Como se fosse capaz | Jiyoo
1 Capítulo Único
Após a invasão japonesa, muitas famílias sul-coreanas perderam seus postos e privilégios durante a guerra. No decorrer dos anos, recaíram sobre suas futuras proles o papel de reascender, com suas promessas enfeitadas e profecias vazias. Kim Yoohyeon foi capaz de mover expectativas entre sua família desde quando sequer tinha consciência disso, e quem carregou os boatos do vigor de seus ancestrais. No entanto, por mais que seus pais a custassem lembrar que compartilhava do antigo sangue nobre de Hanyang, Yoohyeon nunca alimentou a confiança faminta que exalavam no fervor de sua ambição.
Como agora, a soldado a serviço da Dinastia suspirou os ares da monotonia. Recentemente conquistara sua formatura de recruta para se tornar soldado oficial da família real, e fora direcionada como guarda de campo na corregedoria. Não era a mais genial entre seus colegas de matrícula, ou a mais confiante, mas obstinada. Mesmo assim, retardou a formação devido a sua autossabotadora capacidade cognitiva e, sobretudo, sua compostura rasa. Sempre fora uma criança de pavio lerdo e na adolescência sofrera duras por sua habilidade em se meter nas confusões mais mirabolantes. Na academia estava constantemente de cabeça baixa diante dos mentores, isso porque não detinha o autocontrole comumente de seus companheiros de regimento. Agora soltava o alívio de ocupar o cargo de uma baixa patente, embora a pressão familiar ainda a abale nas quietudes casuais.
"O que acha que está fazendo?", ouviu de relance uma voz anciã proferindo em sussurro. "Os acadêmicos foram pegos e o príncipe está foragido, não há mais espaço para dúvidas. Ou eu devo entregá-lo como simpatizante da causa?"
"Não, milorde, de jeito nenhum!", retrucou outra voz, leve e temente. Era mais jovem, quase madura. "Só estava me perguntando, sabe, por que o príncipe herdeiro arriscaria tanto por sua posse? Não me vem que seria simples capricho!"
Com o silêncio seguido, um suspiro se arrastou pelas paredes.
"Certo, garoto, nunca lhe ocorreu que ele apenas queira o poder mais fácil? Use essa caixola, um trono vazio enquanto seu rei jaz doente é apenas um chamariz para sedentos como o príncipe!", deu uma pausa, a qual abriu espaço para os ventos da tarde rugirem. "Não vamos remoer mais desse assunto, as tropas já foram enviadas, a corte já deu sua ordem. Ele é um criminoso e é tudo que podemos saber. Não solte essa boca suja perto dos guardas, ouviu? Costure-a, se preciso!"
As paredes finas da corregedoria facilitaram a curiosidade da Kim. Sabia que este trabalho integral a sugaria até a última gota, mas se contentava com as vidas paralelas da elite dramática. Era como o camarote dos bastidores de um teatro que fantasiava a vida soberba do topo da hierarquia.
Assim como quando era menor, em que vivia correndo e se pendurando pelos cantos de Dongnae, e a palha dos barracos emendados a faziam companhia de entretenimento, trespassando vozes de vidas distantes dos vizinhos e instigando sua imaginação para dramas de outrem. Entre tantos, um em específico a intrigou um pouco além na época.
Ainda se lembra dos ventos nublados e o peso das nuvens de uma manhã de domingo, quando puxou os lençóis de sua cabana e disparou em direção ao lago — apesar do que sua mãe alertava, Yoohyeon tinha esse gosto de escanteio por nadar no frio. No caminho, deparou-se com uma figura baixa se esgueirando do lado de fora de alguns bambus, parecia preocupada de alguma forma. Do interior, ouvia-se, quase palpável, uma voz dura sobrepor outra apreensiva, e logo passos firmes tatuavam a vizinhança com sua fúria.
"E você? O que faz aqui? Não fez o suficiente? Vá pra casa!", o homem trajava camisolas brancas e amarrotadas, sua pança escapava pelo pano fino como um feto forçando o ventre para fora. A figura recuou dois passos antes de se lançar correndo contra a estrada de lodo, e o homem a observou sumir, os punhos cerrados na lateral do corpo. Segundos passados, ele adentrou a cabana novamente e retornou a repreender quem quer que fosse.
Yoohyeon parou na distância e se manteve inerte, curiosa com o fato. Esguelhando o olhar pelos lençóis da entrada, reparou em uma menina dócil e cabisbaixa do lado de uma mulher. A mãe, supôs, agarrava o ombro da filha e a puxava para perto, os olhos receosos enfrentando o furacão de homem à frente. Dispensando o cenário do todo, Kim Yoohyeon ainda procurava pelas bochechas vermelhas da outra que se escondiam sob a cabeleira, e as achou por instantes, lavadas por lágrimas e coladas nos fios ébanos.
Chegou mais para perto. Já disseram-na que sua curiosidade um dia a mataria, mas o gosto da adrenalina era irresistível.
"...certo? Você não pensou direito, não sabia o que fazia, mas como poderia?", prosseguia, com gestos robustos e atitudes extremas. Um troglodita, pensou Yoohyeon. "Como pôde fazer isso comigo? Como pôde fazer isso com sua mãe?!"
Não conseguia entender o porquê de tamanha decepção por parte do Troglodita. A mulher que mantinha a menina sob suas asas parecia concordar, mas não acreditar. A menina fechava os olhos e não demonstrava estar mais aqui em alma, estava viajando para longe dos gritos e rejeição de casa.
Yoohyeon deu uma boa olhada nela. Sua boca esticada apertava bem os lábios que jaziam pálidos sob a pressão, e os massageava enquanto provava das lágrimas salgadas abrindo caminho por eles. Em um ímpeto distante, viu um espasmo repentino da menina, como uma vontade inestimável de trazer a mão à boca, e Yoohyeon conteve a sensação daquela mesma necessidade, de tocar o contorno daqueles lábios franzinos e trêmulos. Ao invés disso, trouxe aos próprios em resposta. Era como se tamanha tristeza não coubesse em um recipiente tão pequeno, então transbordava a melancolia para infectar outras pessoas da mesma. E Yoohyeon estava na zona de respingo.
"Minji", disse a mulher. "Isso não é atitude de uma dama, são atos de blasfêmia. Você compreende?", então envolveu os dedos da menina antes que esta pudesse alcançar a face, com ambas as mãos. Ela apenas assentiu silenciosamente.
Com um gesto terno, sua mãe ajoelhou a sua frente e espalmou seu rosto para secá-lo. Mais das pegadas pesadas puderam ser ouvidas se aproximando de dentro, o que fez Yoohyeon recuar e correr pela lama novamente. Tinha em mente o lago ao norte e cambaleou passos ansiosos enquanto a mente insistia em retomar a curiosidade do que atraíra tanta revolta. Guardaria essa para outra hora, pensou. Por enquanto, seguia seu caminho, quando passou pela figura pequena que espiava a cabana de início; estava nervosa e esfregava os braços como quem passasse frio, mesmo enterrada sob tanto pano dos casacos.
Depois disso, tudo que Yoohyeon lembrava a essa altura era o resfriado do dia seguinte, após nadar no lago que sua mãe especificara para evitar. Levou uma bela bronca, mas nunca se arrependeu. Ao passo que se engasgava em meio a espirros e catarros, não tirava da cabeça aquela menina frágil e melancólica. Naquele dia, esfregara os lábios na reminiscência daquela áurea em apuros e de sua mão débil tentando alcançar a boca banhada nas lágrimas.
É tarde demais agora. Mas voltar pro passado atraía outros pensamentos nela. Apesar da fome e do frio que assolavam a plebe de Dognae a cada estação, Minji ainda poderia ter tido a sorte de alguns e chegado até estes dias de verão anos depois. Yoohyeon se pergunta caso aquela dor tenha sido deixada lá, na umidade penetrante, para morrer no esquecimento do barro.
Ela ergueu a palma como se precisasse ter a sensação novamente. Franziu a boca na tentativa de reprimir essa lembrança adormecida, mas era como se seu sangue corresse mais rápido e propositalmente provocasse uma coceira chata entre os lábios, ficando, então, paralisada nesse torpor do imaginário. Claro que não durou o suficiente.
