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22 Pazes e tempestades
Notas iniciais
(leia as notas iniciais, por favor ♥ )
Vinte e dois
O resto do final de semana passou sem grandes emoções. No domingo de manhã Ben e Majô finalmente se reuniram para fazer o relatório de química, já que a garota conseguiu arranjar um tempo no atarefado final de semana que teria com Nate. Ela passou o resto da tarde com ele e Ben passou jogando video game em sua casa. Nada muito grandioso.
Agora já era segunda, e eles estavam reunidos em dupla para fazer alguns exercícios de matemática. Os dois já estavam tão acostumados com a presença um do outro, que nem se davam mais ao trabalho de procurar outras pessoas para fazerem os trabalhos pedidos. Ainda mais quando seus amigos, principalmente as de Majô, não os queriam muito por perto.
A garota não conversava com seu antigo grupo desde aquela fatídica videoconferência pelo Skype, há quase um mês, e as garotas também não se esforçavam para falar com ela. É claro, algumas lhe lançavam olhares de arrependimento vez ou outra, mas logo desviavam. Ben, pelo contrário, ainda mantia contato com seus amigos fora da escola.
Estavam no décimo primeiro exercício da lista quando duas batida suaves soaram na porta. A professora saiu da cadeira e a abriu, revelando a inspetora do corredor. Os alunos levantaram o olhar.
⁃ Licença, professora. Eu quero falar com... — olhou o post-it amarelo que segurava. — Benício e Marjorie? — os dois ergueram os braços, incertos. — Venham comigo, o diretor quer falar com vocês. — os dois se entreolharam, confusos. O que tinha acontecido daquela vez?
Os dois se levantaram em silêncio, e começaram a acompanhar a mulher, apesar de já conhecerem muito bem o caminho. Chegando na diretoria, Sara lançou-lhes um sorriso de lado e já apontou para a porta da sala, onde o homem já os aguardava.
⁃ Olá, Ben e Majô. Sentem-se, por favor. — cumprimentou e os dois se acomodaram nas cadeiras acolchoadas e familiares.
⁃ Olha, diretor, a gente não brigou dessa vez. Eles estão mentindo. — Ben disse de cara e Majô concordou com a cabeça.
⁃ Sim, não brigaram. — o homem confirmou, arrumando alguns papéis na mesa e logo depois voltando os olhos para os dois. — Fizeram pior. Trapacearam.
⁃ O quê? — perguntaram juntos e o diretor suspirou.
⁃ Eu achei que tinha deixado claro que vocês não podiam falar com ninguém durante aquele caça ao tesouro que vocês fizeram. — os dois se entreolharam, sem entender nada.
⁃ Quando a gente fez isso? — Majô perguntou.
⁃ Vocês não perguntaram para a Senhora Carmem onde ficava o bebedouro no museu? — os dois ficaram boquiabertos.
⁃ Ei ei ei, só um minuto. Nós só perguntamos se o bebedouro era para tal direção. Isso não pode ser considerado trapaça. — Ben protestou.
⁃ Vocês não deveriam ter a ajuda de ninguém em hipótese alguma. Isso certamente deve ter lhes poupado algum tempo.
⁃ É, uns cinco segundos. — falou Ben, sarcástico. — Não importa, aquela uma semana livre nós ganhamos por esforço, diretor. — falou irritado.
⁃ Pois é, não é como se a Senhora Carmem tivesse mudado todo o rumo daquele negócio. Nós já tínhamos raciocinado certo...
⁃ Eu não vou tirar aquela semana de vocês. Eu prometi e vou cumprir. Mesmo assim, isso não tira o fato de vocês terem quebrado as regras. Portanto, devem ser punidos por isso. — disse e os dois bufaram. Benício apoiou a cabeça na mão. — Ben, Majô, vocês vão ficar algemados no baile de sábado. — os dois encararam o diretor, muito pasmos para dizer qualquer coisa.
