Como transformar um C em A

1 Do C ao A num rabiscar!


C-

Era isso, um C -.

A nota que o deixaria com as orelhas formigando e o rabo quente se sua mãe visse. Precisava fazer algo para contornar aquilo, mas o quê?!

Olhou para o lado, viu o melhor amigo com uma prova marcando A+.

Impossível, porra!, Kiba pensou enquanto inclinava-se para ver melhor. Naruto, um beta, ostentava sua prova com um sorrisinho discreto, e foi então que Kiba notou a falcatrua. Naruto nunca seria o modesto, o contido. Se tivesse mesmo tirado um A+ teria subido na mesa pra comemorar, e seria, provavelmente, levado à detenção por mau comportamento. Amassou uma folha rabiscada de seu caderno e arremessou em Naruto, acertou a orelha dele. Movendo os lábios, perguntou: “Como?”, a resposta que obteve foi a mais simples: “Escrevi por cima.”

Quando o sinal tocou, Kiba ficou na sala, o tutor daquele dia era novo, e Kiba não podia se dar ao luxo de ser pego, mas tão distraído estava, que nem notou a presença atrás de si. Focava em terminar de fechar o C, transformando-o num círculo, desenhando uma letra A por dentro. O sinal negativo foi mais fácil de transformar em positivo, um só traço.

— Sabe que é errado.

— PUTAQUEPARIU! — Saiu numa palavra só, sem pausas para respirar, a mão indo ao coração, assustou-se tanto que pulou ficando de pé, derrubando sua mesa, ficando cara a cara (ou sua cara na altura do peito) daquele alpha silencioso demais. — Como…? como? Você não faz barulho?

A questão não era apenas essa, Kiba soube, faltava a essência que ele sentia nos demais professores, algo que o alertava, que lhe dava vantagens que outros de sua turma não tinham, mas aquele cara novo… ele era tão controlado que nem Kiba o sentia.

— Não quando tento pegar um aluno aprontando.

— E… e… quem disse que eu tô aprontando? — abaixou-se tão rápido que o movimento foi vertiginoso. Pegou sua prova rasurada, chegou a amassá-la um pouco na mão suada. Transpirava mais quando nervoso, sua essência rompia sem que sequer ele notasse, não fazia ideia ainda do efeito que isso causava nos alphas, apesar de ouvir inúmeras histórias de sua mãe o alertando, da educação sexual na escola também. Tremendo, afastou-se do novo tutor, colocou a prova na mesa dele, tomou a caneta ali disposta, e escreveu uma palavrinha, 4 letras, uma interrogação. Se ele o dedurasse, poderia ao menos fazer uma chantagem. — Estava?

— Sim, não se faça de desentendido, vi quando rasurou sua prova, alterando sua nota de um C- para um A+.

O alpha, Kiba notou desde a primeira aula, uma semana antes; usava sempre um sobretudo, óculos escuro e pouco falava que não para lecionar sua matéria, que Kiba achava chatíssima! A pele marmórea, os cabelos pretos, os lábios finos. Mãos bonitas, enormes, mas as unhas eram impecáveis, e Kiba notava mesmo, sempre que ele fazia alguma anotação na lousa, ele reparava. Sem alianças, sem nada que indicasse mais de sua vida pessoal. Sabia que era um alpha porque não tinha como negar, sabia que ele era taciturno, e ele nem sabia mais o que significava isso, fora Sakura quem informou a palavra a ele no primeiro dia.

— E o que pretende fazer sobre isso?

— Informar ao coordenador da detenção, creio que uma hora extra para pensar no que fez é mais que justo. Nada mais sério precisa ser feito, porque a sua rasura não altera sua nota no diário de classe oficial, Inuzuka Kiba.

Bufando, descontente e pensando em uma forma disso ficar longe dos ouvidos de sua mãe, ele seguiu o tutor da classe. Ouviu as batidas na porta da sala da detenção, esperou que os dois conversassem, Kiba não entendia nada daquela distância, mas notava os olhares sobre si. Não os do professor, ele estava de costas, mas o responsável pela detenção, ah sim, ele o olhava, e muito. E isso o incomodava, e muito.

Quando o professor voltou, havia um vinco entre as sobrancelhas, os lábios pressionados a formarem apenas uma linha de uma expressão descontente. Sinalizou para que Kiba entrasse na sala, mas não antes do responsável pela detenção sair. Um alpha, 50 anos, talvez mais, Kiba não tinha muito contato com ele, quando fazia suas detenções era Hinata a vigiar a turma. Kiba não notou muita coisa, que não o desconforto de ser olhado demais, mas logo Aburame Shino estava entre ele e o outro alpha, a postura indecifrável, a mão de leve em suas costas para que ele entrasse na sala, e Kiba se viu obedecendo às ordens mudas de seu professor. Quando a porta fechou, engoliu em seco.