Depois da aura silenciada da sua ronda, uma ovação se fez ao longe, e agora os cantos da corregedoria se abafaram. Havia nesta tarde um banquete em homenagem ao novo corregedor. Mais dos almofadinhas com a barriga maior que o chão e bochechas rosadas no comando. Yoohyeon revirou os olhos enquanto se inclinava no pilar de trás.
— Milorde! Milorde! – alguém urrava com toda força do estômago por cima dos timbres desafinados de risadas, o que parou as comemorações e o silêncio reinou mais uma vez.
Alguns segundos passaram-se e mais nada.
— Soldado! – Handong, sua superior, surgiu por trás dos pilares. Seus cabelos loiros estavam compostos em um coque firme, poucos fios fugitivos navegavam no vento fraco que as abateu. Seu semblante forte era desenhado sob os raios solares límpidos.
Apesar de sua origem, era uma mulher de moralidade inquestionável, muito bem respeitada entre seus compatriotas. E mesmo que ninguém saiba sobre seu passado, sua história de resistência pela hierarquia do exército imperial era bem conhecida por toda a península.
Yoohyeon a recebeu com um sobressalto e a reverenciou com demora.
— O que está fazendo? Não ouviu as cornetas? Se apresente imediatamente no pátio principal!
Dito isso, ela marchou para longe com pressa. A menina logo acelerou o raciocínio e instigou seus habituais passos nervosos, ao encalço da comandante.
— Quem– Quem foi o assassino? Quem fez isso? – o comando emergiu da bolha incrédula dos que Yoohyeon apelidava de Crânios de Ouro, do outro lado do pátio, assim que virou a esquina e saltou do assoalho alto. Ali estavam os representantes da nobreza, cosidos lado a lado como veados em bando, estáticos diante de uma barreira invisível de odor quase maleável. À sua frente, tecidos grossos salientes e alinhados; por debaixo, alguma coisa fedorenta que violentou suas narinas imediatamente. Quando puxou as mangas por instinto, viu melhor seu conteúdo. Cadáveres.
Yoohyeon não pôde alcançar o grave do guarda que os relatava, mas uma palavra sobressaiu quando outro lorde se exaltou.
— Bambus?!!
De repente, moscas voavam pelas bocas abertas dos engomados e o soldado prosseguia com seus gestos quietos.
— Esse homem é suspeito! Reúnam as tropas e encontrem-no! – gritava o novo corregedor, mas sua postura transparecia ignorância e medo de certa forma nada sutil. Em seguida, um comandante reunia os soldados que o acompanhavam para partir, deixando de patrulha os associados de Handong.
— Ei! – Yoohyeon saiu de seu transe num instante, quando um sussurro a tirou do entretenimento barato. Olhou adiante e viu uma de suas colegas. – Tem como dar uma mão?
Era Gahyeon, também formanda noviça, fora sua colega por um tempo antes de se graduar prematuramente, e pouco depois veio sua vez de alcançá-la. Tinha um cabelo longo e branco apesar de ser bem nova, seus olhos grandes e castanhos agregavam à altura desvantajosa um ar mais infantil. Ela e mais dois rolavam um dos corpos por cima de um tapete de palha, e iriam erguê-lo para alinhar aos outros. Yoohyeon tropeçou para frente e correu em sua assistência. Quando se aproximou da massa de carne e fedor que agredia seu nariz, apertou os olhos em uma careta, e, por fim, inclinou-se para agarrar a ponta solta do tapete. Com sucesso, arrastaram o cadáver para uma fileira externa e o cobriram até a altura da testa.
— Bom que assim eles não encaram de volta, certo? – Yoohyeon olhou para sua colega, contendo um pequeno desdém.
Com isso, a corregedoria virou um cemitério exposto de dentro para fora. Do portão, alguns aldeões curiosos tentavam ultrapassar a barreira dos guardas, lançando cochichos aqui e ali, e seus olhos furiosos varriam o recinto.
O cheiro tomava os ares da nobreza, e agora não poderiam sustentar seus narizes em pé e ignorar quem estaria abaixo deles — literalmente. Tudo que se via era seu desprezo estampado, suas personalidades sujas estavam expostas para além de sedas finas e leques, e agora finalmente conseguiam olhar para baixo e enxergar além do próprio umbigo. As ordens que tomavam vinham combinadas com sua arrogância, e Yoohyeon via em cada gesto a ansiedade de acabar com aquilo antes que se parecesse mais real, e então voltarem a suas vidas cegas no sangue e no poder.
De acordo com o orientado, o batalhão deixado para trás se concentrava no pátio para controle de massa, e auxiliar o corregedor no diagnóstico geral. Na sequência, escoltaram um biombo de tecido para o centro, isolando a carcaça um tanto carcomida de uma mulher. Kim Yoohyeon observava quieta, embora sob sua incólume imparcialidade contesse a ânsia crescente. Ouvia, sob a distância, as análises parcas moldando o mistério da chacina, os detalhes preenchendo seus ouvidos bisbilhoteiros.
Fosse essa a obra de algum animal selvagem? A incógnita parecia mais e mais impenetrável.
De súbito, um rebuliço vazou da entrada. A Kim virou a cabeça em espanto. Um homem, suas vestes amarrotadas, irrompeu da multidão, rasgando a corrente de guardas furiosamente.
— Não podem deixá-los aqui! Têm que trancafiá-los! – Enquanto seus colegas se recompunham, todos se entreolharam em antecipação.
Yoohyeon armou a guarda, elevando seu woldo à frente.
— Eu sou o homem – prosseguiu o sujeito, agora desviando os olhos para ela por breves segundos; eram carregados de um desespero sincero. — que vocês procuram!
Um momento de silêncio se alastrou no ambiente. E uma inquietação muda agitou o ar.
— O que estão fazendo? Prendam-no! – Gritou o corregedor.
Sem pensar, os guardas de prontidão romperam em direção ao homem desarmado. Yoohyeon avançou junto. Manteve-se hesitante por um tempo enquanto os soldados se lançavam desgovernados e eram derrubados de uma vez. No entanto, quando recuou um passo, pôde sondar os movimentos sistemáticos do inimigo; aquele não era um aldeão comum. Estudou bem suas investidas, fazendo-se meticulosa no ataque seguinte, então o assistiu rolar no chão para retomar a postura, e, no ínterim, ela saltou. Girou o woldo contra ele, cuidadosa, visando apenas imobilizá-lo, considerando a desvantagem óbvia, e logo ele lhe agarrou a haste, estacando seu ataque e a empurrando para longe da batalha.
Yoohyeon se debateu contra o vento, caiu sobre uma bacia luminária pela qual a madeira torrada rolou no chão e o fogo chiou na fagulha espalhada pelo concreto. A luta seguia em desavença com o tempo, cada tombo parecia mais lento e doloroso. Desnorteada, ela sentia o vento acariciar seu cotovelo ralado sob o manto, e, dado os lampejos fulgurando atrás do inimigo, o sol também reclamava sua folga.
A soldado ainda abatida levantou em meio a tropeços, seu objetivo ficou mais claro. Os gritos dos Crânios de Ouro invadiram seu território perceptivo. Ela olhava para frente e via a palha brilhando em laranja e preto, só que aparentemente a incidência das chamas não era a prioridade crucial.
Em um suspiro áspero, seu corpo só fez acender o sangue nas veias. Com uma vitalidade além da estratosfera, ela sente um quente sob o joelho estimular a corrida seguinte. Yoohyeon pegou impulso e se lançou no nó que se fazia em volta do suspeito, o qual cai em agonia e urra seus lamentos para os cidadãos que invadiam o campo de batalha e apagavam o fogo. Sua convicção àquela fantasia de que os mortos se levantariam a fazia ouvir uma voz curta no fundo da cabeça que questionava a vontade da realidade ser outra.
Era ridículo pensar que corpos decompostos naquele nível teriam chance de voltar à vida.
*
Kim Yoohyeon apertou os olhos contra o âmbar que se formava no horizonte. O azul límpido de antes embruscava acima de suas cabeças, servindo de véu para os raios poentes. Soldados e aldeões aguardavam o veredito do corregedor acerca do criminoso de Jiyulheon, de onde os pacientes brutalmente mortos foram encontrados. Yeong-sin, do sul, sequer negava as acusações a respeito de seu envolvimento, embora permanecesse consistente na alegação de que nenhum estava realmente morto. A menina ponderava se aquele era seu estado mental mais são.
