ROMANCES MENSAIS

LIVRO IV – COMPETIÇÕES DE ABRIL

CAPÍTULO XVI — IMPULSIVIDADE

Cait encarava um dos líderes da máfia japonesa com intensidade. Há uma tensão sufocante no ar, enquanto o homem de trajes tradicionais japoneses mantinha a mesma expressão calma em seu rosto. A forma como Kimanjiro Inugane nos observava era intimidadora, ainda que ele se mantivesse quieto e silencioso. Ao seu redor, três homens seguravam suas armas, prontos para obedecer a qualquer ordem dada de seu líder. A mulher presente permanecia de cabeça baixa, apenas se movendo quando o mafioso manifestava interesse em mais chá.

Apesar dessa ser a primeira vez que eu o encontro, Kimanjiro Inugane não era uma figura tão desconhecida assim para mim. Na casa de tio Clint, nas inúmeras fotos de recordação que ele guardava de suas viagens e conhecidos, a foto tirada em uma espécie de templo japonês era uma das que mais se destacavam pela presença de dezenas de homens com o corpo tatuado, que segundo tio Clint, foram feitas através de uma prática artesanal conhecida como Irezumi. Esta prática é visto como um sinal de bravura devido à dor que o método inflige.

Os homens usavam uma tanga branca chamada ofundoshi e olhavam para a câmera em suas poses nada amigáveis. Tio Clint e o Sr. Inugane estavam no centro usando yukatas e sorriam como se fossem grandes amigos, o que não passava de uma grande mentira. Meu tio me explicou que nunca aprovou as práticas da Yakuza, mas seguia o princípio de que é bom ter os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda.

A máfia Yakuza é conhecida por suas atividades ilegais e por seus códigos de conduta e extrema organização. Cerca de 60% do dinheiro da Yakuza vem de negócios escusos, como extorsão, agiotagem, prostituição, jogos de azar, pornografia infantil e tráfico de drogas. Os outros 40% do faturamento têm origem em atividades legais, como construção civil, mercado financeiro e setor imobiliário. Eles possuem uma grande influência na mídia e política japonesa, além de também agir internacionalmente. Ao que parece, os membros da Yakuza são divididos em quatro famílias principais, que agem de forma bastante controversa.

Kimanjiro Inugane é o líder da Yamaguchi-gumi, a maior de todo o Japão, com 40 mil membros divididos em 750 clãs. Tio Clint explicou que ela foi fundada em 1915 e a sede está localizada em Kobe. Esta organização encabeça várias atividades criminosas não só no Japão como também fora do país. Como era de se esperar de meu excêntrico tio, por causa de uma situação bastante imprevisível, eles se conheceram e se tornaram "amigos".

Tio Clint havia me alertado algumas vezes de que eu jamais deveria me envolver com a máfia japonesa. Eles possuem formas perigosas de se livrar daqueles que os incomodam. Agora, sentado de frente para um dos maiores líderes da Yakuza, eu me via completamente sem saída. Se eu estivesse sozinho, não me importaria de desafiar aqueles malditos, mas a situação mudava totalmente ao ter Cait sobre a mira de suas armas.

— Acha mesmo que com sete anos eu entenderia o que era um estudo que minha estava realizando sobre uma substância misteriosa? — Pergunta Cait, mexendo em sua bolsa. Nesse instante, todos os homens de Inugane apontam suas armas para nós. Encaro minha namorada, tentando entender o que ela estava fazendo e, ao mesmo tempo, repreendo-a apenas com o olhar. Ela dá um sorriso divertido e aquele era o sinal de que nada de bom sairia de Cait. — Calma, rapazes. Eu apenas peguei um espelho para tirar o cisco em meu olho.

Minha namorada mostra o espelho para os homens, que recuam um pouco confusos com a ação de Cait. Ela então parece mesmo estar tirando algo de seu olho e depois encara Inugane com tédio. O homem então suspira e imediatamente recebe mais chá da mulher que estava ao seu lado. Ele parecia estar começando a perder a paciência.

— Você pode não conhecer tão bem o material que possui, Srta. Snow, mas é inteligente o bastante para lidar com o Mirakuru. Tudo o que eu preciso saber é como estabilizar a ação do soro. Como faço meus homens ficarem mais fortes com os componentes milagrosos do Mirakuru sem que eles acabem mortos horas depois? — Questiona o homem, tomando mais um gole de sua bebida. — É simples, vocês não acham?

— Se fosse tão simples assim, vocês não precisariam sequestrar dois jovens universitários para fazer isso. Eu conheço o Mirakuru o suficiente para saber que não é algo tão simples assim. Tudo depende muito mais da adaptação do corpo de quem o recebe do que o soro em si. Assim como pessoas reagem de forma diferente aos mesmos medicamentos, essa droga pode se desenvolver de forma singular em cada indivíduo. — Explico, vendo a expressão de Inugane se tornar um pouco sombria.

— Por ser uma substância externa que será inserida em seu corpo, o sistema imune adaptativo do indivíduo é quem vai considerar como deve ser o procedimento para lidar com essa substância. Como é uma imunidade gerada ao longo da vida, ativada após um contato inicial com diferentes agentes invasores, esse sistema tem a propriedade de reconhecer especificamente um determinado microrganismo, gerando uma memória imunológica, que confere proteção contra reinfecções pelo mesmo antígeno. — Cait completa a minha linha de raciocínio e as informações parecem deixar o mafioso ainda mais insatisfeito.

