Completa-me

4 Capítulo IV


Notas iniciais
Eis o tão esperado capítulo. Quero dizer, mais ou menos o tão esperado capítulo. Espero que gostem.

Por Aaron Warner

As horas pareciam se arrastar e o relógio parecia feliz em me atormentar, porque seus ponteiros pareciam mais lentos, praticamente não se mexiam para mim. Parecia um dia mais feliz e um dia mais ansioso. Eu parecia um garoto no seu primeiro encontro, por mais que eu nunca tenha tido um primeiro encontro com Juliette, já que eu a reboquei até onde eu morava sete anos atrás. Kenji parecia preparado para tudo e Adam parecia... conformado. De certa forma, tudo parecia alguma coisa, mas nada era exato. Eu não poderia dizer que estava nervoso ou com medo ou feliz ou apreensivo, era algo entre tudo isso mais a náusea que persistia em meu estômago.

Abri minha mochila amparada na mesa de centro na sala vazia, tirei o dispositivo de escuta, a pistola e uma caixinha aveludada azul-marinho que eu guardava desde antes de Juliette partir. Puxei a camiseta pela cabeça no momento em que Kenji entrava no recinto.

— Ei, ei. Ainda nem chegamos ao bar e você já está bêbado o suficiente para fazer um strip?

— Já são nove horas. Temos que ir logo. Chegar lá antes dela.

— Eu sei, mas o bar é tão perto que dá para ir andando. Não precisamos nos apressar.

— Se eu não sair daqui logo, vou morrer sufocado. Essa ansiedade está me deixando claustrofóbico – admiti – Cadê o Adam?

— Estou aqui – respondeu ele mesmo, nos espantando por já está pronto para sair. Um discreto fio saia de sua camisa preta e se escondia atrás de sua orelha esquerda e sua arma brilhava orgulhosa enganchada na cintura de sua calça jeansescura. Ainda usava as mesmas botas dos soldados do Setor 45.

— Porque ainda não estão prontos?

— E você disse que eu estou ansioso, Kenji.

Vinte minutos depois, estávamos caminhando para fora do prédio. As ruas já não eram escuras como no tempo em que o Restabelecimento jazia no Setor 45. Postes com luzes alaranjadas iluminavam o meu trajeto, que estava mais longo do que mais cedo naquele dia.

Quando chegamos a frente ao estabelecimento, meus joelhos fraquejaram. Era a pista mais real que tivemos desde que começamos a procurá-la e agora estava muito perto e eu não sabia o que fazer. Fiquei em dúvida se nós deveríamos entrar logo, mas depois me perguntei o que ficaríamos fazendo aqui na frente do bar.

Assim que entramos, ficamos surpresos. Não era o que nos esperávamos. O bar era recheado de mesas redondas de vários tamanhos e com número de cadeiras diferentes em cada uma. Não era grande, mas espaçoso o suficiente para ter um balcão de madeira escura que separava os clientes dos barmen e as garrafas de bebida – que eram muitas – ficavam expostas em um armário de vidro encostado na parede atrás do móvel estreito. Bancos estavam distribuídos ao longo do balcão.

— Certo. Agora eu quase entendo o motivo de Anderson vir aqui toda noite – comentou Adam – É bem... diferente do que eu esperava.

Caminhamos pelo local até acharmos uma mesa com quatro cadeiras num dos cantos. A pouca luz do lugar nos ajudou a esconder a escuta que subia por nossos pescoços e a nós mesmos de olhares curiosos. Kenji se levantou sem avisar a ninguém e partiu rumo ao balcão. Ele era o único que estava usando mangas compridas e desprovia de um par de luvas no bolso da calça, já que apenas ele podia ser ferido por Juliette. Não que ela fosse fazer isso, mas ele já sentiu o poder dela antes, então não quis arriscar. Quando voltou, trazia na mão esquerda uma bandeja redonda com a parte do meio funda e a borda plana. Assim que Kenji a pousou no centro da mesa, notei que a parte funda era uma roleta com números dispostos em torno dela. Na verdade, a bandeja era uma mini mesa de roleta americana e a parte plana continha furos com shots dispostos neles.

