Como odiar o amor II
15 Problems will be problems
Notas iniciais
POV Nico
Nico não se lembrava de nenhuma tentativa de viagem nas sombras que tivesse dado tão errado. Ele havia pensado especificamente em Ricky, sem nem mesmo um cenário ou algo parecido, e não via como aquilo não era um bom plano para encontrá-lo. Mas ele devia estar deixando algo passar, pois parou em lugares onde não queria ter parado.
Talvez “Ricky” fosse um pouco amplo demais, e talvez sua personalidade fosse um pouco perturbadora demais. Nico queria poder apagar algumas imagens de sua cabeça.
Mas não desistiu de procurar. Will o mataria se soubesse quantas vezes ele viajou nas sombras. Ele se expôs ao máximo de exaustão até que se desse ao luxo de parar para descansar. Dormiu um pouco em um lugar qualquer só para voltar à busca, perguntando-se onde estaria Ricky.
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POV Ricky.
Choque.
Choque.
Choque.
Choque.
Gritos. Risos.
Choque.
Nos minúsculos intervalos de tranquilidade, Ricky rezava para que não o encontrassem.
Choque.
.
POV Nico
Viajar nas sombras realmente destruía Nico. Ele se sentiu exausto durante toda a procura, mas havia melhorado após se permitir a tão desejada pausa.
Mas agora estava escurecendo, e ele ainda não havia encontrado nada que pudesse levá-lo à Ricky. E foi somente nesse momento que ele notou o que havia feito. Ricky podia estar em qualquer país do mundo. Em qualquer um dos continentes. Talvez, encontrá-lo pudesse levar anos. Joseph não queria que Ricky fosse encontrado.
Nico teve vontade de chorar, mas segurou-se. não era de choro que ele precisava se quisesse encontrar Ricky. Era de mais dedicação e, principalmente, de um plano.
Não sabia onde estava quando se deu conta de que precisava de um esquema para achar o amigo. Era um lugar simples, com casinhas que pareciam feitas para bonecas. Quase não parecia atual, mas ele pensou que talvez todo país tivesse um lado como aquele, onde as coisas eram mais... bonitinhas. Resolveu pedir informação e pediu aos deuses para estar em um lugar onde a linguagem principal fosse o inglês, ou até italiano. Virou-se para um homem que passava ao seu lado e adocicou sua voz para perguntar:
– Com licença, senhor, pode me dizer onde estamos?
O homem, que não devia ter mais de trinta anos, olhou para Nico claramente sem entender uma palavra.
– Fala inglês? – Nico tentou – Italiano?
O homem abriu sua boca e soltou palavras que soavam fortes e bruscas em uma língua familiar à Nico. O menino ergueu a sobrancelha e o homem notou sua confusão, o que o levou a apontar para uma das construções, o que Nico interpretou como “vá para lá”. O garoto agradeceu com um joinha e se dirigiu ao local indicado. Enquanto se aproximava, notou uma placa meio apagada logo acima da porta, na qual se lia “Buchhandlung”, o que foi bem inútil, uma vez que ele não fazia ideia do que isso significava.
Entrou, sem saber muito o que esperar.
Era um espaço simpático e confortável. As luzes eram fracas, exceto por alguns pontos onde luminárias acesas exibiam poltronas. Nico pensou na possibilidade de ser uma loja de mobília, até ver alguns homens espalhados pelo lugar, lendo silenciosamente, cada um na sua poltrona. Nico forçou um pouco o olhar e observou as paredes. Aos poucos, notou que milhares de prateleiras se estendiam por elas, repletas de livros, dos mais clássicos e antigos aos mais novos e autênticos. Concluiu que estava em uma livraria, ou talvez uma biblioteca. No fundo da sala havia um balcão, onde um senhor o acompanhava com o olhar e sorria para ele. Ao notar que o menino havia o visto, o homem fez um gesto para que ele se aproximasse, e logo complementou com outro para que permanecesse em silêncio. Tentando não fazer barulho com as botas, Nico foi até ele, devagar, sussurrou:
– Por acaso o senhor sabe falar inglês?
– Sei, sim – ele sorriu com a boca e com os olhos – posso te ajudar?
Nico notou seu sotaque. Era claro que ele falava a mesma língua que o homem com quem tentara se comunicar na rua, com as palavras saindo firmes e fortes, e com um puxão extra no “r”. Nunca fora bom com línguas, mas desconfiou que fosse alemão.
– Pode me dizer onde estamos, por favor?
– Está perdido?
– É um pouco maior que isso – Nico coçou a nuca – em que país estamos?
O senhor pareceu surpreso, mas não abandonou o gentil sorriso.
– Na Alemanha, é claro.
– É claro – Nico respirou fundo – onde exatamente na Alemanha? Isso é uma espécie de vila ou algo assim?
