Completo

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Como tinha dito na Pormenores eu vou estar postando a parte os pedidos que ficarem maiores da proposta de lá (que seria no máximo 500 palavras). Eu marquei comédia, mas isso é mais pro final e nem tanto assim. q

Osomatsu chamava a atenção de quem colocasse os olhos nele. Tinha um carisma próprio, que poderia fazer com que as pessoas ficassem confortáveis ao seu redor. Isso porque era um rapaz desleixado com muitos vícios, nem um pouco assustador. De vez em quando, podia sim se irritar, só que não passava de um certo limite. Provocava, porém, era raro que quando recebesse uma provocação de volta se ferisse com isso.

Afinal, o primeiro irmão tinha uma autoconsciência tão amassada e pequena que era fácil ser esquecida pelo dono. Preocupava-se com o próprio bem-estar, claro. Pelo menos, o suficiente para que ainda estivesse vivo. Contudo, nas situações mais inusitadas poderia ficar doente. Na maioria das vezes, porque parava para pensar em muitas coisas que ocultava no fundo de seu ser, de forma que quando esses temas vinham a superfície ferimentos ocorriam.

Era um sangramento interno que nem mesmo a própria pessoa que sofria ficava sabendo disso. Ao menos, até que chegasse a um estado preocupante. Ichimatsu era diferente de Osomatsu, pois o quarto irmão tinha as feridas abertas para que todos pudessem ver e, apesar de dizer o contrário, acreditava que essas feridas se curariam com o tempo com a ajuda de suas pessoas queridas.

Tão diferente era de Osomatsu, porque o primeiro irmão, mesmo que corresse risco de vida, fingiria que as feridas não estavam ali, uma vez que também não queria que alguém as tocasse. Quando isso acontecia, duas reações eram prováveis. Com a sorte que tinha, não foi difícil para Ichi saber qual das reações conseguiria: recebeu um cafuné nos cabelos já bagunçados e um sorriso forçado de Oso. Para qualquer um dos irmãos, aquilo poderia ser considerado uma sorte.

No entanto, isso só fez com que algo dentro dele se quebrasse mais. Se o coração de Osomatsu poderia ser comparado a uma planta a qual ocasionalmente seu dono arrancava mais e mais suas folhas e raízes para fora, Ichi tinha um coração de vidro que se embaçava com as dores que lhe eram refletidas.

Ichi sabia que não era o seu papel alcançar aquelas feridas. Tinha uma suposição de quem era o Matsu certo para isso, e o palpite se confirmou quando Kara parou o primeiro irmão antes que o humor de Osomatsu ultrapassasse ainda mais os limites. Quanto a Jyushi, tinha o de melhorar a atmosfera quando Oso não se ocupava disso. Ichi já tinha tentado isso também, e tinha dado certo por um momento naquele dia difícil, só que sabia que tampouco era esse o seu papel.

Todomatsu e Choromatsu eram aqueles que no cotidiano se encarregariam de trazer os irmãos a razão quando necessário. Então, Ichi se perguntava, qual era o papel dele naquela casa?

De alguma forma, tudo havia voltado a ser como antes. Contudo, aquela pergunta continuava sem resposta. Oso voltava de mais uma ida ao pachinko. Ichi sentiu os olhos do primeiro irmão sobre ele. Entretanto, continuou concentrado nas poesias depreciativas que estava compondo. Ouviu os passos de Osomatsu cada vez mais perto.

— Ichimatsu. — Osomatsu disse em um tom animado. — Por que não sai um pouco? Vai mofar se ficar o dia todo aqui.

—... tudo bem. Me acompanha? — Ichi disse com algum desconforto, pois não era aquele que convidava as pessoas.

— Claro. — Oso disse, esfregando o dedo indicador debaixo do nariz. — Eu adoraria!

Foram alimentar os gatos, uma vez que era uma das poucas coisas que Ichi gostava de fazer do lado de fora. Quando não estava deprimido, Osomatsu tinha toda a energia que Ichimatsu não poderia ter, ainda que o primeiro irmão pudesse dizer o contrário. Oso nomeava os gatos que encontravam na rua com o nome de cavalos de corrida, às vezes o mesmo gato com vários, já que não sabia a diferença entre eles.

Ichi não avisava o irmão dos enganos, uma vez que a voz alegre do outro fazia com que o incomodo que podia sentir pelos seus amigos gatos fosse secundário a vontade que tinha de sorrir um pouco. Constrangeu-se quando Osomatsu parou de conversar com o gatinho que tinha nas mãos para encará-lo com um olhar neutro.

— O que foi? — Ichi gaguejou com o rosto se avermelhando.

Oso voltou a olhar para o gatinho e disse em um tom incerto:

— Ah, nada. É só... como eu digo... você fica bem fofo quando quer, Ichimatsu.

Ichimatsu arqueou a sobrancelha, mais estranhado que qualquer outra coisa, porque, nossa, aquilo não lhe tinha feito nenhum sentido. Era como se tivessem dito a ele que Jyushimatsu de repente tivesse se tornado um fanático por tênis e Todomatsu tivesse saído para uma festa com roupas tão dolorosas quanto as de Karamatsu.

— Digo... não importa mesmo! — Osomatsu disse nervoso. — Vamos voltar... ah, é mesmo! Eu ainda não terminei de conversar com o Matsukiiro!

—... não é como se não pudesse fazer isso outro dia, esse pequeno sempre aparece por aqui. — Ichimatsu disse em um tom cuidadoso, porque o “fofo” ainda lhe causava arrepios.

— Sério...? Que sorte a minha. — Oso disse, esfregando o dedo embaixo do nariz, como se nada tivesse acontecido.