— O que é isso? – perguntou Adam.

— Isso, meu amigo, é uma Drinking Roulette Set. Mas você pode chamar de roleta de shots.

— E para que queremos isso?

— Estamos num bar. Para que as pessoas vêm a um bar?

— Pessoas normais vêm para beber. Nós viemos em busca de uma mulher desaparecida há sete anos – respondi.

— Mas não vai levantar suspeita se nós nos sentarmos aqui, ficarmos olhando para esses caras bebendo e não consumirmos nada? – rebateu Kenji – Lembra: nós temos que parecer pessoas normais.

Ainda tentamos, mas as palavras de Kenji ganhavam cada vez mais sentido, se isso fosse possível. Ou talvez eu só quisesse beber e ficar mais descontraído. Ele tentou nos ensinar como jogar com a roleta de shots, até conseguimos, porém perdemos a paciência e apenas girávamos a roleta e bebíamos no número que parasse. Cada dose tinha um gosto diferente. Depois da quarta dose, tudo tinha o mesmo gosto para mim, mas procurei não ficar bêbado.

Quando a segunda rodada chegou, já ríamos de coisas sem sentido.

Mas, repentinamente, o ar do bar fechou. Sabe aquela sensação de que o ar ficou pesado e que as pessoas estão incomodadas com alguma coisa? As conversas se tornaram cochichos e apenas a música continuava em seu volume normal. Notei, em meio à névoa bêbada, um homem alto e barrigudo caminhar até o balcão, obviamente o alvo dos olhares críticos de todos ali. Em dois segundos, Kenji tornou-se invisível e vimos um copo de shot levitar, ter seu liquido derramado em um espaço vazio e sumi no ar. Sentimos que Kenji levantara e fora para um lugar desconhecido no bar.

— Vou observar quem entra e quem sai— disse ele através de nossos comunicadores auriculares – Fiquem de olho no nosso amigo marcado para morrer.

— Acha que é ele, Kenji? – perguntei.

— Sem sombra de dúvida. Consegue perceber a raiva na expressão da galera aqui? Está evidente que ele não é querido.

— Vamos observá-lo – afirmou Adam – Onde você está?

— Próximo à porta. Continuem bebendo. Tentem parecer normais. É a única chance que temos.

— Eu sei – respondi – Vamos nos concentrar.

O homem pediu uma marguerita e ignorou o silêncio imposto por sua presença. Porém, como em qualquer ambiente alcoolizado, ninguém se fixa muito em uma só coisa, logo tudo voltou ao normal. Menos nós. O homem virava a cabeça raspada em direção à porta de tempos em tempos. Passaram-se muitos minutos até termos notícias de Kenji novamente.

— Como está nosso odiado companheiro?

— Parece inquieto – falou Adam – Como se estivesse esperando alguém.

— Bem, nós também estamos esperando alguém. Tomara que seja a mesma pessoa.

— Tomara – pedi.

— Vocês estão seguros onde estão. Quase não se nota nossa mesa daqui. Mas talvez vocês devessem...

A voz de Kenji sumiu de forma inesperada, nós deixando preocupados – Kenji, está na escuta? – interrogou Adam — Kenji?

— Talvez vocês devessem olhar para a porta. Agora.

Fiz o que ele falou e me arrependi. Vi alguns caras entrarem se empurrando de brincadeira e rindo alto. Todos eram muito gordos, mas assim que eles saíram do campo de visão, notei o que Kenji queria nos mostrar.

Era ela.

Juliette.

Notas finais
Talvez você devesse deixar sua opinião... Sua sugestão, crítica, seu elogio são muito importantes. Até a próxima Beijos. BL.