– Na verdade, é mais como um bairro temático, onde por opção, nós somos assim.
– Ah – Nico não se interessava de verdade pelas respostas do homem, só tentava ser o mais simpático o possível –posso perguntar qual é o seu nome?
– Günter Schulz – ele respondeu, quase como se estivesse orgulhoso – e você, como devo te chamar?
– Nico di Angelo – ele sorriu, imitando o mais velho.
– O que faz sozinho em um país que até a pouco desconhecia, Nico?
– É complicado. Você me acharia louco.
– Não é verdade – Nico percebeu que Günter havia se sentido ofendido e sentiu-se mal.
– Eu posso te contar mais tarde – ele ofereceu – mas gostaria de uns favores antes, se não for pedir demais.
Um homem no canto da sala pediu silêncio com um grosseiro “shh”. Günter cobriu a boca com a mão e fez um gesto para que Nico o acompanhasse. O menino foi para trás do balcão, onde o mais velho abriu um alçapão logo acima das suas cabeças. Uma escada velha se desdobrou dali, rangendo, e permitiu a subida dos dois. O senhor insistiu para que Nico subisse primeiro e foi logo atrás, puxando a escada e fechando a portinha ao chegar no sótão.
O sótão tinha uma iluminação definitivamente maior do que o andar de baixo, o que fez com que Nico precisasse se apoiar e fechar os olhos para não ficar tonto. Assim que se acostumou ao novo ambiente, resolveu analisá-lo. Era algo que havia aprendido como semideus: qualquer lugar pode ser perigoso. Pode ser a moradia de um monstro, ou uma armadilha de um deus menor raivoso. Mas depois de incansavelmente olhar ao redor, até forçando os olhos contra uma possível névoa, Nico percebeu que o lugar era realmente apenas um sótão de livraria, com livros reservas e alguns estragados mantidos num canto.
– Aqui podemos conversar sem nos preocuparmos com o barulho – Günter anunciou, ainda sorrindo – em que posso te ajudar, rapaz?
– Eu gostaria de saber que dia é hoje.
– Parece que está bem perdido, não é mesmo? – ele deu uma risada gostosa enquanto se levantava para pegar um bloco de papel que Nico logo reconheceu como um calendário. Apontou para um dia específico – esse é o dia de hoje.
Nico piscou. Talvez estivesse com sono, talvez fosse efeito do fuso-horário, mas ele podia jurar que faziam dois dias que saíra do acampamento. E ele tinha certeza que era a primeira vez que escurecia. Estava perdendo noção do tempo? Ele não precisava desse problema adicional na sua lista.
– Tudo bem – ele disse à si mesmo, arrastando as silabas, tentando se convencer de que estava tudo sob controle.
– Era só isso que precisava?
– Na verdade eu também precisava de um lugar para passar a noite.
– Imaginei... Um menino perdido como você não poderia ter um lugar para dormir numa cidade dessas, não é mesmo? – Nico não entendeu muito bem o que o senhor quis dizer. Ficou nervoso – sorte sua que me encontrou, garoto. Por acaso, tenho um quarto em casa para meu neto, mas ele está disponível no momento. Meu turno aqui está acabando, de qualquer jeito, posso te levar para lá. Mas terei que confiar em você...
– Te dou minha palavra que pode confiar em mim – Nico rapidamente anunciou.
– Ainda bem, Nico – ele sorriu – tenho certeza de que você não quer descobrir os pertences no fundo do porão de um velho homem alemão, quer?
Nico arregalou os olhos, associando a fala do homem à... outra coisa. Percebendo o incomodo do menino, o velho aproximou seu rosto do dele e sussurrou:
– Foi uma piada.
Acrescentou uma risada gostosa e umas tosses à conversa. Nico também riu, mais por alívio do que por achar graça. Devia meter logo na cabeça que aquele senhor era inofensivo, ou então um ator muito bem preparado e dedicado.
– O que me diz, garoto? Posso confiar em você?
– Se eu puder confiar em você.
– Boa escolha, rapaz – o senhor se divertia com a conversa. Deu uma rápida espiada em seu relógio de pulso – espere por mais quinze minutos e já podemos ir. Quer ler um livro?
– Acho que vou ficar aqui em cima. Obrigado, sr. Schulz.
– Não, por favor. Günter – o homem corrigiu, já puxando a escada para descer. Sorriu e seguiu par ao andar debaixo sem mais palavras.
Bastava então esperar.
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Foi um caminho rápido até a casa de Günter. A casa era tão simples quanto o resto do bairro, e com certeza também confortável. O homem logo pediu para que Nico ficasse à vontade e que se acomodasse. Mostrou o caminho para a cozinha, sala, banheiro e quartos, incluindo aquele no qual o menino dormiria.
