O silêncio preenchia a sala cinzenta de paredes de concreto com mofo impregnando os cantos. Mas se você prestar um pouco mais de atenção, pode ouvir algumas fracas melodias poluindo o silêncio.

A goteira ao lado da porta, uma infiltração que insistia em cair em momentos esporádicos.

Pick…

Pick…

Pick….

A respiração pesada do ruivo quase sem fôlego sentado à mesa de metal com um pulso acorrentado. Soava como se seus pulmões clamassem por ajuda, incapazes de se preencherem completamente e por isso se esforçavam para captar o máximo de ar possível.

A cada duas gotas, ouvia-se:

...Inspira…

...Respira…

O pior som a se ouvir na sala, entretanto, vinha da porta de metal que se abria com um chiado estridente, como um aviso do que aconteceria a seguir. De novo.

Seriam choques elétricos? Mais um balde para uma sessão de afogamento ? Talvez, por clemência, enfim tenham vindo libertar o ruivo de todo esse sofrimento.

A última opção é pouco provável, não quando o jovem preso apresentava um extraordinário talento de tirar do sério aqueles que por horas se esforçaram para extrair informações. Não. Fred Weasley não merece clemência.

—Onde ela está?

Uma voz grave sentenciou o fim do silêncio e o início de mais um interrogatório. Mas por azar ou sorte do destino, este parecia diferente, parecia… A última chance de ser ouvido por alguém.

—Ela quem? Não sou exatamente o homem de apenas uma "ela" em minha vida, senhor…

Um tapa estalou em suas bochechas. O rosto já marcado com sardas, agora era marcado pelo vermelho do sangue acumulado no local.

A venda de Fred Weasley foi retirada revelando que a nova voz não pertencia a nenhum capanga degenerado. Não. Agora o jovem teria a honra de estar frente a frente com o chefe. O lorde. Àquele com dinheiro suficiente para comprar um pequeno país se assim desejasse.

Lucius Malfoy.

—Melhor contar essa história direito, rapaz... Do começo, sem invenções ou artimanhas — o loiro flutuava entre um ar sério e sádico, como se soubesse exatamente o que fazer para garantir a veracidade da conversa e assim o fez ao posicionar um equipamento no pulso do acorrentado — Eu saberei se estiver mentindo e garanto que não serei piedoso como os anteriores... Responda. Agora. Onde isso começou? O que fez com ela?

Com os olhos lacrimejando e ainda inchados, dividiu sua atenção entre seu pulso e o malfeitor à sua frente. Então, respirou fundo e pareceu falar sério pela primeira vez em muito tempo:

—Como deve imaginar, senhor… Tudo começou no palco. Lá, afinal de contas, é onde a magia realmente acontece.

***



O que pareceu ter ocorrido há séculos, na verdade se passou há poucas dezenas de horas atrás.

A cortina vermelha preenchia o ambiente separando os artistas do público recheado de expectativas. Era entre estes que se encontrava uma jovem de ares inocentes, cabelos castanhos e um olhar misterioso e obstinado para o palco.

Aos que já tiveram o privilégio de conhecer a preciosidade da alta sociedade, saberiam que o nome pelo qual atendia era Hermione Malfoy, a melancólica viúva do jovem magnata Malfoy, cuja morte prematura determinou ao pai o papel de proteger, ou pelas línguas mais provocadoras: controlar, a vida da querida nora.

Depois de semanas em luto, a curiosa expressão de empolgação na nova afilhada levou o mais velho a se sujeitar a assistir um entretenimento de segunda classe como um reles show de mágica. O show, segundo a mesma, era organizado por uma família de artistas que fizeram parte de sua infância: os Weasley!

Mesmo a contragosto, lá se foram, em meios aos criados e proletários, ocupar lugares nada solenes em uma bancada que sequer detinha uma região reservada para classes superiores. Sem camarote, sem cabines especiais, apenas cadeiras empoeiradas separavam o lorde daqueles que lhe serviam torradas todas as manhãs.

A cortina se abriu.

—SENHORAS E SENHORES...

Um homem charmoso de vestes vermelhas, cartola pomposa e cabelos ruivos marcantes sorria como quem escondia um grande segredo do público, um segredo que a plateia estava disposta a ignorar em prol dos raros momentos de prazer que toda aquela farsa poderia proporcionar.

A graça da mágica estava justamente na fé inabalável de que o impossível, quando observado pelo público, deveria se manter disjunto das explicações lógicas… Era preciso acreditar no...

