Competições de Abril

27 Loja de Penhores


ROMANCES MENSAIS

LIVRO IV – COMPETIÇÕES DE ABRIL

CAPÍTULO XXVI — LOJA DE PENHORES

A notícia dada por Haru nos enche de esperança. Se as provas estiverem em um desses lugares, essa pode ser a nossa chance de colocar um fim nesse inferno de uma vez por todas. Por assim, mesmo querendo aproveitar um pouco mais da casa de lago de tio Clint, Cait, Natsu, Haru e eu não demoramos muito para terminar nosso café da manhã. Aki, Sara e tia Tasha ficaram responsáveis por descobrir mais informações sobre o Projeto MKUltra.

Assim, por estarmos mais próximos de Gas City, decidimos que esse seria o primeiro lugar que iríamos procurar. Além disso, levando em consideração que é uma localização mais afastada do Hawkins National Laboratory, tínhamos a esperança de que seria o mais provável entre os dois lugares onde as provas poderiam estar.

— Já que estamos indo para a cidade onde seus pais moram, nós deveríamos visitá-los. Gostaria de me apresentar formalmente a eles como seu namorado. — Comento com Cait, que me encara com um sorriso divertido em seus lábios.

— Nós por acaso estamos no século XVIII? Por que precisa se apresentar formalmente aos meus pais como meu namorado? — Pergunta a garota e eu apenas dou de ombros. — E meus pais não são as pessoas mais agradáveis do mundo. No seu lugar, eu evitaria ao máximo conhecê-los.

— Ainda assim, eu gostaria de conhecer as pessoas que trouxeram o amor da minha vida ao mundo. — Digo de maneira galanteadora, fazendo Cait gargalhar e corar ao mesmo tempo. Acabo me contagiando por sua risada espontânea. — O quê? Eu realmente preciso ser grato a eles.

— Você é um idiota. — Comenta minha namorada, dando um leve empurrão em meu ombro.

— O idiota que você ama. — Respondo de maneira convencida e ela revira os olhos, mas não diz nada, incapaz de contrariar o que eu havia dito. — Viu?

— Vocês estão me deixando enjoada com toda essa melação. — Reclama Haru no banco traseiro do carro. Como Aki precisaria do carro para continuar sua investigação e tia Tasha voltaria para a sede da CIA com Sara, Natsu e Haru tiveram que vir em meu carro. — Não é porque nós estamos no carro de vocês que somos obrigados a assistir essas cenas constrangedoras.

— É realmente nojento. — Concorda Natsu, fazendo careta. — É como se estivessem esfregando na minha cara a minha capacidade de encontrar uma namorada. O que acha de largar o Barry e ficar comigo, Cait? Eu sou muito mais bonito e gostoso que ele.

— Acho que já está na hora de você procurar um oftalmologista. Só nos seus sonhos que você é mais bonito e gostoso que eu. Além disso, minha namorada é inteligente demais para deixar um namorado perfeito como eu para ficar com qualquer outro cara que eu. — Ironizo e as garotas no carro começam a rir.

— Se ela não te quiser mais, eu quero, Barry. Estou pronta para ocupar a vaga dela. — Brinca Haru, que recebe um sorriso irônico de minha namorada em resposta.

— Vai ficar querendo. Ele já tem dona e está muito feliz com ela. — Responde Cait, encarando-me com intensidade. — Não é mesmo, querido?

— Com certeza, meu amor. — Afirmo, usando o mesmo tom sarcástico de Cait ao me chamar pelo apelido carinhoso, arrancando mais risadas dos irmãos Onizaki.

Quando as risadas se cessam, a música que tocava em volume baixo se torna o único barulho audível dentro do carro. No entanto, não era algo desconfortável. Todos apenas pareciam aproveitar o momento para observar a bonita paisagem que nos rodeava, com o bonito nascer do sol iluminando as montanhas no horizonte. Por causa do verão, a vegetação ao redor da rodovia em que seguíamos estava bastante seca, mas isso não alterava em nada a beleza daquele lugar.

Em meio a alguns comentários idiotas e brincadeiras infantis demais para um grupo de adultos que pareciam rir até mesmo do vento, um pouco menos de duas horas, nós finalmente chegamos a Gas City, a pacata cidade com seus pouco mais de cinco mil habitantes. O ar de cidade interiorana logo se fez presente com as casas e o comércio semelhantes aos mostrados nos filmes dos anos oitenta.

