Completa-me
18 Capítulo XVIII
Notas iniciais
Por Kenji Kishimoto
O silêncio já tinha ficado insuportável. Não que nós tivéssemos muitos assuntos em comum, mas eles não responderam a nada. Nada. Juliette estava imóvel, eu não poderia dizer se ela sequer estava respirando. Ela entrou no carro e não falou uma só palavra. Warner também não, mas, diferente de Juliette, ele estava inquieto. Não parou de se mexer um só segundo. Às vezes, movia as mãos, às vezes, balançava as pernas, mas não ficava parado.
Adam também notara e até tentara conversar sobre algo, mas Juliette nem piscou em sua direção, então resolvemos conversar entre nós dois, apenas, sobre qualquer coisa: James, Castle, o Setor 45, diferentes assuntos até começarmos o que deveríamos fazer.
Adam desligou os faróis do carro assim que chegamos perto da área onde instalaríamos os aparelhos que descansavam entre Juliette e Warner. Trabalhamos em duplas: enquanto uma dupla alojava microfones e câmeras em algum lugar, a outra ficava de vigia. Então, no próximo local, as duplas trocavam de posto. Obviamente, Juliette recusou-se a formar par com Warner, assim eu trabalhei com Warner e Adam, lado-a-lado com Juliette. Fizemos isso por quase uma hora até tudo o que não esperávamos acontecesse.
Quando estávamos no fim, descendo do carro com Juliette e Adam na retaguarda, ouvimos cantar de pneus no sossego, até então intocado, da madrugada e, segundos depois, uma saraivada de tiros decorreu sobre nós. Dois carros 4x4 pretos surgiram no fim da avenida, várias ruas distante, se aproximando rapidamente. Corremos para dentro do carro, já descobertos, sem disparar uma só bala. Porém, antes de conseguirmos dobrar na última ruela, outro 4x4 apareceu e nós forçou a entrar em um terreno de terra amplo, com uma saída estreita muito longínqua. Juliette engatilhou sua Glock e sentou-se na janela do carro e tentando acertar o pneu de um dos automóveis que nos perseguia.
Fingi não notar, através do retrovisor interno, Warner olhar para as pernas de Juliette.
– Temos que achar um lugar para estacionar! – gritou ela sobre o sussurrar gritante do vento.
– Ficou louca? – respondeu Adam – Vão nos matar se pararmos. Siga até o Setor 45, Kenji, sem parar.
– Não! – berrou ela, voltando para dentro do carro, sem sucesso em tentar acertar os carros – Eu conheço esse trecho da área. Não há caminho. A passagem estreita mais à frente vai nos levar a um beco sem saída. Um muro enorme que nunca foi derrubado. Lá, sim, eles vão nos pegar e não terá escapatória. Os Mockers sabem disso.
– Tem certeza? – questionei.
– Sim. Ainda tem outras entradas. Vamos achar um lugar seguro. Você disse que Castle pôs armas no porta-malas, não foi?
– Mesmo que peguemos as armas, Juliette, Não poderíamos contra tantos – opinou Adam – Na verdade, nós nem sabemos quantos teremos que enfrentar.
– Vamos usar as armas apenas para abrirmos caminho para casa. Só a minha Glock não vai nos proteger.
Respirei, tentando achar sentido em outra opção. Não consegui – Tudo bem.
– Dobre na última entrada antes da abertura estreita.
Segui suas instruções, correndo sobre o pó alaranjado que levantava devido a velocidade. O sol já começava a surgir a leste, nos deixando ainda mais expostos. Quando a esquina que Juliette me indicou se aproximou, entrei nela, chegando a uma espécie de cais com vários armazéns, apesar de não haver nenhum rio ou lago à vista. Entrei com o carro em um dos armazéns disponíveis, desligando-o e deixando-o oculto no escuro ainda não atingido pela luz matinal.
Warner pulou para fora e correu sem barulho para abrir o porta-malas, enquanto Juliette e eu viajávamos em direção aos extremos da porta gigante do local. Adam foi ajudar Warner a retirar as armas. Concentrei-me em Juliette.
– Eu tive uma ideia.
– O que? – perguntou.
– Acha que consegue fechar a porta do armazém? Isso poderia ajudar a nos esconder.
– Consigo, mas...
– Juliette! – sussurrou Adam, assustado.
