Completa-me

14 Capítulo XIV


Notas iniciais
Demorei? Perdão, eu estava muito ocupada, mas não esqueci de vocês. Esse capítulo vai agradar muita gente e deixar dúvidas. Vamos ler?

Por Aaron Warner

Um silêncio pesado e constante apoderou-se do ar que movia os objetos leves no carro guiado por Kenji. Um silêncio pesado e constante e incômodo. Adam insistiu em ir no banco do carona, me deixando no banco traseiro com Maria, Kat e Juliette. Na verdade, não ficou exatamente apertado. Nenhuma delas era gorda. Pelo contrário, elas eram tão pequenas que sobrou-me bastante espaço. Juliette sentou-se entre nós, como uma mureta entre a velha e a criança e eu. Assim, segui a viagem do prédio antigo ao Setor 45 com Juliette ao meu lado.

Desejei que o carro fosse mais apertado.

Durante o trajeto, percebi tristeza e saudade saindo da mulher calada a centímetros de mim. Ela não falou nada por todos os minutos desde que constatamos a morte de Josh – Kenji até parou de chamá-lo de água de salsicha – e nem quando pusemos o corpo no porta-malas antes que a criança pudesse ver. Sim, Juliette se preocupou em não traumatizar a pequena boneca de ondas douradas e olhos verdes. E, sim, ela se preocupou em enterrar Josh dignamente. Afinal, ele fora um anjo em sua vida. Exigiu que mandássemos buscar a mãe e a filha de Price. Elas também podiam ser alvos. Fizemos o que ela pediu. Depois disso, se calou e não disse mais nada.

Nós também não falamos. Em respeito ou pelo choque, não soube responder, mas permanecemos na ausência de som. Josh recebeu um tiro no peito, bem longe do coração, mas não resistiu a um buraco no pulmão.

Kenji, sim, parecia em choque e eu não entendia o porquê. A cada vez que olhava através do retrovisor interno para a menina sentada no colo da mãe, inspirava profundamente e soltava o ar bem devagar. Com olhos esbugalhados, deixava de encarar a face angelical da pequena para olhar a estrada, parecendo atordoado. Adam, ao invés disso, exalava calma, o que equilibrava a angustia que vinha do meu lado. Seu rosto através do retrovisor não expressava nada enquanto ele admirava as casas bem iluminadas que desligavam suas luzes para mais uma noite de sono. Quão boa seria a sensação de ter uma noite ininterrupta de sono. Eu não sabia o que era isso havia bastante tempo.

Quando chegamos ao Setor 45, notei Castle e James nos aguardando na entrada da garagem ampla e clara. Assim que paramos o carro, ouvi Juliette suspirar. Sua primeira reação desde que saímos. Abandonamos o carro para podermos falar com Castle.

— Vocês estão bem? – perguntou ele, nos avaliando com olhares rápidos.

— Estamos. Quero dizer, nós não estamos machucados, mas tem um cadáver no porta-malas.

— Um cadáver?

— Eu posso ver? – pediu James, vindo me dar um abraço.

— Não – respondemos todos.

— Warner – Castle chegou mais perto – Não é a...

— Eu não estaria calmo assim se fosse – estremeci – Ela está bem. Está dentro do carro. Vá buscá-la.

— Certo – concordou – Adam, leve James para dentro. Kenji e Warner, cuidem do corpo. Ponham-no em algum quarto fechado do hospital do Setor e depois venham até meu escritório. Precisamos chegar a uma solução para toda essa confusão.

Voltamos em direção ao carro e evitei olhar através da janela aberta. Segurei a mão de Kenji antes que ele pudesse abrir o porta-malas. Se Juliette queria tanto proteger a criança de ver o morto, não faria mal esperar até que elas tivessem saído da garagem para executar nosso trabalho.

Notei a surpresa de Castle ao ver Maria e Kat, mas seu rosto logo se recompôs, escondendo os verdadeiros sentimentos. Reconheci a satisfação e sensação de vitória nele ao ver Juliette. Se ele sequer soubesse como ela realmente era no momento, não ficaria tão feliz.

Porém, deixando a Kenji e a mim completamente embasbacados, Juliette saiu do carro e passou os braços ao redor da cintura de Castle, deitando a cabeça em seu peito. E Castle retribuiu a abraço.

— Senti muito sua falta – declarou ela.

— Eu também senti sua falta, minha filha. Você me deixou tão preocupado! Sete anos, Juliette! Sete anos procurando por você. Tanto tempo! Nós nos agarrávamos a qualquer pista que pudesse dizer onde você estava. Que bom que voltou. E você – ela soltou Juliette e andou em direção à criança – que moça bonita.

— É filha de Maria – interferiu Juliette apressadamente, que ganhou um olhar confuso de Castle – Maria é minha empregada.

— Empregada?

— Sim, nos conhecemos há muito tempo. Leve-as para dentro, Castle. Quero cuidar de Josh também.

— Sinto muito pela sua perda.

— Elas não entenderão você – ignorou – Só falam espanhol.

— Que conveniente. Eu falo espanhol também.

Castle guiou Maria e Kat em silêncio até a estreita porta nos fundos da garagem. Quando passaram, Juliette veio até nós e abriu o porta-malas, liberando um odor fraco. Tentou ficar calma, ser fria, mas falhou. Suas mãos vibravam e ela amassou o carro ao se segurar. Fui até ela.