—Nem pense nisso! — Ouviu-se mais um estalo seguido de um movimento grosseiro segurando o ruivo pelo colarinho de sua roupa suja, muito menos vibrante do que no show de outrora — Sem mistérios, sem truques secretos. Revele cada detalhe ou esta será a última vez que poderá ouvir a própria voz.

—Sim… Senhor…

Não foi de grande surpresa quando o destino de Fred, "o extraordinário ", se chocou com os olhos da jovem viúva. E para a alegria do público, o contexto seguiu naturalmente para que a mesma acabasse participando do espetáculo.

—Vejam, senhores, neste show em particular terei de adquirir na plateia minha própria assistente. Infelizmente minha atual acompanhante sofre de um raro distúrbio chamado…

—...Chamado : venham ver MEU PRÓPRIO show de mágica das terças a noites!

Outra ruiva, de feições mais novas e provocativas que o primeiro, se apoderou do palco sendo recebida com uma avalanche de palmas do público!

Se o Extraordinário sorria como se estivesse prestes fazer um truque de mágica, a Escapista transbordava mágica em cada passo como se flutuasse pelo palco com seu vestido flamejante cheio de franjas e lantejoulas, revelando curvas suntuosas cobertas por meia arrastão. Sobre o cabelo escarlate havia uma pequena cartola negra acompanhada de uma rosa. O rosto era escondido parcialmente por uma máscara. Mistério e desejo sempre combinaram muito bem com a mágica.

—Como podem ver, meus caros, minha assistente atual está deveras rebelde…Mesmo nos truques mais simples, por favor, querida, uma última amostra sim?

A mágica se aproxima de uma saleta escondida por uma pequena cortina esverdeada revelando uma cabine cheia de correntes, coleiras e cintos nos quais a mesma se prende a contra gosto.

—... E antes mesmo que eu possa reagir ou pedir sua compreensão em nosso trabalho- o mágico falava enquanto puxava a cortina verde escondendo a assistente e por milésimos de segundo, sua presença foi escondida do público enquanto andava ao redor da máquina — logo eu me via sob uma vil e mesquinha vingança… Da minha querida ASSISTENTE!

Nesse instante, a volta ao redor da cabine é completada pela própria assistente que termina de puxar as cortinas revelando Fred preso às correntes em seu lugar.

O público já iniciava mais uma salva de palmas.

O clássico Vingança da Assistente?

—Sim, senhor. Dos bastidores era possível ver que a cabine podia ser facilmente aberta por trás, rápido o suficiente para eu entrar e a assistente sair terminando o movimento da cortina. É uma simples questão de velocidade e controle de voz enquanto nos movemos em sincronia.

—E onde entra minha Hermi… minha nora?!

—Bem...

—Senhoras e senhores, Gina Weasley, a grande Escapista! Tão eficiente que conseguiu escapar do meu show e assumirá os palcos nas terças enquanto estivermos na cidade. Poderia me soltar, querida?

A caçula dos irmãos Weasleys parecia apreciar a visão do irmão acorrentado. Poderia aproveitar a chance de fazer seu show naquele momento, segundo ela, mas em respeito ao público, preferiu já trazer ao palco uma moça para lhe substituir.

—A moça de vestido vermelho na segunda fileira… Você parece ter uma boa cintura para ser cortada ao meio, minha cara. Gostaria de subir ao palco?

E foi nesse momento que Hermione se levanta e caminha empolgada para onde acontecia a mágica .

Como tamanha doçura e delicadeza poderia prever o que aconteceria nas horas seguintes?

—Isso foi planejado, certo?! Minha nora já havia me informado que os conhecia!

—Receio dizer que quando ela subiu no palco foi a primeira vez que eu a vi. Ela deve ter me confundido com outra pessoa.

O loiro olhava para o equipamento no pulso do mágico. Sem alterações, ele estava falando a verdade. Seria então mentira de sua querida Hermione? Era o pensamento que mais preocupava o velho magnata. Sobre o que mais ela poderia ter mentido ?!

Seu filho...

No palco, assim que a nova assistente aceitou a mão da Escapista, a ruiva a girou exibindo a preciosidade que havia encontrado na plateia.

—Na verdade, preciso admitir… Lhe falta alguns toques finais!

Puxando a morena para dançar no palco, os corpos se tocaram com uma proximidade que beirava o promíscuo e o cênico. A luz do palco focava no casal de damas que começaram a girar juntas enquanto uma chuva de confetes prateados caía ao redor e um piano conduzia o ritmo de tango.

