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27 O Baile - parte 3
Notas iniciais
O Baile — parte 3
Ela demorou uns dois segundos para finalmente olhar para ele. Segundos suficientes para notar que eles tinham parado de dançar, enquanto todos em sua volta continuavam girando ao som da música. Estava tão calma antes, agora seu corpo todo estava agitado. Buscou os olhos de seu vizinho, que já a olhavam com um brilho de intensidade até então desconhecido por ela. Agora, certamente, ela estava sem fôlego.
Como ela nunca percebeu que o garoto que sempre esteve ao seu lado era tão...
Bonito.
As luzes douradas refletiam em sua pele, destacando-a como nunca achou ser possível. Lutou para não suspirar, imaginando se as orbes de Benício sempre tinham sido tão vivas.
Todas as sensações se misturaram dentro dela, seus pensamentos, principalmente os do último mês, se embolaram em sua mente e todas as imagens que ela pensava seu vizinho estava presente. No meio de tudo isso, veio a conhecida montanha russa e também uma luz totalmente nova.
Então, naquele momento, ela teve consciência de cada célula de seu corpo pela primeira vez. E, por alguma razão, tinha certeza que elas corresponderiam a qualquer estímulo dele, que envolvia sua cintura, segurava sua mão e a olhava com a firmeza de quem quer muito algo, mas com a delicadeza de que se fizesse um movimento aquilo tudo acabaria.
Ela só tinha que dizer uma palavra.
Mas por que estava tão difícil?
⁃ Agora eu chamo ao palco os dois alunos que com certeza foram essenciais para que essa noite acontecesse. — ouviu o diretor dizer e Ben fechou os olhos lentamente, quase com dor, e respirou fundo, provavelmente para não gritar para o homem calar a boca. Ou coisa pior. — Ben Moretto e Majô Martins, do segundo ano.
⁃ Bom... — Majô quebrou o silêncio entre eles, já que todos os outros alunos daquela festa estavam aplaudindo os dois. Desde quando sua voz estava assim? Parecia que ela não falava faz tempo. — ...Isso. — então, estava aí, a resposta para a pergunta de Ben.
Eles se soltaram um do outro, a frustração se fazendo presente e quase palpável entres os dois, principalmente vinda de Benício. Olharam para o diretor bem no meio do palco e este sorriu, encorajando-os a ir até lá. Começaram a subir lentamente os degraus da pequena escada do lado direito. Chegaram até o homem sorrindo, mas não estavam exatamente contentes. Ele não pareceu perceber o estado dos dois, seu sorriso estava de orelha a orelha. O diretor chamou a atenção dos alunos, que aos poucos iam se amontoando na frente do palco.
⁃ Primeiramente, gostaria de agradecer a todos que estão presentes nesse que eu posso dizer ser um dos melhores bailes que essa escola já viu. — os alunos todos aplaudiram e muitos assobiavam e comemoravam alto. A pele dos braços de Ben e Majô roçavam levemente. — Mas, principalmente, gostaríamos de agradecer a essa dupla que está aqui na frente. — apontou para os dois. — O caminho até aqui foi difícil, eles ganharam vários dias algemados de bônus. — riu, como se tivesse contado uma piada muito engraçada. O som reverberou leve no meio dos alunos também. — E, nessa longa caminhada de um mês juntos, percebi que se tem uma coisa que os dois definitivamente devem fazer é ficarem separados, só assim para os refeitórios alheios ficarem limpos. — riu mais uma vez, Majô abaixou a cabeça e Ben passou a mão pela nuca, ambos com sorrisos desconfortáveis.
“Mas, não podemos negar que eles fizeram algo incrível com tudo isso aqui. Como os próprios alunos da comissão disseram, sem esses dois nada disso estaria acontecendo.” Olhou brevemente para os algemados, antes de começar a mexer no bolso do paletó. “Por isso, aqui vai um presente para vocês.” Tirou a mão do tecido, revelando uma chave pequena e prateada envolvida em seus dedos. Encarou o metal frio, fazendo um suspense para falar, como se ninguém já soubesse.
⁃ Vocês estão livres o resto da noite. E também do dia extra que teriam essa semana. — e uma comemoração exagerada explodiu entre os alunos. Os dois engoliram em seco. Tinha sido tão desgastante assim?
