ROMANCES MENSAIS

LIVRO IV – COMPETIÇÕES DE ABRIL

CAPÍTULO XI — PERSEGUIÇÃO

Era sábado de manhã e aproveitaria o dia para iniciar a etapa prática do iogurte biofortificado. Depois de muito procurar e ter que contar com a ajuda de Clint, acabamos conseguindo que uma fábrica de queijo liberasse um pequeno espaço em sua linha de produção para que confeccionássemos o iogurte. Eu me sentia extremamente eufórica. Depois de mais um mês, pesquisando dia e noite sobre como fabricar esse produto, Barry e eu conseguiríamos colocar em prática toda a teoria que desenvolvemos no relatório.

Mas não era somente isso que estava me deixando tão animada nos últimos dias, mesmo que eu quase não tenha dormido e que tenha que lidar com a pior semana da faculdade. Depois da nossa noite incrivelmente mágica ao nascer do sol diante da vista da cidade ao lado do rio White, Barry e eu começamos uma espécie de relacionamento. Quer dizer, ele não me pediu em namoro e nem verbalizou seus sentimentos, mas continuávamos a nos beijar sempre que tínhamos a chance e ele fazia questão de me buscar todas as madrugadas depois do trabalho para me deixar em casa, afirmando ser perigoso eu ir sozinha.

Eu estava feliz por sentir que meus sentimentos eram correspondidos, mas gostaria de ouvir ao menos o que ele estava pensando. Por mais que eu conseguisse enxergar o carinho que ele tem por mim e todo a atração forte que há entre nós, as minhas inseguranças continuavam a me incomodar. Sara apareceu e com certeza mexeu com ele. Não importa o quanto eu lute, ela sempre será o primeiro amor dele. Sempre terá um pedaço especial em seu coração. E não é culpa de nenhum dos dois. Eles foram criados juntos, tiveram uma amizade forte. Não há nada que possamos fazer sobre isso.

Ainda assim, era um pouco frustrante. Quando me declarei, imaginei que seria rejeitada no mesmo instante, mas fui surpreendida por um beijo de Barry. Naquele momento, isso foi o suficiente para mim e tem sido assim há quase uma semana, mas aos poucos, a minha mente começa a criar inúmeros pensamentos preocupantes e a exigir mais do que apenas beijos e gestos gentis que tenho recebido nos últimos cinco dias.

— Nós já estamos perto? — Pergunta Barry, enquanto eu encarava o GPS do meu celular.

— Segundo o GPS, mais dez minutos. Você só precisa continuar a seguir em frente. — Respondo, olhando a rota que o sistema nos direcionava. — Eu tenho que lembrar de agradecer ao Clint pela ajuda. Infelizmente, não temos muitas opções de fábrica de queijos aqui ao redores da cidade e os poucos que tem, nem mesmo queriam me ouvir quando tentei entrar em contato.

— Tio Clint parece conseguir tudo o que quiser. Gostaria de saber como ele faz isso. — Comenta Barry, sorrindo nostálgico. — Desde que eu era criança, eu me lembro dele fazendo isso. Não importava o quão impossível fosse o nosso pedido, tio Clint sempre realizava o nosso desejo. Meu pai dizia que ele nos mimava demais.

— É. Eu percebi que ele realmente é capaz de fazer qualquer coisa para realizar o desejo de vocês. Ele até mesmo ajudou a Sara a forjar a própria morte. — Comento, pensativa. Ainda era difícil de acreditar que ele havia feito isso. Não importa o quanto ele desejasse fazer as vontades dos sobrinhos, para tudo há um limite.

— Apesar de tudo, ele sempre teve muito cuidado com a gente. Sei que pode parecer que ele foi um louco irresponsável, mas conhecendo a Sara, ela teria feito isso sozinha se fosse preciso. Infelizmente, tia Tasha tem razão. Todos os doze sobrinhos adotivos de tio Clint parecem ter tendências a se envolverem em problemas. A gente também não é do tipo que desiste com um simples não como resposta. Então, acho que ele pensou que seria mais seguro ajudar Sara do que virar as costas para ela. No fim, ela daria um jeito de conseguir o que queria, com ajuda ou sem. — Explica Barry, encarando-me com um fraco sorriso.

— De qualquer forma... — Paro de falar quando noto que o carro que estava atrás de nós era o mesmo que vi desde que Barry foi me buscar em casa. Isso era estranho. Já fazia mais de uma hora que nós tínhamos saído de minha casa e eu tenho certeza que os dois homens que estavam no veículo são os mesmos que estavam parados em frente ao meu prédio. Olho para o meu celular e vejo a rota do GPS. Talvez, a melhor forma de provar que eu estava certa era mudando o nosso caminho. — Vire a esquerda e depois a esquerda de novo.

