Comodidade

2 A pressa é inimiga do cozimento perfeito


Era um dia coincidentemente fortuito para todos eles. Não era feriado, tampouco era o aniversário de algum dos integrantes daquele grupo, mas estavam todos livres; ou de folga ou dispensados mais cedo por eventualidades. Então resolveram fazer algo que estavam postergando há vários meses: um encontro para colocar o assunto em dia.

O local escolhido foi a bela residência de Nami e Vivi, por ser a mais central e também por ter um conveniente supermercado a duas casas de distância. Este último era um detalhe muito importante, principalmente quando a presença de Luffy era dada como certa. Ele, inclusive, foi o primeiro a chegar, indo direto para a geladeira e enchendo os espaços vagos com potes de sorvete caseiro.

Nami, acostumada as atitudes dele, não estranhou a familiaridade com a qual Luffy mexeu nos itens da geladeira e os reorganizou como bem queria.

“Olá pra você também, Luffy”, Nami cumprimentou e deu uma tapinha amigável no ombro de Luffy.

“Ah. Oi, Nami” deu um sorriso amplo para ela e em seguida voltou a se concentrar na organização da geladeira.

Nami deu de ombros e acomodou-se na frente da pia para lavar a louça do almoço. Afinal, era melhor não deixar acumular, visto que em breve seus amigos estariam ali e sujariam ainda mais coisas. E ao pensar em seu grupo de amigos, um suspiro escapou-lhe ao lembrar que a dupla do vai-não-vai estaria ali também. Aquele lenga-lenga entre Zoro e Sanji se prolongava há tanto tempo que Nami ficava frustrada só de assistir Sanji tentando disfarçar a melancolia sempre que Zoro arranjavam um novo par. Ela nem sabia se Zoro já tinha conseguido uma nova namorada — aliás, por que havia tanta gente interessada naquele cérebro de músculo? — mas a possibilidade de Sanji aparecer cabisbaixo hoje era bem grande.

A melodia murmurada por Vivi alcançou a cozinha antes que ela entrasse propriamente no cômodo. Seus cabelos úmidos do banho eram suavemente enxugados por uma toalha em seus ombros. Ela passou por Nami, deixando um beijo casto no ombro desnudo da noiva, e se aproximou de Luffy para espiar o que ele estava fazendo.

“Isso é... bastante sorvete, Luffy... Está planejando vender?”

Luffy tirou a cabeça de dentro da geladeira e sorriu, estufando o peito de orgulho. “Eu disse a Usopp que poderíamos lançar nossa própria marca de sorvetes, mas ele acha que já tem marcas demais de sorvete no mundo”, Luffy fez um biquinho chateado. “Então... Trouxe alguns para vocês provarem!”

Nem Nami, nem Vivi entenderam o ponto de ele ter levado tanto sorvete se era apenas para experimentarem, mas não fizeram mais comentários sobre isso. Afinal, era sempre bom ter Luffy tão animado por perto. Ele funcionava como um dissipador de vibrações ruins e, pensou Nami, poderia ajudar Sanji a sair do estado de melancolia.

Vivi tirou a toalha dos ombros e dirigia-se para fora da cozinha para buscar o pente quando se lembrou de algo. “Mudando um pouco de assunto, vai ficar pra dormir hoje, Luffy?”

“Eu ia dormir em Usopp, mas estamos brigados. Então, posso dormir aqui hoje.”

Nami e Vivi trocaram um olhar, sorrindo. A forma como Luffy tinha certeza de que não seria mandado embora dali era admirável, demonstrando que sua linha de pensamento funcionava de um jeito bem único. Ou talvez ele só fosse um folgado mesmo.

“Certo. Vou abrir a janela pra ventilar o quarto e trocar os lençóis” Vivi disse, já dobrando no corredor.

Com a louça devidamente lavada, Nami virou-se enxugando as mãos com o pano de prato e só então descobriu que Luffy havia tirado metade do conteúdo de sua geladeira para acomodar as vasilhas com sorvete.

Por que mesmo que eu deixo essa criatura dormir aqui em casa?

*

Contrariando as suposições de Nami, Zoro foi o próximo a chegar e com ele estava um radiante Sanji. Não que fosse surpreendente eles chegarem juntos, afinal, se Zoro fosse deixado por conta própria havia chances de ele somente chegar na hora que todos estivessem se despedindo. Porém, o Sanji que sorria e quase flutuava ao seu lado indicava que Zoro ainda não tinha arranjado um novo alguém. Nami não sabia se ficava simplesmente feliz por ele ou se o estapeava por estar tão feliz quando claramente não tinha feito qualquer progresso com sua paixão.

