Completa-me
23 Capítulo XXIII
Notas iniciais
Por Kenji Kishimoto
Finalmente, nós partimos para a missão a qual Castle nos solicitou.
Desta vez, checamos bem para ter certeza de que não trouxemos nenhum ser indesejado, como Kat, por exemplo, só depois entramos no expresso que nos levaria ao Setor 78. Adam teve mais dois dias para ficar com Anna antes de não podermos adiar mais a visita a supostos mutantes. Juliette relutava em abandonar Kat e Maria, mas viu que resolver um problema poderia resolver outro, deixando suas protegidas longe de perigo. Warner teve que convencer James de que não era seguro e quase não teve sucesso, já que Juliette precisou interferir contando sobre o mutante que enfrentamos na guerra contra o Supremo Anderson para deixar claro do que se tratava nossa partida.
— Você não sabe do que certas pessoas são capazes de fazer – disse ela para James – Kenji não podia nem se levantar. Eu estava sozinha e precisava proteger nós dois. Quase não consegui.
Warner estremeceu com essa declaração, deixando claro que nunca ouvira de Juliette o que ela enfrentou para salvar o mundo das mãos do Restabelecimento.
O trem partiu pouco antes do nascer do sol, com as janelas fechadas, nos resguardando do ar frio. Adam não estava tão feliz em sair do Setor 45, seu rosto fechado parecia preocupado e um pouco infeliz. Juliette estava sentada no início do vagão enquanto Warner ocupada um dos bancos finais, o que os faziam parecer duas crianças que haviam brigado por um brinquedo e que os pais puseram de castigo. O pensamento me fez sorrir.
Levantei-me e caminhei em direção a Warner, que tinha seus braços cruzados sobre o peito e olhava pela janela a escuridão que aos poucos partia – Achei que, depois de toda aquela agarração, vocês estariam um pouco mais... satisfeitos com a vida – comentei, sentando-me ao seu lado.
Warner de um sorriso de canto nem um pouco feliz, ainda sem olha para mim – Bem, talvez, se ela não fosse tão teimosa quanto eu lembrava. Mas certas coisas nunca mudam, então...
— Sabe, eu ainda não entendi.
— Ela não aceita que ainda me ama – ele sussurrou, incrédulo, descruzando os braços e jogando eles para o ar – Dá pra acreditar? Já faz duas semanas dessa mesma rotina: nos encontramos, brigando e depois...
— E depois?
Ele me olhou como se eu fosse idiota – Depois, acontece o que você viu no hospital.
Balancei a cabeça, tentando evitar a imagem – Eu já tinha entendido. Não precisava tocar no assunto – falei, logo após pensando em algo – Mas, e se você se encontrar e brigar, por exemplo, na sala de jantar? – Ele apenas deu de ombros, tentando não rir, mesmo em meio à frustação. Minha cabeça estalou – Meu Deus, vocês transariam na sala de jantar? — ele não respondeu, mas virou a cabeça para mim, lançando um olhar nada natural, erguendo uma das sobrancelhas – Vocês já transaram na sala de jantar!
— Eu não disse nada disso.
— Mas está escrito na sua cara. Quando se trata de satisfazer seus desejos carnais, vocês não tem respeito nem pelas refeições sagradas – brinquei, bancando o religioso e vendo que finalmente consegui tirar aquele olhar falhado do seu rosto.
— Obrigado, cara – agradeceu-me ele – Sabe que não é seu trabalho tentar me animar, não sabe?
— Sei, sim, esse é o trabalho da Juliette. Mas eu já estava incomodado de ser o único um pouco feliz nesse trem – declarei, me pondo de pé e voltando para o meu lugar, bem entre os dois pombinhos chateados. Tentei dormir um pouco e talvez eu tenha conseguido, porque quando abri os olhos, o sol já estava quase no centro do céu e me fazia suar bastante. Resmunguei baixo e fui procurar um banheiro para tomar banho, atravessando e notando Warner ainda em seu lugar, mas acompanhado de um livro. Mais uma vez, ele não olhou para mim.
— Quanto tempo mais até chegarmos lá? – perguntei, ignorando sua total falta de atenção.
— Cerca de meia hora ou menos – respondeu, sem deixar de ler – Vamos parar direto onde Castle nos disse ter quem procuramos.
