa com ninguém, Arthur Harrington. Nem com o homem que eu vou passar o resto da vida ao lado — a Helena rebateu, apontando o garfo para ele. — Isso é um limite saudável de casamento.
— Vamos ver se você mantém esse discurso quando a gravidez bater — o Gustavo provocou, do outro lado da mesa, e a Helena, por um segundo, trocou um olhar rápido com o Arthur, um olhar que eu conhecia bem demais para não entender o que significava.
— Já que você tocou no assunto — o Arthur disse, pousando o garfo e pegando a mão da Helena por cima da mesa, com uma solenidade que imediatamente silenciou toda a mesa — a gente tem uma notícia.
O silêncio durou meio segundo antes da Helena simplesmente não aguentar mais segurar.
— Estou grávida!
A explosão de gritos que se seguiu provavelmente assustou as mesas vizinhas, mas ninguém ali se importou nem um pouco. A Lívia quase derrubou a taça de vinho se levantando para abraçar a amiga, o Gustavo apertou a mão do Arthur com um orgulho visível no rosto, e eu, sinceramente emocionada, levantei para abraçar os dois ao mesmo tempo, sentindo os olhos arderem de um jeito que eu não esperava.
— Eu vou ser madrinha de novo — anunciei, ainda abraçada à Helena. — Isso precisa ser oficializado num contrato. Eu exijo exclusividade de madrinha.
— Você já é madrinha do Téo — a Lívia riu, se juntando ao abraço coletivo. — Vai ter que dividir o título de "madrinha preferida" com muita gente, viu.
Téo era filho da Lívia com um homem que, se dependesse de mim, jamais teria o direito de ser chamado de pai. O sujeito era um lixo e praticamente não fazia parte da vida do próprio filho. Quem estava ali de verdade era Gustavo.
Gustavo ainda não tinha adotado Téo oficialmente, ainda, mas eu tinha poucas dúvidas de que aquilo era apenas uma questão de tempo.
Ele já era pai em tudo que realmente importava.
Era o tipo de pai completamente babão, que dizia não e, cinco minutos depois, aparecia entregando exatamente o que o menino tinha pedido. Téo queria o relógio do avô? Gustavo negociava. Queria ficar acordado mais tarde? Gustavo fingia que não tinha percebido. Queria alguma coisa que não devia? Bom, aí entrava Lívia para lembrar aos dois que crianças precisavam de limites.
— Inaceitável, mas eu aceito o desafio — brinquei.
No meio da comemoração, reparei que o Gustavo tinha ficado estranhamente quieto, olhando para a Lívia com uma expressão que eu também conhecia bem, mas que raramente via nele daquele jeito tão desarmado.
Ele pigarreou, chamando a atenção da mesa de um jeito discreto, mas firme.
— Já que estamos no clima de anúncios — começou, e eu vi a Lívia virar o rosto para ele, confusa — eu também tenho uma coisa para fazer. Faz pouco mais de um ano que a Lívia entrou na minha vida e virou tudo de cabeça para baixo, do melhor jeito possível.
Ele se levantou, contornando a mesa até ficar ao lado dela, e tirou do bolso do paletó uma caixinha de veludo azul-marinho que fez a Lívia cobrir a boca com as duas mãos antes mesmo de ele terminar de se ajoelhar.
— Eu não tenho um discurso ensaiado tão bom quanto os meus relatórios trimestrais — ele disse, e a mesa inteira riu em meio às lágrimas que já começavam a descer pelo rosto da Lívia — mas eu sei, com a mesma certeza que eu já tive sobre qualquer negócio da minha vida, que eu quero você, o Téo, e qualquer caos que vier depois disso, para sempre. Lívia Coimbra, você quer casar comigo?
O restaurante inteiro, incluindo mesas de estranhos que claramente não tinham a menor ideia do que estava acontecendo, começou a aplaudir quando a Lívia, chorando e rindo ao mesmo tempo, disse que sim e o puxou para um beijo que durou segundos a mais do que o socialmente aceitável numa mesa cheia de amigos.
Fiquei ali, parada, assistindo àquela cena linda, caótica, genuína, sentindo uma mistura estranha de felicidade absoluta por elas e uma pontada pequena, quase imperceptível, de alguma coisa que eu não quis nomear direito.
Porque, convenhamos: ali estava a Helena, grávida, construindo uma família com o homem que ela tinha organizado a vida inteira para outra pessoa. Ali estava a Lívia, uma mãe solo que tinha batalhado sozinha por anos, agora noiva do homem mais apaixonado por ela que eu já tinha visto na vida.
As duas tinham chegado a algum lugar. Tinham certeza. Tinham um rumo.
E eu continuava ali, com trinta anos, um apartamento cheio de plantas, um ex "red pill" recém-descartado, e nenhuma ideia do que eu realmente queria da própria vida, além de talvez nunca mais deixar um homem me explicar quem eu era.
\* \* \*
— Você está bem? — a Lívia perguntou, mais tarde, quando a confusão de abraços e brindes já tinha se acalmado e nós duas ficamos um momento sozinhas perto do balcão.
— Estou ótima — respondi, e era quase verdade. — Só meio... sei lá. Vendo vocês duas tão certas do que querem, eu me sinto a única bagunça do grupo.
— Malu, você não é uma bagunça. Você é a pessoa mais interessante que eu conheço.