Os nobres residentes da vizinhança se acumularam do lado de fora da corregedoria. Muitas cabeças afundadas no linho e no ouro, dificilmente se importavam com um assassino ou a verdade por trás de tudo, só queriam sua vingança por quaisquer meios possíveis, isso ela podia dizer varrendo os olhos na sua pretensão flutuante. E apesar do curso tomado, outra confusão se situou no meio deles. Uma mulher se esgueirava por entre a plateia curiosa, tecendo sua entrada como quem força um parto.
— Milorde! – Dessa vez não houve invasão ou luta. Ela imediatamente é barrada antes de chegar ao fim. — Deixe-me entrar! Sou enfermeira em Jiyulheon!
Havia um homem colado ao pé do corregedor. Seus roupões brancos eram desalinhados, em conformidade com sua barba grisalha, e tinha uma estrutura baixa e levemente corcunda. Os dois trocaram olhares mesmo com aquela expressão vazia de quem não pensava direito.
— Deixem-na entrar! – Falou o homem.
Assim que as hastes que a impediam cederam caminho, ela trotou por passos cheios de pudor até o lado de Yeong-sin.
— O que ele fala é verdade! – balbuciou ao passo que largava os joelhos de encontro ao chão. – Eles não estão mortos. Quando o sol se puser, vão despertar e atacar as pessoas. Precisa prendê-los agora mesmo.
Yoohyeon assistia, estática. Sua mente propôs diversos cenários onde o médico teria feito experiências um tanto imorais de plantas alucinógenas para seus pacientes e enfermeiras. Aquilo não parecia real, porque não era.
Pestanejando, ela mirou até um adorno roxo se destacando na distância. Não bastasse as aparições repentinas nos últimos minutos, o sujeito – que por sinal reluzia classe – manteve uma postura atônita em paralelo, e sua expressão entregava que definitivamente não pretendia iniciar outra discussão diplomática no momento. Na sua sombra, contornando o sol ameno, Yoohyeon viu uma silhueta delicada se afastando. Pouco depois de dobrar os lábios escondidos, logo fugiu num vulto, e a soldado jura ter capturado um instante de nostalgia inexplicável, quase como se enxergasse os traços corados de uma menininha indefesa.
Voltou-se para a atração principal, por onde a enfermeira de Jiyulheon ainda suplicava com a maior ferocidade que podia encontrar. Quando desviou sua atenção para as montanhas, as nuvens escondiam o único pináculo de luz restante, e Yoohyeon acompanhou seu olhar aflito das sombras, pois procurava uma sinceridade escondida que não parecia estar tão enterrada assim.
— Vocês precisam fugir! – sua voz fraquejava sob a nuance de risada do corregedor. – Rápido!
Agora olhava para a guarnição no mesmo desespero anterior de seu parceiro, Yoohyeon sentia sua angústia de loucura permear suas veias. Mas seus colegas não se atingiram na mesma facilidade, então riam aos ventos com dentes lavados em desprezo.
— Prendam esses loucos imediatamente!
Ambos foram escoltados rapidamente pelo pátio, o suspeito se mantinha calado o tempo inteiro enquanto a enfermeira ainda conseguia ecoar seus delírios no tamanho que sua garganta pudesse alcançar.
Yoohyeon mantinha os olhos fixos, com o protesto ao longe e seus pensamentos mais ficcionais desabrochando, ela arrostava aquelas entranhas de covas à mostra. Seus orbes ardiam perante a íris nervosas, mas qualquer alerta a mais não faria mal.
O silêncio que pairou foi mais apreensivo do que aliviante. Poucas pessoas se dispersaram de volta para suas casas e outras tantas continuavam na dúvida se seguiriam a curiosidade que pesava no pátio. Uma incógnita pomposa apontava cada segundo como o porvindouro do mal.
— Ou! – um dos aldeões brandou antes de todos recuarem em sintonia. – Se mexeu!
— O que se mexeu? – respondeu o baixinho, claramente frustrado.
Ele apontou para alguns metros à frente, por onde todos seguiram o gesto e aguardavam a comprovação de seu delírio. A novata engoliu em seco, varrendo as fileiras com olhos ansiosos. O sol já havia se despedido e apenas pontos brilhantes enfeitavam o céu escuro.
E lá estava. Em um aceno quase como um espasmo, seguido de um fragor ressonante, no meio dos corpos absolutamente sem vidas.
Todos arfaram como num circo, porém horrorizados. E com um movimento atrás do outro, o cadáver se esforçava para levantar.
— Ei... Ei! – gaguejou o corregedor. – Ei, tente levantar aquilo!
Piscou freneticamente em sua direção, e só então ela percebeu. Era a Yoohyeon quem mandava checar o fenômeno. E, respirando bem fundo, ela foi.
Com passos emendados entre si, ela aproximou a ponta de seu woldo da costura grossa e a puxou na vertical. Sem êxito, tentou de novo, também falhando.
— Use a mão! Vá logo, por que é tão covarde?
Bufando de antemão, ela teceu mais alguns passos e alcançou a ponta do pano. Sua mão tremia, talvez do frio, talvez porque acreditava na teoria maluca de mortos-vivos. Então, puxou-o.
Deu um intervalo pequeno até que ela pudesse analisar a figura. Claro que não durou muito, pois num instante de segundos a mulher apodrecida sobre a terra contraía o tronco em mais uma tentativa. Logo, um frêmito se ergueu entre a multidão estarrecida, todos fissurados no que poderia vir.
Yoohyeon tropeçou para trás, sem acreditar nos próprios olhos. Enquanto observava o tempo diminuir os segundos novamente, e a ovação de horror lhe envolvendo, ela desistiu de levantar e simplesmente engatinhou na maior velocidade para longe. O cadáver continuava a se contorcer onde ela o deixara descoberto, cada contração sucedendo outra, e outra, e outra. E como um sonâmbulo se levantando de olhos fechados, ele firmou os pés moribundos no chão e arqueou a coluna até suspender o tórax por completo, alinhando o resto dos membros na sequência. Era o vislumbre de um sonho, daqueles que não se acorda até enxergar uma verdade dolorida. Mas Yoohyeon não estava sonhando; era um pesadelo, e um muito bem acordado.
A cada instante encarando o que não devia ser real, ela desejava mais que apenas estivesse dormindo em ronda.
— Querida! Querida!
Interrompendo seu transe, um homem se lança contra a entrada, imediatamente sendo abraçado pelo muro de guardas.
— Me soltem! É a minha esposa! – Gritou, então se desvencilhando da barreira e saltitando até ela. – Querida! Meu amor!
Nada explicaria o trauma que Yoohyeon estava prestes a testemunhar. Pois ela observou o aldeão abrir caminho até os restos de mulher à sua frente, e ali viu olhos brancos e fantasmagóricos despertarem, a boca de dentes fétidos abrindo-se para se voltar ao marido ingênuo. Ele esperava pacientemente por uma resposta, e foi quando seu rosto se desfez em pavor, quando a própria esposa abocanhou sua clavícula.
O inferno pode ser apenas uma noção do que os humanos apelidam o desconhecido. Mas Yoohyeon tinha certeza de que seus portões estavam abertos, e sua orla de demônios emergia para o banquete. E ao ponto que ela fitava o homem ser comido vivo, o caos havia se estabelecido.
Ela logo se apoiou em duas pernas bambas, mas não conseguia pensar na etapa seguinte. Andou de fasto até sentir o muro tomar suas costas. Sua face era um misto de temor e desesperança, pela qual mantinha uma boca entreaberta, expondo seu bruxismo intenso, e fixava os olhos em um dos demônios que se debatia ferozmente em sua direção. Todos eles se levantavam e não havia oxigênio que preenchesse seu pulmão naquele momento. A não ser o susto de algo surgindo para lhe agarrar o tornozelo, sendo assim quase engasgou no próprio ar.
— Kim Yoohyeon! Kim Yoohyeon! – falava o estranho por um fio de voz bem meticuloso. Ela se virou no espanto para ver a colega de antes, Gahyeon. – Não há tempo de ajudá-los, venha comigo.
Não sentia que podia pensar a essa altura. Tornou-se novamente para frente e tudo que encontrou fora um pandemônio repleto de canibalismo e aulidos perfurantes. No âmago do caos, Handong era derrubada enquanto gritava ordens engolidas para quem pudesse ouví-la. E ninguém pôde.
