ROMANCES MENSAIS

LIVRO IV – COMPETIÇÕES DE ABRIL

CAPÍTULO I — RIVALIDADE

Iris nos observava confusa, sentada na ponta da mesa da lanchonete, enquanto Barry e eu nos encarávamos com seriedade um de frente para o outro. Nenhum dos dois dizia nada, mesmo que tivéssemos marcados de lanchar no intervalo juntos para combinar os detalhes do projeto que teríamos que fazer juntos. Obviamente, lutamos de todas as formas para que o professor nos trocasse de dupla, mas a resposta foi negativa e pela insistência, ainda fomos ameaçados de sermos expulso da competição se continuássemos a atrapalhar seu intervalo.

— Então... vocês vão me dizer o que está acontecendo? — Pergunta Iris com curiosidade, bebendo seu suco de laranja. — Vocês estão se encarando a vinte minutos e até agora não disseram nada. Eu estou ficando assustada.

— Eu serei a líder do projeto. — Afirmo, iniciando o que eu sabia que se tornaria uma grande discussão. — Eu tenho as maiores notas da turma, sou proativa e extremamente responsável. Ganhei por três anos seguidos o primeiro lugar em Materials Science, o primeiro lugar da Patent and Trademark Office Society e o primeiro lugar no Translational Medical Science na ISEF. Portanto, eu tenho experiência em competições científicas e tenho certeza de que se seguirmos as minhas ideias, venceremos a MCM.

— MCM? — Questiona minha melhor amiga, confusa. — O que é isso?

— Mostra Científica Multidisciplinar. A competição da universidade que vai dar uma viagem a Tóquio com todas as despesas pagas a dupla ganhadora. — Responde Barry, sem desviar os olhos de mim. Iris balbucia um entendi, mas volta a beber seu suco sem questionar mais nada. Provavelmente tinha sentido que a partir de agora, a situação ficaria complicada. — E eu acho que eu deveria ser o líder do projeto. Assim como você, eu também participei da ISEF e consegui o primeiro lugar nas categorias Computational Mechanics, Mechanical Engineering e Control Theory nos quatro anos em que eu participei. Então, eu também tenho experiência em competições científicas. Além disso, eu lido muito melhor com as pessoas e sou um líder nato.

— Você é um riquinho metido a besta que gosta de se aparecer. Então não, você não vai ser o líder. — Respondo, irritada. Ele bufa, frustrado.

— As pessoas pelo menos gostam de mim. Você é insuportável! Todos nessa universidade têm medo de você e te acham uma louca. — Acusa Barry, alterando o tom de voz. Isso faz com que todos da lanchonete nos encarassem e me deixasse ainda mais possessa.

— Pessoal, vamos nos acalmar, por favor. — Pede Iris, olhando em volta, visivelmente envergonhada.

— Louca? Pelo menos eu tenho atitude. Você é absurdamente lerdo e sonso. As pessoas têm preguiça de conversar com você. Parece o bicho-preguiça do filme Zootopia. — Retruco no mesmo tom de voz de Barry. Eu não tinha dúvidas de que estava vermelha de raiva.

— Quer saber, não dá para conversar com você! É a mesma coisa que está conversando com uma porta. A diferença é que uma porta tem mais educação do que você. — Responde o outro, cruzando os braços de maneira totalmente infantil. — E se eu sou o bicho-preguiça de Zootopia, você é a versão feminina do esquilo hiperativo do filme Os Sem Floresta de tão tagarela que é. Parece uma metralhadora falando um monte de merda a cada milésimo de segundo.

— Você quer educação? Pois então... — Antes que eu avançasse para cima de Barry, Iris me puxa, impedindo que eu esganasse aquele irritante garoto.

— Fica calma, Cait! — Pede Iris, tentando me conter.

— Está vendo? É por isso que as pessoas te chamam de louca! Você é impulsiva, cabeça dura e nunca aceita a opinião de ninguém. — Acusa Barry, com os olhos quase em chamas. Ele estava furioso. — Acha que tudo se resolve em brigas, mas deixa eu te contar uma novidade, Caitlin. A universidade inteira pode aceitar essa sua arrogância por você ser bonita e inteligente, mas eu não vou deixar você me fazer de capacho. Então abaixa a sua bola e aceita de uma vez por todas que eu serei o líder da dupla.