Prossegui a caminho do meu ansiado banho, achando a porta do cômodo sem dificuldades. Era curto e estreito, bem iluminado pelo sol que entrava pelo balancim, e totalmente branco. Não perdi tempo ao tirar a roupa e me enfiar debaixo do jato de água gelada, permitindo que levasse todo o suor incomodo. Eu já sentia falta de Castle, como um filho sente a falta do pai. E também de Sonya e Sara, que me eram como irmãs. Perdi-me um pouco em pensamentos antes de perceber que já estava com as pontas dos dedos enrugadas. Peguei a toalha que já estava ali quando entrei, com certeza deixada para mim pelo maquinista, e tirei o excesso de água do meu corpo. Pus minha calça, lembrando que tinha me esquecido de pegar outra camiseta. Resmunguei de novo, notando que o trem perdia velocidade, certamente já chegando ao nosso rumo.
— Abaixem-se! – ouvi uma voz estranha gritar longe e, um segundo depois, fui empurrado contra o espelho a minha frente, sentindo-o quebrar e cortar-me perto da clavícula. Então o chão levantou diagonalmente para frente e voltou com força para baixo, sacudindo toda a estrutura do banheiro, pendeu para o lado, pouco depois virando para a direita e, obviamente, saindo dos trilhos. O movimento me jogou para o lado e bati a cabeça na barra de ferro que sustentava a porta do box de acrílico branco.
Senti a luz que estava forte no local aos poucos desaparecer. E, então, apaguei.
— Kenji!
Porque tudo está tão escuro?, pensei. Porque não consigo me mexer? O que aconteceu com a minha cabeça?
— Kenji! Cadê você?
Tentei lembrar o que tinha acontecido. Viemos em missão, pegamos um trem para chegarmos onde existe mutantes, eu dormi no banco e acordei com calor, fui tomar banho e...
— Kenji!
Notei a voz que gritava meu nome, parecia estar desesperada e por perto. Eu não conseguia enxergar e por um segundo fiquei angustiado com a ideia de estar cego, mas então notei que não podia ver porque estava escuro. Eu estava no banheiro, me vestindo, na hora em que o trem virou.
O trem virou.
— Kenji! Onde você está?
Arrisquei mexer os braços e percebi que eles estavam doloridos, mas eu conseguiria movê-los. Procurei algo no local escuro, ainda deitado e achei um objeto roliço curvado que parecia ser feito de ferro. Bati-o em algum ponto do banheiro acertando o que tinha restado do espelho quebrado. Os cacos voaram sobre mim e eu xinguei em pensamento, incerto se podia falar com a minha cabeça latejando. Tentei outro ponto. Acertei a barra de ferro que tinha ferrado com a minha testa, e o som metálico ressoou alto, fazendo minha cabeça latejar ainda mais.
Ouvi passos se aproximarem.
— Kenji? – bati de novo e de novo, até que a parede de estava sobre mim foi arrancada por mãos finas e claras, de unhas bem feitas e sujas, deixando o sol entrar e ferir meus olhos – Kenji!
Alguém me segurou pelos braços e outra pessoa, pelas pernas, me erguendo para fora do trem sem muito cuidado. Meus olhos ainda não tinham se adaptado com tanta luz, mas eu já tinha certa noção de quem me carregava. Um vento forte soprou e o fez corte no meu peito arder. Fui posto no chão assim que a claridade já não era obstáculo. Vi os olhos coloridos de Juliette me analisarem.
— Eu preciso de um pedaço de pano, para estancar esse corte na testa – ela olhou para trás e Adam estava arrancando a camisa sobre a cabeça e entregando para ela. Ela pressionou o ferimento e eu gemi, fazendo careta devido à dor – Aguente só um pouco, está bem?
Quis concordar, mas ainda estava com medo de falar e certamente não sacudiria a cabeça. Warner me ergueu o tronco e jogou um pouco de água no meu ombro, que escorreu e lavou o que quer que estivesse fazendo minha clavícula pesar tanto. Assim, meio sentado, pude ver o que tinha realmente acontecido.