⁃ Mas... — Ben começou, mas logo sua voz sumiu. A sala ficou em silêncio por alguns segundos, até que Majô levantou bruscamente da cadeira.
⁃ Tudo bem, então. Muito obrigada, diretor. Vamos, Benício. — o garoto a encarou com o cenho franzido.
⁃ Mas... — não soube mais o que falar, então somente suspirou e levantou da cadeira, começando a acompanhar Marjorie, que andava como se nada tivesse acontecido. — Majô, espera. — estranhando, Ben segurou na mão de sua vizinha, que o olhou sem entender.
⁃ Que foi?
⁃ Você concorda com isso? Quer dizer, está tudo bem pra você? — Majô arregalou os olhos, mas depois deu de ombros.
⁃ Não que esteja “tudo bem”, mas a gente já ficou tanto tempo junto... que diferença faz mais um dia? — deu uma curta risada, constrangida. — Além disso... eu não teria um par mesmo, então não faz diferença. — Ben arregalou os olhos.
⁃ E Nate?
⁃ Ele veio esse final de semana porque era o único que ele podia... ele vai embora hoje. — Ben quase não pôde evitar sorrir. — Mas tem algum problema para você? Já tem um par ou algo assim?
⁃ O quê? Não.
⁃ Então tudo bem. — recomeçou a caminhar e dessa vez Ben não pode conter mostrar os dentes num sorriso encantador que Majô não viu.
~*~
No intervalo entre a troca de aulas, enquanto os professores não chegavam, duas pessoas se encontravam num dos vãos entre os bebedouros.
⁃ E aí, já soube da novidade? — a garota perguntou empolgada. O garoto revirou os olhos.
⁃ Claro... as notícias correm como água por essa escola. Só não entendo como foi tão rápido e como souberam, quer dizer, só os dois foram para a sala do diretor. — dessa vez a garota revirou os olhos.
⁃ Isso não importa, temos pouco tempo. Ouvi dizer que Majô até concordou com o diretor.
⁃ Pelo menos o homem tomou essa decisão sensata. Não foi preciso falar muito.
⁃ Ele concorda com a gente. Confesso que fiquei surpresa por isso ter vindo dele.
⁃ É, mas antes ele precisou que nós fossemos lá e falássemos que... — a garota se aproximou rapidamente dele, tapando sua boca.
⁃ Shh, ninguém sabe e nem pode saber, pelo menos por enquanto. E essas paredes têm ouvidos. — disse olhando para os lados. O garoto riu e tirou a mão da menina delicadamente de sua boca.
⁃ Mas você sabe que não podemos deixar assim para sempre, né? Alguma hora vamos ter que falar. — ela mordeu o lábio, pensativa.
⁃ No baile. Acho o momento perfeito. — ele balançou a cabeça, ponderando. Logo deu um selinho na garota.
⁃ Tudo bem, no baile. Vamos, os professores já devem estar na sala.
⁃ Certo, eu saio primeiro. — se virou para sair, mas o garoto puxou sua mão e lhe lançou um sorriso bonito. Ela olhou sem entender.
⁃ Quer sair hoje? Um jantar. — ele perguntou e logo ela ruborizou, sorrindo envergonhada.
⁃ Você sabe que sim. — disse, lhe deu um beijo e finalmente saiu, sendo acompanhada pelo garoto segundos depois.
~*~
⁃ Eu estou muito empolgada por esse baile, vai ser perfeito. — tinha acabado de bater o sinal indicando o fim das aulas, Majô e Ben estavam no armário do garoto, depois de já ter passado no dela. Ele sorriu.
⁃ Claro, ainda mais agora que nós somos um par, não, Majô? — perguntou provocativo, Marjorie revirou os olhos.
⁃ Estava falando da organização, do buffet, da decoração. Eu diria que isso é mais um acidente de percurso. — Ben fechou seu armário e os dois começaram a andar em direção à saída.
