Como odiar o amor II
8 Enemy
Notas iniciais
POV Ricky
Ricky ouviu as palavras da menina que acompanhava Leo e apertou os olhos, observando a cena. Nico recuava alguns passos conforme o mais velho se aproximava, com o andar meio robótico.
– Leo, o que está fazendo? – o amigo perguntou, com um sorriso para disfarçar o nervosismo, como se conversasse com uma criança de quatro anos.
– O que eu preciso fazer – as palavras soaram decoradas.
– Isso mesmo – a garota desconhecida sorriu docilmente.
– O que você está fazendo? – Ricky perguntou, dirigindo-se à ela, mas a mesma não respondeu – hein? – ele insistiu.
– Acho que ela só fala com Leo – Jill palpitou.
– Gente – Nico chamou, a voz trêmula – ajuda seria bem-vinda!
Ele estava no limite, encostando na parede, quando Leo pegou o móvel mais próximo, que por acaso foi uma mesinha, e arremessou no mais novo, errando por pouco quando este abaixou. Jill gritou e tentou ir até o amigo, mas Scott segurou-a. O grupo de amigos estava no extremo oposto da sala ao qual Nico havia sido forçado a ir: se fossem atacar um semideus mais experiente que estava hipnotizado por outra aparentemente mais experiente ainda, precisariam de um plano.
Leo levantou uma cama que, normalmente, não conseguiria nem mover, e arremessou com força em Nico, que por sorte, conseguiu desviar de novo, sendo apenas arranhado de leve no braço.
– Leo, pare – ele pedia – eu não quero te machucar.
Mas a ameaça não era séria. Era possível ver o medo encher os olhos de Nico enquanto ele pronunciava a frase. O menino olhava para os amigos, implorando por ajuda.
Enquanto isso, a menina da porta sorria como se presenciasse a cena mais bela do mundo, quieta.
Leo olhou Nico, inexpressivo, e virou-se para a desconhecida.
– É claro – ela respondeu, mesmo que o outro não tivesse nem aberto a boca – aqui está.
Ela deu um passo para a esquerda e revelou, atrás dela, o martelo de estimação de Leo, sua arma favorita. O semideus segurou o objeto e voltou-se para Nico, que procurava sua espada desesperadamente.
Leo ia chegando mais perto, com o olhar vidrado e o martelo em mãos. Nico estava claramente com medo, e isso influenciou em sua busca por defesa. Os amigos observavam a cena, congelados, sem saber o que viriam a presenciar.
– Estava aqui – ele repetia, baixinho – estava na enfermaria, bem aqui...
– Nico – Cori chamou, apontando – embaixo da cama.
O menino abaixou-se o mais depressa que pode, quase desmoronando no chão, para pegar sua arma. Leo estava próximo o suficiente para efetuar um golpe a qualquer momento.
– Leo! – Jill tentava distrai-lo – Leo Valdez! Olhe para mim!
O garoto ignorou Jill e levantou o martelo no momento em que Nico, ainda no chão, levantou sua espada recém-encontrada para tentar se proteger do futuro golpe. Scott virou a cabeça para evitar a cena, enquanto Cori e Jill cobriram a boca com a mão. Ricky não teve a menor reação: assistia a cena como se visse um filme.
O martelo desceu na direção do rosto do menino, que por sua vez segurava a espada com uma mão no cabo e uma na parte chata da lâmina. Foi possível notar, com certeza, o poder do ferro estígio, pois o material resistiu ao impacto. Mas isso não se repetiria tantas vezes, e, talvez não Leo, mas a garota na porta parecia muito determinada.
– Scott – Jill chamou, sendo traída pela voz desesperada quando Leo acertou o segundo golpe, que também foi defendido – a gente poderia...
Ela cochichou para a desconhecida não escutar, o que impossibilitou que Ricky escutasse também. Não que ele se importasse. O plano provavelmente não funcionaria. Por mais que atacassem Leo, a garota parecia controlá-lo com a simples força do pensamento.
Mas, de qualquer maneira, Scott ouviu e concordou, e pouco a pouco, os dois se aproximaram do mais velho, sendo seguidos por Cori. Ricky observava com a cabeça baixa, analisando para ver se captava qual parte do ataque daria errado.
– Ótimo – a garota desconhecida comentou – eles estão se aproximando. Quando acabar com esse, pode partir para os outros mais rápido! – ela riu, fazendo Ricky se arrepiar. Mas a risada não era como a dele, não, pelo contrário. A risada dela era doce e suave.
