Como uma sombra...
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O dia em que finalmente vamos para faculdade, o que passa pela cabeça de todos os jovens? Liberdade, independência, festas e não pode faltar a bebida é claro. Estamos a caminho da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill e só agora olhando pela janela do carro, enquanto a minha mãe se concentra no transito e minha irmã mais nova está no celular, provavelmente conversando com as suas duas irritantemente fúteis amigas, ou com seu novo namorado, que a duvida começa a me corroer por dentro. Meu sonho sempre foi ir para universidade, mas tinha que ser a universidade da Carolina do Norte? Minha mãe estudou lá, meu avô, o pai do meu avô também. Então é claro que eu, como a filha primogênita, tinha que seguir os mesmos passos da minha família. Eu nunca questionei, apenas sabia para onde iria, e as vezes eu simplesmente agradecia por não ter que sofrer com essa grande escolha, mas eu posso sentir agora, quando estamos finalmente a caminho, que tenho medo, medo de não seguir meus próprios caminhos.
Paramos em frente a um prédio de tijolos, que parece ter muitos anos, a correria e a empolgação de todos é visível. Jovens recebendo de braços abertos a tão sonhada liberdade e pais em uma mistura de choro e felicidade pelos filhos. Malas e caixas são arrastadas, pessoas entrando e saindo e carros cada vez mais vazios. Minha mãe me olha por um instante e vejo o mesmo olhar de todos os pais lá de fora. Seus cabelos pretos, que foram cortados recentemente e que estão um pouco abaixo dos ombros, estão presos em um perfeito rabo de cavalo, seus olhos azuis meios húmidos pela emoção, seu rosto fino e expressivo, me fazem lembrar o dia em que contei que tinha passado para universidade e eu vejo o mesmo que vi naquele dia, orgulho.
Tiramos tudo do carro, nem acreditei que todas as minhas coisas, dariam no carro, antes mesmo de começar arrumar as malas, minha incredulidade era claro. Como eu poderia colocar tudo que tem no meu quarto em caixas que caberiam no pequeno carro de passeio da minha mãe. Insisti para alugarmos um carro maior, mas a única coisa que tinha ouvido da minha mãe era para arrumar as coisas. Estou sentada na cama de solteiro do lado direito do quarto, minha colega de quarto ainda não chegou, o que me da mais privacidade. Minha irmã chega com uma caixa pequena e coloca por cima das outras. Ela me olha e logo em seguida se joga ao meu lado na cama, colocando seus pés em cima da minha perna.
− Você não me parece muito animada Emily... – Ela diz me observando.
– E você não parece que vai sentir a minha falta Anne... – Digo fazendo drama e ela revira os olhos.
– Você tem sorte, sabia? quero muito que chegue a minha vez... – Ela resmunga.
– Não pense nisso ainda, aproveite seu último ano. – Me deito do seu lado, tirando suas penas de cima de mim. – Acredite em mim... você vai sentir mais do que eu.
Depois que minha traz a última caixa, deixamos tudo uma bagunça mesmo e vamos em direção aonde ela deixou o carro. Ando com a Anne e antes que ela entre no carro lhe dou um abraço bem apertado. Minha mãe me olha e passa a mão no meu cabelo me arrumando e posso ver que está lutando com as lágrimas.
– Eu estou muito orgulhosa de você. – Ela diz me dando um beijo na testa.
– Obrigada mãe.
– Se cuida, está bem? – Confirmo com a cabeça. – Não vá em festas nos dias da semana, tente não beber muito, não estou querendo...
– Mãe fica tranquila. – Ela me encara por alguns segundos. – Você sabe que eu não bebo. – Digo, ela confirma com a cabeça, mas ainda parece preocupada.
– Mãe você pretende chegar em casa ainda hoje? – Anne pergunta aparecendo na janela.
– Faça amigos! – Ela me diz, ignorando a Anne e me puxando para mais um abraço. Anne revira os olhos me fazendo rir.
Depois que minha mãe finalmente me soltou, vou direto para o quarto. Chegando vejo uma garota de cabelos loiros e longos, abaixada em frente a uma caixa no chão, ela parece procurar algo e quanto mais me aproximo, consigo ver o seu nervosismo. Estou perto o suficiente quando ela percebe a minha presença e se levanta apressada, seus olhos estão vermelhos como se tivesse chorado, o que não é muito incomum em um dia como esse. Ela parece sem graça quando me ver, passa a manga da camisa no rosto tentando secar as lágrimas inexistentes.
– Oi meu nome é Emily. – Digo estendendo a mão e me apresentando.
– Julia. – Ela diz apertando a minha mão.
