Como se Tornar Completamente Irresponsável
2 Cheguei nessa merda.... e agora?
Notas iniciais
13:30
– Passe-me a porra do controle, que tal? — Thiago berrou, sentado à pontinha do sofá, na sala. Foi a primeira coisa que ouvi ao chegar. Lá, só ele, Átila, Treco e Marra assistiam a TV. Átila se divertia em mudar o canal para aquele Thiago desejasse e, depois de ver o garoto satisfeito, trocá-lo de novo, para um de culinária. Ria muito pela raiva descomunal que causava. Mas Átila sabe que ninguém pode com ele, nem mesmo Thiago, o chefe da Companhia, pois é o mais forte e o mais atrevido.
– Opa — ele disse e gargalhou, trocando mais uma vez o canal. Tem o cabelo alisado, castanho, sempre cuidadosamente penteado. Olhos da mesma cor. Quase 1,80m de altura, como Thiago. É a única coisa que se parecem. Thiago é sério, bravo, usa o cabelo crespo raspado, é mais moreno e sempre está mal-humorado.
Thiago desistiu, soltou palavrões, se levantou, mandando-lhe o dedo do meio e seguiu para o corredor dos escritórios. A sala é um cubículo apertado de paredes marrons, três sofás grandes, verdes, puídos, duas poltronas de couro velho, pretas, uma mesa de centro e uma TV da idade da minha avó. Além disso, temos a escada para os quartos, um corredorzinho para os escritórios dos oficiais, outro para a cozinha e o banheiro.
Ele, ao passar por mim, me notou, mas nada disse. Apenas me fuzilou com o olhar, bufando. Átila, que lhe assistia, também reparou em mim. Em um salto pôs-se de pé e veio em minha direção, sorrindo malévolo.
– Lili, mas que saudade! – ganiu, apertou minha bochecha, dolorosamente. Eu revirei os olhos, mas sorri. Pude sentir meu estômago embrulhar. Eu tinha mesmo voltado para este ninho de ratos.
– Não sei se posso dizer o mesmo. – eu disse, com escárnio, enquanto dei um tapa em sua mão. Ele não interpretou mal. Soltou outra gargalhada e beliscou minha bochecha, de novo. Jurei que ele arrancaria um pedaço, mas ignorei a dor. Sou uns quinze centímetros menor que ele. E muito menos encorpado, apesar de todo meu orgulho dos meus músculozinhos de adolescente.
– Você tem que aprender bons modos para com seus superiores, seu insolente! — bradou, em tom de brincadeira, se virou, para voltar à sua posição no sofá.
– Espere aí deitado, então — eu respondi, mas também dei uma risadinha. Segui reto, rumo às escadas. Cumprimentei os outros dois meninos tocando a testa, com dois dedos, quase como uma continência. Eles, sentados no chão, ao lado da escada, jogavam cartas e mal me repararam, embora tenham sorrido de volta.
Meu quarto também é pequeno. Após a entrada há um corredorzinho de um metro, no máximo, que abriga a porta para banheirinho em seu lado direito, e abre para o quarto. Colocaram duas camas em um espaço onde cabia, no máximo, uma. O criado-mudo fica espremido entre uma e outra. O armário, colado na parede, mal abre toda sua porta. E as cadeiras, das duas escrivaninhas coladas na outra parede, mal podem ser afastadas o bastante para caberem nossos corpos, pois chocam-se contra a cama.
Suponho que o quarto é assim tão ruim para nos manter o máximo de tempo fora dele. Porque é difícil querer sair da cama e ir começar o dia em um lugar desses. Esta merda de quase reformatório, quase escola militar.