Ainda ao som daquela ávida celebração, o diretor deu a volta atrás deles, separando-os de perto um do outro e quebrando o leve contato que havia entre eles. Ben e Majô se evitavam olhar nos olhos, mas provavelmente os pensamentos eram quase os mesmos.
Todo mundo achava que eles ainda se odiavam. Estavam deixando isso muito claro enquanto assobiavam e faziam barulho. Será que ninguém tinha levado em conta a mudança deles? As caronas compartilhadas, as risadas na árvore, o empenho no baile... eles ainda pareciam estar como há um mês atrás, quando Ben copiava tudo da internet e Majô queria vê-lo pagar por isso? Tudo o que eles passaram, mostraram, não tinha sido o suficiente, afinal?
Ouviram o clique das algemas e o metal sendo retirado deles, atiçando mais os alunos. O diretor sorria como se não fizesse isso a muito tempo. Mas, de repente, nada daquilo tudo pareceu importar.
Eles se olharam, então. Profundamente, olhos nos olhos. Provavelmente não foi por muito tempo, mas souberam naquele momento.
Isso não daria certo.
Eles não dariam certo.
Com certeza sem refletir a animação do resto das pessoas que estavam ali, viraram as costas um para o outro e consequentemente para o diretor, caminhando em direções opostas. Ben andando em direção as escadas que ficavam do lado esquerdo e Majô as do direito, para quem observava a cena.
A garota descia os degraus de cabeça baixa, presa em seus próprios pensamentos. Será que era por isso que ela havia hesitado? Por que, na verdade, não existia nada ali?
Quer dizer, como ela não se sentiria confusa diante daquela situação? O único garoto por quem ela já sentira alguma coisa era Nate, que passou o primeiro semestre daquele ano grudado nela. Com Ben, com certeza, deveria ter acontecido a mesma coisa. Eles sempre estiveram lado a lado, mas nunca realmente olharam um para o outro até serem forçados a isso. É claro! Como não sentiria sentimentos confusos por um garoto a qual estava literalmente algemada?
Talvez aquela montanha russa fosse na verdade um brinquedo idiota de simulação daqueles que têm em shoppings.
Ou pelo menos ela tentava se convencer disso.
⁃ O que pensa que está fazendo? — perguntou uma voz na frente dela. Ela parou de andar imediatamente.
Ao mesmo tempo, do outro lado do baile, Ben terminava de descer as escadas, também numa situação não muito animadora. Teve a intenção de tomar a direção de... qualquer lugar mais longe dali, oposta de onde realmente queria, mas foi impedido quando seus amigos entraram em sua frente.
⁃ Acho que você está indo na direção errada, cara. — comentou Henrique. Ben franziu o cenho para eles, realmente sem humor.
⁃ A que você deveria estar tomando era para bem perto da garota a qual você estava algemado segundos atrás, só para esclarecer. — dessa vez foi João, quando viu que seu amigo não ia falar nada.
⁃ Olha, eu não estou no humor... — tentou passar no meio dele, mas parou quando uma mão foi ao seu ombro, impedindo-o. Se virou, Lucas o olhava estranho.
⁃ Sério? Só por causa do que o diretor falou? Sinceramente, Ben, eu mal te reconheço mais. Não acredito que a gente tenha colocado tanto esforço em vocês em vão. — Ben se irritou.
⁃ Cara, se você ao menos soubesse o jeito que ela me olhou quando o diretor... — parou no meio da frase, olhando o seu amigo sem entender. — Espera. Esforço? Que esforço? — Lucas revirou os olhos.
⁃ Estávamos cansados de vocês não conseguirem ver o que a gente via entre vocês. Ambos eram dois idiotas orgulhosos para perceber que por trás de todo aquele ódio existia algo a mais. Algo bom.
⁃ Se vocês não viam por vocês mesmos, resolvemos fazer uma pequena intervenção. — explicou Marcos como se tudo agora fizesse sentido.
⁃ Decidimos bolar um plano para que vocês fossem forçados a ficarem juntos. E esse plano não funcionaria se fosse unilateral, por isso falamos com as meninas, as amigas de Majô. — Lucas continuou.
⁃ Chegamos a conclusão que algo pequeno como trancar vocês no almoxarifado por algumas horas não seria o suficiente. Precisava ser mais tempo. — os olhos de Pedro brilharam em malícia.
⁃ Então a Camila veio com a brilhante ideia das algemas. O tio da Stela é policial, por iszso não foi difícil achá-las. — Henrique completou.