— Só se for por cima do meu cadáver! — Retruco, inconformada com a falta de noção de Barry. No entanto, paro para pensar em suas palavras por um minuto. — Espera, você me acha bonita e inteligente?

— Isso é tudo o que você conseguiu focar? — Questiona, indignado. Rio com ironia ao ver Barry levemente envergonhado. Provavelmente havia deixado escapar de tão furioso que ele estava. Aquilo era realmente divertido. — De qualquer forma, eu serei o líder e não se fala mais nisso.

— De maneira alguma. Eu serei a líder. Está mais do que claro para mim, que eu tenho muito mais capacidade para isso do que você. — Afirmo e ele ri, incrédulo.

— Sério, gente. Vamos parar de escândalos. Eu estou morrendo de vergonha aqui. Vocês estão discutindo para saber quem vai ser o líder de uma dupla ao invés de focarem na competição. Vocês estão sendo completamente imaturos. Realmente importa quem será o líder? — Questiona Iris, finalmente me soltando. Provavelmente tinha percebido que eu não esganaria Barry. Pelo menos, não por enquanto.

— Sim. — Respondemos uníssonos, enquanto nos encaramos furiosamente.

— Quer saber, eu desisto de vocês. — Resmunga Iris, irritada. Ela pega a bolsa e o caderno que estavam sobre a cadeira ao meu lado e nos encara como uma mãe decepcionada, repreendendo os filhos. — Vocês querem se matar e agir como crianças? Fiquem à vontade, mas façam isso sozinhos. Eu não vou ficar aqui fazendo papel de babá para dois adultos que não conseguem nem mesmo conversar sem que queiram se matar por causa de idiotices. Passar bem!

Minha melhor amiga vai embora batendo os pés, completamente inconformada com nosso comportamento. Suspiro, odiando saber que ela estava certa. Era ridículo a forma como nós estávamos brigando. Os estudantes a nossa volta riam e filmavam a cena, divertindo-se com nossa discussão estúpida.

— Ela tem razão. Vamos deixar essa discussão sobre quem será o líder da dupla de lado. — Resmunga Barry, parecendo se render. Ele se senta novamente e respira fundo antes de me encarar. — Vamos primeiro pensar no que iremos fazer no projeto. Nós temos que pensar na área que iremos atuar, assim conseguimos diminuir nosso campo de pesquisa e teremos mais possibilidades de pensar no que fazer, usando como base uma das matérias do curso.

— Tudo bem. — Concordo, voltando a me sentar. Contrariada, suspiro e pego o meu caderno e meu estojo dentro da mochila. Abro na matéria do professor de Química Analítica e pego uma caneta para anotar sobre o que iremos trabalhar. — Obviamente, se nós queremos ganhar essa competição, nós precisamos trabalhar bioquímica orgânica.

— O quê? Não mesmo. Nós iremos trabalhar com biotecnologia. — Nega Barry, veemente.

E assim, mais uma vez voltamos a discuti sobre a área de atuação de nosso curso que iríamos trabalhar. Barry estava convicto que a única forma de vencer a MCM seria usando a tecnologia, que é um dos seus maiores fortes. Por outro lado, se queremos construir um projeto inovador, nós teríamos que sair dessa mentalidade limitada de que a única forma de inovação é a tecnologia. A partir da bioquímica orgânica, conseguiríamos desenvolver estudos mais interessantes e amplos, algo realmente diferente do convencional.

Mas como era de se esperar, não conseguimos chegar a um acordo e terminamos as aulas sem decidir o que nós faríamos. A única coisa que conseguimos concordar nesse tempo de discussões é que no dia seguinte, eu iria no fim da tarde para a casa dele para tentarmos chegar a um acordo sobre o que nós deveríamos fazer. Enquanto isso, nós tentaríamos pensar em ideias de tivemos na área em que queremos e ver qual projeto é mais interessante.

[...]

As luzes piscavam e se movimentavam pelo salão ao som da música eletrônica que tocava. O bar e as mesas estavam lotados de clientes, enquanto adultos de todas as idades se divertiam na pista de dança. Dançarinas fantasiadas com perucas e roupas extravagantes de Cancan passeavam entre os clientes, servindo e recolhendo os copos de bebida. Essa é a Hawkeye, a casa burlesca mais badalada de Hawkins.