— Mas eu tenho certeza de que vocês descobrirão uma forma de tornar o processo de adaptação mais favorável aos meus homens. — Afirma o homem com seus olhos brilhando perigo.

De repente, uma fumaça começa de cheiro desagradável começa a se espalhar pela limousine. Sinto Cait me entregar uma espécie de pano e logo entendo o que ela estava fazendo. Pego o tecido e tampo a minha boca e nariz, enquanto ela faz o mesmo. Inugane e seus homens se agitam, buscando encontrar a origem daquela fumaça, o que foi o maior erro deles. Não demora muito para que eles venham em nossa direção, mas antes que nos alcançassem, Cait soca os homens de forma que eles caem desacordados no chão. Nesse momento, vejo que ela usava um soco-inglês para nocautear os já enfraquecidos mafiosos.

A limousine para e Cait faz sinal para que eu me preparasse. Meus olhos ardiam pela fumaça tóxica e eu esperava mesmo que não demorassem para abrir a porta do veículo. Com sua mochila nas costas e mais alguma coisa em mãos além de seu soco-inglês, quando a porta da limousine é aberta, Cait passa a borrifar alguma coisa nos homens da Yakuza que apareciam. Antes mesmo que eles sequer conseguissem atirar em nós, Cait imediatamente nocauteava os homens que recebiam o seu líquido misterioso no rosto.

— Vamos, Barry! Não vai demorar muito para que esses babacas se livrem do nitrocelulose e do sedativo que eu criei. — Alerta Cait, puxando-me pelo pulso para que entrássemos na floresta estranha que estava ao redor da pista onde o carro parou.

Os homens que estavam nos outros carros que seguiam o líder não demoram a aparecer e a atirar em nós. Sem olhar para trás, coloco minha mochila nas costas e corremos sem saber ao certo para onde estávamos indo dentro daquela mata fechada da obscura floresta que nos cercavam. Eu ainda estava bastante impressionante em como Cait havia conseguido lidar com uns dez homens do dobro de seu tamanho com tanta facilidade.

— Droga! — Resmunga a garota no momento em que uma bala passa de raspão em seu braço.

— Precisamos correr em zigue-zague se quisermos escapar dos tiros. — Oriento, relembrando de um dos treinamentos de tia Tasha. — Dessa forma é difícil eles conseguirem mirar em nós e conseguimos ganhar maior distância deles.

— Como é que você sabe disso? — Pergunta Cait, fazendo o que eu havia dito, enquanto corríamos por entre os troncos das árvores da floresta.

— Tia Tasha. — Respondo, verificando quantas pessoas ainda estavam atrás de nós. — O que vamos fazer? Esses caras não planejam nos deixar em paz e estão bastante furiosos por você ter socado o líder deles e provavelmente matado-o intoxicado.

— A culpa é dele por tentar me matar primeiro. Eu só me defendi. — Fala Cait, dando um sorriso um pouco assustador.

Ela parecia uma psicopata naquele momento. Com os cabelos molhados, maquiagem borrada, um soco-inglês em mãos, respiração ofegante pela corrida em solo desregular, olhos esbugalhados, sorriso intimidador e sangue espalhado por suas roupas brancas, eu não sabia dizer quem apresentava mais perigo naquele momento: minha namorada bastante furiosa pelo sequestro ou os diversos homens que atiravam contra nós, enquanto corríamos floresta a dentro. Aquela situação estava realmente me deixando preocupado.

Em determinado momento, quando finalmente conseguimos uma boa distância dos criminosos que estavam atrás de nós, vejo um pequeno morro na floresta e faço sinal para que nos jogássemos lá. Apressados, nós nos escondemos no meio das folhas secas e na escuridão que fazia no lugar. Os homens param de correr e olham em volta, procurando por nós. Cait e eu permanecemos em silêncio, com as mãos sobre a boca, tentando esconder nossas respirações ofegantes.

Eles conversam alguma coisa em japonês e correm em uma direção diferente de onde estávamos. Cait e eu continuamos imóveis por mais um tempo, apenas para garantir que todos os homens haviam ido para enfim respirar aliviados. Observo minha assustadora namorada, que mexia em sua mochila, provavelmente em busca de mais alguma que pudesse usar como arma. Encaro o lugar em que estávamos e vejo que aquela era a hora perfeita de acionar o celular de emergência que tio Clint havia me dado para o caso de algum ataque inesperado.

Cait observa o aparelho estranho que eu nunca ando sem de dentro de minha mochila e me encara confusa. Aquela era uma das inúmeras ferramentas que meu tio criava em sua bagunçada oficina em casa. Disco os números de contato que eu havia gravado e após o sinal, respiro fundo tentando me acalmar antes de falar.

— Identificação, Flash. Código 005. Necessito de reforços. Kimanjiro Inugane e seus homens me sequestraram. Estou acompanhado de Caitlin Snow. — Informo e desligo o aparelho.

— O que é isso? E com quem você estava falando? — Pergunta Cait, sem esconder sua curiosidade e estranheza pelo o que eu havia usado.

— Isso não importa agora. — Afirmo, olhando para o relógio em meu pulso. — Em dez minutos, tudo será resolvido. Não se preocupe.

— O que você quer dizer com isso? — Questiona minha namorada e no mesmo instante recebo uma espécie de código morsa em meu aparelho. Sorrio, satisfeito. — O que foi?

— Tia Tasha está a caminho e não está nada feliz. — Respondo e a garota me encara esperançosa. — Eles conhecerão a fúria da implacável Viúva Negra.