⁃ É? Não pareceu quando você nem protestou contra essa decisão do diretor.
⁃ O que você está falando? Você também não.
⁃ Por que eu reclamaria?
⁃ Ué... — a garota disse como se fosse óbvio, mas não completou a frase. Benício riu.
⁃ Isso não me incomoda, Majô. — disse e ela ficou o encarando por alguns segundos, mas parou quando uma pessoa entrou na frente deles.
Evelin sorria um tanto quanto nervosa, olhando para o chão. Nenhum dos outros dois pareceu entender alguma coisa, mas Majô pensou que não suportaria mais uma daquelas cenas no banheiro ocorrida há algumas semanas, principalmente que agora ela estava livre e desimpedida de ver tudo.
⁃ E aí, Evelin? — Ben cumprimentou, quebrando o gelo.
⁃ Oi, Ben. Eu queria falar com a Majô. — a garota finalmente olhou para ela, sem entender.
⁃ Eu?
⁃ Sim. — respirou fundo antes de continuar. — Eu queria pedir desculpas por tudo que eu te fiz. Eu sei que eu não fui nada legal com você. — Ben arqueou as sobrancelhas, alternando o olhar entre as duas. Majô pigarreou, meio que sem saber o que falar ou fazer.
⁃ Hum... tudo bem, Evelin. Eu acho. É... como você...?
⁃ Como eu cheguei a essa conclusão? — ela riu sozinha, parecendo se lembrar de algo. — Uma pessoa me abriu os olhos. O importante é que eu estou realmente arrependida. Eu sei que não vai ser fácil para você perdoar e eu nem estou pedindo isso, eu... — ela parou de repente, ao sentir as mãos de Marjorie pegando nas suas e a olhando compreensivamente.
⁃ Tudo bem, Evelin. Eu também não fui legal com você. Eu fui uma idiota na maior parte das vezes. Fico feliz que você tenha tomado essa atitude, eu mesma não tive essa coragem.
⁃ Imagina, não é como se eu desse espaço para você fazer isso. Eu sempre te atacava.
⁃ Quem sabe nós não podemos ser amigas? — Marjorie disse e Evelin sorriu.
⁃ Isso seria ótimo. — os três ficaram num silêncio confortável por alguns segundos. — Soube que vão ao baile juntos. Vocês formam um belo casal. — disse e logo depois olhou seu relógio de pulso. — Nossa, olha a hora, preciso ir. Trabalho, sabe como é, né? Final de ano... — e sumiu correndo pelos corredores.
⁃ Então... tchau. — Marjorie disse olhando para o lugar que a garota tinha sumido. Ben olhou para ela sorrindo.
⁃ Quem diria, não? Duas notícias ótimas hoje. — comentou e Majô o olhou com o cenho franzido.
⁃ Duas?
⁃ Sim, Nate do outro lado do mundo e as pazes com a Evelin. — o garoto falou com se fosse óbvio.
⁃ Nate do outro lado do mundo? — Majô arqueou uma sobrancelha.
⁃ Pensa assim, depois de todo esse tempo, não seria estranho a gente ficar no baile, que a gente trabalhou tão duro, separados?
⁃ Ah, claro. Não faria sentido algum. — a garota disse, sarcástica. Antônio sorriu para eles e os soltou quando chegaram na portaria do colégio. Os dois caminharam em silêncio até o carro, onde Manuel já os esperava, e seguiram o caminho.
~*~
Marjorie levantou a cabeça dos livros ao ouvir um trovão alto na terça feira a noite. Não demorou muito tempo até sua mãe aparecer em sua porta, abraçando seu próprio corpo pela corrente gelada que vinha da janela da garota.
⁃ Parece que vem uma tempestade por aí. — Julieta falou. Majô bocejou e se espreguiçou, antes de olhar para sua mãe.
⁃ Parece sim. Vamos lá hoje? — perguntou e sua mãe sorriu.