— Cait, pode ir descansar. A Elena vai te cobrir. — Avisa Mon-El, o gerente da Hawkeye, enquanto eu deixava a bandeja com copos sujos no balcão do bar, onde ele estava realizando seus malabares de bartender.

— Tudo bem. Obrigada. — Respondo, sorrindo cansada. O homem corresponde ao sorriso, antes de pegar os copos sujos para colocar na pia e voltar a apresentar seu show.

Sigo para a sala de descanso, cumprimentando alguns clientes regulares da casa e meus colegas de trabalho. Quando finalmente experimento do silêncio e da tranquilidade do segundo andar da casa burlesca, suspiro aliviada. Depois de três horas de constante barulho, tudo o que eu precisava era de um pouco de calmaria para descansar o corpo e a mente.

Eu amo trabalhar no Hawkeye. É isso que me mantém nesse trabalho há cinco anos, ainda que não seja a profissão dos meus sonhos. O ambiente é divertido, as pessoas são gentis e compreensivas e meus colegas de trabalho são amorosos e companheiros, além do salário e benefícios serem excelentes. Por isso, mesmo sendo cansativo trabalhar à noite por escala, dançar por horas e ainda servir os clientes com as roupas exageradamente quentes, era divertido fazer parte da família Hawkeye.

Suspiro cansada e abro a porta da sala de descanso. Assim que vejo o confortável sofá vazio, jogo-me sobre ele. Fecho os olhos e sinto meu corpo relaxar no sossego do lugar. Ouço uma risadinha baixa e a porta da sala ser fechada. Viro meu rosto para ver quem estava no local e dou um leve sorriso ao reconhecer Ally.

— Cansada? — Questiona a garota, compreensiva.

— Um pouco. E com dor de cabeça. — Confesso e ela me encara surpresa.

— Isso é novidade. — Comenta a garota de peruca loira com mechas em formato de quadrados na cor rosa, antes de se levantar ir até o armário da sala de descanso, onde pega uma cartela de comprimido e enche um copo com água. — Aqui. Isso deve ajudar.

— Obrigada. — Agradeço, pegando o copo d'água e o comprimido que a garota me oferecia.

— Aconteceu alguma coisa? Você parece um pouco desanimada. — Ally me encara com preocupação, enquanto se senta do meu lado no sofá.

— Problemas com trabalho na faculdade. — Respondo, suspirando. Ela me encara daquele jeito doce dela. Era incrível a capacidade da garota de nos fazer confessar tudo o que sentíamos apenas com aquele olhar compreensível. — Eu tenho que fazer um projeto com um garoto que eu não suporto. Nós iremos competir com a universidade inteira e o prêmio do primeiro lugar é uma viagem para Tóquio com todas as despesas pagas e a chance de apresentar o projeto para investidores mundiais lá. É uma chance única e por isso eu quero muito ganhar, mas eu e o filhote de cruz-credo não conseguimos concordar em nada.

— Parece mesmo complicado. — Responde Ally, enquanto me encara pensativa. Choramingo, cansada só de pensar que terei que lidar com Barry amanhã e acabo deitando no colo de Ally. Ela ri e acaricia minha cabeça, mesmo que eu tivesse usando uma peruca loira visivelmente artificial. — Por mais difícil que seja a situação, eu sei que você vai conseguir se sair bem. Você é a garota mais determinada, inteligente e criativa que eu conheço. Não há problema no mundo que você não possa dar conta. Acho que seria capaz até mesmo de trazer a paz mundial e acabar com a fome no mundo se você quiser. Então não desista.

— Obrigada, Ally. — Agradeço, sentindo-me um pouco melhor. — Você é um anjo.

— Não precisa agradecer. — Afirma a garota, dando um sorriso animado. Ela nem mesmo parecia a mulher forte e batalhadora que enfrenta uma situação difícil em casa.

— Ally, como está o seu pai? — Pergunto e ela me encara com um sorriso fraco nos lábios. Era um assunto delicado, afinal de contas.