— Você está bem? – perguntei, tocando seus dedos atravessados no aço.

— Sim – respondeu sem me olhar ou se mexer – não se preocupe.

— Você está tremendo – declarei e agarrei sua mão, sentindo seu poder, sua energia, passar por mim com um choque e puxei-a para longe do carro usando sua força – e está gelada.

Ela olhou para mim, pela primeira vez desde que a encontrei, sem máscara ou cobertura. Ela liberou as emoções que realmente tinha dentro de si naquele instante e eles me agarraram fortemente. O tremor das suas mãos passou para todo o seu corpo, deixando-a instável e sem equilíbrio. Ela perdeu a força nas pernas e, antes que pudesse cair, peguei-a pela cintura e segurei-a junto ao meu corpo. Ela estava gelada e pálida. Mesmo em meio à preocupação, percebi que Kenji não estava mais lá.

Juliette não chorou, não berrou, não falou. Ela apenas tremeu e tremeu até seu corpo se recompor do choque de ter perdido um amigo. Eu já sabia que ela sofria muito ao perder quem amava. Lembrei do seu desespero quando contei que o Ponto Ômega estava todo destruído. Ou do medo de perder os poucos que sobraram. Ela amava Josh e, mesmo sabendo que isso a fazia sofrer, foi bom saber que ela ainda era capaz de tal sentimento.

Ela não me afastou, também não me abraçou, mas me deixou abraçá-la. Deixou-me segurá-la em meus braços e isso era mais do que desejei no caos que minha vida se tornou. E quando ela se recuperou, abriu os olhos apertados e falou através dos lábios brancos.

— Obrigada.

— De nada – e soltei-a dificultosamente – Ajudo você com Josh. Na verdade, eu posso fazer isso sozinho, você não precisa passar por isso.

— Eu tenho que fazê-lo. Josh merece e vai ter um velório e um enterro digno, já que isso é só o que eu posso dar para ele agora.

Levantei o tronco de Price enquanto Juliette carregava suas pernas. A porta pelo qual Castle e a nova família Ferrars haviam passado foi aberta por Kenji.

— Encontrei um quarto. Venham.

Ele não ofereceu ajuda para carregar. Talvez ainda se lembrasse que, mesmo que fôssemos dois homens grandes e uma mulher pequena, ela sempre seria a mais forte fisicamente. Contudo, estava em ruínas por dentro. A prova disso foi o fato de que, ainda que me odiando, ela me deixou consolá-la. Que ela precisava tanto de um abraço que aceitou um de mim, aquele para o qual ela direcionava tanta aversão.

O quarto era quase todo branco, com exceção do azul apagado do lençol e dos botões das máquinas hospitalares, que nunca foram tão inúteis. Deitamos Price cuidadosamente e Juliette puxou o lençol para cobrir o corpo, mas antes de esconder o rosto dele, afagou seus cabelos avermelhados e depositou-lhe um beijo na bochecha.

— Vamos – chamou Kenji – está tarde. Castle pediu para eu avisar que ele mudou de ideia: falará conosco amanhã. Durmam bastante. Descanso é o que todos nós precisamos.

— Mas eu não sei onde Castle levou Maria e Kat – falou Juliette.

— Elas estão num dos quartos destinados aos soldados. Foi mandado acrescentar mais uma cama, já que cada quarto só dispõe de uma. Castle queria por duas, mas a garotinha disse que dormiria com a mãe.

Juliette baixou a cabeça – Certo. Vamos logo, não quero mais ficar aqui.

Caminhamos lado a lado por bons segundos, logo, porém, Kenji deu uma desculpa, me indicou qual dos quartos era e entrou em um dos milhares de corredores. Juliette olhava para cima e para os lados, analisando tudo durante o curso e eu olhava para ela, tentando não encarar demais.

— Esse lugar parece o mesmo, mas com mudanças.

— Castle alterou algumas coisas por aqui.

— Achei que você fosse o líder.

— Eu não estava sendo um bom líder – respondi – já que eu não fazia outra coisa a não ser pensar em você – Juliette respirou fundo e eu passei a mão no cabelo, completamente arrependido – Desculpe.

Chegamos à porta do mesmo quarto onde instalei Juliette quando a tirei do manicômio. Com certeza, Castle apreciaria a ironia quando soubesse. Ela apenas me olhou intensamente e entrou sem dizer nenhuma palavra. Dei meia volta, indo para o meu quarto.

Assim que cheguei, tirei o sapato e dormir sem trocar de roupa. Mesmo tendo o coração partido noite após noite nos últimos dias, mesmo tendo sido atacado duas vezes no mesmo dia, mesmo tendo que carregar um morto no porta-malas, mesmo sabendo que tudo daquele dia em diante seria mais difícil que respirar fogo, eu dormi sem pesadelos e sem sobressaltos.

Como se Juliette estivesse deitada ali do meu lado.

Notas finais
E então? Espero que tenham gostado e, mais uma vez, desculpe a demora. Lau Souza, meu bem, sei que ainda não é o que você quer, mas o quase abraço de Juliette e Warner foi para você, que me implorou até a ideia de um beijo que não vai rolar. Lembrarei de você quando acontecer. Mrs Warner, como você pôde me abandonar assim? Estou sentindo falta das suas opiniões. Galera, tenho uma história escrita num caderno velho que eu não sei se é certo postar, já tentei antes, mas não deu muito certo. Caso vocês queiram, me falem e eu posto. Beijos. BL.