Ainda não sei bem o que estou fazendo aqui. Este é o meu quarto ano seguido e eu ainda não sei. Estou no nono ano, apenas um antes do ensino médio. Tento ser expulso viciosamente há tempos, mas, este não é um lugar, como eles mesmos se gabam, para "desistir". O lema deles é nunca desistir de nenhum aluno, por pior que ele seja. Também, se eles apenas nos jogassem na rua, quem sobraria para ser torturado? Eu não odeio a escola apenas por ser um adolescente, eu gosto de aprender, eu odeio a escola porque ela me faz sentir como merda, me faz sufocar em qualquer parte que eu vou. Há pessoas hediondas, inclusive os professores, há a pressão e todo o trauma da competição. E o pior: você não é nem o "soldado-raso" na hierarquia, você não é nada, é pior do que um servo, um idiota, um jumento, alguém que não sabe porra nenhuma e, por isso, tem que ficar caladinho obedecendo aos superiores, para aprender de fato algo.
Agora imagine morar aqui.
Tinha onze anos e eu quase borrava as calças de medo, na minha primeira vez aqui. Um cara grandalhão lia uma lista de nomes e colocava os novatos em fila. Meu cabelo ainda era comprido. Meus pais me enganaram e me trouxeram para cá. Eu devia ter desconfiado das malas prontas e o jeito como sempre sussurravam, mas eu era (sou) uma criança idiota.
– Dênis Danson... Ah, está aqui, vá para lá. Hmm, Fernando Ferreira. Ferreira? Ah, você! – ele nos separava, cuspindo enquanto falava. Era grande, usava um uniforme azul-escuro, quase uma farda e, por isso, parecia um soldado do exército americano no Vietnã que nos mataria. – Leonardo... Schw... Schwen... Que raio de nome é este? Como pronuncia?
– Schwening. – eu falei, tremendo. Quis acrescentar um “ seu analfabeto”, mas não saiu. Provavelmente, eu estava vermelho, pois sou muito branco. Ele deu uma risadinha e mandou-me aproximar de uma mesa de plástico verde. Ordenou que eu esvaziasse os bolsos e deixasse meus pertences junto com o resto, dos outros garotos.
Eu enfiei a mão no bolso do short e já soube que estava ferrado. Como eu te disse, meus pais me enganaram, me colocaram no carro com alguma desculpa, e me trouxeram pra cá. Não houve tempo para eu me preparar.
Coloquei a cartela de cigarros na mesa, meio receoso. Eu tinha só onze anos, mas é de pequeno que se começa, né? Então, umas figurinhas de futebol, canivete, isqueiro... A atenção do pessoal sobre mim, as risadas, e o olhar do guarda. Ele arregalou os olhos, pegou a cartela e amassou, soltando fogo pela boca:
– MAS QUE... – gritou, sem conseguir continuar, brandindo o negócio no meu nariz em meio a risadas do pessoal. Eu tentei explicar, mas ele se virou e começou a mexer no resto das minhas coisas, soltando audíveis exclamações a cada vez.
Quando chegou ao canivete, ele, bravo, distraído, pegou-o rapidamente e com força, espantado. Mas o objeto era muito útil, feito de mola, ao apertar um botão, ele se abria. O cara não sabia desta informação e o segurou indevidamente. A lâmina abriu em sua mão, cortando-a.
O corte começou a sangrar, ele começou a gritar, eu comecei a gargalhar sem conseguir me conter, as outras crianças ficaram eufóricas e todos começaram a falar e rir ao mesmo tempo. Outros guardas foram lá ver o que acontecia, mas a gritaria era muita e o cara corria em círculos, sem saber o que fazer, se me matava ou ia cuidar do machucado, e eu estava sem forças para parar de rir, assim como todos, e a ordem só foi restaurada depois que o Diretor fora chamado lá.
Eu, vermelho, sem ar, quase tive um ataque de pânico perante nosso diretor. A imagem severa e a semelhança a um abutre enrugado eram tão impressionantes que o tornava mais ameaçador ainda. Ele usava uma camisa social com um cinturão e botas (como eu me lembro disso? não lembro, mas toda vez que penso nele vem essa imagem de caubói na minha mente).
– Quem é o responsável por esta bagunça?! Gritou. Silêncio. Gritou de novo. Silêncio mais intenso ainda. Apontaram pra mim.
Eu prendi o ar. Ele me fitou, trincando os dentes. Eu ainda usava minha camiseta do Led Zeppelin, o que deve ter contribuído com a irritação, afinal, ele é um caubói! Apontou pra mim e disse:
– Meus parabéns, você ganhou o recorde de castigo mais rapidamente, garoto. E vamos nos assegurar que cortemos seu cabelo bem curto. Esvazie o resto dos bolsos.