— Ele está... estável, eu acho. Faz algum tempo que ele continua do mesmo jeito. Passa horas encarando a foto da minha mãe sem dizer nada, completamente alheio a realidade. — Explica e vejo a dor presente nos olhos de Ally. Ela então respira fundo e balança a cabeça, negando, como se estivesse espantando todos os pensamentos ruins. — Mas tudo bem. Eu sei que um dia ele vai melhorar. Apesar de tudo, eu não posso reclamar. Eu estudo em uma escola incrível, tenho amigos maravilhosos e trabalho em um lugar incrível. Se não fosse por esse emprego que o Clint me deu, eu jamais teria conseguido colocar meu pai na clínica psiquiátrica que ele está agora. Então tudo o que eu preciso fazer é trabalhar duro e seguir em frente.

Ally trabalha há menos de um ano no Hawkeye e eu nunca a vi reclamar da vida ou lamentar a situação em que vive, mesmo tendo todos os motivos do mundo. Com um sorriso no rosto e uma positividade única, ela está sempre dando o melhor de si para melhorar mais a cada dia. Ela perdeu a mãe quando era criança e o pai é um militar que foi obrigado a se aposentar depois de levar um tiro na cabeça. O homem não morreu, mas perdeu boa parte da consciência e se tornou praticamente um boneco que respira, anda e come.

Por causa disso, Ally precisa trabalhar e estudar para conseguir cuidar do pai doente e pagar as contas. Aparentemente, o salário que o pai recebe da aposentadoria só é suficiente para comprar os medicamentos e cobrir uma parte do tratamento dele na clínica cara onde ele está internado desde que a garota começou a trabalhar no Hawkeye.

— Eu realmente admiro muito você, Ally. — Confesso, surpreendendo a garota. — Eu me sinto até mal por ficar aqui me lamentando por besteiras.

— Não seja boba. Cada um sente de forma diferente e enfrenta realidades diferentes. Eu sei o quanto você é esforçada e como essa é a oportunidade que você esperava para realizar o seu sonho de criar medicamentos de baixos custos para pessoas com doenças raras. Então é normal se sentir frustrada pelas coisas não estarem saindo da maneira como você quer. — Afirma Ally, encarando-me com um sorriso gentil. — Todo mundo tem algo em que é bom. Por que não tenta mudar um pouco a abordagem para tentar se acertar com seu colega da faculdade? Pode ser que vocês acabem encontrando alguma ideia que possa unir o melhor de cada um.

— Você é tão boazinha. — Comento e ela me encara com repreensão. Era até engraçado ver a garota baixinha e delicada com aquele olhar. Rio e suspiro, dando-me por vencida. — Tudo bem. Você tem razão. Talvez, mas só talvez, eu possa dar uma chance a planta em forma de gente. Odeio admitir isso, mas aquele lerdo é inteligente. Se ele fosse menos metido e cabeça dura, conseguiríamos fazer um bom trabalho juntos. Agora o verdadeiro desafio vai ser conseguir conversar com o herdeiro de Belzebu sem querer esganar ele.

— Apenas seja um pouco mais... aberta a novas ideias e a opinião de seu colega e eu sei que tudo dará certo. — Afirma Ally, levantando-se do sofá. — Agora eu preciso ir. Meu tempo de descanso acabou. Daqui a pouco eu entro no palco, então preciso aquecer a garganta.

— Tudo bem. Daqui a pouco eu estou descendo. — Aviso, vendo a garota se direcionar a porta.

— Certo. Nós estaremos te esperando. — Responde Ally, acenando em despedida.

Respiro fundo e volto a me deitar no sofá. Encaro o teto branco da sala de descanso e penso um pouco nas palavras de Ally. Se nós quisermos realmente ganhar essa competição, Barry e eu precisamos deixar todas as nossas diferenças de lado e aprender a trabalhar em equipe. Então por mais que eu odeie essa situação e que eu tenha vontade de vomitar só em pensar nisso, para alcançar um objetivo maior, eu vou precisar engolir o meu orgulho e propor a droga de uma trégua ao filho de Satanás.

— Droga! — Resmungo para mim mesma,inconformada, enquanto dou um grande e pesaroso suspiro. — Seria muito mais fácil e menos doloroso me pedir para arrancar meu braço com uma faquinha de serra.

Notas finais
Oii Cupcakes ♥! O que acharam do capítulo? Deixem a opinião de vocês! Família Cupcake 2.0: https://chat.whatsapp.com/BbOG6KJnuHy2dQIs1sC9Ss Cupcakes da Lara: https://www.facebook.com/groups/677328449023646 Detenção de Março - Livro III: https://fanfiction.com.br/historia/787607/Detencao_de_Marco/