Por fim, Nami os deixou entrar e indicou onde Luffy aguardava comendo sua terceira laranja.

“Zoro, Sanji! Eu trouxe uma surpresa! Vocês com certeza vão gostar!” Luffy abriu um sorriso nem um pouco receoso de suas habilidades gastronômicas.

Sanji ergueu uma sobrancelha encaracolada, aparentemente adivinhando do que se tratava, pois respondeu: “Desde que não seja konjac, estou disposto a comer.”

Nami temeu pela segurança estomacal de seus amigos, pois ela própria não pretendia experimentar. Ainda mais depois que viu que uma das vasilhas possuía um conteúdo escuro, quase preto, que Luffy apelidou de “Elemento X”. Ele não quis contar qual era a receita de nenhum dos sorvetes, mas esse em especial possuía uma aparência perigosa.

Entretanto, como considerou que seria divertido assistir a reação deles quando vissem o tal sorvete, Nami não fez comentário algum sobre. Apenas lembrou a Luffy que, caso sobrasse, ele teria que levar de volta para casa.

Aos poucos o restante dos convidados foram chegando e se acomodando onde bem queriam. Usopp trouxe alguns Blu-ray de filmes de ação (os preferidos de Luffy, em uma clara tentativa de reatar a amizade), Robin deixou jogos de tabuleiro no chão da sala e Sanji levou diversos aperitivos para Nami e Vivi sequer pensarem em cozinhar. Já Zoro obviamente levou um engradado de bebidas alcoólicas, pois eram as únicas coisas que sabia avaliar e escolher.

A reunião de amigos começou bem. Todos arranjados em duas longas toalhas de piquenique no jardim, próximos as raízes de uma laranjeira. Havia bandejas com frutas frescas e bandejas com fatias de bolo, além de dois dos sorvetes caseiros de Luffy estarem à disposição de quem quisesse experimentar. O vento suave agitava os cabelos e roupas dos presentes, enquanto a conversa fluía sobre os recentes acontecimentos da vida de cada um.

Nami estava sentada entre Vivi e Robin, as três acomodadas na toalha de quadriculado roxo. Usopp e Luffy sentaram na grama, pois Sanji ocupava a outra toalha, a de quadriculado azul, quase inteira ao estar deitado com a cabeça apoiada na coxa de Zoro. Ninguém estranhou a posição dos dois últimos, até porque o carinho evidente entre eles não era exatamente uma novidade. Quando Sanji fez um comentário sobre calor, Zoro pegou um leque de papel que viu por ali e abanou o rosto do homem loiro em seu colo.

Nami quase cuspiu o suco que bebia, mas aguentou firme e o engoliu depois de se acalmar internamente. Ela estava acostumada a vê-los sendo amistosos, mas aquele ar adocicado e romântico alcançava um novo patamar! Não era à toa que Sanji reluzia de satisfação.

Porém, eles estavam tão melosos — Como Zoro não percebia isso?! — que gerava até certo desconforto em quem assistia; Uma sensação de que estavam quase sendo testemunhas de um momento íntimo. Por isso todos estavam ignorando-os e focando na conversação que acontecia ao lado.

“Então, eu adotei o Pescador” Robin finalizou a história sobre a recente adoção de mais um gato, completando agora um total de 6 gatos em sua casa.

Sua expressão era tranquila enquanto mordia o sanduíche e limpava o canto da boca usando um guardanapo com elegância. Nem parecia que havia acabado de narrar uma sequência de acontecimentos onde o marido dela, Franky, pulou em um rio para resgatar um gatinho que estava preso em cima de uma rocha no meio da água turbulenta. Isso tudo aconteceu debaixo de uma chuva torrencial e com a segurança de apenas uma corda amarrada na cintura dele para impedir que a correnteza o arrastasse. A outra ponta da corda foi amarrada firmemente em uma árvore de tronco largo, mas ela se rompeu bem na hora do resgate e deixou Franky e o gato ilhados na rocha. No fim tudo deu certo com a ajuda dos bombeiros e embora tenham sido repreendidos, o final foi mais do que feliz.

Usopp franziu o cenho. “Espera. Franky não tem alergia a pelo de gato?” perguntou, colocando mais uma colherada do sorvete vermelho na boca. Foi o único que aceitou experimentar o sorvete de textura estranha e o mais surpreendente é que não achou ruim. Ao seu lado, Luffy degustava animadamente sem se importar em contribuir para a conversa.

“Na verdade, ele é alérgico a pelo de cachorro.” Robin explicou.

Usopp inclinou a cabeça em dúvida. “Mas você tem dois cachorros também...”

Robin apenas deu um sorriso amistoso, deixando que o silêncio fosse resposta o suficiente. Os outros se compadeceram de Franky.