⁃ Feche a janela e desça rapidinho. Isso aí vai começar a qualquer momento e eu não estou afim de tomar chuva. — disse e sumiu pelo corredor. Majô riu e foi fazer o que ela disse.
Era sempre assim, desde quando era pequena. Sempre quando tinha uma tempestade, ou a ameaça de uma, as famílias se encontravam e passavam o tempo juntas, revezando as casas que permaneciam a cada vez. Desceu as escadas e encontrou seu pai segurando uma garrafa térmica rosa decorada com flores, que quem tinha escolhido foi sua mãe, obviamente. Majô franziu o cenho, estranhando.
⁃ Chocolate quente. — ele explicou, levantando a garrafa.
⁃ Já estão se preparando para ir faz tempo? — Arthur riu.
⁃ Não conhece Dona Julieta?
⁃ Dona não, ainda sou muito nova. — ela disse, aparecendo do nada com um pote nas mãos. — Fiz esses biscoitos amanteigados hoje. Acha que eles vão gostar? — seu marido se aproximou e beijou sua testa.
⁃ Eles vão amar.
⁃ Se não engasgarem primeiro. — Majô provocou, seu pai riu e sua mãe lhe mostrou a língua.
⁃ Vocês vivem de complô contra o que eu cozinho. Vocês são dois chatos.
⁃ Você cozinha muito bem, mamãe. A gente só brinca com você. — Majô explicou e foi abraçá-la.
⁃ Eu sei. — Julieta disse, com um falso ar de convencimento. — Vamos logo.
Saíram de sua casa e já estava começando a chuviscar. Tocaram a campainha e quem atendeu foi Ben, que usava um moletom cinza. O garoto cumprimentou animadamente Julieta e Arthur, que logo entraram na casa e começaram a conversar bem alto com seus melhores amigos. Ben sorriu para Majô com as mãos nos bolsos.
⁃ Sua testa já está melhorando. — seu vizinho riu.
⁃ Vou sobreviver. Mas me rendeu um bom mês sem poder sair de casa.
⁃ Merecido. — disse e Ben revirou os olhos. Os dois entraram na casa e Natasha logo chamou os dois para ajudá-los a montar a mesa de centro para comer as mini pizzas que havia feito. A chuva já batia forte nas janelas.
Eles finalmente começaram a comer e a conversar animadamente. Era tão legal o jeito como seus pais pareciam se tornar adolescentes de novo quando estavam juntos. Riam alto, faziam brincadeiras uns com os outros. Como se não tivessem seus filhos logo ali.
⁃ Como toda essa reunião das tempestades começou, afinal? — Ben perguntou e Majô concordou.
⁃ É, sempre aconteceu, mas nunca soubemos o porquê. — ela disse e os quatro trocaram olhares cúmplices.
⁃ Bom... — Arthur começou. — Assim que as coisas se ajeitaram, quer dizer, quando a gente parou com a palhaçada e finalmente percebemos quem gostava de quem nesse grupo... — olhou para os outros três. — Sua mãe me ligou chorando, Majô.
⁃ Por quê? — a garota perguntou com preocupação e Julieta revirou os olhos.
⁃ Falando assim parece que eu comecei a espernear do nada. — riu levemente. — Na verdade eu tinha acabado da biblioteca quando começou uma tempestade maluca e eu tinha muito medo de tempestade. Arthur estava trabalhando então eu liguei para esses dois aqui, mas eles não atenderam.
⁃ Em nossa defesa, a gente estava assistindo De volta para o futuro. — Natasha disse e Bernardo concordou sério com a cabeça, como se fosse algo extremamente importante.
⁃ Enfim, eu estava no ponto de ônibus, o comércio todo havia fechado e a biblioteca também, eu fui a última a sair. Estava toda encharcada e tremendo de frio e de medo, então liguei para seu pai. — ela segurou a mão do pai de Majô por cima da mesa e o olhou com carinho. — Ele chegou todo encharcado também depois de uns quinze minutos.