– Você precisa de alguma ajuda? – digo olhando para caixa que ela estava mexendo.
– Ah não, eu só estava procurando a minha pulseira. – Ela diz desanimada.
– Deve ser muito especial...
– Meu namorado que me deu. – Ela diz triste. – Eu não encontro em lugar nenhum e nem sei quando vou conseguir ir em casa agora, se eu não tiver perdido durante o caminho...
– Não se preocupe, tenho certeza que vai achar. – Digo e ela sorrir agradecida. Pego a primeira caixa da minha cama e começo a arrumar as minhas coisas.
Ficamos horas arrumando e desembrulhando coisas. Julia é uma garota legal, ela tem 18 anos, era mora a 5 horas de distância da universidade e foi a primeira da família dela a entrar em uma, o que pelo modo como falou a deixa muito orgulhosa, ela veio estudar Direito. Ficamos conversando enquanto arrumamos tudo, já é 19:00Hrs quando me jogo na cama cansada.
– Chega, precisamos comer alguma coisa. – Falo para uma Julia sorridente.
– Concordo, podíamos sair e comprar alguma coisa. – Ele diz.
– Como? Não temos carro e a lanchonete mais próxima, são uns 20 minutos a pé. – Suspiro cansada.
– Então pedimos uma pizza, o que acha? – confirmo com a cabeça e pego meu celular.
Depois de procurar o número da pizzaria mais próxima, ligo e faço o pedido. Vou tomar um banho enquanto a pizza não chega. Coloco uma calça moletom confortável e uma regata preta. Me olho no espelho por alguns segundos, a imagem que eu vejo me desanima. Nem meus olhos azuis salvam meu rosto dessa olheira horrível, tento prender meu cabelo pretos e curtos, acima do ombro, mas o resultado é de alguns fios amarrados e a metade solto, quando vi que não conseguia mais prender meu cabelo me arrependi no mesmo instante de ter cortado tão curto.
Saio do banheiro e me jogo na cama, morrendo de fome. Julia vai tomar um banho enquanto a pizza não chega. Depois de longos minutos, o entregador finalmente liga avisando que chegou, desço até o primeiro andar, nosso quarto fica no terceiro. O entregador está parado logo na entrada, pago a ele e pego a pizza. termino de subir o terceiro lance de escada e sou surpreendida quando alguém subitamente abre a porta para o corredor, batendo no meu braço, me jogando no chão junto com a pizza.
– Nossa... Você está bem? – pergunta o sujeitinho que acabou de derrubar a minha janta. Eu o encaro por alguns segundos, ele é bem alto, tem pele bronzeada, olhos escuros e cabelo pretos, ele é bem bonito na verdade. Mas então olho para minha pizza no chão e minha raiva volta com tudo.
– O que você acha? – Pergunto chateada.
– Olha a culpa não foi minha. – ele parece segurar o riso. O que me deixa mais irritada.
– Ah tem razão... Eu caí sem nenhuma razão aparente. – Falo com ironia e ele agora sorrir abertamente. Me levanto e ele parece acompanhar cada movimento meu, me analisando, me deixando levemente incomodada. – O que você está olhando?
– Nada... – Ele diz, mas em nenhum momento tira os olhos de mim. – E a propósito, meu nome é Ja...
– Olha eu estou morrendo de fome e você acabou de derrubar o que seria minha comida, então a não ser que você me compre outra, o que seria justo, eu tenho que ir para meu quarto pedir outra. — falo muito rápido, sem nem me importar se ele entendeu. Tento passar por ele, mas ele não se move, ficando em frente a porta.
– Eu posso te levar para comer alguma coisa, que tal isso? – Ele balança a chave de um carro.
– Não obrigada. – Nem preciso pensar na resposta. – Agora se você me der licença. – Digo e espero ele sair do caminho. Ele levanta as mãos em forma de rendição e me deixa passar.
– Acho que você não pode deixar isso aqui. – Ele diz apontando para a pizza no chão. Olho para ele irritada e ele apenas sorrir, pisca para mim e desce as escadas.
– Idiota. – Resmungo e recolhendo a pizza.
-----------------------------—-----------------------------—-----------------------------—-----------------------------—-----------------------------—-----------------------------—-----------------------------—-----------------
Não muito longe, um jovem caminha pelas ruas vazias, ele observa as janelas e as luzes acesas. Ele toma uma decisão, sabe que já chegou a hora, dessa vez ele conseguiu se controlar por mais tempo que ele achou ser possível, mas ele sabia que só precisava ser discreto, nunca foi pego antes, não tinha o que temer. Afinal ele era bom no que fazia, pensou.
Fale com o autor