Nami pegou uma fatia de bolo de baunilha, fazendo o máximo possível para continuar ignorando a aura doce que provinha da toalha de piquenique vizinha. Mas quando viu Sanji dar uma uva na boca de Zoro, ela não se conteve. “E você, Zoro? Arranjou alguma namorada nova?”

De imediato, Sanji a mirou com surpresa, como se a pergunta tivesse quebrado a cúpula invisível que os envolvia. Depois ele estreitou e arregalou os olhos como se perguntasse a Nami “O que está fazendo??!”. Ao seu lado, Vivi também a censurou de leve, mas com mais discrição do que Sanji.

“Nah. Estou dando um tempo disso” Zoro disse, aceitando outra uva da mão de Sanji. Dessa vez a língua tocou um pouco dos dedos do outro, mas como a reclamação não veio, ele ignorou. “Não sou bom com essas coisas de romance, então nunca dura.”

Nami ergueu as sobrancelhas em incredulidade. “Sério? Tem alguma reclamação recorrente entre as pessoas com quem você saiu? Talvez a gente possa te ajudar a descobrir onde você está errando.”

Zoro pareceu lembrar de algo assim, mas sacudiu a cabeça espantando a ideia. Também não achou que seria importante mencionar o motivo do último rompimento. Por fim, ele respondeu depois de longos segundos de expectativa alheia:

“Algumas diziam que não se sentiam cuidadas por mim. Algo sobre eu ser uma pedra preciosa bruta.”

Alguém deixou uma risadinha escapar e surpreendentemente perceberam que veio de Sanji, que deu uma tapinha amigável na bochecha de Zoro antes de rir mais um tanto.

“Elas estavam te chamando de ogro, homem alga!”

Sentindo-se sem jeito, Zoro empurrou a cabeça de Sanji para fora do seu colo.

“Não sei ser gentil e nunca fingi ser o que não sou.”

“Bem, nisso não podemos te ajudar. Você nasceu assim” Nami suspirou, dando de ombros com uma expressão exageradamente desesperançada. Diante dela, Usopp desatou a rir com uma interpretação de ‘Zoro Ogro’ feita por Luffy.

Robin sorriu para Zoro, tentando tranquilizá-lo. “Não se preocupe. Certamente tem alguém no mundo que aceitará você do jeito que é, Zoro.”

“É, Zoro! Toda meia tem seu par!” Vivi complementou animadamente, piscando para Nami.

Sem notar as tentativas de animá-lo, Zoro deu de ombros. “Sanji me disse isso também.” Seu tom foi desinteressado e sua expressão continuou monótona, quase como se estivesse com sono, mas isso foi o suficiente para atrair a atenção de Nami.

“É mesmo?” Nami sorriu, maliciosa. “Ele disse, é?”

De uma maneira nem um pouco discreta todos olharam para Sanji (até Luffy!) com a mera sugestão, mas Zoro distraiu-se com um pingo de água que caiu na testa e não percebeu os olhares suspeitos e nem as bochechas coradas do homem ao seu lado.

Mais cedo, a previsão do tempo garantiu que haveria pancadas de chuva para o final daquela tarde e provou estar certa, pois uma chuva torrencial começou a cair assim que eles recolheram os itens espalhados pela grama e correram para dentro de casa. A chuva era tão intensa que em pouco tempo o jardim ficou alagado.

Mas, embora tenham ficado limitados ao espaço interno da casa, o ânimo do grupo não foi afetado. Eles jogaram algumas partidas dos jogos de tabuleiro que Robin trouxe e depois, quando cansaram de perder para Nami no Monopoly, reuniram-se na sala para assistir Exterminador do Futuro. Durante os jogos eles comeram todos os lanches, restando apenas as bebidas alcoólicas e os sorvetes de Luffy para degustarem durante o filme. E apesar da recusa inicial aos sorvetes de cores berrantes e sabores secretos, todos decidiram arriscar uma colherada, talvez por já estarem levemente alterados pelo álcool.

Porém, o mais surpreendente de tudo isso foi que os sabores realmente não eram ruins. Até Zoro, que não gostava de comida muito doce, viu-se pegando mais algumas colheradas antes de dar-se por satisfeito e se encostar no sofá com a garrafa de saquê roubada da cozinha de Nami.

“Eu disse que era bom!” O sorriso de Luffy poderia ofuscar o sol.

“Certo, certo, Luffy”, Nami também sorria ao fazer um cafuné nos cabelos pretos do seu amigo.