Sem opção, acompanhou Gahyeon, quando a peste se espalhou por todas as saídas e as pessoas manavam como veados em fuga. Portanto correu ao seu encalço até mais a fundo da muralha, num corredor lateral atrás dos pilares, porém, outros as seguiram, incluindo aquelas monstruosidades.
Ambas lutavam contra o atrito nos roupões da guarnição, carregando os woldos em duas mãos e bem atentas para os que vinham na sua sombra. Yoohyeon engasgou assim que bateu os olhos em uma figura que trotava com dificuldades em sua direção, sua mandíbula inclinada guiava o resto do corpo para frente, os braços como membros inúteis pendendo para trás e causando o desequilíbrio. O som daquela coisa era um grito silencioso de um animal faminto.
— O que são essas coisas? – sussurrou sob a respiração pesada.
— Tô começando a achar que aqueles malucos estavam certos – lançou a outra. – Enfim, tomara que nem precisemos descobrir – falou, pousando ao lado de um grande portão de madeira, visto que chegaram ao fim do corredor. – Rápido, me ajude aqui.
Yoohyeon aproveitou o embalo da corrida para impulsionar o resto dos músculos. Elas se posicionaram uma de cada lado, abandonando as armas aos seus pés, e conseguiram forçar uma pequena abertura no centro.
Gahyeon correu para pegar sua arma de volta e se entrincheirar dentro do galpão.
— Vamos, temos que fechá-lo depressa.
A mais velha se virou para averiguar a situação. Além do monstro à sua espreita, logo atrás vinha uma camponesa de vestes nevadas. Por um momento se hipnotizou por seu semblante, pois carregava uma singularidade em suas maçãs rosadas, algo próximo de uma pureza estonteante. Mirou o vestido de saia estufada, com um rendado transparente sobrepondo a seda branca, esvoaçando conforme acelerava na mesma rota da qual vieram.
Os outros aparentemente foram despistados.
— Espera, tem alguém vindo.
— Sim, um daqueles monstros.
— Não, veja, uma mulher logo ali.
— E o quê? Você acha que ela corre mais que aquela coisa? Pra mim, ela já está morta.
Elas se encararam por breves segundos, numa luta de olhares intensa. Yoohyeon não arriscaria a vida de outrem pela sua própria segurança, principalmente de uma moça que praticamente exalava carne fresca. Desviou a cara, decidida, cedendo para o senso de heroísmo que sequer sabia que existia em si mesma, e no mesmo instante agachou para retomar a alabarda do chão quando de súbito algo duro pesou em seu pescoço. Rapidamente ela ergueu a haste acima da cabeça para dar de frente à criatura, sua mente mergulhou em um turbilhão.
Um rosto podre descarnado, acompanhado de uma arcada dentária que saltava adiante quase que saindo da boca, com restos de pele pendurados para fora. Aquilo se pressionou contra a força de Yoohyeon e avançou o pescoço como de uma tartaruga saindo do casco, batendo dentes e mordiscando o ar. Ela se arrastou para trás até sentir um apoio, dali tentando levantar e evitando mordidas perdidas. Então, num tranco de doer os ombros, ela viu a moça que se aproximava. Ela corria, mas não sozinha. Há poucos metros atrás dela havia dezenas de outros demônios famintos cortando a distância. De onde surgira tanta peste? Pareciam até mais do que os de antes.
— Não... – balbuciou Yoohyeon. As palavras saíam despedaçadas da garganta, não o suficiente para alguém ouví-la. E mesmo assim seu socorro fora atendido. Percebeu que o monstro havia parado de lhe pressionar, daí olhou para cima, para ter certeza. Uma ponta o atravessara no olho esquerdo, por onde traçara um talho na altura de seu nariz, e quando ela processou o ato de Gahyeon, a menina puxou, sem êxito, o que fez sangue jorrar ao longo de suas bochechas e boca. — ARGH!
Yoohyeon esfregou os lábios com rapidez, então olhou para cima novamente, enquanto Gahyeon perdia numa batalha contra a carne dura do cadáver. Agora a mulher tomava forma e podia-se ver seus pés calejados e descalços rebaterem no concreto, ela corria sem nem olhar para os lados. A soldado levantou com destreza, com a arma ensanguentada contra o peito. Andou alguns metros, firmou os pés, e respirou fundo.
Cerrou os olhos tentando restaurar a vitalidade, ao passo que ouvia o som de pele bater no duro. Abriu-os para se deparar com uma morena curvada aos seus pés. Ela havia se ajoelhado, as mãos trêmulas agarravam suas coxas sobre o vestido, e ofegava como querendo soltar a voz, dizer alguma coisa.
— Deixa comigo – interrompeu Yoohyeon, tentando controlar o tom. Meneou a cabeça em direção ao galpão, e manteve o olhar firme contra a horda que se aproximava. A mulher fechou a boca e assentiu.
Yoohyeon acompanhou os monstros cambaleando em bando, seus passos tinham zero coordenação, pareciam fantoches controlados pela fome. Assistia seus pés como meros artifícios do instinto, pois corriam descoordenados, alguns tropeçando no próprio tornozelo. Se aquilo era um pesadelo, então já durava tempo demais.
Acorda acorda acorda acorda
Seu resto de coragem evaporou num instante.
Suas mãos tremiam sobre o adorno de madeira, mesmo assim tentava disfarçar o nervosismo. Ouvia Gahyeon amaldiçoando até o ar sob o vento que as soprou, por outro lado os passos da moça de antes cessaram, o que era sinal de que estava segura àquela altura.
Acorda acorda acorda acorda
Sob olhos oscilantes assistia os mortos andarem — não, correrem. Nada mais do que ficção, fantasia, alguma alucinação maluca, ou morrera e estava num sonho sem fim.
Cedeu um passo, depois outro. Se encarasse a morte mais de perto iria acordar? Ou passaria para outro sonho? Pensava muito.
Corre!
Seu subconsciente comandava agora. Um vislumbre eterno da possibilidade de saltar na onda de fantoches moribundos ou permitir o choque de congelar e esperar. O pior que poderia acontecer é a morte definitiva, mas o mundo todo parecia morto agora, por que não se juntar a ele? É a resposta mais fácil.
— Yoohyeon! – ela logo se recuperou do transe. Gahyeon berrava atrás dela, com uma alabarda quebrada ao meio. – CORRE!
Numa interrogação, a morena terminou de ceder um terceiro passo. Antes que desse conta, um monstro tentou alcançá-la, mas caiu com seu movimento repentino. Ela o encarou se debater no chão para levantar a qualquer custo. Engoliu em seco e disparou.
A voz da mais nova ecoava enquanto ela recuperava o sangue das veias, o atrito do manto tornava tudo mais difícil. Mas contra toda a negatividade que transbordava de sua mente, ela alcançou o portão e se esgueirou na abertura ínfima. Porém, um tranco abrupto interrompeu sua adrenalina, fazendo-a cair de nádegas no chão, um choque agudo percorreu sua espinha. Praguejando, ela se virou em direção à saída e soltou a arma comprida, visto que agarrou do lado de fora na horizontal. Gahyeon arregalou os olhos de longe, com um olhar desacreditado, e logo seguiu seus passos, segurando uma haste nua e partida, correndo enquanto a onda se aproximava ao seu encalço e deixava montes de desastres por onde passava. Ela se atirou na abertura e lançou o resto de madeira que segurava no sentido contrário. Yoohyeon esperava de pé em um lado do portão, curvada e claramente dolorida.
— Vamos – disse por um fio de voz, com um leve gosto metálico na língua.
Gahyeon se pôs de pé em um instante e chocou o ombro do lado oposto, com uma mão auxiliando na lateral. A ansiedade palpitava no peito de Yoohyeon, mais ainda quando pôde ouvir os grunhidos animalescos se infiltrando pelos seus ouvidos, o que a fez empurrar com mais afinco.
— Yoohyeon! Yoohyeon! – a alta se afastou rapidamente quando captou o alerta. De longe viu a albina se contorcer de um jeito estranho, virada para a abertura diminuta, forçando um braço ao longo do portão mas não a fim de fechá-lo. Yoohyeon apertou o cenho de forma curiosa para a colega, então detectou uma mão pútrida invadindo a fresta e agarrando seu antebraço. Antes que pudesse responder aos impulsos depressa, agonia da outra ecoou nas sombras do recinto assim que o sangue de seus dedos choveu pelo assoalho.
