Como salvar um casamento

1 Passo 1 - Viaje no tempo.


Notas iniciais
Essa fic é dedicada a três pessoas: minha esposa Morgan, que aguarda há quase duas semanas por isso aqui; Maria, minha sister que anda em busca de boas fics para ler; e a Mari, minha beta não-oficial que foi a primeira a ler o comecinho. Enrolei pra caraca pra escrever essas 2000 palavras porque eu nunca ficava satisfeita, mas até que eu fiquei feliz com isso aqui.

Ps: Eu sei (agora) que o John odeia o nome do meio dele, mas u não consigo ver o filho deles tendo outro nome. Força do hábito.

No começo, tudo era luz.
Sério, eu só via branco, branco e... branco. Toda essa alvura teria me nauseado se a experiência tivesse durado mais que uma fração de segundo. Mas então,as demais cores vieram, na forma de uma parede de vidro, de superfície lisa e transparente, na qual era possível observar meu reflexo.
E foi esta visão que fez meu estômago enjoar.
O jovem à minha frente possuía curtas e suaves madeixas castanhas, aparadas bem rentes ao queixo,emoldurando assim sua face, livre de imperfeições ou acne. Trajava uma camisa social branca, com um paletó preto por cima. Uma gravata roxa quebrava a monotonia do traje. Não podia ter mais de dezessete anos, embora alguns indícios de barba pudessem sugerir uma idade mais avançada.

Todavia, se não fossem os olhos verdes que me miravam de volta com o mesmo fascínio e confusão, eu teria custado a acreditar que aquele garoto era eu.

Aquele era Hamish Scott Watson-Holmes, e ao mesmo tempo não era.

Todavia, lá estava eu. Usando roupas que nunca usaria, com um corte de cabelo inédito, de gravata, pelo amor de Deus, mas era eu. Tendo estabelecido isto, eu precisava me localizar. Pus-me a analisar os arredores.

Logo ficou claro para mim que eu me encontrava em uma festa. Não, um baile, a julgar pelo traje esporte fino fortemente presente. Associando esta informação à idade aparente dos convidados, e à decoração de temática estudantil, deduzi se tratar de um baile de formatura, não de ensino médio, mas de faculdade. E não de qualquer ano, o baile dos formandos de...

Parabéns, turma de 2010!, dizia a faixa afixada à parede lateral. 2010 havia sido um ano sagrado na história para minha família. Se eu havia sido transportado vinte anos no passado, para este exato momento, só poderia significar uma coisa. Era... aquele dia.

Abri caminho em meio a dezenas de graduandos até achá-los. E encontrei-os no exato momento certo; era exatamente como eu imaginara por anos.

Sherlock Holmes, recém-formado em Química, tomava John Watson, recém-formado em Medicina, para dançar. O mais alto, claramente sem graça, evitava a todos os custos sequer olhar para o rosto do loiro, e este, corado como um tomate, fazia o mesmo. Não pude evitar sorrir. Lembrava-me claramente das palavras exatas dos meus pais ao me contarem desta noite:

- Eu estava catastroficamente nervoso, Hamish. – e então Sherlock riu levemente e beijou sua têmpora – Imagine, seu melhor amigo, por quem você é apaixonado há quase dois anos, te chama para dançar. No maldito baile de formatura, ao qual você foi sem par porque, em oito anos de faculdade, não encontrou ninguém com quem quisesse ir além desse melhor amigo idiota. Não teria me surpreendido se eu tivesse tido uma taquicardia bem ali.

- Até prece que era só você quem estava exasperado, John.-o moreno tomou a palavra, deixando sua mão cair ao lado da do médico -Eu precisei de toda a coragem que eu não tinha para isso, embora eu obviamente já tivesse deduzido seu desejo por mim, por suas pupilas dilatadas quando olhava para mim, seu batimento cardíaco frenético quando estava ao meu lado...

- Ah ,cale a boca. – reclamou John, com um sorriso bobo, e de repente eles se beijavam como adolescentes.

- Eeeew, que nojo. – eu reclamei, e eles dois quebraram o beijo, com sorrisos idênticos.

O Hamish de sete anos achava nojentas as demonstrações de afeto de seus pais, mas o Hamish de dezessete anos, vulgo eu, daria qualquer coisa para ver seus pais sequer se olhando com um mínimo de paixão outra vez.