Talvez a coisa que mais tenha chamado a atenção de Nico foi o silêncio. A casa afundava num profundo silencio, quebrado pela voz cansada do senhor e, de vez em quando, a voz de Nico. Não havia barulho algum. Animais de estimação, crianças, adultos, nem ao menos os passos faziam barulho por causa do carpete espelhado pelo piso.
Só então o menino entendeu que ele não era um velhinho inofensivo. Era um velhinho solitário.
Não havia chamado Nico para fazer bem ao menino, e sim para fazer bem à ele mesmo. Günter vivia sozinho. Nico não viu nenhum retrato dele com a família, apenas um ou outro de crianças pequenas brincando num alegre quintal.
Passava o dia inteiro fazendo silêncio forçado na livraria, com o direito de abrir a boca para dar bom dia, boa tarde, boa noite e anunciar o preço. E passava a noite inteira num silêncio melancólico que devia o lembrar dos dias de som.
Nico sentiu-se horrível imediatamente. Sentiu-se egoísta. Um homem com tanto a dizer e tanto a ouvir era barrado disso por motivos que ele não sabia, e o pior, não se interessou em saber. O que ele queria era um lugar para dormir e pronto. Em nenhum momento o menino puxou conversa com Günter.
Os problemas de Nico eram mais perigosos do que os da maioria das pessoas, isso é indiscutível. Problemas que, muitas vezes, colocavam muito mais em risco. Mas até aquele momento, ele não havia notado que isso não os torna piores, não os torna prioridades. Um problema sempre será um problema, e às vezes os mais simples afetam mais. Nico, por exemplo, achou muito mais difícil superar a morte da irmã do que viajar pelas sombras com um sátiro, uma adolescente e uma estátua gigante. E digamos que mortes são levemente mais comuns.
Balançou a cabeça e levou esse pensamento para longe. Notou que estava sozinho no quarto onde dormiria e resolveu procurar por Günter.
A casa estava escura, mas uma iluminação surgia de outro lugar além de seu quarto. Seguindo-a devagar, Nico chegou à cozinha, onde viu o homem preparando um café. O cheiro no ar estava delicioso, a atmosfera era aconchegante. Fazia um bom tempo que Nico não tomava uma boa xícara de café caseiro, preparado à moda antiga. Ele inspirou fundo e foi nesse momento em que Günter o notou ali.
– Gosta de café? – perguntou, num som repentino em meio à calmaria.
– Gosto – Nico assentiu.
– Ótimo, pois não tenho chá ou achocolatado – Günter riu-se, e Nico o acompanhou. O garoto permitiu-se sentar em um banco da mesinha ao seu lado e puxou assunto com o senhor.
– Sempre morou aqui?
– Sempre na Alemanha, mas costumava morar em outro estado. E você, meu filho, onde mora?
– Long Island, Estados Unidos – Nico considerou essa a resposta mais sensata, além de ser a primeira a vir em sua cabeça – já visitou?
– Na verdade não. Nunca saí do país. O que veio fazer aqui, afinal?
Nico mordeu o lábio inferior.
– Essa é uma longa história.
Nico começou a inventar uma história de como havia parado naquele lugar, mantendo-se à realidade mas excluindo tudo o que era fantástico. Disse que procurava um amigo que havia sido sequestrado por um homem que por muito tempo o manteve preso, mas claro que não disse que fazia isso por meio de viagens na sombra que sabia fazer graças à seu pai, Hades.
E ele elaborava uma história mirabolante, abusando nos detalhes, na ação e na aventura. Contou até o café ser servido, e continuou inventando mais e aumentando a história enquanto os dois bebiam.
Olhava nos olhos de Günter enquanto falava. Era incrível o quanto eles brilhavam.
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Nico acordou com o sol batendo em seu rosto. De primeira, assustou-se com o lugar onde estava, mas depois lembrou-se do que havia acontecido no dia anterior. Lembrava-se de ter conversado com o senhor até altas horas da noite, quando finalmente os dois concordaram em ir cada um para seu quarto e dormir.
As energias do menino estavam renovadas, ele não podia perder tempo. Pulou da cama e agarrou um papel qualquer espalhado por aí. Deixou um bilhete para Günter agradecendo por tudo e se despedindo. Sentia-se mal por ir embora assim, mas não tinha muita escolha. Deixou o papel na cama que ele tivera o cuidado de arrumar e correu para fora da casa.
– Adeus, Günter – ele disse, enquanto saía pela porta – boa sorte com tudo.
Nesse momento, Nico decidiu duas coisas:
1: Ele nunca esqueceria Günter ou o que aprendeu em seu dia com ele;
2: Aquele seria o dia no qual encontraria Ricky.
Acreditava muito nos dois, mas se animava mais com o segundo, pois da noite para o dia, ele havia se tornado realmente possível.
Nico tivera um sonho.
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