Depois disso o filme transcorreu normalmente com comentários e risadas embriagadas da plateia. Em dado momento, Sanji adormeceu com a cabeça apoiada no ombro de Zoro, ressonando baixinho no ouvido dele com tanta naturalidade que era como se fizesse isso rotineiramente. Quando acenderam as luzes após o filme acabar, os demais piscaram surpresos.

“Ele adormeceu depois de uma latinha?” Nami perguntou cética, mas logo Vivi pediu que ela falasse mais baixo. Ou melhor, que todos sussurrassem para não ter risco de acordar os adormecidos.

“Sanji tem baixa tolerância ao álcool” explicou Zoro, bufando. Ninguém se atreveu a contradizê-lo, embora a maioria ali já tivesse visto Sanji aguentar bebidas alcoólicas bem mais fortes em ocasiões anteriores.

Cuidadosamente Zoro pegou o homem no colo, deixando que o Sanji semiadormecido envolvesse seu pescoço com os braços e descansasse a cabeça em seu ombro de uma forma mais cômoda, e se ergueu do sofá. A chuva ainda caia forte lá fora e ouvia-se trovões com uma frequência que os fazia não se arriscar a sair naquele momento.

“Tem algum lugar onde eu possa colocá-lo por enquanto?” Zoro o segurava com tanto zelo que era difícil acreditar que suas namoradas o tinham acusado de ser rude.

Nami ficou tão embasbacada que Vivi precisou intervir.

“Claro! Coloque-o no quarto de Luffy. É só subir as escadas e entrar na segunda porta do lado esquerdo.”

Zoro assentiu e começou a se dirigir para as escadas. Enquanto ele andava, os outros viram Sanji abrir os olhos de repente e dar um sorriso travesso antes de voltar a fingir que dormia. As testemunhas piscaram surpresas pela segunda vez em pouquíssimo tempo.

“Quem diria, ele é um ótimo ator” Robin elogiou, sorrindo.

Usopp, que se recuperou mais rápido que os demais, tentou tirar a vasilha de pipoca da mão de um Luffy adormecido, mas o outro não largou por nada no mundo. Por fim, desistiu suspirando. “De repente começo a sentir pena de Zoro, sabe... Sendo enganado tão fácil assim...” ele se virou para Vivi. “Aliás, vocês também têm um quarto pra Luffy? Porque eu também tenho.”

Vivi riu.

“Temos sim! Ele apareceu tantas vezes de surpresa para dormir aqui que acabamos ajeitando um cantinho.”

Robin sorriu, colocando a mão no queixo. “Que curioso, também temos um cantinho para Luffy em nossa casa. Recentemente Franky instalou um aparelho de som que emite o barulho de um bife sendo frito para que Luffy tenha bons sonhos.”

Um momento de silêncio se passou antes que risadas quase sincronizadas partissem deles. A cumplicidade daquele riso, assim como os comportamentos característicos de cada um deles eram partes do motivo dos laços de amizade serem tão resistentes. Um grupo divertido e único, de fato.

“Por que nosso grupo é tão estranho?” Nami perguntou para ninguém em específico, limpando as lágrimas que se acumularam no canto dos olhos de tanto que riu.

Eles sorriram e deram de ombros.

*

No quarto, Sanji foi deixado com cuidado sobre uma cama de lençóis macios e com cheirinho de recém-lavados. Ainda fingindo que dormia, ele permaneceu quieto enquanto esperava qualquer gesto atencioso partir de Zoro. Quer dizer, desde que Zoro comentou que preferiu dar um tempo em relacionamentos, Sanji vinha se alimentando de quaisquer migalhas de atenção que Zoro dava para ele e deixando a esperança crescer e se tornar viçosa em seu interior.

Percebeu, entretanto, que Zoro não faria mais nada e quando olhou entre cílios viu que ele já se preparava para sair do quarto. Em um movimento impensado, Sanji esticou a mão e segurou o dedo mindinho de Zoro, murmurando alguma bobagem só para fingir estar sonhando. Zoro parou de imediato, parecendo em dúvida sobre o que fazer, mas acabou sentando na beirada da cama e ficando imóvel por alguns segundos.

Sanji já cogitava arriscar mais uma abordagem em seu falso sono quando sentiu a mão calosa de Zoro acariciar seu cabelo e depois afastar a franja de sua testa. Por um instante Sanji até esqueceu-se de respirar, mas tratou logo de inspirar e expirar do modo mais natural possível para não ser descoberto. Mesmo com seu coração batendo descompassado a cada carícia do polegar áspero na maçã de seu rosto, continuou fingindo magistralmente estar em sono profundo.

Fingiu tão bem, mas tão bem que, em algum momento entre o som da chuva batendo contra a janela fechada e a mão que ficou quieta sobre seus cabelos, Sanji relaxou o suficiente para adormecer de verdade.