Há um tempo estimado de dois anos atrás, meus pais... simplesmente deixaram de se amar. Ainda morávamos todos juntos, nós três, e para o resto do mundo, os paparazzi e todos a quem isso importava, os dois ainda eram o casal de ouro. Uma família moderna exemplar, com um amado filho. Como deveriam ser. Mas já faz quase seis meses desde que eles pararam de sequer dormir na mesma cama, e todo dia é uma nova desavença... ás vezes eu acho que eles só permanecem casados por causa da imagem pública deles, e... bem, por mim.

- Como eu ia dizendo, Hamish, quando ele me convidou para dançar, eu obviamente aceitei, mesmo sem saber um passo básico sequer de dança básica. E eu realmente teria pagado o maior mico, se seu pai não fosse...

- ... um ás na dança. – completei em voz alta, impressionado. Nunca havia visto meus pais dançarem, portanto nunca pude ver se ele havia exagerado ou não, e acredite-me, não tinha. Ao som de “Everything I Do”, de Bryan Adams, meu pai parecia deslizar no chão, e levava seu parceiro de dança consigo.

De longe, eles eram o casal mais apaixonado da festa. Sherlock conduzia John pela cintura, e John segurava-se em Sherlock pelos ombros, como se eles fizessem isso todos os dias. Aos poucos, ficavam mais e mais confortáveis com a presença alheia, chegando a arriscar olhadelas no rosto um do outro quando este desviava o olhar.

E então, o grande momento. Os olhos dos dois se encontraram, suas respirações se tornaram rarefeitas, John subiu levemente na ponta dos pés, e Sherlock se inclinou para frente.

- Era isso. Eu não sabia como, ou por que, mas seu pai ia me beijar. Isso era óbvio até para alguém ordinário como eu. – e meu pai sussurrou algo em seu ouvido, que realmente me pareceu ser “Você não é ordinário” – Eu estava disposto a deixá-lo fazer o que quisesse comigo pelo restante da noite, desde que ele me beijasse naquele instante.

- Mas algo deu errado. – eu deduzi, impaciente para saber mais.

- Obviamente. Quando já se viu alguma coisa sair 100% de acordo com o planejado com nós dois? Até mesmo a sua adoção...

-Sherlock...

- Ah, sim, é claro. Eu iria beijá-lo, de fato. Porém...

Um grito estridente, e então outro berro mencionando um cadáver e um crime.

Eu nunca vou deixar de me espantar com a rapidez com que eles param o que quer que estejam fazendo à mera menção de um delito interessante. Em um segundo, estão ouvindo os sinos do amor; no outro, já cruzaram correndo o salão em direção à cena do crime, imitados por basicamente todos no recinto. Eu não. Já sabia perfeitamente o que havia acontecido, quem havia morrido e até mesmo quem era o assassino. Preferi tomar um pouco de ponche.

- Um assassinato, Hamish. No meio de nossa festa de formatura, um assassinato. Brilhante.

- Sherlock...

- Por favor, John, não finja que você não gostou, é cansativo para mim ver você mentir tão mal. –e então John deu-lhe um soco no ombro, de leve — Como eu dizia, um assassinato. Bastante adequado, não acha? E, se não fosse a ajuda de seu pai,com seus conhecimentos médicos, eu não teria resolvido o caso tão rapidamente. – com um olhar de admiração, ele olhou para meu pai de relance, uma deixa para ele assumir a história a partir daí

-Carl Powers, um dos formandos, recém-formado em Física, encontrado morto no banheiro. Apresentava claros sintomas de envenenamento: Hemorragia nasal intensa, rosto pálido e arroxeado, e olhos perdidos que encaravam o nada. Mas o seu contato com o veneno não havia sido tão recente. Se eu estivesse certo, e ele tivesse sido intoxicado por cicuta, ele poderia ter ingerido o veneno há horas e só ter sofrido o efeito naquele instante.

-Essa informação, além de afastar as suspeitas de suicídio (por que um suicida inocularia em si mesmo uma toxina de efeito tardio, tendo tantas outras de efeito instantâneo?), me fez ligar os pontos de maneira extremamente fácil. Só havia um culpado claro. Alguém que havia se retirado cedo da festa, justamente para que qualquer suspeita não caísse sobre ele. Alguém que sempre tivera uma rixa com Carl. Alguém inteligente o suficiente para orquestrar isso tudo. E esse alguém era...

- Professor James Moriarty!

Cheguei à cena em tempo de ouvir os dois declararem culpado o professor de Cálculo I, II e III; mesmo vinte e cinco anos antes, eles já tinham a mesma sincronia. Pensavam de modo complementar, como duas engrenagens feitas para trabalharem juntas.