No primeiro movimento rápido, a cartola da ruiva passou para a morena, assim como a rosa se encaixou em seus lábios. A escapista conduzia a dança e a morena, como quem não tinha ideia do que devia fazer, apenas se deixava levar pelos movimentos.

Após um giro que encerrava com a coxa de Hermione enganchada no quadril da ruiva, seguiu-se um movimento delicado o suficiente para arrancar suspiros da plateia. Como se estivesse em câmera lenta, as mãos habilidosas da Escapista deslizaram por toda extensão da perna adicionando uma cobertura quadriculada sob sua pele clara nua.

—Um efeito prático de peças colantes com imãs escondidas no vestido de minha irmã, é claro. — mais uma explicação do ruivo, assim como Lucius desejava ouvir — Segundos antes, todas as peças foram pegas enquanto rodopiavam, mas dificilmente alguém prestaria atenção nisso tendo um show tão… Caliente para apreciar.

O ruivo engoliu seco com receio de receber mais um soco, mas seu algoz parecia concordar que o espetáculo foi, de fato, hipnotizante.

Mais um giro brusco e as pernas da Escapista já não possuíam uma meia arrastão, o que soava mais que convincente para alguns mais inocentes acreditarem na troca de papéis.

Entretanto, foi quando a ruiva arremessou a rosa para o alto e uma pequena avalanche prateada cobriu as duas, revelando na morena o mesmo vestido de lantejoulas e a máscara preta tradicional a uma Assistente de Palco, ali que todo o público caiu no feitiço do espetáculo, vendo o que mais desejam acreditar.

Ali, naquele instante, Hermione havia se tornado a Assistente de Fred, o Extraordinário!

—Mais imãs?

—Mais imãs. Gina é realmente boa com esses truques de troca de roupa.

O foco do palco logo apontou para o mágico ainda preso no equipamento.

—Milady, preciso de uma ajudinha para sair daqui… O show tem que continuar!

Hermione, tão surpresa quanto todos da plateia, andou até mágico e o soltou das correntes.

A melodia do piano de fundo preenchia o silêncio entre os dois, onde apenas as amarras caindo no chão produziam algum som incomum. Se para o público o ritmo enérgico da música tornava aquele momento silencioso menos entediante, os mais atenciosos poderiam notar um diálogo entre os olhos do mágico e sua assistente.

—Então não foi você quem a escolheu para o palco? Não falou com ela anteriormente?

—Se eu a visse no palco ou antes do show, provavelmente daria uma boa olhada nesta beleza… Com todo respeito. Mas repito, não, eu nunca a vi antes. Minha irmã quem a escolheu.

—E como ela sabia fazer os truques?!

O mágico brincou com sua posição, apoiando o rosto ora na mão esquerda, ora na mão direita, e em seguida deu o mais inocente olhar para sua plateia de um homem só.

—É tudo uma questão de perspectiva, senhor.

—Bem… Preciso testar as habilidades da minha nova assistente, não concordam, senhores?!

Neste instante, vários ruivos entram no palco com roupas igualmente vermelhas, apenas mais discretas que a assistente.

Seus trabalhos? A verdadeira assistência de palco, retirando a maquina da primeira mágica e posicionando a próxima, que se assemelhava a uma grande gaiola humana coberta por um tecido fino de cor creme.

A assistente foi conduzida por uma pequena escada até chegar ao centro da gaiola e, com a ajuda dos holofotes, todos poderiam ver sua silhueta entre as grades.

—Meu primeiro teste com nossa querida assistente de palco é a respeito de sua fé. Você acredita em mágica?Acredita em mim? Porque agora vai precisar.

E para euforia e desespero do público, assim como o piano sempre acompanhando as emoções da situação, duas grandes esferas de demolição surgiram sendo balançadas em direção a gaiola com a dama, fazendo jus ao pedido degenerado de que tenha fé.

...CRASH!!

...CRASH!

Era possível ver as esferas se balançando de fora da gaiola e o som estridente do choque das esferas com as grades. O que tirava o fôlego, entretanto, era a expectativa do que aconteceria sem a presença das grades… Mais ainda, o que provavelmente acontecerá em alguns segundos…

...CRASH!!

...CRASH!

O metal parecia começar a se curvar e a jovem parecia desesperada tentando abrir a porta da gaiola na qual estava presa. Do outro lado do palco, o mágico fechava os olhos como se estivesse concentrando seu poder.

—Por favor! Me tire daqui!

Não havia respostas do ruivo.

