Compartmentalization
1 Capítulo único
Notas iniciais
Ela compartimentaliza, e tem a certeza de que é muito boa nisso. Ela cuidadosamente encaixota cada pequena parte da sua vida, enterrando qualquer coisa que não queira sentir. Progressivamente, ela se tornou especialista em esquecer emoções, em mentir e fingir que tudo está perfeitamente bem, que nada consegue tirá-la do pedestal em que ela própria se colocou para que não fosse atingida por palavras e ações dos outros. Ela aprendeu, muito tempo atrás, a construir uma fachada, a criar uma máscara de modo que quem a vê de fora não vê a real Atena, e sim a Atena que ela cria, a Atena que ela mostra, a Atena falsa que pode ser detalhadamente construída para mostrar apenas as partes que ela quer que sejam mostradas. Ela é uma ótima mentirosa, principal e especialmente para si mesma, e ela finge que aquela pequena parte que ela mantém escondida não existe.
E é tão boa nisso que todos acreditam.
Ela pensa que, se isso que vem fazendo funcionou pelos últimos éons, pode simplesmente continuar funcionando. Ela sabe que não pode correr para sempre, que não há um esconderijo perfeito onde ela nunca será achada, mas nada disso a impede de mentir para si mesma e fingir que há. Então ela faz o que sempre fez e finge que está tudo bem. Ela sempre foi uma mentirosa convincente, e agora não é nem um pouco diferente. Talvez, apenas talvez, ela algum dia consiga acreditar piamente no que diz, algum dia no futuro, depois de repetir para si mesma e para os outros milhares de vezes a mesma mentira.
Ela mente descaradamente, ela nega, ela desvia do assunto e ela esconde tudo o que sente, porque ela é teimosa e cabeça-dura o suficiente para continuar acreditando que as coisas correrão mais facilmente se ela fizer isso. Ela não liga que os outros digam que ela é fria, ou que ela não tem um coração (na verdade, um hipotálamo desenvolvido), ou até que não tem nada mais que seu grande cérebro superior e completamente racional.
Ela já viveu milênios desse jeito; ela apenas não se importa mais.
Tudo isso, porém, não significa que não exista uma pequena, ingênua e escondida parte dela que quer mudar. Que quer que ela pare de ser tão lógica e deixe os sentimentos assumirem o controle. Que quer que ela, uma vez na vida, faça alguma coisa sem racionalizar todos os prós e contras que possam acontecer depois.
Mas ela faz o que sempre fez: compartimentaliza, enfia essa maldita pequena parte numa caixa como as milhares de caixas de sapato que Afrodite tem e a empurra para o mais longe possível sem dó nem piedade.
Ser humana nunca foi um de seus pontos fortes, afinal de contas.
Ela inflexivelmente dispensa todo e qualquer um que chegue muito próximo de estabelecer algum laço. Ela prefere assim, não ter que lidar com pessoas, ou mesmo deuses. Pessoas são complicadas, ilógicas, às vezes até irracionais. Ela não pode prever o que elas farão quando não se trata de guerras, ela não consegue racionalizar o que elas sentem, ela não pode controlá-las como máquinas. Ela é, nesse aspecto, muito parecida com Hefesto.
Fazendo de uma longa história uma curta, ela não se dá bem em relacionamentos. E ela está perfeitamente bem assim.
Ela está perfeitamente bem sentada sozinha numa biblioteca e enfiando a cara num livro qualquer. Ela está perfeitamente bem na solidão e quietude dos seus aposentos. Ela está perfeitamente bem não interagindo com ninguém, perdida em seu próprio mundo privado.
E, mesmo que ela não estivesse bem, ela iria fingir que está, e tudo seria exatamente do mesmo jeito.
Ela é muito, muito boa em fingir.
Tão boa que, às vezes, até ela mesma acredita nas suas mentiras e fingimentos.
Essa é a mentira mais fácil, de qualquer jeito: mentir para si mesma.
Em algum momento que ela não consegue exatamente apontar, todos começaram a se acostumar com esse comportamento, a não mais achá-lo tão anormal (ou, mais provavelmente, a aceitá-lo como parte inerente ao ser da deusa e deixar pra lá), a simplesmente aceitar a frieza e o desprendimento de todo e qualquer tipo de emoção. Depois de um tempo, qualquer um pode perceber que os esforços para se aproximar de alguém como Atena, para construir uma relação um pouco mais sólida e com mútua confiança são simplesmente inúteis somente pelo fato de que ela não se esforça de volta. Pelo contrário, enquanto qualquer um dá um passo à frente, estende a mão para alcançá-la e iniciar algum tipo de contato, ela dá dois passos para trás e desvia, eficientemente se escondendo mais e mais numa fortaleza impossível de ser derrubada.
