Como você me fez enxergar

2 Capítulo 1. Derrubando café


— Clara, preciso que entenda. Eu estou sendo extremamente gentil em relação a sua situação.

— Eu sei senhor, mas eu realmente preciso desse emprego. Eu sinto muito, mas sou muito desastrada.

—Mas tem que parar de ser! — Falou na lata.

— Certo... Eu vou tentar.

—Não, não vai — Ai meu Deus, não posso ser demitida. Por favor não me demita, não me demita, não me demita, repetia em minha cabeça com todos os dedos de meus pés cruzados. — Você vai conseguir.

— Ai caramba! Muito obrigada!

—Mas se tiver mais um deslize, está na rua.

— Certo! Certo! Entendi. — falei tentando não sair pulando por aí.

— Vai trabalhar.

— Vou. Vou sim! — Falei com um grande sorriso. Comecei a andar de costas ainda com um sorriso um tanto quanto afetado para o meu chefe. Meti o quadril na quina da mesa me fazendo ver estrelas, mas eu tinha dito que não ia mais ser desastrada.

— Opa... — Risadinha constrangida — Quem colocou essa bancada aqui, né? — Assim que saí da sala dele me pus a esfregar o local, que logo ficaria roxo. Peguei a bandeja com o pedido da mesa 3, e comecei mais um dia de trabalho.
* * *
Pedro

— Como foi a reunião com aquele velho chorão?

— Uma bosta, se quer saber. Não parava de puxar meu saco um segundo.

— Sei bem como é. — Me respondeu Lorena enquanto saia na frente, me dando uma bela visão naquela saia apertada.

— Gosta do que vê? — perguntou olhando para trás. Respondi com um sorriso. Não gostava de ficar misturando trabalho com relacionamento, mas sou homem. Além do mais, minha noite com ela foi antes de eu contratá- la.

— Quer ir tomar um café? Aí você já relaxa a cabeça e esquece aquele velho gordo.

— Certo. — Falei rindo. — Ele nem é gordo! — Ela riu em resposta.

Chegamos na frente do café e logo procuramos uma mesa. Pedi a uma garçonte que estava passando dois cafés e dois pães na chapa.
* * *
Clara

Fui para a cozinha pegar um pedido com uma coisa metida em minha cabeça. Estava feliz por ter mantido meu emprego, mas por que? Com o que eu ganho quase não está dando para alimentar minha irmã e eu, e ainda por cima pagar o aluguel daquele apartamento caindo aos pedaços. Então por que não deveria simplesmente largar essa droga de restaurante e tentar fazer fotografias profissionalmente? Por q...

— Clara, acorda, o pedido já está aqui.

— Ah, ta. Me desculpa — Falei contrangida.

— Peça menos desculpas, trabalhe mais. — Ce-certo. — droga de gaguejeira, por que eu não dou uma resposta decente? Mando ele tomar naquele lugar? Por que as pessoas me odeiam tanto? Por que existem mulheres tão bonitas e outras tão feias como eu? Por qu...

— Ai Caramba, me desculpa! — Gritei quando que derrubei uma boa quatidade de café no paletó no cliente.

— Nossa, que cagada! — Ele respondeu, parecia com uma cara de bunda, mas com uma cara de quem não liga ao mesmo tempo. Sei lá

— Me desculpa de verdade, eu sou muitodesatrada, não estava com a cabeça aqui, não deveria ter...

— Calma, não foi nada. É só limpar. — Falou.

— Certo. — Respondi enquanto pegava um papel e tentava inutilmente limpar aquilo que eu tinha feito.

— Não! Não é você que vai limpar! — Levantei o rosto pela primeira vez vendo para quem estava fazendo uma cena dessa vez. Quase caí para trás quando olhei para aquilo.

— Hã, me d-desculpa, e-eu achei que eu teria que limpar já que eu sujei tudo. — Ele sorriu para mim e falou alguma coisa, que por acaso eu não conseguia prestar atenção. Aue sorriso é esse.

— Você me escutou?

— Não, me desculpe.

— Ta. Eu falei para você ficar calma, respirar fundo e pegar meu telefone.

— Ata, certo, clar.... Pera, é o que? Por que eu iria pegar seu telefone? — Perguntei já me dispersando e pegando a xícara de café que eu não havia derrubado.
— Estou te dando meu número, por que te achei bonita e acho que poderíamos sair. — Soltou tudo de uma vez só.
— AI MEU DEUS!! — Gritei quando derrubei a outra xícara de café em cima dele novamente. Ele me olhava completamente sem reação. — Ai, e-eeu, me descurpa, quer dizer, me desculpa, sério eu m-me...
— Chega! Você já pediu desculpas o suficiente! Vá fazer o seu trabalho e saia de nossa frente! — falou com uma voz raivosa a mulher que estava ao seu lado.

— E-eu...

— SAIA! — Berrou, atraindo a atenção de muitos outros clientes, inclusive a do meu chefe.

Saí me sentindo completamente humilhada.

Nem esperei para levar a bronca de meu chefe. Sabia que já estava demitida, e se ficasse mais um segundo aqui, todas as lágrimas que eu estava segurando sairiam como uma cachoeira.

Deixei o avental na bancada e saí o mais rápido possível.
* * *
Pedro

—Lorena, por que você tratou ela desse jeito? — perguntei até meio assustado.

— Porque ela derrubou café em você duas vezes, e claramente não sabe fazer seu trabalho direito.

— Mas, ela derrubou café em mim, então, quem tem que brigar com ela ou não, sou eu. — Falei. Ela se encolheu com minhas palavras.

Virei a cabeça para procurar a garçonete, a fim de pagar a conta, mas quando a vi ela tirando o avental e o colocando na bancada, logo depois saindo do estabelecimento com um semblante triste. Ela foi demitida?

Coloquei algumas notas em cima da mesa e fui apressado atrás dela.

— Ei! Ei!Onde você vai? — A gritei. Vi ela se virar e me olhar um pouco confusa. Estava chorando

— Eu.... Vou para a minha casa. — Respondeu.

— Não... Estou querendo saber, por que você saiu lá de dentro e deixou o avental?

— Porque eu fui demitida. — Falou com uma carinha ainda mais triste.

— Só por que derrubou café em mim? — Perguntei.

— Não, eu derrubei várias outras coisas também. Por que está falando comigo?

— Como assim?

— Você estava me olhando com cara de bunda lá dentro. Não está bravo?

— Do que você está falando? Eu não estava te olhando com cara de bunda.

— Estava sim! — Respondeu batendo o pé no chão como uma criança birrenta.

— Como eu poderia estar te olhando com cara de bunda se estava querendo sair com você?

— Co-como assim sair comigo? — Perguntou, como se não estivesse entendendo.

— Certo. — Pensei em outra forma de falar. Ela era meio devagar. — Eu estava te paquerando.

Notas finais
Não deixem de comentar! Mesmo que seja uma crítica construtiva, comentem, por favooooooor