— Por quê? Você não disse que era só seguir em frente? — Pergunta o rapaz, sem entender o motivo de meu pedido.

— Apenas faça o que eu estou pedindo. — Digo, prestando atenção no carro preto que estava atrás de nós. Mesmo estranhando, Barry entra na próxima entrada à esquerda e novamente o carro atrás de nós repete o nosso percurso. Quando viramos a esquerda mais uma vez, o carro volta a repetir nosso caminho. — Agora acelera o máximo que conseguir.

— O que está acontecendo? — Pergunta Barry, alarmado.

— Acho que estamos sendo seguidos. — Respondo e ele olha pelo espelho retrovisor. — Esse carro estava parado próximo ao meu prédio quando você veio me buscar. Eu achei que fosse apenas coincidência o carro ser da mesma marca e cor, mas parando para pensar, eu acho que ele está mesmo nos seguindo.

— Tudo bem. Vamos confirmar isso agora. — Afirma Barry, acelerando o carro. No mesmo instante, o carro que estava trás de nós também acelera, tentando nos alcançar. Ao ver que estávamos mesmo sendo seguidos, Barry entra em mais uma rua de forma violenta. Preciso segurar o cinto de segurança para não me chocar contra a porta do carro. — Segure-se!

— O que você vai fazer? — Pergunto, preocupada com a forma maluca com a qual dirigia.

— Eu vou despistar quem quer que esteja atrás de nós. — Garante o rapaz, determinado. No entanto, para a nossa surpresa mais dois carros surgem na nossa frente, apontando armas para nós. Prendo a minha respiração, sem saber o que aconteceria e nem como poderíamos sair daquela vivos. — Abaixa!

— Droga! — Grito, fazendo o que ele pede. Os carros que viam em nossa direção começam a atirar contra nós. Habilmente, Barry entra em uma outra rua, deixando os três carros para trás. — Quem são essas pessoas?

— Eu não sei, mas pelo visto, eles pretendem nos matar. — Responde Barry, acelerando ainda mais o carro. Rapidamente, ele entra em mais algumas ruas tentando despistar os carros que nos seguiam, mas eles continuavam a avançar atirando contra nós. — Cait, pega meu celular!

— O que vai fazer? — Pergunto, tentando pegar o aparelho que estava no bolso da calça de Barry.

— Eu vou chamar reforços. — Explica, fazendo mais uma manobra perigosa. Fecho os olhos com força, enquanto aperto o celular contra mim. Os sons dos tiros eram aterrorizantes.

— Você vai ligar para a polícia? — Questiono, apertando para realizar uma chamada de emergência.

— Não. Nós vamos ligar para a tia Tasha. — Responde e eu o encaro, surpresa. Estranhamente, Barry parecia bastante calmo para a situação. Mesmo em alta velocidade, seus olhos pareciam focados na pista, desviando de todos os obstáculos que apareciam em nossa frente. Ele era ágil e mesmo realizando manobras perigosas, Barry parecia ter total controle da situação. — Me passa o celular.

— Tudo bem. — Respondo, entregando o aparelho. Ele desbloqueia o celular e me entrega de volta. — Procure o número dela e ligue.

Assim como solicitado, procuro o número da ruiva em seus contatos e ligo. Encolhida contra o banco, enquanto era jogada de um lado para o outro com os movimentos nada seguros de Barry no meio de uma quantidade enorme de carros e pessoas, levo o celular ao ouvido. É somente no quinto toque que a agente Romanoff me atender.

Barry? O que houve? — Questiona a mulher, atendendo a ligação. — Seja rápido. Eu estou no meio de uma reunião.

Natasha, aqui é a Caitlin. Nós estamos com problemas. Precisamos de ajuda. — Informo e acabo soltando um resmungo, quando minha cabeça bate contra a janela do carro, no momento em que Barry tenta desviar de mais um carro a nossa frente. Mais tiros são disparados contra nós e estava sendo difícil transitar no meio de tantos veículos.

— Desculpa. — Lamenta Barry, encarando-me preocupado.

— Não se preocupe. — Respondo, tentando tranquilizá-lo.

O que está acontecendo ai? Eu ouvi tiros? Onde vocês estão? — Pergunta Natasha, alarmada.

— Três carros estão nos seguindo pela Rockville Road. Estão armados e atirando contra nós. Estamos tentando fugir, mas não acho que o carro vai dar conta de receber tantos tiros e lidar com os movimentos bruscos de Barry. — Respondo e ela arfa, preocupada.

Está bem. Espere um pouco. — Ouço Natasha dizer alguma coisa em outra língua, provavelmente dando ordens para as pessoas que estavam a sua volta. — Caitlin, pode colocar a ligação no viva voz, por favor?

