Completa-me
27 Capítulo XXVII
Notas iniciais
— Você é cega?
Levine balançou a cabeça em concordância e eu finalmente entendi a estranheza no seu jeito de olhar. Era porque ela não conseguia ver, apesar de seus olhos desprovidos de cor não nos deixar perceber.
— É uma espécie de... piada irônica do destino. Perdi a visão quando era mais jovem, mas meu dom me ajuda a andar sem eu precisar me apoiar ou tropeçar em cada objeto no caminho – ela sorriu – Nem parece que sou cega, na verdade e, ainda assim, sempre tem alguém ao meu redor. Não é, Juno?
Juno assentiu – Temos que cuidar de você, já que cuida tão bem de nós. É uma questão de retribuição. E, se você se for, quem lerá as cartas para mim?
Elas riram juntas, sendo aquela obviamente uma piada interna. O rosto pequeno de Levine perdia aos poucos a tonalidade vermelha, me indicando que ela já parecia estar mais à vontade conosco. Estranhei a sensação de alívio que aquilo me trouxe. Notei como seu rosto alvo parecia delicado e jovem, com a aparência de uma menina que acabou de descobrir a vida. A única coisa que lhe trazia cor na face era os lábios finos e bem desenhados, apresentando um tom de vermelho escuro. Respirei fundo ao compreender que estava prestando atenção demais àquela moça, mesmo que não me fizesse parar de percebê-la, o que fez meu corte no peito doer.
— Bem, minha jovem, vejo em seu futuro uma grande responsabilidade: preparar algo para mim porque eu não como nada desde o café da manhã.
— Que você nem terminou porque o trem deles bateu na pedra – terminou Juno, que se virou para nós – Eu sinto muito mesmo por aquilo.
— Não foi culpa sua – acalentou Adam.
Juno fez uma careta como se discordasse daquilo – Na verdade, foi, sim, culpa minha, mas...
— Mas nós explicaremos isso depois – cortou-a Levine – Agora, nós vamos conversar sobre o que vocês vieram fazer aqui – ela apontou para nós. Juno fitou-a e concordou, já caminhando para fora do quarto.
— Vou deixar seu almoço na cozinha – e saiu.
Levine andou até a beira da maca onde eu estava e encostou-se ali – O que vieram fazer aqui ainda não está claro para mim. Mesmo eu já tendo uma noção, eu não tenho certeza, então quero que me expliquem.
— Viemos aqui porque Castle quer que vocês se mudem para o Setor 45. Ele disse que vocês já foram atacados por antigos soldados do Restabelecimento e quer proteger vocês.
— Eu entendo. Depois do que Castle passou com o Ponto Ômega, entendo que ele queira nos proteger, mas é preciso convencer primeiro essas pessoas de que vocês não são uma ameaça.
— Como sabe sobre o Ponto Ômega?
— Faz parte da sua história, Kenji. Foi sua casa por muitos anos. Castle era o líder. Eu vi que houve uma batalha e você perdeu muitos amigos – respondeu de forma simples.
— Mas eles confiam em você – apontou Adam – Eles vão te seguir aonde for.
— Não é assim. Apesar de eles confiarem em mim, eles ainda têm sua própria opinião a respeito das coisas. Nem todos gostam de visitantes desconhecidos por aqui.
— Você viu que não faríamos mal a vocês.
— É, mas eles não viram. Como eu disse, eles não têm a certeza que eu tenho das coisas. Eu sei em quem posso ou não confiar. Quero dizer, agora eu sei, mas eles ainda se sentem frágeis e desprotegidos quando estranhos chegam por aqui. Não posso forçá-los a acreditar no que dizem. É preciso que vocês façam isso.
— Como?
— Eu não sei, mas encontraremos um jeito. Vamos dar tempo ao tempo. E quanto a ir embora daqui... eu não sei se será uma boa ideia. Esse lugar tem sido a nossa casa por tantos anos... um refúgio seguro. Deixá-lo vai ser difícil, até mesmo para mim. Mas, se essa for a melhor opção...
— É a melhor opção – optei – São alvos fáceis aqui. Não há uma segurança garantida e, mesmo que preveja os ataques, perderiam tudo o que construíram. Nós vamos tentar ganhar a confiança dessas pessoas, mas você terá que nós ajudar.
Ela ergueu a cabeça, como se me mirasse, o que era estranho porque ela não enxergava – Darei o meu melhor – ela desencostou da maca – Bem, Tristan está a caminho para ver se você já está melhor. Caso esteja, mostrarei o lugar para você. Quanto mais as pessoas veem vocês passeando pelo vilarejo, mas acostumadas a presença de vocês elas ficarão e esse já pode ser um começo.
Como numa deixa, um garoto novo entrou no quarto assim que ela terminou de falar e veio logo para perto de mim, segurando meu ombro e empurrando para trás. Estava prestes a empurra-lo quando a mão de Levine envolveu a minha, num claro impedimento. Fitei-a e ela balançou a cabeça dizendo que estava tudo bem. Aquele deveria ser Tristan.
— Você está bem, apesar da aparência. O corte na testa é só um arranhão, já o do peito é um pouco mais profundo, mas já está com pontos, então não faça força ou eles romperão. Sua cabeça provavelmente não irá doer, não há concussão, mas se sentir dor, tontura, enjoo ou se tiver febre, mande me chamar. Seu corpo vai ficar bem dolorido por alguns dias devido o impacto e possivelmente roxo em alguns lugares, mas não há nada de errado. Não precisa mais ficar aqui.
Tentei me pôr de pé e consegui, embora me sentindo fraco. Adam logo veio me ajudar e passou meu braço sobre seu ombro. O movimento mexeu com o corte no peito e eu bufei de dor.
— Você está bem? – Levine perguntou.
— Sim, estou bem, só um pouco... fraco.
— Isso é normal – respondeu Tristan – Seu corpo recebeu um baque muito grande e se desligou para tentar se curar. Passou muitas horas sem comer e com seu corpo precisando de energia e descanso, o resultado é essa fraqueza. Não se preocupe, esse mal-estar é só o seu corpo procurando uma maneira para se restaurar.
— Bem, ele achou uma péssima maneira.
— Vamos para a casa que Levine separou para nós. Lá você descansa e se restaura.
— Na verdade, tudo o que eu mais quero agora é caminhar. Tentar recuperar as forças.
— Andando? – questionou Tristan, nitidamente não recomendando isso.
— Sim, andando – virei-me para Levine, que estava bem ao meu lado – O que acha de me mostrar o vilarejo agora?
Ela abriu um sorriso preenchido de satisfação, passando o braço fino ao redor do meu cotovelo. Caminhamos para fora do quarto, ignorando os olhares discordantes atrás de nós, enquanto eu observava que seria impossível não sonhar com lindos olhos sem cor durante a noite.
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