— Sente-se. — Shino indicou as várias carteiras dispostas em fileiras de três colunas por 4 lugares. Ele deu a volta na mesa, as narinas dilatadas e a cara de nojo intensificada enquanto, do próprio bolso, tirava um pacote do que Kiba identificou como lenços umedecidos. Passou por toda a cadeira, e mesa, onde apoiou os cotovelos.

— O castigo é meu, ou seu? — Ele nunca controlava a língua, Shino logo iria ter essa certeza.

— Seu.

— Então… por que ficou? — A mochila de Kiba foi jogada na carteira ao lado, inclinou-se a frente apoiando os cotovelos na mesa ligada à cadeira, os pés apoiados nos da cadeira enquanto mal tocava o assento. Esticou-se um pouco, alcançando no bolso lateral da mochila um pacote de chicletes sabor morango, seu preferido.

Shino apenas permaneceu em silêncio.

— Ah, que saco, a Hinata fala comigo.

Nada.

Havia passado 1 minuto e Kiba já estava entediado.

— Por que o outro não ficou, não é ele o chefe da detenção desse corredor? — Ah sim, Kiba sabia daquela sala de detenção, eram todas iguais, aquela em geral atendia à alphas rebeldes, por vezes betas. Naruto já havia ficado ali.

Mascava e fazia bola. Quando estourava, via o repuxar de lábios do alpha, sutil, mas aparentemente sem paciência. Kiba exigia muita, apesar de ser desprovido dela. Também era desprovido de bom senso, porque não parava de falar. Pegou a folha de sua prova, a nota rasurada. Teve uma ideia.

— Vão reportar à minha mãe?

— Sim.

— Ah, isso você me responde?!

Silêncio.

Bufou, cruzou os braços deixando a prova estirada por sobre sua mesinha.

— E se eu afirmar que não escrevi nada? Seria a minha palavra contra a sua. E tem uma coisa aqui na prova que pode te deixar em maus lençóis.

“Date?”, fora a última coisa que Kiba rabiscou, já na mesa de Shino, com a caneta dele. Kiba não era talentoso em muitas coisas, mas era muito bom em falsificar letras e assinaturas. Os anos de prática o deixaram realmente bom, nem Tsume sabia reconhecer se a letra, quando no boletim, era mesmo dela ou de Kiba. Sorrindo, ergueu a prova, assustando-se ao ver que Shino já não estava mais sentado, e sim caminhando em sua direção.

— Não vão acreditar.

— Por que não me deixou aos cuidados do chefe da detenção?

— Pelo modo que ele olhava para você, dava pra sentir o… odor.

Ponderou, sopesou as escolhas que tinha.

— Bem, deveria ter reportado isso imediatamente, mas optou por ficar na sala comigo. Acho que fica fácil de acreditar em mim numa situação dessas. — Sorridente demais, só aumentou seu sorriso quando notou que o alpha respirava fundo, a destra a esfregar o nariz, empurrando de novo os óculos para mais próximo aos olhos. — O quê? Eu sou presa fácil, eu tenho que aprender a me virar.

— Não na escola, não… não tentando chantagear seu professor.

Kiba apenas deu de ombros, Shino sentou-se na cadeira ao lado, a que não estava ocupada pela mochila de Kiba.

— Desta vez podemos deixar isso longe dos ouvidos da sua mãe, mas só se me prometer que não fará isso de novo. Se for outro professor a te pegar, podem deixá-lo na detenção, e duvido muito que, no momento, minha palavra valha para que afastem um funcionário que tem mais tempo de casa do que tenho de vida.

Kiba sentiu a preocupação, ondas fracas, mas detectáveis, como se, enfim, o alpha estivesse se abrindo a ele. Conseguia também sentir o cheiro, não do alpha, mas da sala. Algo almiscarado, sémen? Ew.

— Combinado. — Estendeu a mão, recebeu um virar de cabeça confuso, ele não saberia se Shino estava mesmo olhando para sua mão, ou seu rosto, mas a apertou. Um toque firme, palmas frias.

— Date?

— Hm? Ah, os jovens falam assim — recostou-se na cadeira, olhou de soslaio para a figura ao seu lado.

— Não iam acreditar que fui eu, jamais escreveria algo preguiçoso assim.

Kiba gargalhou, nesse meio tempo notou o sorriso do alpha, o vislumbre de seus olhos por trás da lente quando ele também se recostou na cadeira usada pelos estudantes em detenção.

— Posso te ajudar com a matéria, se quiser.

— Quero, quero sim, mas não agora. Quem sabe num date, me paga um café que eu te deixo falar por horas a fio sobre essa chatice.

— Kiba.

— Ah, qual é professor, café não é crime.

Shino não o repreendeu, mas não negou também aquele pedido inusitado. Quem sabe daquilo, futuramente, não podia mesmo sair um… date?

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