Complicated (Smell of Sex)
5 I Miss You, I Miss You
Notas iniciais

27 de Agosto de 2014, 08hrs59min a.m — Malibu, Malibu High School — Segunda-Feira.
"Dorme, dorme menininha
eu estou aqui
vá sonhar
ainda é tempo, menininha
vá, vá dormir
Sonha sonhos cor de rosa
passeia no céu e no mar
apanha o mundo
no teu sonho, menininha
e não deixa ninguém roubar
Olha, não reparta com ninguém
os teus sonhos de menina
dorme, dorme
dorme e sonha menininha
sonha, é tempo ainda."
Instabilidade, a palavra perfeita para definir o clima em Malibu.
O calor antes devasso mudou repentinamente trazendo consigo um frio horrendo e desconhecido pelos Californianos. As pessoas, geralmente, atribuíam os dias nublados e tempestuosos a dor e perda. Um céu escuro e pesado refletindo a aura daqueles que sofrem. Porém, não para mim, desde pequena eu sempre admirei o cinza escuro que domava os céus em dias chuvosos, observava da varanda os pingos d'água escorrendo pela calha e desaguando num canto qualquer. Era perfeito.
Da janela, eu observava enquanto a aula de artes, que por algum incidente estranho tomou-se por um rumo filosófico, ocorria. O professor Beegles acariciava sua pequena barba de rabino mal-feita e explicava algo como felicidade ou algo do tipo, mas eu estava com chances nulas de prestar atenção em qualquer palavra que ele falava, meus pensamentos estavam findados e encarcerados no loiro de olhos penetrantes. Ashton é uma mistura infindável de personalidades e problemas, e eu me considerei apta para desvendá-lo, ele me instigou a descobrir mais sobre o mesmo; por mais errado que possa parecer.
— O que acha, Brooke? — os olhos negros direcionados a mim, que estava vidrada nos respingos de água que deslizavam calmamente pelo vidro, expressavam certamente desgosto de ver que eu provavelmente não aproveitara nem um terço da aula.
— Como?
— O que é a felicidade para você? — todos me encaravam, mas meus olhos estavam vidrados nos negros do professor.
O que é a felicidade para mim?
Muitos provavelmente diriam que seria algo material ou que levariam para sempre consigo, porém, para mim era o meu pai. Queria poder tê-lo envolto em um último abraço que perdurasse décadas e mesmo assim não acabasse, queria ouvi-lo uma última vez recitar trechos de escritores clássicos e filósofos, queria que o meu pai estivesse aqui para abraçar-me até que meu sono voltasse. Queria que o meu pai não fosse o motivo de meus pesadelos.
Toda noite, eu acordo por conta dos pesadelos quais se passam no avião onde o meu pai estava, e quando tudo acontece eu não posso me mover, mesmo que eu faça o máximo de força para me locomover, apenas vejo o avião descendo rapidamente com aquele barulho irritante e acordo, suando e, às vezes, chorando.
— E então?
— Realização pessoal. — eu fui breve e curta, era uma resposta com muitos significados, mas apenas uma definição concreta: eu queria o meu pai de volta, algo que eu não poderia ter.
— Certo, mas não acha essa resposta um pouco vaga? Qual seria a sua realização pessoal? — com uma expressão sábia e pensativa, o "rabino" continuava acariciando sua barba espessa e escura.
— Desculpe, mas acredito que eu disse "pessoal". — algumas vaias foram iniciadas, logo silenciadas pelo gesto do professor.
— Tudo bem, me desculpe a evasão, mas se por algum acaso conseguir realizar esta "realização pessoal" estará completamente satisfeita?
— Acredito que o ser humano nunca estará cem por cento realizado. De acordo, com tudo sempre faltará algo. Precisamos de algo para nos "movermos", sabe? Geralmente estes sonhos que temos têm prazo de validade. Nós sempre vamos querer mais, essa é a questão.
— Certo.
Olhares perplexos e curiosos, "O que houve com a até então muda da sala?", era o que, com certeza, os meus colegas de classe se perguntavam, por mais que eu estivesse há poucos dias na nova escola, todos sabiam que eu era a "Daniels calada". Cassy sorria para mim, como se passasse proteção.
— Bom, já que temos um tempo restante quero que expressem por um desenho o que é a felicidade para vocês. Me entreguem até o final de nossa aula. — um breve olhar entre o professor e eu, e logo a tinta preta já escorregava pela folha limpa, revelando a cada novo traço o rosto de um homem por volta de seus 40 anos, com um sorriso um tanto quanto simpático e rugas que delineavam seu rosto bonito. Os cabelos bagunçados e negros como o de Jack, eu idolatrava o meu pai e isso podia ser notado a milhas de distância. O sino soou e o meu trabalho já estava finalizado, nomeado como 'Jacob', e entregue nas mãos do professor que admirava cada linha, parecendo encantado com a minha técnica.
— Ficou divino, Brooke. Não esperava menos de você, parabéns! — assenti, indo em direção ao meu armário.
There will be love, there will be pain, there will be hope, there will be fear and, through it all year after year, stand or fall I will be right here for you.
{♡}
— Chocolate quente, srta. Daniels? — os cabelos escuros de Jack apareceram no parapeito da porta branca, meus olhos castanhos se chocaram com os azuis esverdeados, ambos intensos. Um sorriso bobo brotava levemente no canto dos lábios de Jack, enquanto eu permanecia quieta e deitada, com um livro em mãos e olhando pra cara de paspalho do meu 'irmãozão'. — Vamos lá, temos a casa exclusivamente para nós. Vamos aproveitar enquanto mamãe está na Itália. Podemos madrugar e faltar amanhã, se você quiser, disseram que essa semana e as seguintes trarão um índice estranho de chuvas aqui para Malibu. Eu não dou a mínima em perder algumas aulinhas, afinal, sei me safar quando necessário.
O clima estava frio mesmo, o vento lá fora estava bem forte e alguns raios podiam ser visto no horizonte. Particularmente, eu gosto do tempo isso, por isso até deixei a porta de vido do meu quarto aberta. O vento é tão gostoso.
— Exato, Jackie, você sabe e eu não, idiota. — Jack rolou os olhos, dando a língua. Voltei a ler o meu livro e ouvi ele cutucando a minha porta.
— Vamos lá, ou você prefere ter a companhia da Bloo Bloo* aqui com você? Cuidado quando for olhar o espelho. — meu irmão sorriu maligno, balançando seus ombros em uma dancinha esquisita.
— Vá se ferrar, Jack. — eu encarei Jack indignada. Chantagens, é sério?
— Olha 'tô indo embora, hein, vou te deixar aqui sozinha. Não olha lá pra fora, hein. — a porta foi levemente encostada e logo eu abandonei o meu livro na cama, fechei tudo no meu quarto e corri atrás de Jack, alcançando-o e desferindo tapas nele, tentando agarrar o seu pescoço numa tentativa frustrada de "matá-lo".
— Chato, idiota, besta. — Jack sabia que eu morria de medo das tão famosas "lendas urbanas", e usava isto contra mim. Só pode ser muito idiota.
— Melhor irmão do mundo seria o correto. Saía de cima, saco de batatas. E então, topa curtir algumas temporadas de Supernatural com o cara mais gato do universo? — eu dei um sorriso de lado e respondi:
— Mas é claro, bocó. — Jackie passou seu braço pelo meu ombro e puxou-me em direção a cozinha, dizendo que eu faria o brigadeiro, enquanto ele cuidava da pipoca e balas de alcaçuz.
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