Embora estática diante da brutalidade, Yoohyeon se apressou para puxar o tronco de Gahyeon mais para dentro, além de se jogar na quina da abertura e fechar de vez a fresta do portão espesso.
Apoiando a testa e os braços cruzados, ela ofegava sob os rosnados abafados do lado de fora. Virou-se para sua colega que gemia debruçada, a cabeça pendurada por cima de seus membros.
— Você... – pigarreou. – Você tá legal?
Podia ouvir a respiração pesada da mais nova, com pequenos intervalos de vácuo. Apesar de testemunhar sua dor, Yoohyeon sentia um vazio em relação a tudo, como se fosse incapaz de ter empatia por ela. As costas de Gahyeon inchavam conforme puxava o ar rarefeito, parecia buscar o que não estava mais ali. Por trás dela, um fulgor débil irrompia para tocar seus fios brancos, colorindo o cinza da escuridão do galpão em um tom perto do laranja.
— Achei isso aqui – disse a moça de antes ao surgir por entre caixotes empoeirados. Ela segurava um lampião de aço a frente de seu corpo, o que permitiu a Yoohyeon analisá-la mais precisamente.
Seus cabelos negros caíam sobre os ombros como uma cascata de águas calmas, tinham um brilho singular sob o fio de luz que queimava. Alguns fios deitavam em sua face, sobre os lábios que se contorciam um no outro, definindo à curva sutil um tom de aflição, pelo que causou na soldado uma familiaridade desconhecida.
Yoohyeon queria falar, agradecer, qualquer coisa. Mas sentia sua voz recuar severamente para dentro da garganta. E agora que a mais nova perdia sangue sem parar, temia, mas não por ela exatamente.
Ela olhou para o escarlate que pintou seus calçados, correu os olhos pelos pingos grossos no chão.
— Gahyeon – conseguiu falar. Sondou a outra com cuidado, vendo seu sangue escorrer como numa torneira. – Gahyeon?
Gahyeon escondia seu rosto na própria sombra, e se fazia ver leves contrações de seu corpo, às vezes tremedeiras minúsculas que abrangiam sua coluna e cessavam rapidamente. Com alguns minutos dentro do silêncio, algo o quebrou com um eco. Eram gotas chocando no molhado. Yoohyeon deu uma olhada mais de perto. Alguma coisa escorria da cabeça da albina, mas não era sangue, não tinha cor. Saliva?
— O que aconteceu? -– indagou a moça, que ainda Yoohyeon relutava em admitir tê-la visto anteriormente. Ela encarava as poças de sangue horrorizada, ainda que com leveza no olhar.
Dessa vez conseguindo abrir a boca, Yoohyeon meneou a cabeça.
— Uma daquelas coisas mordeu ela...
Interrompendo-a, um gemido atravessou o ar, era estridente e doloroso. Gahyeon cravou as unhas em suas têmporas, soltou a voz tal qual um veado sendo abatido, então torceu a coluna para trás, seus braços jogados na lateral como se não tivessem mais esqueleto. A morena em pé soltou o lampião no mesmo segundo ao dar de cara com seu olhar mórbido, deixando escapar um grito contido, mas logo abafou-o com as mãos. Yoohyeon levantou num sobressalto, sua cabeça se tornou um turbilhão novamente.
— Ei – sussurrou, sem saber por quê. Sua voz quase não saía sem esforço, tremida. ergueu a mão devagar, tentando acalmar a outra, mas ela mesma estava congelada pelo medo. – Qual seu nome?
Mal sabia o que estava fazendo.
— Kim Minji.
— Minji? – sua sensação de déjà vu se tornou insuportável agora. Será a mesma? – Ótimo. Minji. Sem contato direto, ok?
A outra assentiu. Então, Yoohyeon indicou o arredor de um baú com adornos de prata que escondia um canto do recinto. Ela seguiu.
No meio tempo, Gahyeon espumava saliva incessantemente, com íris claras como a lua, seus joelhos roçando no chão, causando ferimentos foscos contra as farpas soltas do assoalho. Mas então, formando uma ponte com a coluna, ela pendurou seu pescoço para trás e o espasmo aparentemente deixou seu corpo.
A mais alta ainda mantinha distância, alerta para qualquer mudança no ambiente. Procurou Minji pelas sombras e quando a encontrou, puxou o indicador para os lábios e orientou que mantivesse o silêncio. Em seguida, varreu o olhar dentro de sua percepção limitada a procura de alguma arma, estaca, lâmina, ou mesmo uma vassoura, qualquer coisa que servisse para se defender. Sentiu seu coração acelerar, o peito esfriando com a ansiedade e a ponta de seus dedos esbranquiçaram. Não havia nada, apenas recipientes lacrados.
Trouxe o punho ao peito, exalou o ar pesado que continha preso. Uma crise não iria ajudar agora.
No entanto, fechar os olhos não fora uma boa ideia.
Quando os abriu lentamente, um vulto branco saltou do véu de sangue para seu alcance. Por impulso, Yoohyeon dobrou o antebraço abaixo da mandíbula de Gahyeon, que no momento batia os dentes em sua direção. Pela diferença de tamanho, suas garras podres não podiam alcançá-la, mas sua força descomunal compensava a distância. Yoohyeon nunca ganhou dela em força bruta, muito menos na época de recruta, além de sempre ter sido mais desengonçada nas atividades práticas. Nunca pensou que estaria numa situação parecida para necessitar de músculos, achou que viveria servindo a dinastia apenas como uma mera guarda de campo, sem grandes promoções. Pelo jeito o destino gostava de uma piada sem graça.
Não fosse por um impacto súbito vindo do flanco, Yoohyeon ficaria sem saída por lutar mano a mano com um monstro. Viu uma faísca ruiva acender na nuca de Gahyeon antes de sumir no solo, pela qual ela voltou sua atenção. E lá estava Minji, rija no mesmo ponto, encarando o monstro de volta, de onde lançara o lampião abandonado. Então ele marchou em sua direção, despertando um rosnado grave que evidenciava não haver nenhum resquício da mulher que fora outrora. Bastou isso para Yoohyeon reviver a coragem que lhe restava; ela chicoteou um pontapé no calcanhar da albina, a quem urrou ao desabar, mas não de dor. Era uma fome selvagem. Ela rastejou pelos cotovelos, seu sangue escuro secando na ponta dos dedos denteados e proporcionando um cheiro repugnante. A soldado ignorou qualquer empecilho externo, deu ouvidos aos seus instintos e partiu para o colarinho sujo do monstro, agarrou-o e o pressionou no baú de prata, martelando incontáveis vezes seu crânio até desconfigurá-lo completamente, até perder seu único traço humano e se parecer mais com o que deveria ser: morto.
Claro que não foi o suficiente. Yoohyeon desferia chutes e pisões sucessivos na pilha de carne agregada ao chão, num ataque de fúria que parecia não ter fim.
— Yoohyeon!
Ouviu a pronúncia angelical de seu nome nortear seu labirinto. Aquela voz de cor, colorindo seu peito irado, trazendo uma calmaria que sequer inferiu ser possível.
Recuou, notando a sujeira de massa morta que espalhou pra todos os lados. Ofegava sem parar, ainda vigilante em todos os seus sentidos, como se outros monstros fossem surgir do chão abaixo de seus pés. Mas uma coisa a intrigou, e isso pausou seu estoque de adrenalina.
— Como você sabe meu nome? – Olhou para minji como se flutuasse em mares calmos.
— Você não...? – interrompeu-se. Minji a devolvia um olhar hospitaleiro, irradiava um conforto de velhas amizades. – Eu a ouvi te chamando – sinalizou para o cadáver ao seu lado.
— Ah... – Yoohyeon baixou os olhos. Ao lado do corpo, cacos de vidro mesclavam ao sangue, e o lampião estava jogado no chão, sem luz para consolar a situação. – Ah, não... Quer dizer, obrigada e tal. De verdade.
Minji balançou a cabeça, estendendo-lhe a mão. Estava silencioso apesar do ruído abafado de monstros se esfregando no casco do galpão, e mesmo no breu sob o teto baixo, a luz da lua se infiltrava pelos talhos rasos da telha. Elas caminharam quietas através do corredor escuro, e Yoohyeon tentava se manter atenta para falhas na estrutura, ou para suprimentos úteis que pudessem se apropriar.