⁃ A partir daí, bastou que eu e a Camila fôssemos falar com o diretor para expor o plano. Ele bem conhece vocês, e compartilhava dos nossos pensamentos sobre os dois. Falamos que bastava mais uma briguinha e ele poderia algema-los. Ele relutou no começo, disse para a gente deixar as algemas lá que ele ia pensar. — Lucas explicou. — Mas então veio a guerra de comida no refeitório e no mesmo dia vocês apareceram grudados um no outro. Quase não acreditamos que o homem havia concordado. Acho que foi a gota d’água pra ele também. — ele riu e seus amigos acompanharam.
⁃ Era por isso que ele tinha algemas na gaveta da sala dele. — Ben ria alto.
⁃ É claro. Fora isso, seria no mínimo perturbador. — Marcos analisou, franzindo o cenho e estremecendo com as imagens que invadiram seus pensamentos.
⁃ Bom, depois disso, precisávamos deixar vocês sozinhos o máximo possível, por isso viemos com a desculpa de que seria desconfortável e tal, para deixar de andar com vocês. — Lucas voltou a história, mas depois abaixou a cabeça e suspirou. — Camila ficou bem chateada com isso. Majô parecia realmente estar detestando-a.
⁃ Marjorie pode ser bem fria quando quer. — Ben comentou, pensativo.
⁃ Enfim, quando você chegou naquela segunda-feira falando que queria fazê-la se apaixonar por você, sabíamos que você tinha perdido.
⁃ Era você quem estava apaixonado por sua vizinha. — João falou com um sorriso. Ben passou a mão pela nuca.
⁃ Não é algo que eu me orgulhe.
⁃ É claro que não... — Henrique debochou. Ficaram em silêncio por alguns segundos.
⁃ Então... — Lucas começou. — Vai deixar ela ir ou vai parar de ser um bosta e lutar pela sua vizinha? — o olhar de Ben se tornou mais brilhante e mais intenso, parecia travar uma luta.
⁃ Eu já deixei ela ir uma vez. — disse por fim. — Não vai acontecer de novo. — seus amigos sorriram.
⁃ Aleluia. — Marcos exclamou, revirando os olhos. Ben sentiu o celular vibrar dentro do bolso.
Sorriu ao acender e ver “Bruxa Onilda” piscar na tela.
⁃ Na verdade, ela acabou de me mandar uma mensagem. — disse, desbloqueando a tela.
“Me encontre atrás do ginásio”. Sorriu automaticamente ao ler aquilo e falou as palavras em voz alta para seus amigos.
⁃ Atrás do ginásio? Isso é... diferente. — enrugou a testa, mas ainda sorria. — Acho que a fonte ou o terraço combina mais com ela. — disse mais para si mesmo, mas depois deu de ombros. Agradeceu seus amigos e começou a seguir até o local.
Saiu do baile e consequentemente do ginásio, começando a dar volta por trás dele. Andava sem pressa, mas com toda a ansiedade do mundo. Suspirou. Tinha tanta coisa que queria falar para ela. Queria senti-la em seus braços novamente, decorar o formato de sua cintura, dos seus lábios.
Tocou o bolso do terno, sabendo o que ia fazer.
Decidiu andar até lá lentamente, para não fazer barulho. Queria surpreendê-la mesmo que ela soubesse que ele iria até lá. Havia muita pouca iluminação. Somente algumas lâmpadas de luz fraca bem distante umas das outras e o brilho da lua. Finalmente virou a última esquina do ginásio que os separava.
Parou no lugar, sem conseguir se mexer. Ela estava lá. A luz era extremamente precária e ela estava de costas para ele, mas ele reconheceria o vestido que ficara encarando a noite toda e que se desenhava no corpo de sua vizinha em qualquer lugar. Era ela. Estava quase debaixo de uma lâmpada, os brilhos pregados no tecido iluminavam-se enquanto ela se mexia.
Vagarosamente, começou a sentir suas unhas curtas machucarem a palma de sua mão. Uma raiva até então desconhecida por ele começou a assolar dentro de seu peito, a ponto de sentir que ia explodir. Raiva, magoa, dor. Nunca se sentiu tão enjoado.
O lindo vestido agora estava embolado enquanto quem quer que seja percorria seu corpo inteiro com as mãos, praticamente sem nenhum pudor. E ela retribuía tudo com a mesma intensidade.
Há alguns metros dele, Marjorie beijava outro cara.
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