Mais batidas das esferas.

—Fred! Senhor… Senhor Extraordinário! E-eu tenho fé! Por favor! Tire essas…

...CRASH!!

...CRASH!

—Essas esferas! Por favor!

Sua voz soava mais lacrimal e desesperada. O público já começava a se incomodar, sem falar dos burburinhos de que "tudo aquilo não passava de uma farsa" estarem mudando de rumo para "tudo aquilo não passava de sadismo irresponsável".

—Ahh! Socorro! Eu imploro!

...CRASH!!

...CRASH!

...CRASH!!

—Por f...

...CRASH!

...CRASH!!

..CRA-BUM!

E com o som estridente do piano acompanhando, a gaiola desabou no chão balançando o tecido que a separava do público e ficando completamente visível estilhaçada sobre o palco.

Lucius já não carregava o mesmo sorriso de outrora ao ouvir essa parte, afinal, ele mesmo fora um dos participantes da plateia a de fato sentir a fúria de acompanhar aquela cena sem haver o que fazer para ajudar a jovem.

E o pequeno sorriso vitorioso no rosto do jovem Weasley significa exatamente o que deveria significar: o mágico conseguiu! Ele de fato fez as pessoas acreditarem em tudo que aconteceu diante de seus olhos.

O que é a mágica se não a capacidade de fazer o impossível? Se é realmente impossível ou não, não importa, contanto que assim acredite a plateia.

—Acredito que se lembre como se sucedeu essa mágica.

—...Claro…

Em meio às reclamações da plateia, o mágico ergueu as mãos, como se solicitasse o direito à fala e assim continuou até que os presentes na plateia se sentaram para ouvir.

—Agora, iremos checar se a fé da senhorita Assistente foi suficiente para salvá-la.

Com um simples puxão sobre o tecido transparente, o mesmo caiu sobre as mãos do mágico que passou a agitá-lo ao seu redor, como se fizesse uma espécie de redemoinho.

Em meio aos olhares atentos de todos à espera do inesperado, sua expressão parece sem graça, como se tivesse feito algo errado.

—Desculpe… Preciso de um pouco mais de… Altura. Nossa querida assistente é mais alta do que eu imaginava.

Todos acompanham o jovem subir 3 degraus e repetir os mesmos movimentos com o tecido, agora ainda mais longe da gaiola estilhaçada.

—...Como um bom mágico, tenho sempre comigo algumas palavras mágicas — com a mão esquerda agitava o tecido e a direita apontava para o mesmo com se lançasse uma magia — Pateta! Chorão! Desbocado! Beliscão! Obrigado.

Ao soltar o tecido, o mesmo caiu revelando uma moça intacta com suas belas curvas e a já conhecida vestimenta: a assistente do mágico!

O jovem de cartola ofereceu gentilmente a mão à assistente para que a mesma lhe acompanhasse em reverência ao carinho da plateia. As palmas, é claro, vieram em seguida acompanhada dos rostos surpresos e aliviados.

—Agora que o show já se passou, imagino que um homem inteligente e sensato saiba onde esteve sua querida nora todo esse tempo.

—...Na escada…

—Exato! Quase sempre são escadas! Apesar dos gritos e o pânico da moça serem reais por estar presa em um compartimento que tremia sendo atingida pelas esferas, a fisionomia vista dentro da gaiola era um simples truque de sombras e com o holofote. Ela sempre esteve nas escadas.

O loiro mantinha uma expressão séria e pensativa. Talvez ainda não tenha se convencido o suficiente de como a mágica funcionava… Talvez apenas não queria acreditar que fora tão bem enganado.

—A verdade é que esse truque sempre mudamos a forma de executá-lo… Já usamos inclusive gêmeas ou um movimento sincronizado em que a assistente é levada por uma esfera para fora do palco! Essa atual, é claro, é a mais segura e eficiente para se fazer com uma assistente vinda da plateia.

Lucius lhe deu um soco novamente, não por ter ouvido tolices ou percebido que havia mentido, apenas porque poderia fazê-lo e era estranhamente agradável ver o rosto provocador do ruivo ser forçado a cuspir um pouco de sangue sobre a mesa.

Um dente do ruivo caiu sobre a mesa, o mesmo sorriu em seguida.

—Vou precisar de ir ao dentista depois dessa… Se não se importa, dentes custam caro...

Assim que o mágico pegou o próprio dente, mais um golpe de mãos fechadas foram desferidas e o lorde pegou um lenço em seu bolso para limpar a mão do sangue e suor do outro. Ao menos aquilo era um bom sinal, um sinal de que não bateria mais uma vez.