Uma pedra enorme estava no meio do caminho, sobre os trilhos, impedindo qualquer passagem. Estávamos em alta velocidade e jamais pararíamos a tempo de não colidir. O trem estava em ruínas nos vagões da frente, o primeiro parecia uma sanfona, apesar dos vagões traseiros estarem de pé. Adam, Juliette e Warner estavam no quarto vagão e eu estava no quinto, que, como uma brincadeira de mau gosto, foi o último a ser detonado no choque. O resto do trem estava de pé e intacto.
— Eu tentei parar – disse o maquinista, com sua enorme barba suja de fuligem – mas não consegui. Quem imaginaria uma pedra desse tamanho no meio dos trilhos?
— A pergunta é: quem colocaria essa pedra ai? – respondeu Adam, ao lado do maquinista.
— Você consegue falar? – perguntou Juliette, ignorando a conversa deles e focando só em mim.
— Sim – ousei pronunciar e vir que não fazia tanto estrago na minha cabeça – Só a minha cabeça que dói.
— Pode levantar?
— Não sei – mas levantei a mão em direção a Adam, que segurou a minha para me ajudar. Juliette me sustentou pela cintura enquanto Warner enganchava meu braço em seus ombros. O movimento fez minha cabeça dar voltas e eu agradeci mentalmente por ter apoio – Deixe só a tontura passar.
— Você pode ter uma concussão.
— Eu estou bem – declarei, de olhos fechados – A minha cabeça só precisa parar de girar.
— Vejam – apontou o maquinista.
Abri os olhos e vi um homem alto e bigodudo caminhar em nossa direção. Atrás deles tinha mais algumas pessoas, que pareciam curiosas. Achei de início que eram pessoas que tinham ouvido o estrondo que o trem devia ter feito e vieram ver o que acontecera, até que notei a besta na mão de um deles.
— Segurem a mão um do outro – pedi – Agora.
Assim que foi feito, ficamos invisíveis. A confusão ficou clara no rosto da multidão que parou assim que sumimos. Tentamos andar para entrarmos em algum dos vagões, sem barulhos, e nos abrigar quando uma voz alta e forte gritou de longe:
— Não vamos machucá-los. Não precisam se esconder.
Viramo-nos, ainda juntos, ainda invisíveis, para ver uma figura magra e baixa ao longe. Era nitidamente uma garota, que usava um vestido branco pouco antes do joelho e um pano também branco sobre o cabelo. Ela parecia ser tão jovem quanto James e era como um borrão de longe, com a pele alva e toda de branco.
— E então? – perguntou Juliette, sustentando-me pela cintura – O que fazemos?
— Vocês devem estar machucados – gritou a menina com uma voz aguda e segura – E precisando de um médico. Podemos ajudar, se quiserem – ficamos em silêncio, quietos, esperando qualquer confirmação de que era seguro – Somos como vocês – declarou, e o homem bigodudo pareceu dizer algo para ela, que o ignorou estoicamente – Temos dons, assim como vocês.
Respirei fundo – São eles – falei – As pessoas que Castle queria que achássemos.
— Mas isso quer dizer que devemos confiar neles? – questionou Warner.
— Não me parecem perigosos – respondi – E, se não arriscarmos, eles também não confiarão em nós.
E voltamos a ser visíveis.
As pessoas se espantaram, algumas deram passos para trás, outras içaram suas bestas, apontando para nós, mas não usei meu dom outra vez. A menina-fantasma levantou a mão, sem olhar para trás, dando a ordem de baixarem as armas. Ela caminhou com as pessoas em seu encalço, segura de si, certa de que não corria risco conosco. Quanto mais perto ela chegava, mais eu percebia que ela não estava com um pano na cabeça. Era o seu cabelo, tão claro quanto a areia esbranquiçada sobre a qual andava. Era quase branco, longo o suficiente para quase tocar a dobra dos seus joelhos. E quanto mais perto ela chegava, menos eu queria acreditar no que via, mas quando ela parou na minha frente, eu não pude mais ignorar.
Não havia cor em seus olhos. Eram totalmente brancos, sem tonalidade nenhuma nas íris. Não consegui não procurar por alguma sugestão de coloração e achei o formato de suas íris, uma fraca reprodução de um círculo dentro de sua córnea, desenhado com traços também brancos. Nem mesmo sua pupila tinha a normal cor preta. Branco, apenas branco.
— Eu vi que viriam – declarou ela, sorrindo – Que bom. Estava esperando por vocês.
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