— Isso parece abandonado – disse Minji, mantendo a cabeça voltada para frente. – Você trabalha aqui, certo? Sabia desse lugar? – Virou-se para a mais alta que balançou a cabeça, hesitante.
— Não...
— Não sabia?
— Não que eu tenha tanto tempo de serviço assim.
— Você e... – pigarreou, contida. A morena baixa tornou a olhar para frente. – Vocês pareciam conhecer bem.
— Gahyeon tinha seus próprios meios...
Yoohyeon parou de falar quando sentiu um beliscão leve em seu cotovelo. Olhou para a moça assustada, ela parecia hesitante em seguir em frente, mas gesticulou para um corredor estreito na esquerda, pelo qual fitava algo com uma expressão retraída. Seguiu seus olhos com cautela, e talvez não quisesse mesmo chegar ao fim deles.
Por um lado, embora meio tarde, encontraram um arsenal rico, com armas brancas há muito tempo em desuso e outras modernas porém cegas ou enferrujadas, além de uma arcabuz de coronha grossa, descarregada. Por outro lado, esta fora descarregada na cara do sujeito que a empunhava, que deitava a bochecha estourada no muro, com a metade explodida da face espalhada pelo papelão onde descansava.
— Merda... – Yoohyeon queria disfarçar a cara de ânsia.
— Você acha que ele sabia?
— Não tem como... Pode ser que seja só um vagabundo – pausou, com uma pontada de arrependimento. – Com todo respeito, claro.
Elas se aproximaram devagar, o cheiro era nauseante. Yoohyeon pressionou a túnica contra seu nariz, desferindo passos engasgados em direção ao cadáver, a fim de alcançar a arma de fogo em suas mãos. Definitivamente estava vazia, e não havia pólvora por perto. Mirou uma cimitarra embainhada e exposta na parede atrás dele, e tentou apanhá-la. Era a única coisa que parecia inteira. Empunhou-a e desembainhou. Mas tão pouco a sorte inclinaria a seu favor, pois também estava enferrujada.
— Pelo menos não estamos de mãos vazias – disse Yoohyeon, amuada. Minji lhe lançava olhares de consolo e talvez aquilo aquecesse mais sua ansiedade. Um sentimento turvo que se preencheria com nuances de sensações conhecidas.
— Pelo menos... – ecoou.
O som dos babadores amassando aos pés de Minji retirou a soldado de sua melancolia interna. Era uma moça de delicadezas estritas, como se cada movimento seu fosse uma dança no gelo, de detalhes que se cuidam para não desmanchar sua graciosidade. Ela agachou ao lado do cadáver, pendeu a cabeça, tentando analisar o que parecia camuflado aos olhos. Também não parecia atingida pelo odor.
— O sangue parece fresco pra ele ter morrido há mais de 24 horas – disse. – Mas não é tão recente também.
Yoohyeon forrou a lâmina da espada de volta para se voltar às alusões inesperadas da moça. Direcionou-lhe uma careta de filhote perdido.
— Como você sabe disso? – abaixou ao seu lado como se tentasse ver pistas brilhantes saltando da zona sangrenta.
Minji bufou um riso curto.
— Minha mãe era enfermeira.
— Era? – a mais alta tentou contato direto, mas ela mantinha a cabeça estagnada.
— Ela foi uma das vítimas de Jiyulheon – finalizou, quase engolindo as últimas palavras. Era um acidente recente e mesmo assim sentia como se não tivesse direito ao luto.
Yoohyeon se agitou por um momento. Desviou o olhar novamente para se sentar, e não ligava mais para o sangue secando abaixo de si.
— Ela...
— Estava lá, sim. – Seu rosto mudou para um sorriso um tanto doloroso. – Sabe, eu nem cheguei a vê-la entre tantas pessoas... – Yoohyeon sentia sua voz embargada embrulhar seu estômago. Era estranha a energia que conseguia absorver de uma dor que nunca sentira antes.
— Você tava lá? – perguntou. – Na hora que... Você sabe.
— Sim... Eu soube que houve um crime contra as pessoas de Jiyulheon, que não sobrara nenhum vivo. Mas quando eu vi aquela enfermeira correr entre os mortos e dizer que não o estavam, eu achei cruel. Porque eu queria que fosse verdade, eu queria me permitir ter essa esperança, mas não consegui. – Ela puxou o ar com tamanha força, como se esse pudesse curar o pesar em um ato de misericórdia. – Por um segundo... Não, por menos que isso... Eu torci para que fosse verdade, e agora só consigo sentir culpa por isso.
Yoohyeon tentou pensar no que falar, mas tudo parecia fútil demais. Via a camponesa sustentar seus olhos marejados ao passo que os prendia em um vislumbre distante.
— Por quê...
— Olha – Minji a interrompeu. – Não sei qual era seu nível de proximidade com aquela garota – pigarreou, alisando as bochechas com o dorso da mão. Agora olhava para baixo, em sua direção. – Mas você a viu morrer, a viu se transformar em algo monstruoso, e pior: teve que matá-la com as próprias mãos. Ninguém ficaria totalmente bem depois disso. Você não precisa estar.
A garota recuou antes de responder qualquer coisa. Aquelas palavras pareciam intimidantes para alguém que nunca teve que mostrar seus sentimentos sequer para si mesma.
— Eu... – Por mais que soubesse o sentimento, não tinha palavras para traduzi-lo. Encarar aqueles olhos grandes e amendoados a levava para dimensões novas, de pensamentos desproporcionais.
Suspirou e levantou num pulo.
— Só sei que esse lugar tá me dando arrepios. – agarrou a cimitarra numa mão enquanto estendia outra para Minji.
A mulher a olhou com ternura antes de ceder a sua ajuda. Quando a puxou, Minji apalpou o vestido amarrotado, ainda com um aperto firme no punho de Yoohyeon. Era uma cena lenta, como uma pena caindo do céu e dançando no ar, no momento em que ela se vira e sustenta os dedos firmes na outra, de modo que, se a soltasse, fosse cair da beira do mundo.
— Num lugar como esse deve ter uma saída pelos fundos. – completou a mais alta, abrindo mais seus olhos, em expectativa.
Mirou os lábios franzinos da morena baixa, sentindo uma batida diferente no peito, que lhe rendeu curiosidade antes de desvencilhá-la de seu toque e seguir na vanguarda. Apertava a bainha da espada até sentir o sangue fugir da ponta dos dedos. Não sabia de onde vinha aquele incômodo branco.
Esgueirando-se por entre sacos murchos e barris vazios, ambas chegaram ao limite. Havia uma grande parede acústica definindo a silhueta do abrigo, lisa e ininterrupta. Nenhuma porta.
— Mas... – bufou Yoohyeon.
Ela marchou frustrada até sentir a parede na ponta do nariz. Deitou o ouvido e apalpou o esqueleto frágil da estrutura, alternando entre toques e batidas leves. Não estava satisfeita.
Do outro lado, ouviu Minji nasalar uma risada.
— O que está fazendo?
— Ora, tô vendo se tem alguma passagem secreta ou sei lá – respondeu, afastando-se.
Fitando os detalhes das tábuas trançadas, Yoohyeon apertou as pálpebras a fim de acender alguma coisa em seu cérebro. Enquanto queimava neurônios, um arquejar súbito apalpou seus ouvidos de perto. Virou-se para ver Minji em seu encalço, puxando a manga de seu manto e encarando um ponto distante.
Olhou para o canto do recinto para encontrar, felizmente, uma porta de ferro meio aberta. Mas não era por isso que a outra parecia atingida. Desceu o olhar e quase engasgou na própria língua.
Estava lá uma pilha de corpos que pareciam ter sido mastigados até o osso, sua carne violada mantinha a porta travada na posição. Um resmungo irrompeu da mistura nojenta, que mais pareciam animais abatidos por um predador minúsculo, e então um movimento de olhos brilhou sob o luar estreito. O monstro urrava com aquela voz áspera que secava os ouvidos, e este, que não tinha parte do tronco e era amassado pelo peso morto acima dele, se afogava nas próprias vísceras enquanto apontava um cotovelo molengo para as duas.