⁃ Eu tinha corrido do meu trabalho, na época eu não tinha carro e nem dirigia. Me deu um desespero por ela estar chorando, eu nem avisei meu chefe que eu ia sair. — ele explicou e depois riu.
⁃ Ele me abraçou forte, disse que tudo ia ficar bem e eu o amei por isso. — suspirou. Os dois adolescentes os encaravam, prestando atenção. — Então, como nenhuma das nossas casas estava perto, corremos para a de Ber, que era a mais próxima de todas.
⁃ Eu atendi os dois assustada, tinha acabado de cair a força. — Natasha comentou.
⁃ Os dois perguntaram preocupados o que tinha acontecido. Naty me levou para cima para me enxugar e tentar me acalmar, Bernardo chegou logo depois com mudas de roupa dele para nós dois.
⁃ Acabamos a noite com várias velas acesas e jogando Jenga, tentando distrair a Ju para ela não ter medo. — Bernardo falou.
⁃ Foi uma das melhores noites da minha vida. Foi aí que eu percebi o quanto eu amava essas pessoas e o quanto elas se importavam comigo.
⁃ Desde então, sempre quando vem tempestade, fazemos isso. — Ber terminou.
⁃ E eu não tenho mais medo. — Julieta sorriu.
⁃ É uma história muito bonita. — Majô disse e abraçou o próprio corpo, com frio. Segundos depois, tudo ficou escuro. A energia tinha acabado.
⁃ Ah, que coincidência. — disse Ben e pegou o celular, acendendo a lanterna. Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, só ouvindo a chuva cada vez mais forte.
⁃ Caramba, está caindo o mundo lá fora? — Natasha perguntou.
⁃ Pois é! Não vejo uma assim faz tempo. — Julieta comentou.
⁃ Sabe, eu acho que eu tenho Jenga aí. — Ben falou. — Querem relembrar os velhos tempos? — os quatro sorriram, mesmo que não pudessem se ver direito.
⁃ Vai logo, garoto. — Arthur disse e Ben levantou rapidamente, subindo escada acima.
⁃ Eu vou pegar as velas. — Natasha disse, também levantando.
⁃ Eu ajudo a acender. — dessa vez foi Julieta, fazendo o mesmo, sendo seguida por Majô, que também acendeu a lanterna do celular.
Colocaram as velas coladas em pires e espalharam pela mesa de centro, depois dos homens tirarem a toalha, os pratos e os copos. Natasha aproveitou e foi pegar uns cobertores e Bernardo pegou uns pufes grandes da sala de TV, espalhando pelo chão ao redor da mesa. Logo estavam sentados e confortáveis. Ben chegou, colocou o jogo no vidro e jogou algo macio para Marjorie.
⁃ O que é isso? — ela perguntou. Os adultos organizavam as peças de madeira. Ben sentou ao seu lado, puxando o cobertor um pouco para ele.
⁃ Uma blusa, eu vi você tremer de frio. Muita irresponsabilidade você não trazer nenhuma. — Majô revirou os olhos, abrindo o moletom preto e vestindo-o, sendo imediatamente envolvida pelo perfume inebriante de seu vizinho. Teve de se segurar para não pegar o tecido e cheirar.
⁃ Obrigada. — foi tudo o que ela disse.
⁃ Não se acostume. — ele falou, observando como seu moletom ficava extremamente grande em sua vizinha.
⁃ E aí? Meninos contra meninas? — Natasha perguntou animada.
⁃ Acho que não é justo com eles, Tia Natasha. — Majô disse. — Mas super apoio.
⁃ Majô tem razão, vamos massacrá-los. — dessa vez foi Julieta.
⁃ Isso é o que veremos. — Arthur disse e esticou as mãos, estralando os dedos, como se se preparasse.