Ela, por sua parte, percebe as tentativas de aproximação das pessoas. Muitas são sutis, outras nem tanto. Um convite para uma atividade aqui, um chamado para fazer alguma coisa ali, ambos educada porém veementemente recusados, porque Atena não quer se arriscar a dividir a companhia de qualquer outra pessoa. Ela sabe, simplesmente sabe, que não é capaz de manter um relacionamento saudável, em qualquer esfera, com qualquer pessoa por muito tempo. Ela não precisa de mais razões ou nenhuma outra comprovação científica ou teste empírico para saber que lidar com pessoas não é nem nunca será seu forte. É simplesmente automático ela se afastar e se recolher para os lugares mais isolados e silenciosos quando não pode evitar se confrontar com uma aglomeração – ou até mesmo reunião – de pessoas. É simplesmente automático ela preferir a companhia de objetos inanimados – principalmente livros – à de qualquer ser que respire. Ela já se acostumou ao fato de que é assim e não pode simplesmente mudar o jeito como é, convenientemente escondendo a parte que tem receio de tentar mudar e não conseguir. Com seu nível de orgulho, ela prefere evitar companhia a admitir – para si mesma e para os outros – que há alguma coisa em que ela não excede as expectativas, alguma coisa em que ela não é melhor que todos os outros.
E é o orgulho que a faz manter a fachada de imperturbável, de alguém tão focado em si mesmo que simplesmente se esquece dos outros, quando na verdade ela sabe que, por dentro, se sente como porcelana rachada, e que, apesar de quebrada, continua igualmente frágil.
É o orgulho, também, que a faz repelir as contínuas e quase irritantes tentativas de um certo deus do mar de se aproximar dela.
Porque ela sabe muito bem que, apesar das brigas, das faíscas que soltam na direção do outro e das constantes discussões sem motivo por qualquer motivo igualmente estúpido, ele não a odeia. Por mais que diga o contrário, por mais que tente humilhá-la, por mais que a xingue e aponte, um a um, seus defeitos, ela sabe que ele não a odeia. Simplesmente como sabe que o céu é azul, que a água é úmida e que dois mais dois são quatro.
Ela percebe o movimento sutil dos músculos do rosto dele, comprimindo um sorriso quando se aproxima muito dela. Ela se aperfeiçoou mais do que era possível em ler e decifrar as expressões faciais, um modo de compensar por ser tão ruim em decifrar interações sociais e suas ramificações – algo que todas as pessoas fazem de modo tão natural, mas que ela não consegue fazer sem uma considerável parcela de esforço – e consegue interpretar os menores e quase imperceptíveis movimentos no rosto de qualquer um, seja para detectar uma mentira ou decifrar o que o outro está sentindo. Ela percebe a sutil dilatação nas pupilas de Poseidon, o modo como as orbes incrivelmente verdes parecem brilhar com milhares de partículas cristalinas, o inclinação minúscula do canto esquerdo da boca – que com certeza não seria vista se ela não soubesse o que procurar -, o princípio de covinha que, ela sabe, ele não quer que apareça. Ele se aproxima dela como faria com um bicho esquivo e aparentemente perigoso, mas que na verdade só se sente acuado.
E apesar de no começo fugir dele como fugia de todos os outros, chega uma hora em que ela simplesmente cansa de correr em círculos e, lenta e gradualmente, o deixa se aproximar. Ela retribui o contato, intimamente aliviada por ter conseguido dar um primeiro passo. Ela sente uma leveza inexplicável quando eles começam a conversar, pela primeira vez sem o propósito único de irritar um ao outro. Ela não consegue definir exatamente por que, mas intimamente, nunca esteve mais feliz e em paz consigo mesma.
Como todas as outras coisas, porém, essa felicidade tem prazo de validade, um muito menor do que ela gostaria. Ela vê a relação entre eles progredir, e tem certeza que não é a única com palpites sobre isso. E, pior, ela sabe que não pode deixar isso acontecer. Não por causa de seu voto de castidade, mas porque seu histórico garante que, em algum momento, ela vai voltar a seu eu habitual e fazer alguma coisa realmente ruim, que irá afastá-los de um modo irreparável. Ela pensa consigo mesma que não devia ter permanecido passiva nisso, que não devia ter rido do tom de flerte dele, que não devia, inconscientemente, tê-lo encorajado a continuar. Ela sabe que tem de acabar com isso o quanto antes, e ela sabe que não conseguirá chegar ao fim dessa empreitada sem uma considerável parcela de dor. Ela pensa, porém, que a dor agora será, com certeza, muito mais suave e aturável do que se ela esperar alguma coisa dar errado – porque algo sempre dá errado em qualquer relação vagamente amigável que ela tenha.