— Claro. — Concordo e faço o que ela pede. — Pronto.

Barry.

— Sim, tia Tasha. — Responde Barry, concentrado em desviar dos carros a nossa frente.

Relatório da situação. — Pede a mulher, quase como uma grande ditadora.

— Três carros atrás de nós. Um Venom GT, um Veyron Super Sport e um SSC Ultimate Aero TT. Dois deles estão com uma AK-47 e uma Tommy Gun. Dezessete pessoas feridas ao longo do trajeto. Estamos na Rockville Road, mas estou seguindo em direção a West Michigan Street. Sem ferimentos. Preciso de reforços. Não iremos aguentar mais tiros. — Explica o rapaz de uma maneira tão calma, que eu me questionava quem era aquele que estava ao meu lado.

Está bem. Estou conectando ao seu celular agora. Você se lembra do que ensinei para vocês quando brincamos de camuflagem no aniversário de Elena? — Pergunta a mulher e eu encaro Barry confuso. O que uma brincadeira de criança tinha a ver com uma perseguição?

— Cuidado! — Grito, vendo que o sinal estava fechado e os carros do cruzamento seguiam com agilidade.

— Sim. — Responde Barry, avançando contra os carros. Prendo a respiração, imaginando que seriamos atingidos, mas como se estivéssemos dentro de um filme de ação, Barry se encaixa no meio de dois carros em uma manobra terrivelmente perigosa e segue em direção a Kentucky Avenue. — Mas será um pouco difícil realizar o que você quer. Eles são bem treinados e mais outros cinco carros apareceram. Até mesmo eu estou tendo dificuldade para manter uma distância segura deles.

Tudo bem. Sara está indo em sua direção com reforços. Pegue a próxima avenida a direita. Vá em direção a ponte Shadeland. Vai precisar usar a sua habilidade de velocidade. — Explica Natasha e eu já não conseguia entender nada do que estava acontecendo.

Mais tiros são disparados contra nós. Vejo carros batendo uns contra os outros atrás de nós, em meio a perseguição desesperadora. Eu me sentia presa em um filme de ação maluco. Barry, por outro lado, permanecia com a expressão imparcial. Era como se ele tivesse treinado para isso. Ele continuava a desviar e a acelerar com maestria. Mesmo sendo alvejados de tiros, seu carro também não parecia sofrer tantos danos.

— Continue abaixada! Os reforços chegaram. — Avisa Barry e vejo mais carros vindo em nossa direção, mas dessa vez, eles atiravam contra os carros que nos perseguiam. Tudo o que eu conseguia fazer era me segurar e morder meus lábios para não gritar. — Estamos chegando!

— Chegando aonde? — Pergunto, quase em prantos. Eu estava desesperada. Aquilo era demais para mim. Eu só queria terminar o meu projeto. Por que de repente eu estou envolvida em uma perseguição com inúmeros carros atirando contra mim?

A ponte Shadeland. — Responde Natasha, parecendo animada. — Barry, você já sabe o que fazer.

Sim. — Concorda Barry, sorrindo, enquanto acelera ainda mais o carro. Olho para trás e vejo que agora só haviam dois carros atrás de nós. Eles continuavam a apontar suas armas, prontos para nos aniquilar. Aquilo era surreal demais. Olho para frente e vejo que a ponte Shadeland estava se erguendo.

— O que você vai fazer? — Grito alarmada. Aquilo era praticamente suicídio.

— Não se preocupe. Vai ficar tudo bem. — Responde o outro, animado. — Segure-se!

E então ele acelera mais. Meu coração estava a ponto de sair pela boca. Eu estava sentindo que aquele seria o meu fim. Mas para a minha surpresa, no último instante, o carro pula no ar e exatamente como em um filme de ação, aterrizamos no outro lado da ponte que se erguia também. O carro desliza pela pista, até que Barry consegue o parar. Observo a tudo, perplexa demais para ter qualquer reação. Barry suspira aliviado e me encara com preocupação.

— Você está bem? — Pergunta Barry, olhando para trás, conferindo se havíamos mesmo conseguido nos livrar das pessoas estranhas que nos seguiam. Balanço a cabeça, confirmando. Estava apavorada demais para conseguir dizer qualquer coisa. — Tia Tasha, estamos bem.

Ótimo. — Comenta a mulher, soando aliviada. — Eu estou indo para aí. Logo, logo nós iremos descobrir quem está por detrás desse ataque surpresa.

E sem dizer mais nada, Natasha encerra a ligação. Minha mente dá inúmeras voltas, tentando absorver tudo o que havia acontecido e tudo o que consigo pensar é: quem são essas pessoas e por que elas querem nos matar? E mais ainda, quem realmente são a família Barton?