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1 Conveniências
Notas iniciais
Um
Tudo estava perfeito. O vestido que ela mesma desenhara parecia moldar em seu corpo, com a saia que cobria suas pernas como uma cascata, fazendo um sutil degrade de brilho dourado em sua base. O lugar estava perfeitamente decorado com rosas brancas e velas que formavam pequenos pontos de luz por todo o salão. E o motivo dela estar ali não podia ser melhor.
— Agora chamo ao palco uma das mais – senão a – renomadas e influentes estilistas de noivas da atualidade, a senhorita...
— Preciso ir ao banheiro – ela bufou e se levantou da cama. Tudo parecia tão real e certo; por que as pessoas têm mania de acordar na melhor porcaria de parte do sonho? Nunca entenderia... deve ser esse lado masoquista humano de imaginar a perfeição de vida e depois cair da cama, algumas vezes literalmente.
Irritada, ela praticamente rastejou até o banheiro, algumas vezes xingando baixo por esbarrar nos móveis pela falta dos óculos e da claridade.
Estava praticamente dormindo sentada no banheiro que quase não percebeu o começo de cinco dias de dor e sofrimento estampado no forro de sua calcinha.
— Droga – improvisou um absorvente de papel e saiu do banheiro em busca de um de verdade por todos os armários e gavetas que via e depois suspirou frustrada por não achar nenhum, então saiu tateando em busca de sua bolsa e achou 10 reais. Tinha que dar.
Logo em frente ao seu condomínio havia uma loja de conveniências 24 horas, que apenas em horas como essa era útil pra garota. Olhou pra si mesma e fez uma careta. A calça de pijamas pink com estampa de patos amarelos não era nada atraente. No máximo chamativa, mas não do jeito que gostaria e amava.
Mas quer saber? Quem se importa? Eram 5h30 da manhã de um domingo, quem vai a uma loja de conveniências longe do resto do mundo a essa hora? E além do mais, ela entraria, compraria o necessário, voltaria pra casa e se deitaria de novo, na esperança de continuar seu sonho. Colocou um sobretudo e saiu de casa, quase voltando pela temperatura mais baixa que o recomendável para sair de pijamas.
Sentiu um alivio quando entrou na loja quentinha pelo ar condicionado. Olhou em volta e como esperado não tinha ninguém além do caixa que parecia que se o lugar começasse a pegar fogo ele nem perceberia. Se dirigiu a parte de higiene feminina e segundo depois ouviu um ruído longe. Música. “Adolescentes idiotas”, pensou. Ela não se conformava com essas pessoas que perdiam horas de sono pra ficar num lugar lotado de gente, barulhento e abafado. A música foi aumentando cada vez mais até ficar insuportavelmente alta para 5h30 da manhã. Achou estranho o som não diminuir a medida que o carro ia tomando distância, olhou pra trás se arrependendo no mesmo instante e virando rapidamente ao ver de quem se tratava. Ele.
— Não... não, não, não e não. Não agora – já era tarde demais pra fugir, sair correndo, fingir que não conhece, porque ele a reconheceria, infelizmente. Ousou olhar pelo rabo de olho para o lado de fora da loja. O carro já estava longe, mas ele cada vez mais perto. Ele ia entrar. Ele definitivamente ia entrar – Droga.
Ela fez a coisa mais sensata que pensou no momento: abaixar rapidamente, na esperança dele não a ver. Alguns poucos minutos passados, ela realmente achou que isso funcionaria, em vão, é claro.
— Olha quem temos aqui – falou aquela voz carregada de sarcasmo e ela fechou os olhos fortemente. Era ele. Aquela presença era inconfundível, aquela atmosfera era inconfundível. – Majô Martins. – a menina suspirou alto e levantou lentamente.
— Benício.
— Nossa, eu te tratando na maior intimidade e você me xinga? – falou com uma voz ofendida.
— Intimidade a qual eu não te dei. – deu um sorrisinho de lado.
— Uau, acordou com o pé esquerdo, Majô? Ou apenas com alguma parte vermelha do seu corpo faltando? – ele apontou para os absorventes.
— Viu, você não tem mais o que fazer não? Tipo uns doces de criança pra roubar? Umas casas de família pra assustar?
— Doces eu só roubava os seus quando a gente era pequeno. E as casas de família... – fingiu pensar um pouco. – não, não hoje.
— Me erra, Moretto.
Ela voltou a olhar para as prateleiras sem realmente enxergar alguma coisa. Ele a analisou de cima a baixo.
— Eu tenho uma observação. – ele disse e vendo que ela não falaria nada, continuou com um sorrisinho maldoso quase imperceptível. – Essa combinação de roupas é capaz de matar qualquer um... – começou com uma voz sensual. – de susto.
— Eu também tenho uma... – ela se virou e olhou em seus olhos – Tenho certeza que seus pais não sabem que você saiu e só voltou agora.
— Não, e não é você quem vai falar.
— Me dê um bom motivo.
— Em nome de todos nossos lindos anos juntos, Ma! Você não tem consideração a isso? Nós compartilhamos a mesma data de aniversário! Isso tem que significar alguma coisa para você!
— Tenta de novo... – ele suspirou e abaixou a cabeça, balançando-a em negação.
— Bom, eu não queria usar essa opção, mas você não me deixa escolha... – estendeu o celular com a foto de uma Majô olhando para a prateleira de absorventes segurando um pacote econômico de noturnos (com 32) e outros pequenos. Os cabelos bagunçados e os óculos fundo de garrafa. O sobretudo de náilon vermelho que a deixava três vezes maior do que realmente é e a calça de patinhos pink se destacavam na composição. Pior do que imaginava, isso era fato. Totalmente satisfeito com a cara da garota, tratou de colocar um sorriso sádico no rosto e aproximar sua boca perto do ouvido dela, sussurrando. — Acho que você não vai querer isso como parte de suas recordações e passagens escolares.
— Ah não...
— Ah sim. – assentiu sorrindo. – Eu poderia usar essa imagem como chantagem em outras ocasiões, mas você sempre é apressada...
— Você não faria... – pode parecer tempestade em copo d’água, mas mostrar aquela foto para o público para ela significava a destruição de uma imagem que ela demorou anos para construir.
— Quer pagar pra ver?
— Você não presta! – ela quase berrou enquanto ele se distanciava tranquilamente para o caixa.
— Obrigado. – agradeceu com uma voz carregada de falsa simpatia.
— Você vai se arrepender de ter tirado essa foto, Benício, pode apostar!
— Nossa, melhor eu me esconder! – falou afetado já indo em direção à saída da loja.
— Eu te odeio!
— O sentimento é recíproco – já ia virando as costas quando acrescentou – Vizinha. – piscou e saiu.
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