E então é assim, que, num dia relativamente frio de outono – com direito a folhas secas no chão e uma brisa constante nos jardins do Olimpo –, enquanto o sol se punha no horizonte, ela simplesmente solta a bomba que eles não podiam continuar com isso. Ela sempre prezou o fato de conseguir ser racional e direta nas situações, e decidiu que esse era o melhor caminho para se tomar no caso em questão. Ela vê, por uma fração ínfima de segundo, suas resoluções fraquejarem quando encara as orbes verdadeiramente confusas dele, mas é um tempo tão minúsculo que ela sequer muda de opinião. É menos dolorido puxar um band-aid de uma vez, ela pensa, enquanto explica por um mais um todos os motivos possíveis e imagináveis por que aquilo daria errado no fim. Ela mente para si mesma e finge que não passou horas e horas melhorando seus argumentos, porque todos lhe pareceram demasiado estúpidos na primeira vez em que os compilou numa folha de papel. Ele apenas assiste, perplexo, e ela sabe que é porque, de todas as coisas, ele não esperava isso. Ela sente um ardor obnóxio na garganta, as pálpebras subitamente mais pesadas, mas ela sabe perfeitamente como fingir que tudo está bem e que nada disso a está afetando.
Ao final de seu discurso, ele permanece lá, a boca minimamente aberta, ainda processando tudo o que ela acabou de falar. Ele pisca uma vez, lenta e fracamente, como se para confirmar que tudo aquilo é real, que Atena está, sim, à sua frente, fria e deliberadamente enxotando-o de sua vida sem nenhuma razão aparente. E quando ela se vira para ir embora, ele, atrapalhado, se levanta, quase tropeçando nas próprias pernas, a ficha de tudo o que acontecera ainda suspensa no ar. Ele chama o nome da deusa, um último apelo desesperado para que ela reconsidere tudo isso, mas ela apenas se vira, o rosto lívido completamente impassível, e repete suas últimas palavras, que basicamente o dizem que ela nunca, nunca, nunca quer vê-lo de novo a menos de um metro dela. Ele ainda tenta fazê-la ver o quão irracional é tudo isso, mas ela já reconstruiu suas muralhas, já está, de novo, devidamente protegida do mundo ao seu redor.
Ela simplesmente está inacessível.
Em seus aposentos, ela se permite finalmente chorar, soluçando alto o suficiente para ser escutada através das paredes de mármore. Mas ninguém nunca se dá ao trabalho de ir até seus aposentos, de modo que ela não se importa, e apenas deixa a enxurrada de gotas salgadas escorrer por seu rosto e encharcar o travesseiro, ao qual ela se agarra com tanta força que parece que sua vida depende disso. Ela sabe que destruiu completamente sua melhor perspectiva de um futuro normal, mas repete veementemente que foi para o melhor. Ela só precisa de algum tempo antes de voltar ao seu eu racional e compartimentalizar tudo outra vez, com certeza empurrando essas sensações para um lugar bem no fundo da sua mente, de preferência um que não possa ser acessado depois.
E no dia seguinte, e em todos os outros que se seguem a esse, ela volta ao que era antes: fria, insensível e distante. E ninguém parece notar nenhuma diferença, porque ela sabe que sempre foi uma boa atriz.
Ela compartimentaliza, finge que não notou que alguma coisa indescritível mudou desde aquele crepúsculo nos jardins, não somente entre ela e Poseidon, mas entre ela e todos os outros. Ela ergue suas muralhas e dispensa quaisquer comentários com perspicácia e sarcasmo. Ela finge que tudo está bem, e veste a máscara de alguém que não teve o coração arrancado cruelmente do peito e enfiado bruscamente garganta abaixo quando percebe que, sim, Poseidon realmente desistiu da ideia de um “nós”. Ela mente para si mesma, e fica repetindo como um mantra que é para o melhor. Que ela está protegendo-o. Que Poseidon estava apenas confuso, que nunca realmente a quis. Ela compartimentaliza e finge que não tem emoções, que não fica revendo a expressão acabada do deus enquanto ela lhe diz da maneira mais fria possível que pensar que ela poderia se envolver com alguém é nada menos que estupidez. Ela mente, para os sátiros, ninfas, Zeus, Afrodite, Hera, Poseidon, que hoje é um dia maravilhoso. Ela mente, simultaneamente, para sua consciência, que esse rumo de ação é o que melhor funciona para todos eles. E de algum jeito, ela consegue acreditar em si mesma. Ela sempre foi boa em enfrentar esse tipo de coisa, e de algum modo, em algum lugar, até ela consegue acreditar que é feliz.
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