— "Interessante" é a palavra educada que a gente usa para "não sabe o que está fazendo da vida" — ri, sem muita vontade. — Vocês duas sempre souberam. A Helena sempre soube que queria construir alguma coisa sólida. Você sempre soube que ia proteger o Téo com unhas e dentes, custasse o que custasse. Eu troco de opinião sobre tudo. Até sobre qual fonte usar num logotipo eu já reconsiderei dez vezes.
— Isso não é indecisão, Malu. Isso é criatividade — a Lívia insistiu, apertando o meu braço. — E, de qualquer forma, ninguém sabe de verdade o que está fazendo da vida. A Helena só é boa em fingir confiança. Eu só finjo saber o que estou fazendo há bem menos tempo do que você imagina.
Sorri, genuinamente, sentindo o carinho daquela amizade aquecer um pouco o canto estranho que tinha se instalado no meu peito.
Foi nesse instante que a Helena se aproximou, puxando uma cadeira para perto da gente com aquele brilho malicioso no olhar que eu já conhecia bem demais para confiar.
— Falando em assuntos interessantes — ela começou, direta, sem rodeios — reparei que você passou o jantar inteiro de olho no Marcos.
— Eu não estava de olho no Marcos.
— Malu.
— Eu olhei para ele duas vezes, no máximo, e as duas foram porque ele estava falando alto demais sobre cerveja artesanal.
— Ele é um gato, você sabe disso — a Helena insistiu, dando uma espiada por cima do ombro, na direção da mesa onde o Marcos ria de alguma coisa com o Arthur e o Gustavo. — E vocês dois já se conhecem há anos. Nunca pensou em...
— Não — cortei, antes que ela terminasse a frase. — E antes que você continue, não, eu não tenho interesse romântico no Marcos. Ele é engraçado, é bonito, eu reconheço, mas ele é exatamente o tipo de homem que faz você rir até você perceber que está na cama dele sem entender como chegou ali. E, mesmo que não fosse esse o caso... ele é parte do grupo, Helena. Se der errado, eu tenho que encarar ele para sempre, em todo churrasco, todo aniversário, todo chá de bebê. Não, obrigada. Prefiro manter a distância segura.
A Lívia trocou um olhar rápido com a Helena, o tipo de olhar que eu reconhecia como prenúncio de problema, mas nenhuma das duas insistiu mais no assunto, o que, vindo delas, já devia ter me deixado desconfiada.
Olhei, de relance, mais uma vez, para a mesa onde o Marcos estava. E, pela primeira vez naquela noite, encontrei os olhos dele já fixos em mim, como se ele tivesse acabado de desviar o próprio olhar bem a tempo de eu não perceber.
Desviei também, rápido, fingindo um interesse repentino pelo cardápio de drinques que estava em cima do balcão.
Dois planetas que só se cruzam na órbita dos amigos em comum, repeti para mim mesma, como um mantra. E é assim que deve continuar.
O nosso grupo tinha começado de um jeito pouco provável.
Helena conhecia Arthur havia anos, desde a época em que trabalhava para ele. A história dos dois tinha começado no lugar mais improvável possível — entre uma chefe, um funcionário e uma quantidade considerável de coisas que nenhum dos dois deveria ter sentido — e, de alguma maneira, tinha terminado em casamento, uma casa juntos e, agora, um bebê a caminho.
Lívia conheceu Gustavo por causa de uma das ações beneficentes que Arthur organizava. Os dois também começaram com uma história que deveria ser simples, temporária e muito bem delimitada. Só que Gustavo nunca foi particularmente bom em seguir os próprios planos quando se tratava dela. Um ano depois, estavam noivos, criando Téo juntos e construindo uma família que ninguém, provavelmente nem eles, tinha planejado daquela maneira.
Eu e Marcos éramos os últimos elos dessa corrente.
Amigos dos amigos. Convidados para os mesmos jantares, aniversários, churrascos e comemorações. No começo, eu aparecia porque a Helena tinha me chamado, ele porque o Arthur tinha chamado. Depois, passamos a aparecer porque todo mundo estaria lá.
E, em algum momento, deixamos de precisar de uma desculpa.
Não éramos seis melhores amigos de infância, daqueles que sabem o nome do primeiro animal de estimação uns dos outros ou guardam fotografias constrangedoras da adolescência. Éramos uma coleção improvável de pessoas que tinham chegado à mesma mesa por caminhos completamente diferentes e, por algum motivo, funcionavam muito bem quando estavam juntas.
E talvez fosse justamente por isso que eu gostasse tanto deles.
Ninguém ali precisava ser igual.
Helena e Arthur eram o casal que parecia ter nascido para construir uma família.
Gustavo e Lívia tinham transformado um acordo temporário em uma vida inteira.
E eu e Marcos...
Bem.
Nós éramos os dois que apareciam juntos porque os nossos amigos eram casados entre si.
Era uma relação perfeitamente funcional.
Ele gostava de rock. Eu, de MPB.
Ele jogava videogame. Eu resolvia sudoku.
Ele podia passar uma noite inteira falando de carros, imóveis e alguma missão absurda de um jogo que eu não entendia. Eu conseguia passar o mesmo tempo discutindo um livro que ele provavelmente não teria paciência para terminar.
Ele era aventureiro. Eu gostava de ficar em casa com uma xícara de chá e uma planta nova para cuidar.
Não tínhamos praticamente nada em comum.
E, ainda assim, nunca tivemos motivo para não gostar um do outro.
Nós nos dávamos bem.
Só não tínhamos absolutamente nenhum motivo para nos darmos bem demais.
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