—Pode não ter matado ela nesse truque da gaiola ou mesmo ao serrá-la em dois. Acredito que sua irmãzinha deve ter se envolvido nesse truque também.

—Oh, ela sempre se envolve! Dizer que não está em meu show é seu jeito de fazer propaganda do próprio show. Sabe como é esses jovens sedentos por atenção…

—Calado.

O clima da sala parecia ainda mais denso, nem mesmo o som do gotejar parecia ousar ser ouvido naquele momento.

—Hermione esteve numa gaiola e foi serrada. Ela ainda atirou com uma pistola e com facas em você — mais campos magnéticos eu presumo — e conseguiu ser levitada durante o show. Lembro-me de todos esses momentos e consigo imaginar como ela se safou em todos eles, mas a grande questão, senhor Fred Weasley, é onde ela está agora. O que aconteceu durante o truque dos gêmeos?

—Truque dos gêmeos?

—Por favor… Não duvide da minha inteligência, é claro que o truque da corda que envolvia teleporte usava gêmeos… Ou pelo menos um sósia. Foi o último truque da noite e depois que a cortina se fechou, Hermione não voltou para plateia. Meus seguranças não a encontraram na cochia, nem nos malditos trailers dos Weasley! Posso estar minimamente convencido que não a escolheram com segundas intenções, que de fato não a conheciam — por um milésimo de segundo, foi possivel ver Lucius encarando o detector de mentiras mais uma vez — … Mas poderiam ter lhe ajudado a escapar a pedido dela! Tenho certeza que aberrações ciganas como vocês adorariam arruinar uma família como a Malfoy!

O ruivo levanta a cabeça mais uma vez com seu habitual sorriso provocativo.

—Então aquela mocinha poderia estar interessada em fugir para o circo? Oh, vocês devem ter feito uma grande merda para ela preferir um destino tão fodido quanto o nosso...

Mais socos, mais sangue espirrando como uma tela ainda possivel de ser pintada.

Ao invés de fechar a boca, o jovem Weasley continuava deferindo ofensas aos Malfoy, como questionar se "ela também apanhava assim" ou se "obrigavam a bater em vagabundos como hobbie da família".

As agressões, é claro, continuaram mesmo depois de todo o rosto estar tão ruivo quanto os fios de cabelo. Foi nesse instante que ouviu-se duas batidas na porta.

O "lorde" sacou seu lenço mais uma vez para limpar as mãos do sangue cigano, para estar minimamente apresentável para seus capangas, apesar de que bastava olhar para o rosto do investigado para saber exatamente que tipo de diálogo tiveram.

—Entre.

—Senhor, desculpe interromper, mas acho que a encontramos.

O sorriso de vitória do loiro precisava ser compartilhado com o "convidado", era sua forma de dizer que "ganhou". Depois de uma rápida olhada para trás, perguntou:

—Onde ela está?

— É complicado… Mas em resumo, ela está em uma gaiola, senhor.Sua sugestão realmente ajudou, como todos esses ciganos são ruivos, procurar por uma moça morena facilitou nossa procura.

Após uma olhada rápida no rosto ensanguentado dentro da sala, comentou:

— O que faremos com ele, senhor?

—Deixe-o aí até segunda ordem. Agora preciso fazer uma pequena reunião de família com minha queridíssima nora e tenho a impressão que esse moleque ainda pode ser útil para conseguir respostas mais… Úteis da senhorita Malfoy.

A porta se fechou deixando para trás um rosto desfigurado algemado a mesa, pincelado de sangue e sem mais o que fazer além de esperar dolorosamente a própria morte.

***

Minutos depois, um Malfoy furioso entra na sala pronto para descontar um pouco mais de sua raiva em seu cadáver vivo particular, mas a sala estava vazia.

Aliás, quase vazia.

O barulho gotejante no canto voltara para completar o silêncio.

Sobre a mesa um clipe de papel jazia ao lado das algemas, além de uma mensagem escrita em sangue:

Você estava certo. Usamos gêmeos.

Ass: George, o excêntrico Weasley.

Um último som compunha a cena, mais melodramático que um piano, mais intenso que uma esfera de demolição. Era um grito de fúria proveniente de um homem amargurado engando pela terceira vez aquela noite.

Se dependesse dele, aquela seria a última.

Encontrar Hermione Granger não era mais apenas uma questão financeira e social, mas uma questão de honra.