Movemos nossos olhos para onde Warner e Adam estavam de pé, de costa para nós, mas não pareciam calmos. Warner estendeu a mão para algo no carro e dedos pequenos e alvos a envolveram em busca de apoio. Segurando-a pela mão e pela cintura, Warner tirou Kat do porta-malas, para desespero de Juliette.
– Katerina! – gritou Juliette, disparando em direção a menina.
A despeito do espanto, não deixei de me impressionar ao ver a garotinha segurando a mão de Warner. Eles eram tão iguais! O mesmo tom nas madeixas e na pele, o mesmo brilho gritantemente esverdeado nos olhos, a mesma insinuação de covinha nas bochechas.
Juliette ajoelhou-se ao lado da garota, derramando um espanhol fluente. Não entendi uma só palavra, mas ficou claro que ela não estava elogiando a menina pela bravura de vir escondida num porta-malas. A criança permaneceu de cabeça baixa e falou pouco. Ela guiou Kat até a porta do carona, mas antes que ela fechasse a porta, um dos carros que nos perseguiram apareceu, pronto para atirar.
Adam foi mais rápido.
Erguendo uma Sniper com estampa do exército, atirou no cara que se erguia para acertá-los. Apesar do coice da arma, Adam não titubeou e preparou outro tiro. Assim fez Warner, erguendo duas pistolas 9mm e atirando sem hesitar.
– Juliette! – chamei, tentando ganhar sua atenção — Juliette! – ela me olhou – A porta! Temos que fechar a porta do armazém!
Por Aaron Warner
Adam e eu corremos para os fundos do local, procurando abrigo, e Juliette entrou no carro e o guiou para trás de caixas e contêineres. Adam apoiou o rifle numa das caixas e disparou mais tiros. Eu não baixava os braços, só o fazia quando tinha que recarregar as pistolas.
– Juliette! – berrou Adam – Você tem que fechar as portas. Agora!
– Mas eu não posso deixar Katerina só!
– Ela não vai estar só. Vamos cuidar dela.
Juliette falava como se quisesse vomitar – Como eu vou chegar lá?
Adam, mesmo atirando, pareceu pensar em uma solução – Tudo bem, eu cubro você.
Cheguei próximo à ela, tocando seu braço, procurando tranquilizá-la – Você sabe que não pediríamos para você fazer isso se não fosse necessário. Ninguém mais é tão forte.
– Não sei se eu sou tão forte – declarou ela, olhando o anjo loiro assustado no banco do carona – Por favor, Warner... Aaron. Por favor, cuida dela como se ela fosse... como se ela fosse sua filha. Como se ela fosse muito importante para você – ela segurou-me pelo cotovelo, puxando me mais perto – Promete para mim, Aaron.
– Eu prometo.
Juliette pegou minhas armas. Repassou-as para Adam, que deixou o rifle onde estava – Vamos.
Tentei não sentir ciúmes da sincronia que rapidamente apareceu entre eles quando se lançaram para a zona de guerra. Pus minhas mãos na arma repousada sobre as caixas e quis derrubar quem oferecia mais perigo para eles. Em segundos, Juliette chegou a porta, que parecia colada ao chão, mas que não era tão pesada para a força de Juliette, que a empurrou sem muito esforço.
Quando o acesso estava bloqueado, Kenji correu para onde eu estava, seguido de Adam, que apoiava Juliette pelos braços. Ela estava ofegante e sangrava em um certo ponto perto do osso do quadril. Larguei a Sniper sem pensar duas vezes.
– Juliette! – segurei-a, tirando o peso dela de cima de Adam – Juliette!
– Eu estou bem – falou com a voz arrastada – Kat?
– Ela está bem.
– Vamos embora antes que abram aquela porta – Kenji avançou para o carro.
Assim que entramos, Kat gritou alguma coisa ao ver Juliette ferida e começou a derramar grossas lágrimas. Desceu do carro e veio sentar-se ao lado dela, agarrando sua mão.
Adam fechou a porta do carona e Kenji deu partida rumo a parede.
– Kenji...
– Não tenho escolha, Adam. Segurem-se.
Segurei a mão livre de Kat, que, mesmo consolando Juliette, pôs o cinto. Firmei mais o corpo de Juliette no banco, tentando evitar que a colisão inevitável contra a parede de madeira podre. assim que acertamos o alvo, a luz, ainda fraca, do sol, invadiu o carro, que saiu em uma rua já asfaltada.
Foi bem menos impactante do que eu pensei.
Assim que achou o caminho certo, Kenji dirigiu rápido feito um louco, como sempre, e eu nunca fui mais grato por isso.
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