Minha namorada observava a paisagem pela janela com o olhar distante, provavelmente relembrando dos momentos que passou morando nessa cidade, que comparada ao tamanho de Hawkins, era apenas um pequeno pedaço de terra. Seguindo os comandos do GPS não demoramos muito a chegar ao nosso destino final, que descobri se tratar de uma loja de penhores. Encaro Natsu e Haru, esperando alguma explicação lógica para estarmos em um local como aquele, mas tudo que fazem é descer do carro.

— Uma loja de penhores? Será que é mesmo esse lugar? — Comenta Cait, parecendo tão descrente quanto eu. — Por que minha mãe deixaria provas importantes contra o laboratório em um lugar tão incerto como esse? Mais ainda, por que uma loja de penhores aceitaria penhorar papeis, fotos e vídeos? Isso não faz sentido.

— Bom, Natsu e Haru parecem ter certeza de que estamos no lugar certo. — Respondo, vendo os irmãos fazerem sinal para que os seguíssemos. — Não custa nada darmos uma olhada.

— Tudo bem. — Concorda Cait, suspirando desanimada, enquanto desce do carro.

Nós nos aproximamos dos irmãos estação do ano e observamos a fachada desgastada da loja de penhores. A placa de metal já estava quase totalmente desbotada. O nome Diamond Pawn Shop 24 horas estava pintado com cores vibrantes na vitrine da loja era a única coisa que tornava possível identificar aquele lugar como uma loja de penhores. Encaro Natsu e Haru a espera de uma resposta.

— Nós investigamos um pouco sobre o passado da Dra. Carla Tannhauser e depois de muita busca na base de dados americano, encontramos o nome dela nessa loja de penhores. Ela penhorou algo nesse lugar um pouco depois do ataque que sofreu do Hawkins National Laboratory. Claro que não há certeza alguma de que esse lugar ainda esteja com o que ela penhorou e menos ainda que são as provas que tanto desejamos encontrar. Tudo se trata de suposição, mas essa pode ser a nossa chance de encontrar pelo menos uma pista. — Explica Natsu, dando um fraco sorriso.

— Ainda que não seja nada demais, nós achamos melhor verificar. Esse é o único registro que encontramos no nome de Carla Tannhauser entre os anos de 2001 e 2003 nos Estados Unidos. Depois disso ela desapareceu. Não há compras ou qualquer registro no nome dela até 2015, quando sofreu o acidente de carro e foi levada ao hospital. Mas durante esse período de um pouco mais de dez anos, ela se manteve como um fantasma. Foi assim que ela conseguiu se esconder de Ted Wheeler durante todo esse tempo. — Conta Haru e isso era realmente impressionante.

— Minha mãe sempre foi uma pessoa estranha. Pelo que me lembro dela quando criança, ela nunca usava cheques ou cartão. Fosse de crédito ou débito, ela sempre usava dinheiro. Eu também não me lembro dela ir ao banco naquela época. Ela mudou completamente quando sofreu o acidente de carro. Como ela não se lembrava de muita coisa, acabei deixando esses detalhes para lá, já que depois da perda de memória, ela agia como um ser humano um pouco mais sociável. — Relembra Cait, pensativa. — Se essa foi a única operação que ela fez durante esse período, ela realmente pode ter escondido as provas aqui, já que ninguém se daria ao trabalho de procurar papel em uma loja de penhores.

— Bom, não adianta nada ficarmos aqui fora criando teorias. Vamos entrar e ver o que nós descobrimos. — Respondo e todos parecem concordar.

Desconfiados, entramos na loja de penhores e o lugar era ainda mais estranho do que o seu exterior. Não demoro a sentir meu nariz coçar ao sentir o forte cheiro de poeira e mofo do lugar, que mais parecia um deposito que uma loja de fato. Era possível encontrar de brinquedos a armas naquele estabelecimento. No entanto, tudo estava amontoado de forma bastante desorganizada e caótica. A iluminação fraca e o pouco espaço para nos movimentar por entre a mercadoria me causava a sensação de estar enclausurado.

— Bom dia. Em que posso ajudar? — Pergunta um homem de cabelos e barba grisalhos. Ele nos encarava entediado, enquanto bebia um copo de café. Ele usava um óculos redondo e possuía a aparência cansada. — Estão procurando por algo específico?