Yoohyeon deslizou o braço no ar a ponto de garantir barreira à outra Kim. Um rangido estalou sob o ruído irritante.
— Como isso veio parar aqui?
Sentiu a respiração de Minji afagar sua nuca.
— Não sei...
Extraiu um suspiro carregado antes de tomar partido. Sacando a cimitarra, Yoohyeon soltou a bainha no chão e teceu passos largos até a porta. Seu sangue pulsava sob o pescoço, e seu pulso quente acalentava cada gesto até cravar a ponta da lâmina no olho esquerdo da criatura — à qual estremeceu antes de morrer completamente. Em seguida, pisou em seu cenho para puxá-la de volta.
A soldado abriu caminho pelos restos humanos, sentindo a boca do estômago borbulhar de enjoo. Tentou romper a abertura, mas a porta não cedia devido a algo que emperrava sua mecânica, e esse soava um barulho molhado no metal. Espiou o lado de fora e só viu corpos que pareciam ter sido dilacerados em um liquidificador. Um massacre que escondia o horizonte macabro.
Sobrepondo a chacina acre aos olhos, o brilho do luar era ofuscado pelas nuvens densas e recheadas do inverno. Podia ver sua própria respiração congelando à frente de seu nariz.
— Estamos sem saída... – disse ao retornar. Puxou um abraço em si mesma, pelo qual esfregou o tronco para abafar a friagem que invadia as entranhas de sua veste.
Minji entortou a face em um consolo silencioso. Estranhamente, ela parecia conhecer bem os sentimentos de Yoohyeon.
— Achei uns lençóis velhos ali no canto – ela se aproximou e envolveu a outra com um pedaço de pano desfiado. – Um descanso seria ideal. Acha que tudo bem por enquanto? – no final, a olhou como quem conhecesse todos os segredos do universo.
Yoohyeon lutava contra aquela sensação de passado interrompido, e isso a deixava com um vazio maior, mas Minji irradiava um lazer seguro, mesmo que longe de casa.
Com pensamentos flutuantes, ela sorriu, meio abatida.
— Você não tá com frio? – prosseguiu, notando os braços nus da moça sob o sopro gélido que batia vez ou outra.
— Acredite ou não, eu sou bem resistente.
Assim, Minji a escoltou com mãos mornas até outra parte do recinto, do lado oposto da porta macabra, em um canto camuflado por um aglomerado de caixotes. Chegando lá, apertou seus ombros de forma a fazê-la se sentar, mesmo que relutasse um pouco.
Yoohyeon puxou o pano com as duas mãos, fazendo com que apertasse mais seu colarinho. Trouxe a espada para perto do corpo, e depois de encará-la brevemente a pousou à sua frente, próxima aos pés. Estava com a lâmina fraca e provavelmente não duraria mais que dois ou três usos. Acabou se perguntando se era mesmo capaz de adiar uma tragédia maior.
— Aqui. – Minji prostrou-se ao seu lado, estendendo um estampado com flores ao longo das costas de ambas. – Está bom?
Seu rosto abriu em esmero em sua direção, e Yoohyeon não podia evitar de sentir a ternura acalmando seu coração aflito. Devolveu o olhar para retomar aquela nostalgia que a atraía cada vez mais, meneando a cabeça com transparência.
Fechando as pontas do lençol em volta de seus corpos, elas alimentaram um silêncio de luto espontâneo.
— Não éramos muito próximas – disse Yoohyeon, quebrando-o. – Eu e Gahyeon. – Pausou enquanto esfregava sua nuca, sentindo o olhar pesado de Minji recair sobre si. – Ela sabia de muita coisa, era forte e destemida. E, ao contrário de mim, era um exemplo de soldado. Mesmo nova, tinha bastante experiência. – Parou por um momento, como se lembrasse de algo. – Espero que ela não tenha percebido que virou aquela coisa por um momento antes do fim.
Ela semicerrou as pálpebras para conter as lágrimas, no entanto, seu gosto agridoce logo tomou sua boca.
— Minji – continuou, pensativa, mas sequer sabia o que estava prestes a falar. – Por que me disse tudo aquilo? Sobre sua mãe, quero dizer.
— Você realmente não sabe? – ela rodou íris confusas antes de pousá-las em Yoohyeon novamente. – Yoohyeon, você não se lembra?
Não conseguia evitar de lhe lançar uma expressão de naufrágio.
— Me lembrar? Do quê?
Kim Minji tinha uma mania engraçada, pensava a mais alta. Quando parecia pensar demais, tendia a tremer a pálpebra direita, porém de maneira tão sutil que achava ser fruto de sua imaginação anteriormente. Agora ela pestanejou como se tentasse esconder esse impulso ameno.
— Da nossa infância – falou, enfim, segurando a expressão inquieta. Pousou a mão no ombro da mais nova só para beliscar a derme de leve. E a manteve ali.
— Nossa? Espera – Yoohyeon sentiu uma vibração cálida subir na espinha. – Por que eu não me lembraria?
— Não sei, depois que meu pai surtou nunca mais nos falamos – respondeu com uma nuance de voz.
Por instantes, lembrou-se do Troglodita. Sua mãe, idem, e como a tomava nas mãos em um amor que parecia condicional.
— Você é ela...
— Quem?
— Mas eu me lembro daquele dia – disse, arrostando suas íris castanhas que agora estavam tímidas sob a pupila dilatada. – Eu estava só espiando de longe, nunca quis me intrometer.
— Yoohyeon, como poderia se intrometer se você foi a causa dos nervos de papai?
— Eu? – franziu o cenho.
— Sim? – replicou, inclinando a cabeça. – Você estava lá, como pôde esquecer? Eu sei que eu nunca esqueci.
Elas se encararam por um tempo, o silêncio comia as palavras de Kim Yoohyeon aos poucos.
— Depois que me beijou – prosseguia Minji, ainda. – Não entendia todos aqueles sentimentos novos. Éramos crianças. E meu pai fez questão de que nunca pudéssemos entendê-los.
— Calma – Yoohyeon abaixou a cabeça, processando a enxurrada inesperada de informação. Desferiu piscadas nervosas antes de voltar e tentar desenterrar aquelas memórias.
Lembra-se vagamente do brutamontes em pé na sua frente. Cravava seus olhos minúsculos por cima da menina, por onde Yoohyeon não alcançava a vista devido ao raio solar que o contornava, embora débil entre as nuvens. Suas pisadas disformes oprimia a terra que as recebia, dando à mais nova certeza de que um dia o senhor Kim invocaria uma fissura de proporções globais na superfície terrestre e cairia infinitamente abaixo dela. Pensar nisso a divertia.
"Não fez o suficiente? Vá pra casa!", bradou ele, jogando o braço no ar e expondo a sovaqueira suada por baixo da camisola.
Antes de largar estrada a fora, ela arriscou mais uma olhadela para dentro da cabana. Kim Minji escondia a face sob sua franja soturna e nas palmas superprotetoras da mãe, ela assentia mas sem nenhum brilho no olhar.
Arrostou o homem mais uma vez, e o deixou corromper seu humor a um derradeiro de orgulho e repulsa. Deixou o sangue ferver sob as pernas que agitavam contra o vento, e correu em fúria pelo barro úmido. Quando alcançou o lago, sentiu as lágrimas tomarem suas maçãs em gelo, e lá desabou no tronco da única árvore que lhe fazia sombra. Naquele dia não nadou no lago, pois era com Minji que preservava aquele pequeno prazer.
Ficou sob o conforto fosco dos galhos pelados enquanto tremia sozinha numa manhã de domingo.
Sentia-se perdida, e o gosto doce dos lábios da amiga não lhe abandonara mesmo quando voltou para casa e fora abatida pelo resfriado. Yoohyeon era a mais nova e acabara por não ter controle desse novo estímulo de hormônios que a assolava; portanto, se odiou por muito tempo simplesmente por não compreender o que a impelira a seguir aquele impulso. Vez ou outra se pegava tocando os lábios, tentando reviver aquela sensação de balões estourando no estômago, e se martirizava por isso.
— Oh, sim – titubeou, e sentiu o peso do olhar da mais velha. – Eu chorei muito naquele dia...
Ergueu o pescoço para enfrentá-la, mas agora Yoohyeon só detectava aquela vergonha aguda que havia enterrado há anos atrás.
— Devo ter bloqueado essa memória... – prosseguiu ao permitir um sorriso amuado se formar em seu rosto.
