Computer Girl Bia

2 Pequenas explicações!


Estava chovendo na cidade. Sabe como é, época de inverno. Estava levando Bia de carro para almoçar. Emprestei algumas de minhas roupas para ela (Afinal ela não poderia sair com aquela coisa estranha que ela estava vestindo!), e era incrível como ela conseguiu ficar linda mesmo com roupas masculinas! Dei para ela um short, uma camiseta com uma estampa simples e um tênis. Na verdade o tênis ficou até folgado, e as roupas um pouco grandes demais, mas ao invés de ser engraçado isso só a deixava mais fofa! Ela estava sentada ao meu lado, no banco do passageiro. Não pude deixar de reparar nas suas pernas... "Opa, Rafael... Não fique pensando em uma coisa dessas!" Nossa, será que ela não tinha nenhum defeito? Me controlei, para não deixar transparecer o meu óbvio deslumbramento pela minha inesperada companhia!

Ela parecia estar feliz. Estava bastante sorridente, e estava escutando músicas com o meu WalkMan. De vez em quando ela cantava uma parte, ou outra da música, e eu percebia como ela cantava bem. (Ou talvez nem tanto, mas eu estava em um estado "babaca" demais para conseguir julgar qualquer coisa com um mínimo de imparcialidade!) Enquanto dirigia para a lanchonete, lembrei da conversa que tínhamos tido alguns minutos atrás:


(Rafa) — Computer Girl?

(Bia) — É... Garota de computador. Bom, como eu posso explicar isso?


Então ela ficou com um olhar preocupado, olhando em volta como se procurasse a resposta pelos objetos jogados em meu quarto. Então ela andou até a cama, se sentou.


(Bia) — Digamos que sou alguém que aparece para ajudar as pessoas que precisam. Só que em vez de tocar a campainha e entrar pela porta, eu entro pelo computador.


Dizendo isso, ela sorriu novamente. E eu simplesmente olhava para ela como quem está olhando para um extraterrestre sem acreditar no que está vendo. Tentei dizer alguma coisa, mas simplesmente não sabia o que, e a voz não saiu. Então ela continuou a falar.


(Bia) — Bom Rafa, você está vendo a janela que abriu no seu computador?

(Rafa) — Está falando dessa aqui?

(Bia) — Aham! Ela é o meu programa. Digamos que eu estou sendo executada em seu computador, como qualquer aplicativo. Então, se acontecer qualquer coisa com ele... Se você desligar, se ele travar... Bom, aí eu vou junto!


"Quer dizer que se o computador travar... Ela vai sumir? Opa, espera, o que eu estou pensando? Quase acreditei em uma coisa dessas! E por acaso ela está achando que eu sou idiota?" Mas Bia, que parecia estar adivinhando os meus pensamentos, antes mesmo que eu pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, foi em direção ao computador.


(Bia) — Olhe isso aqui.


Ao dizer isso, ela foi com o braço em direção a tela e... Meu Deus! O braço dela entrou no monitor! Eu não conseguia acreditar no que estava vendo! Instintivamente, recuei, assustado com o que via. Mas ela me acalmou.


(Bia) — Calma Rafa... Eu já disse... Eu estou aqui por sua causa. Não precisa ficar assustado viu?


Dizendo isso, ela sorriu. E incrível, eu me senti mais calmo! Por algum motivo, simplesmente ouvir a voz dela era reconfortante. "Eu não sei como eu consigo ficar calmo com uma coisa dessas. Mas... Epa! Ela já falou meu apelido umas três vezes, e eu nem disse o meu nome para ela!" Então lembrei do que ela havia acabado de fazer. "Hum, porque estou surpreso? Para uma garota que consegue entrar no monitor, até que saber o nome de alguém não é algo tão surpreendente."

Logo após isso, acabamos decidindo sair para almoçar. A minha despensa estava vazia, nunca fui muito bom em cozinhar. E não estava com vontade de pedir comida por telefone, afinal depois eu teria que arrumar tudo o que eu espalhasse. E já bastava o meu quarto.

Perdido nessas lembranças dos últimos minutos, percebo que Bia estava me chamando.


(Bia) — Rafa, para onde nós estamos indo mesmo?

(Rafa) — Ah, é para uma lanchonete que tem aqui perto. Eu costumo almoçar lá.

(Bia) — Então você sempre almoça em lanchonetes?

(Rafa) — Normalmente. É prático. Não preciso arrumar nada depois. Eu nunca fui um cara organizado. Por isso evito fazer bagunça lá em casa, sei que não vou ter saco pra arrumar depois.


Nisso, eu me toquei de uma coisa. "O que é isso? Eu não costumo falar de mim. Ainda mais espontaneamente, com uma pessoa que mal conheço! Mas com ela, por algum motivo eu não consigo evitar! Ela parece ser tão confiável! Que coisa estranha."


(Bia) — Se eu te pedir um favor, você faz pra mim?

(Rafa) — Que favor?

(Bia) — Apenas diga que faz... Por favor, você faz pra mim?


Nisso ela me olhava com um olhar de esperança... "Droga, o que essa menina tem? Esse olhar dela... Eu não consigo negar! Que droga, eu sou mesmo lerdo. Não sei dizer não para uma garota. Que coisa deprimente."


(Rafa) — ...Tá bom, prometo. Agora o que é?

(Bia) — É segredo! Depois eu te conto.