E por um instante, o mundo parou de girar, ou ao menos foi o que pareceu. Meus pais encararam-se, perplexos e ofegantes, por cerca de dez segundos, antes de Sherlock tomar o rosto de John em suas mãos e beijá-lo insanamente. Não demorou muito até o loiro retribuir o beijo, e puxar o moreno para si com urgência.

Algumas garotas se abraçaram, gemendo e gritando. Alguns caras fizeram cara feia e se afastaram. Houve até uma jovem que começou a chorar, provavelmente de coração partido. E eu? Bem, eu não consegui evitar sorrir, e ocultei minha satisfação tomando mais um gole de ponche.

Era o primeiro beijo dos meus pais, pelo amor de Deus.

Meio minuto depois, eles se separaram enfim. A platéia estava bem menor, mas ainda havia um considerável número de expectadores. Eu queria honestamente que todos eles desaparecessem dali. Aquilo deveria ser algo exclusivo para mim, o nascimento da minha família.

Mas, hey. A cavalo dado não se olham os dentes.

Acho que enfim eles perceberam que estavam em público. John corou veementemente e soltou seus braços da nuca de Sherlock, mas o moreno agarrou seu pulso, sem demonstrar embaraço algum, e conduziu-o para longe. Tendo o espetáculo acabado, a multidão se dispersou. Havia coisas melhores para se fazer do que observar um novo casal na fase febril de seu relacionamento. Admito que até mesmo eu tinha limites quanto ao que eu queria ver.

Mas, se eu ainda estava preso em 2010, era porque alguma coisa ainda me faltava presenciar. Segui meus pais até os fundos do salão, tão escuro que meus olhos demoraram um pouco a se acostumar. E ainda assim, quando superei minha cegueira, só pude ver as silhuetas deles, o brilho de seus olhares e mais nada. Sherlock pressionava John contra a parede, mas não se beijavam. Apenas... olhavam um para o outro. Hipnotizados.

- John Hamish Watson, você é brilhante. – declarou meu pai, após um silêncio longo, e sem desviar os olhos do rosto de seu amado – Você me daria a honra de ser me namorado?

- Sim. – respondeu meu outro pai, em um sussurro determinado e sem sobra de hesitação. Sem perder tempo, agarrou a gravata vermelha de Sherlock e puxou-o para si...

E então, tudo era branco novamente, e eu estava em meu quarto outra vez.

- ... você sempre faz isso! – consegui ouvir John falando do andar de baixo, antes do barulho da porta se fechando. Suspirei. Outra briga, outra vez eles iriam resolver um caso de cabeça quente, outra vez Sherlock ficará frustrado por não achar a solução e descontará em John, e ele perderá a paciência, e assim, recomeça o ciclo das brigas. Eu já não agüentava mais. Por que eles não podiam ainda se amar como naquela noite? Eles haviam se casado apenas um ano depois de começarem a namorar; talvez eles não tivessem sido destinados a ficar juntos, afinal. Talvez fossem incompatíveis demais, talvez...

E então tive que balançar fisicamente minha cabeça para parar com esses pensamentos, porque a mera possibilidade de Sherlock e John Watson-Holmes não terem sido feitos um para o outro era ilógica demais para mim. Era contra tudo que eu passei quinze anos tendo como certeza absoluta da vida.

Olhei para o porta-retrato em minha cabeceira: Nós três, alguns anos atrás, na casa dos meus avós. Eu, uma criança ainda, dormia entre eles. Eu nunca dera muita atenção a isso, mas a troca de olhares entre eles era...bem, era a mesma daquela noite, nos fundos do salão. Eles se olhavam com toda a adoração do mundo, e já haviam se passado o que? Nove, dez anos desde o fatídico baile? Se depois de uma década eles ainda conseguiam contemplar um ao outro com a mesma devoção, o que eles tinham não poderia ser algo efêmero.

Era algo perpétuo, eterno, e talvez um pouquinho danificado atualmente, mas era verdadeiro. Eu tive a chance de ver o amor deles nascer, e cabia a mim perpetuá-lo. Eu era o único que podia.

E eu já sabia exatamente como fazer isso.

Desci as escadas, pulando de dois em dois degraus, inspirado. Corri até o telefone e pressionei o número de discagem rápida 9:

- Alô, tio Mickey? Quer me ajudar a salvar um casamento?

Notas finais
Juro solenemente tentar não gastar tanto tempo no próximo capítulo. :)

Ps: Se você acompanha minha outra fic, EU NÃO MORRI! Só estive completamente ocupada nessa aqui, mas essa semana ainda eu posto o próximo capítulo. Sorry :(
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.