— Bom dia. Na verdade nós queríamos uma informação. — Responde Cait, fazendo uma espécie de malabarismo para chegar ao balcão onde o homem estava. — A alguns anos atrás minha mãe esteve aqui e aparentemente penhorou alguma coisa. Gostaria de saber se ainda está aqui e o que ela penhorou.

— Por acaso sua mãe morreu? — Pergunta o homem, desconfiado.

— Não! — Nega minha namorada, surpresa pela pergunta do homem. — Ela está viva. Mas há cinco anos ela sofreu um acidente de carro e não se lembra de muitas coisas da vida dela, inclusive que ela esteve aqui, penhorando alguma coisa.

— E como você sabe que ela penhorou alguma coisa aqui se ela não se lembra? — Questiona o idoso, pegando a bengala que estava apoiada no balcão para se locomover.

— Apenas gostaríamos de confirmar, senhor. — Respondo e ele me encara mal-humorado.

— Eu tenho uma política na minha loja de nunca passar informações de meus clientes para desconhecidos e sigo essa política de maneira severa. Então, se sua mãe não vier aqui para procurar ela mesma, eu não posso ajudar vocês. — Afirma o homem, abrindo a porta da loja e aponta a bengala que usava , claramente nos expulsando. — Agora se vocês me dão licença, eu tenho mais o que fazer.

— Espere um pouco, Sr. Crawford. — Pede Natsu e o senhor de idade o encara ainda mais desconfiança depois do platinado falar o nome dele. — Entendo que queira manter seus clientes em segurança, mas isso realmente é um caso de vida ou morte. Acreditamos que Carla Tannhauser pode ter deixado com o senhor documentos importantes que podem prender a pessoa responsável pelo acidente dela e pela morte de inúmeras pessoas inocentes.

— Carla Tannhauser? — Repete o Sr. Crawford, parecendo reconhecer o nome. Ele então fecha a porta da loja e se aproxima de Cait. — Qual o seu nome, mocinha?

— Caitlin Snow. — Responde minha namorada, pegando a bolsa dela, de onde tira a identidade e apresenta para o senhor de idade, que a pega com cautela e analisa o documento com cautela. — Veja. Eu realmente sou a filha de Carla Tannhauser.

— Certo. — Concorda o homem, entregando a identidade de Cait para ela.

Calmamente, o Sr. Crawford caminha com a ajuda de sua bengala de volta ao balcão. Sem dizer nada, o homem começa a procura alguma coisa no armário encostado na parede atrás do balcão. Natsu, Haru, Cait e eu nos encaramos, sem saber o que estava acontecendo. Eu queria fazer inúmeras perguntas ao senhor, mas algo me dizia que o melhor a fazer naquele momento era esperar até que o homem de cabelos grisalhos encontrasse o que quer que ele estivesse procurando.

Por fim, o Sr. Crawford retira um caderno de registro grosso de dentro do armário e o apoia no balcão para folhear. Por ser um documento antigo, a poeira não demora a nos incomodar, conforme ele passava as folhas. Espirro algumas vezes e suspiro aliviado quando ele parece encontrar alguma coisa. O homem analisa a folha do caderno por um momento, antes de nos encarar novamente.

— Você encontrou o nome da minha mãe, Sr. Crawford? — Pergunta Cait, esperançosa. — Ela deixou alguns arquivos aqui?

— Não. — Responde o homem de maneira fria. Ele então começa a procurar alguma coisa no balcão até que encontra uma caixa preta semelhante a um estojo daqueles grandes álbuns de foto. Com dificuldades, ele coloca a caixa sobre o balcão e retira uma chave que estava em seu pescoço para abrir o cadeado que estava na caixa. — Ela realmente deixou algo para você, mas não foram documentos.

— E o que foi? — Questiona minha namorada, um pouco surpresa.

— Uma chave. — Responde o homem, pegando uma chave dentro da caixa estojo e estende para Cait, que a pega de maneira confusa. — E uma carta.

— Uma carta? — Repito, sem entender o que estava acontecendo. O homem assente e estende um envelope pardo para Cait, que me entrega a chave que recebeu do Sr. Crawford e pega o envelope.