Duas bombinhas, caneta permanente. E bocas abertas, e mais risadas. E chiclete. Eu tinha lido em um gibi da Turma da Mônica para sempre levar tudo nos bolsos. O Diretor suspirou e pegou o chiclete da minha mão, enfiou-o em sua boca.
– Você dará um trabalho enorme.
Foi assim que minha fama começou. No mesmo dia, após essa confusão, quando eu levava minhas malas pelos marcantes gramados de dentro da escola, conheci Átila. Ele tinha uns quatorze ou quinze anos, não sei. E acredite, ele não mudou nada.
– Novato, ô, novato! — me chamou, duas vezes. Eu continuei andando e, sem querer, ignorei-o, não por ser durão ou coisa assim, mas por ser sonso mesmo. Como eu tenho fotofobia seríssima, ou seja, até camisetas brancas fazem meus olhos arderem, sempre ando franzindo a sobrancelha. O povo me fala para tirar a cara de mau, mas eu não consigo.
Por ser novato, ou seja, escravo, ele achou um absurdo minha ousadia de ignorá-lo. Estávamos entrando em um corredor externo, um dos vários túneis de arcos de tijolinhos vermelhos e trepadeiras espalhados pela escola, quando ele me puxou pela gola da camisa. Eu, além de desequilibrar, também fui enforcado. Comecei a tossir e, num ímpeto de raiva, soltei as malas e avancei para socá-lo. Ele, surpreso, segurou minha mão, torceu-a nas minhas costas e começou a rir. Ele já era musculoso e eu, magrelo, criança.
Não o culpo, eu também teria feito o mesmo com meus novatos.
Depois de eu ter me debatido até cansar, finalmente parei de me mexer. Ele trouxe minha mão de volta para frente do meu corpo, mas continuou segurando-a. Ficou frente a frente comigo.
– Você tá muito bravinho. Depois do que aconteceu na recepção, ainda tenta me bater? — perguntou com tanta voracidade que eu pensei que ele me socaria. Seus olhos castanhos demonstravam uma faísca de prazer assassino, sádico. Ele avançava a cabeça em minha direção a cada palavra e me olhava obliquamente, sorrindo como o Coringa de Batman. Se hoje ele é uns quinze centímetros maior, naquela época chegava a uns vinte e cinco.
Meu medo aumentou e eu só não queria confusão. Soltei logo:
– Foi tudo um mal entendido, cara.
Mas naquela época meu sotaque alemão ainda era muito forte. Junto ao nervosismo, pareceu, no mínimo, que eu estava mugindo ou coisa do tipo. Ele recuou o corpo, meio sem saber o que fazer por um segundo, até que caiu na risada, estrondosamente, ainda me segurando.
Riu por uns vinte segundos. Tentava parar, mas voltava, repetindo: "carrra", "malll entendido, carrra".
Eu nunca fui de sofrer bullying. Respondia a altura sempre:
– Tá rindo do quê, imbecil? — falei, puxando a mão para me soltar. Ele segurou ainda mais forte e parou de rir pra respirar, mas logo voltou. Sentia que a circulação em minha mão pararia logo, de tão forte o aperto. Quando acabou a graça, ele respirou fundo, ainda se recuperando, e perguntou:
– Assim você me mata. Bem logo vi que você não é do Brasil. Qual seu nome?
– Leonardo. — falei, irritado. Ele ficou em silêncio por dois segundos e passou a rir de novo, fazendo um escândalo.
– Lionarrrdo? — imitou fracassadamente, mas continuou a repetir: — Lionarrrdo, Lionardo. Lili. Lili, Lili. Vamos, Lili, vamos conhecer o dormitório, gracinha. — e me puxou pelo braço. Foi, com certeza, um primeiro dia fantástico.
E, pronto, ficou. Lili. Para parecer mais macho, eu me auto-denominava de Li, porque ninguém sabe quem é "Leonardo". Li, Ly.
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