Nisso, chegamos na lanchonete. Entramos, e nos sentamos em uma das mesas. Estava praticamente vazia, provavelmente por causa da chuva. Perguntei para Bia o que ela ia querer. Ela pediu apenas uma batata pequena, e um suco de laranja. "Pensando bem, será que essas Computer Girls precisam mesmo comer? E como é que eu estou me sentido tão calmo após um acontecimento tão absurdo? Bom, de qualquer forma..." Fiz o meu pedido (menos modesto que o dela), e indiquei a mesa em que eu estava. Depois voltei, para me sentar com ela.


(Rafa) — Bia, sabe, eu queria saber...

(Bia) — Mais sobre o que eu sou, não é? Eu entendo. Deve mesmo ser estranho saber que uma garota saiu de dentro do seu computador não é? Nenhuma "realidade virtual" que pudesse ser feita com a capacidade de processamento dos computadores atuais seria tão perfeita, especialmente ao ponto de fazer algo sair do computador, não é isso que você pensou?


"E põe perfeita nisso..." Mais uma vez, lá estava eu pensando em bobagens. Ela sorriu, como de costume, e continuou.


(Bia) — Bom, como eu já te disse, eu sou uma Computer Girl. Fui criada com o objetivo de ajudar as pessoas. Você estava passeando na NET, e de alguma forma, me encontrou. Provavelmente foi guiado para isso. Você baixou o meu arquivo, executou, e agora eu estou aqui.

(Rafa) — Mas quem criou você?

(Bia) — Ah, ele se chama Master Programmer. Pelo menos é como ele diz para chamá-lo. Ele é uma pessoa bem simpática! Mesmo que eu nunca tenha visto ele pessoalmente.

(Rafa) — Mas como é possível que... Você sabe... Você esteja aqui? Que ele crie uma pessoa?

(Bia) — Eu já disse que não sou uma pessoa né Rafa? Ao menos não se você pensa em uma pessoa como alguém que nasce e cresce como todo mundo. E isso, seria muito difícil de explicar... Bom, você conseguiria explicar para uma criança pequena como um computador funciona? Ou fazer ela entender o quanto a Terra é pequenininha comparada com tudo que existe? Não, né? É o mesmo caso aqui! Não que você seja uma criança... Mas são coisas que não tem como explicar sem que você conheça algumas outras coisas antes. Além do que, o vocabulário que vocês humanos usam é muito simples... Não tem palavras para representar certos significados, e certas idéias necessárias para te explicar isso direitinho.


Nisso, o lanche chegou. "É incrível como até o jeito dela comer é lindo! Me sinto um idiota, cada vez mais, pensando essas coisas; mas o que posso fazer? É a mais pura verdade."Bom, eu já havia desistido de entender como é possível a existência dela, mas mesmo assim estava curioso sobre tudo, queria mais detalhes.


(Rafa) — E você é única? Ou existem mais?

(Bia) — Bom... *Terminando de tomar o seu suco* Existem outras. Contando comigo, ao todo são dez. Assim como eu sou uma versão para Windows, existem versões para cada sistema operacional. É um problema né? Odeio esses probleminhas de compatibilidade. Bom, mas em funcionamento, existem apenas três. Eu, uma outra, e uma que funciona para Linux. Opa, quer dizer, essa última agora não está mais disponível...

(Rafa) — Como assim?

(Bia) — Ah, nada, nada! *Sorrindo como sempre*


Achei um pouco estranho, ao falar disso ela parecia estar pensando em algo... Distante. Como que se estivesse rindo sozinha. Perdida em seus pensamentos.


(Rafa) — E Bia... Por que eu? E não qualquer outra pessoa?

(Bia) — Digamos...


Nisso ela me olhou profundamente... Me senti inquieto com o olhar dela.


(Bia) — ...Bom, deixe, outro dia eu te conto.

(Rafa) — Hãn? Que? Por que???

(Bia) — Não, não! Nada de perguntas! *Apontando para minha comida* E é bom você comer antes que esfrie!


Enquanto eu comia, conversamos sobre vários assuntos. Sobre meus passatempos, músicas, cinema, comida... Enfim, praticamente sobre tudo! Ela parecia interessada em qualquer opinião minha. E embora eu nunca fosse de falar de mim, com ela, eu o fazia com imensa facilidade. O tempo passou, e quando vi, já passava das duas horas. Decidi que devia voltar para casa. No caminho de volta, ela resolveu cobrar o seu favor.


(Bia) — Você prometeu, lembra?

(Rafa) — Tá bom, e o que você quer?

(Bia) — Que você passe ali!


Vi que ela estava apontando para um supermercado. Não teve jeito. Ela comprou todo o tipo de comida para a minha despensa. Comida para mais de dois meses eu pensei! "E lá vai meu dinheirinho..." Depois disso, nós voltamos para casa. Ela disse que a partir de agora, ela é quem ia cuidar das refeições para mim, até que eu pudesse arranjar alguém para fazer isso.


(Bia) — Se você ficar comento porcaria o tempo todo, vai acabar doente ou ficando gordo!


E por algum motivo, eu me senti profundamente incomodado com a idéia de ganhar peso. Não que eu me importasse muito com isso, na verdade nunca liguei muito para a minha aparência. Mas por algum motivo que eu não sabia explicar, quando ela me disse aquilo eu imediatamente senti que não queria que isso acontecesse. E além do mais, faz tempo que não comia uma comida "caseira", já que a diarista só fazia arrumar a casa.


Não tenho do que reclamar.