Observo a chave dourada em minhas mãos. Eu não entendia nada de chaves, mas aquela com certeza era bastante incomum. Ela parecia ser uma mistura de antiguidade e modernidade. Eu não fazia ideia de onde aquela chave poderia ser, mas com certeza é uma pista. Entrego a chave a Natsu e no mesmo instante Haru começa a procurar em seu celular de onde aquela chave poderia ser.

— Minha mãe deixou mais aluma coisa, Sr. Crawford? — Pergunta Cait e o homem nega.

— Isso é tudo que ela deixou para você. — Responde, fechando a caixa preta. Ele volta a colocar a chave em seu pescoço e a guardar a caixa em seu balcão.

— Muito obrigado, Sr. Crawford. — Agradeço e ele novamente nos encara mal-humorado. Encaro Cait e os irmãos Onizaki, em um pedido mudo para que fôssemos embora. Eu sentia que aquele homem poderia usar a bengala dele a qualquer momento para tentar quebrar o meu crânio.

— Obrigada, Sr. Crawford. Vamos, pessoal? Nossa investigação ainda não terminou. — Fala Cait, sorrindo sem graça para o senhor de idade, que apenas dá as costas para nós.

Apertando a carta contra o peito, minha namorada suspira e segue para fora daquela loja estranha. Preocupados, Natsu, Haru e eu seguimos a garota que para de andar apenas quando chega ao carro. Abro a porta do veículo e somos quando todos entram é que Cait abre a carta para ler o que a mãe dela havia escrito para ela.

— E então, Cait? O que sua mãe disse na carta? — Pergunta Haru, sem esconder a curiosidade que sentia.

— "Querida Caitlin, se você está lendo essa carta, significa que algo aconteceu comigo e que você descobriu a verdade sobre o Hawkins National Laboratory. Sinto muito por não ter te contado nada antes, mas eu não queria colocar você e seu pai em perigo. Malévola Faery, minha amiga que trabalha no IU Health Methodist Hospital, deve ter contado brevemente a você sobre o Projeto MKUltra e todos os erros que cometi ao concordar em participar dessa pesquisa. Infelizmente, por minha causa, muitas pessoas morreram ao fazerem uso do Mirakuru e minha melhor amiga foi acusada de um crime que não cometeu. Eu tentei reunir o máximo de provas que eu tinha contra Ted Wheeler e levar a polícia, mas infelizmente, ele é poderoso demais e eu tive que priorizar sua segurança.

Você deve estar se perguntando o motivo de ter deixado apenas essa chave e uma carta com o Sr. Gerald Crawford, mas isso também é para garantir que apenas você terá acesso as provas que eu reuni, Caitlin. Sendo a minha filha, eu tenho certeza de que você é a única capaz de desvendar a localização das provas contra o diabólico Ted e entregar para a polícia em segurança. Sinto muito por não ter sido uma mãe melhor, mas lembre-se sempre da música que eu cantava para você quando criança." — Cait suspira e me entrega a carta com os olhos brilhando em alegria. — Leia.

Estranho a felicidade de minha namorada e encaro a carta com a bonita caligrafia de Carla Tannhauser. Vejo então a parte que ela havia parado e encontro a letra da música que a mulher provavelmente cantava para a filha quando criança.

Raras as vezes em que eu fui capaz de dizer que

Eu realmente amo

Linda flor, a mais bela de meu jardim

Obrigada pelos seus doces sorriso

Grave sempre em seu coração que eu amo.

Independentemente do que aconteça

Ouça com atenção as minhas palavras

Doce menina, eu te amo mais do que consigo mostrar.

Obrigada por ter dado sentido a minha vida

Risonha menina, eu te amo mais do que consigo mostrar

Independentemente do que aconteça

Ouça com atenção, minha mais bela poesia de

William Shakespeare

Hoje eu encontrei o verdadeiro significado da vida

Independentemente do que aconteça

Tenha sempre em mente que

Eu amo você.

Com amor,

Mamãe!

— É uma letra muito bonita. Apesar de não saber como demonstrar, sua mãe realmente te ama, Cait. — Digo e ela ri, negando.

— Eu não acredito que sempre me disse a localização da cartas e eu nunca me dei conta. — Comenta a garota e todos a encaram sem entender.

— Como assim? Você se lembrou de alguma coisa? — Pergunta Haru, confusa.

— Vamos para Hawkins. — Responde minha namorada com determinação. E eu a encaro ainda mais confuso. — Confie em mim. Eu sei exatamente onde estão as provas contra Ted Wheeler.