Os irmãos saíram do beco em que se encontravam. Já era o começo da noite e não tinham avisado a ninguém para onde iriam. Talvez se preocupassem... claro que não. Afinal, tudo tinha voltado a ser o que era depois do último campeonato de beisebol. Ou era o que Ichi queria imaginar, pois, se pensasse bem, ele não era o mesmo.

Tinha uma simples pergunta sem resposta. Todavia, tinha receio a questionar qualquer um de seus irmãos, porque, dessa forma, teriam de lembrar. E fazia tão pouco tempo que aquele incidente tinha acontecido para sequer cogitar algo dessa natureza. No entanto, Osomatsu era tudo menos conveniente, e é claro que tinha que ser o primeiro a tocar no assunto.

Diferente do que Oso havia proposto de início, estavam os dois nos balanços do parque em que iam quando eram mais jovens. Ichi usava o balanço mais como assento enquanto Oso balançava o dele a uma relativa velocidade até deixá-lo parado como o do quarto irmão, minutos depois. Dessa forma, disse com um sorriso divertido:

— Mas, sério, que sorte a minha. Poder vir aqui contigo, ou ir pescar com o Karamatsu, ou jogar beisebol com Jyushimatsu ou só perturbar o Choromatsu e o Todomatsu. — Oso, então, acabou por expressar um sorriso com um pouco mais de amargura. — Apesar de eu estar causando problemas para os meus irmãos mais novos mais uma vez. Esse provavelmente era um final que ninguém queria, não acha? Voltamos à estaca zero, depois de tudo.

Ichimatsu ficou surpreso que, de todos os irmãos, Osomatsu estava se expondo para ele. Isso não lhe fazia o menor sentido quando o outro havia lhe distanciado daquela vez. Também, quem diria seus problemas a alguém que claramente tinha os seus próprios? Contudo, Ichi não reclamaria nem um pouco por isso. Devia ser por aquela reação de antes, ainda que lhe fosse um mistério as razões para Osomatsu ter dito aquilo.

Era como se um sonho seu estivesse se realizando, uma vez que nunca lhe apreciou aquela preocupação do outro em parecer forte na frente dele. Não apreciava isso em nenhum de seus irmãos, na verdade. Ichimatsu não era o único com problemas. Jyushi tinha tanto problema em se relacionar com as demais pessoas como Ichi, a questão era que o quinto irmão escondia isso muito bem.

Karamatsu tinha problemas de se fazer entender. Por vezes, o segundo irmão podia ignorar. Por vezes, isso podia gerar uma crise de choro quando achava que ninguém estava vendo. Todomatsu, apesar de tentar como podia, ainda tinha um lado fraco que poderia torna-lo vulnerável a qualquer um com más intenções. Choromatsu não era o mesmo quando não ia atrás de empregos, era como se uma parte dele estivesse perdida em algum lugar.

Osomatsu também não era o mesmo. Ichi via raízes e mais raízes saindo do peito dele outra vez. Mais transparente do que nunca.

— Por isso, já que “voltamos ao que éramos”, Ichimatsu... acho que você devia sorrir mais vezes.

Ichimatsu arqueou a sobrancelha mais uma vez aquele dia, porque não detectava nenhum tom de brincadeira naquele elogio, bem como o primeiro.

— Ele é estranho e tudo, e acho que é forçar muito ter que pedir isso, mas meio que me acalma, sabe? Como se tudo fosse ficar bem. — Osomatsu disse com um sorriso contente. — Por isso disse que queria ver mais vezes... talvez eu pudesse ser salvo? Não sei, não estou fazendo nenhum sentido, não é? Não é desagradável?

— É desagradável. — Ichimatsu concordou, sorrindo de canto, sem olhar diretamente para Oso. — E eu não vou prometer nada, mas não me importo... não me importo de fazer algum esforço. Pelo menos, porque você pediu, Osomatsu-nii-san.

Foi ali que os papéis se inverteram e foi Osomatsu que não entendeu nada, porque seu rosto estava se avermelhando pelo que Ichi havia lhe dito. Forçou as pernas para que acompanhasse o quarto irmão, que decidiu voltar para casa, de verdade, dessa vez. Ichi, ainda que tivesse sido alcançado, não disse mais nada por um bom tempo. Até que Oso sentiu o dedo mindinho do seu irmão se entrelaçar com o seu de forma discreta.

Osomatsu questionaria aquela ação se Ichi não tivesse colocado o dedo indicador sobre os próprios lábios, um sorriso travesso no rosto, para que ficasse quieto. Depois disso, um sorriso mais espontâneo se desenhou no rosto de Ichi, talvez o mais bonito que Oso tinha presenciado aquele dia, um que não lhe daria outra escapatória a não ser se apaixonar de vez.

Ichimatsu só estava muito contente, porque enfim tinha achado o papel que teria de desempenhar, apesar de lhe parecer um dos mais difíceis. Entretanto, não era mau poder se sentir completo de vez em quando.

Quando chegavam perto do lar, Ichi ficou tenso de repente, uma vez que foram avistados por Jyushi, que balançou as mãos bem alto como se quisesse alcançar os céus, e gritou:

— Ichimatsu-nii-san, Osomatsu-nii-san, bem-vindos!

Ichimatsu, que ia um pouco na frente de Oso, acabou por frear bruscamente sua caminhada, trazendo as mãos para perto do corpo em sinal de rendição, enquanto a súbita retraída de Ichi fez com que Oso fosse jogado para frente, caindo de cara no solo. Ainda tinham muito caminho pela frente.

Notas finais
Nos vemos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!