Escaneou de soslaio a boca entreaberta de Minji. Sentiu a nostalgia de antes, mas agora era mais viva e absurda. Assim, puxou a mão para seus próprios lábios enquanto retinha a reminiscência de seu toque fresco.
Queria reviver, mais do que nunca, sua infância, entretanto, dessa vez, só as partes boas. Sem adultos, sem blasfêmia, sem etiqueta a ser seguida. Agora, sobretudo, sem o futuro incerto de suas famílias, muito menos quando foram privadas do aperto uma da outra.
Yoohyeon se virou para derramar o caos que sua mente se transformara, mas não conseguia controlar mais suas vontades. Apreciou mais uma vez as vestes leves sobre a pele delicada da mulher, seus adornos minuciosos dando ênfase nas curvas, quase lhe encaixando como numa peça de brinquedo, e seu busto cristalino escondendo a clavícula delineada. Parecia utopia a mera existência rente dela.
— Você disse que tava lá durante o julgamento – falou. – Mas pra que uma roupa tão complicada?
— Ah, isso – ela desviou de seus olhos por um instante e suspirou. – Estava para me casar – sua voz era um fio, mas que tomava conta do ambiente. – Com um milorde, de nome nobre. Minha mãe arranjou o casamento meses atrás depois da morte de meu pai. Eu não podia deixá-la sozinha, não naquelas condições, então aceitei e planejava reconstruir nossa vida nem que me submetesse aos caprichos de um velho rico.
No momento, era Yoohyeon quem lhe espreitava com sentimentos abastados. Seu olhar era pomposo, e se encontrava numa batalha cega pela dor da outra. Além da vivacidade estampada, Minji omitia um ar amargo em sua garganta, o qual aprisionaria pelo resto de sua vida pacata, e provavelmente a sufocaria como um hospedeiro parasita que cresceria após dias se alimentando da sua melancolia.
— Me pergunto o que teria acontecido se as regras fossem diferentes pra gente – murmurou Yoohyeon, como se o mundo fosse desmoronar em suas cabeças se elevasse um pouco mais o tom.
Num gesto suave, Minji pressionou o cenho da menina com o indicador, desfazendo a carranca que ela formara sem perceber. Em vista disso, a outra prendeu suas íris claras em sua direção, e foi quando viu sua pupila crescer como tinta dispersando na água.
Ela riu, mas um riso bufado, preso na garganta, que se transformou em um sorriso desenhado sob o brilho que fugia de seus olhos. Yoohyeon nunca a vira tão reluzente antes, mesmo em suas memórias perdidas. E agora tinha medo de falar, e não como o medo de outrora, era um sentimento de boas vibrações, semelhante a um pássaro que foge de sua prisão, com o peito explodindo em liberdade e sugando ares nômades de outro mundo.
Minji desceu o dedo, traçando um passeio até a ponte de seu nariz, e levou-o para a clavícula novamente, de onde enlaçou a mão em seu pescoço e se perdeu por um breve vislumbre. Alternava a atenção de sua mão para a boca de Yoohyeon, em um desejo mudo, mas que escapava pelo toque.
Sob uma respiração vacilante, a soldado a fitava tal qual um quadro num museu, tentando entender uma mensagem oculta que, na verdade, era mais óbvia do que a superfície. Logo levou a mão para o pescoço a fim de encontrar a dela, então a envolveu com dedos corados, sentindo seu rosto soalheiro na troca de ar das duas. Uma pitada de luxo se projetou abaixo de sua língua quando tragou o apetite junto com a saliva. E caçou aquele afeto há muito adormecido.
E em um lapso, Minji guiou suas mãos entrelaçadas à base da nuca da mais nova, e aproximou seus lábios. Com um selinho, provocou suspense, espalmando as bochechas de Yoohyeon, e se afastando por um segundo perpétuo, mas logo intensificou um beijo terno e lento, que as envolveu em uma queda de cascata, à qual provocava um arrepio na barriga e atiçava os sentidos. Por um instante saboroso o galpão havia sumido, assim como o odor fétido da inevitabilidade da morte e o temor do fim da noite.
Quando se afastaram, misturaram um arfar de deleite pesado.
— Há quanto tempo eu esperei por isso... – sussurrou Minji, como se compartilhassem um segredo muito exclusivo, enquanto repuxava um sorriso genuíno do canto da boca.
— Eu nunca te esqueci – disse Yoohyeon através da respiração. – Posso ter bloqueado aquelas memórias, mas nunca esqueci da sensação de te ter comigo.
Ela sentiu a mais velha afagar o lóbulo da sua orelha, então a pegou no pulso e encontrou suas testas. Mantê-la por perto acordava sinais em seu corpo que não entendia muito bem, mas que a trazia uma sensibilidade extrema ao ambiente ao seu redor, e isso parecia uma espécie de superpoder causado pela reles presença da outra. Elas aproveitaram aquela sinergia absurda enquanto o luar jorrava com todo seu esplendor sobre suas cabeças, esgueirado pelas fendas do pináculo do galpão.
Pela primeira vez, Yoohyeon torcia para que tudo aquilo não fosse fruto de um sonho. A culpa era um cisto fino sob a base do cérebro, e apesar dos eventos intensos, seu medo esvaiu noite adentro e se permitiu ser egoísta mais uma vez antes do fim do dia.
*
Um estrondo despertou Yoohyeon de seu sonho doce. Pelo menos enquanto dormia o mundo era menos caótico e o sentimento de viver era bom. Mas agora, levantando o tronco que descansava sobre o ombro de Kim Minji, ela se aprumou na parede atrás delas, com a perna da outra em seu colo. Esfregou os olhos até que sua visão focasse nas caixas tocadas pela escuridão. Ainda era noite, mas o frio se tornou ameno e a luz que as acolhia fora abraçada pelas nuvens novamente.
De novo, o som azedo e duro atravessou seus ouvidos. Por um momento, seu peito mergulhou em receio, e quase se afoga no próprio ar fatigado.
Ela inclinou a coluna para o lado, um braço apoiado no chão e o outro encobrindo os pés de Minji. Estirou o pescoço para enxergar acima da barreira de caixas, e arquejou sob um oxigênio interrompido.
Para sua surpresa, um demônio havia penetrado o abrigo e agora chocava a cabeça contra o muro mais alto. Por um instante de alívio, a soldado suspirou, visto que ele não as notara como duas presas frescas ali. Mas o consolo foi efêmero, pois um fragor se sucedeu e o ruído de farelos ecoou.
Quando tensionou a coluna novamente, viu a madeira frágil se partir em sua testa e farpas espalharam-se como confeti ao longo de toda sua face pálida, causando um sulco dentro da estrutura. Ele prosseguiu desferindo os mesmos movimentos sem parar, como se não se incomodasse com nada além de bater sistematicamente a fuça na parede.
Yoohyeon se encolheu, esperando que seu pequeno esconderijo fosse o suficiente, e estava prestes a cutucar a mais velha quando um ronco irrompeu, e depois outro, e mais um rosnado profundo que arranhou sua audição. Um frêmito de gemidos rasgou o recinto, o que a causou um arrepio na espinha, e o frio, embora esmorecido, a afligia até o pescoço. Ela tremia ao passo que o sangue deixava seu rosto e ponta dos dedos, e talvez entrasse em pane se não olhasse para baixo e visse Minji dormindo, serena. Seu semblante angelical transmitia uma calmaria alucinante, era como se não houvesse nada para se preocupar, e quem sabe não houvesse mesmo, pensou.
Ainda sob uma mente perturbada, ela se inclinou mais uma vez. A porta de ferro oscilava com o vento, e seu conteúdo de antes estava vazio; apenas a criatura que havia abatido restava próxima, porém amassada como um inseto. O breu se infiltrava a cada ressonar metálico, o ruído de passos se perdendo um no outro ia e vinha a cada minuto.
Yoohyeon recostou suas costas, tentando controlar o ar que enchia seus pulmões. Agora apertava os calcanhares de Minji, com medo do que aconteceria se os soltasse, mas cautelosa para não acordá-la. Pendeu a cabeça para trás e olhou de súplica para o alto, quando detectou lampejos rosados incidindo pelas telhas, cobrindo-as em um brilho brando e confortável. Pelo menos, o mundo parecia mais belo.
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