E a noite passou assim, como há anos já havia ocorrido. Dessa vez com mais duas pessoas, que eventualmente se olhavam, muitas vezes por motivo algum, o que não passou despercebido pelos adultos. De fato, aquela era a Noite da Tempestade mais divertida que tiveram em anos.
~*~
⁃ A Jenga só empatou ontem porque nós tivemos dó de vocês. — Majô disse, tinham acabado de sair do carro e agora subiam as escadas para serem algemados.
⁃ Eu diria que foi o contrário. — Ben provocou e os dois riram por alguns segundos, até entrarem num silêncio confortável. O garoto olhou para a entrada da escola, vendo o monte de folhas novas caídas por todo o chão. — A chuva foi realmente muito forte, não?
⁃ Muito. Não viu que até tivemos que mudar o caminho para vir até aqui por causa de árvores caídas? E quando eu saí de casa, ainda não tinha voltado a energia.
⁃ Nem na minha. — continuaram a subir as escadas, no topo Jack os esperava com um olhar apreensivo. Ele estralava os dedos freneticamente e pareciam nervoso.
⁃ Que foi, Jack? — Majô perguntou preocupada. — Aconteceu alguma coisa?
⁃ Das grandes. Eu detesto ter que dar notícia ruim, mas uma parede do ginásio caiu.
⁃ O quê? — a garota perguntou, mas antes que Jack falasse alguma coisa, ela saiu correndo, sem se importar com as algemas, e logo foi seguida pelos garotos.
Ela chegou no local, vendo os tijolos das paredes do fundo estraçalhados no chão e o buraco de mais de dois metros de altura, que dava vista para a parte verde ao redor da escola. Muitas pessoas, a maior parte delas alunos, estavam em volta do monte de entulho, se perguntando como isso tinha acontecido. A comissão do baile também estava toda ali, e encaravam Majô sem saber o que fazer. A garota passou as mãos pelos cabelos, nervosa.
⁃ Não tem como consertar até sábado, uns caras vieram aqui e estão falando com o diretor agora. — Jack explicou, se aproximando dela.
Isso só significava uma coisa: não tinham mais um lugar para o baile.
Majô começou a andar para os lados, tentando respirar fundo algumas vezes. Ben parecia perdido, sem saber o que fazer. Como eles resolveriam aquilo?
⁃ Tudo bem. — Majô finalmente disse, tentando passar confiança. — Não vamos nos precipitar, tenho certeza que podemos achar um lugar, talvez um salão de hotel, eu... — parou bruscamente no lugar, arregalando os olhos e tapando sua boca com as mãos. — As decorações. — disse olhando para o nada. — As decorações, vocês já foram ver? Tá tudo bem com elas?
O grupo todo pareceu arregalar os olhos. Sem obter resposta, Majô começou a correr para fora da escola, afundando o salto na grama molhada e lamacenta, sem nem se importar com isso. Estava com o coração batendo alto em seus ouvidos, temendo pelas decorações que estavam naquele frágil e instável depósito.
Miguel abriu o portão do local rapidamente. Majô, então, virou de costas, não suportando ver aquilo. Abaixou, abraçou os joelhos e sentiu lágrimas rolarem pelo seu rosto sem nenhuma censura. Sentia todo seu corpo tremer de nervoso, enquanto os outros apenas analisavam a situação dentro do pequeno depósito.
Grande parte das decorações jaziam no chão, ensopadas, rasgadas, arruinadas. Duas das grandes telhas do teto pendiam para baixo, com uma força que foi o suficiente para quebrar a fonte que ficava no meio. Tudo embaixo do teto desabado parecia uma massa marrom e disforme, brilhando aqui ou ali devido ao glitter e lantejoulas usados. As penas e plumas estavam cobertas de lama. Não havia nada que pudesse salvar.
Há quatro dias para o grande dia eles tiveram uma certeza.
Pela primeira vez, a escola não teria o baile de final de ano.
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