E isso o incomodava.
Nico percebeu que os amigos tinham a intenção de ajudá-lo e pareceu um pouco mais aliviado, o que não impediu que ele defendesse outro golpe. Dessa vez, entretanto, a espada cedeu um pouco mais e entortou significativamente.
– Vai quebrar – ele avisou – rápido! Seja lá o que queiram fazer!
– Scott! – Cori chamou – comece!
Scott pulou em cima de Leo no mesmo momento, fazendo o amigo hipnotizado cair no chão. Estava em vantagem, mas Ricky pode ver que isso mudaria em alguns segundos. O martelo ainda estava em suas mãos, mas o mais velho estava imobilizado. Entretanto, no primeiro momento de mínima fraqueza de Scott, ele iria atacar.
– Ricky! – Jill gritou – siga o plano!
– Que plano?
Scott, Cori e Jill olharam para o mais novo sem acreditar nas palavras que haviam saído de sua boca.
– O nosso plano! – Cori berrou, sem saber o que fazer ou dizer.
– O plano de vocês é horrível! – Ricky nem sabia qual era o plano.
– Ricky. Siga. O. Plano! – Scott tentava controlar o mais velho enquanto este se debatia – por favor!
O garoto não moveu um dedo sequer.
De repente, Leo empurrou Scott com a maior força que havia feito durante toda a luta e se levantou.
– Ricky! – o menino quase nem reconheceu o próprio nome quando este foi misturado à aflição de Jill ao gritá-lo – faça algo logo!
Leo, entretanto, não atacou Scott, como esperado. Ele andou em direção à porta e passou pela menina.
– Não entendem? – Ricky sorriu – eu estou fazendo algo.
– É, isso também serve – Cori comentou, impressionada – seja lá o que esteja fazendo.
– O que você está fazendo, seu vermezinho? – a desconhecida irritou-se – Leo, volte!
Como o menino ignorou-a e continuou andando, ela respirou fundo, e quase queimando Ricky com o olhar, desapareceu.
– Pare – Ricky ordenou, pensando em Leo.
O menino voltou para a sala quase no mesmo instante.
– Nossa, mas o que aconteceu aqui?
– Você aconteceu aqui – Ricky respondeu – e, se me dão licença, eu estou cansado.
Ricky se apoiou na parede, meio tonto de sono, e Nico veio até ele.
– Você aplicou o poder nele, não foi? Mas não chegou até o fim.
– Foi – o mais novo sorriu, sonolento.
– Obrigado. Por ajudar, quero dizer. Pode dormir, se quiser. Eu e Leo explicaremos o que precisamos.
– Posso mesmo?
– Claro. Afinal, com grande poder... – Nico apoiou a mão no ombro do amigo — vem grande necessidade de tirar uma soneca. Te acordo depois.
E, simples assim, Ricky tombou a cabeça para trás em um sono de profundo cansaço.
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POV Nico
Nico sorriu ao olhar o mais novo cair no sono tão rápido. Ele parecia tão pacífico dormindo... como um anjinho que de vez em quando sussurrava ameaças de morte.
– O que acabou de acontecer? – Scott sacudiu a cabeça – Leo, você me deve muitas explicações. E, Nico, estou preocupado com suas amizades.
– Que explicações? – Leo parecia confuso.
– Ah – Nico levantou a espada torta – que tal começar por isso?
– Eu... eu fiz isso? – sua expressão era de confusão sincera.
– Com um martelo – Cori acrescentou – aliás, com o martelo que está na sua mão.
Ele olhou para o objeto com uma sobrancelha levantada. Mas balançou a cabeça.
– Antes de mais nada, vamos deixar o pobre garoto mais confortável – ele apontou para Ricky, que estava dormindo profundamente no chão gelado. Leo nem parecia preocupado com isso, entretanto: era claro que estava tentando organizar seus pensamentos e se livrar do assunto por pelo menos um tempo.
– O que nos leva de volta à outra coisa – Scott lembrou – não tem chance de que esse garoto venha com a gente na missão.
– Mas caramba, Scott – Nico reclamou enquanto levantava o mais novo no colo, procurando uma cama confortável para deixá-lo – você nem conhece ele. Ricky é legal, e não é tão perigoso assim.
– Eu vou te matar – Ricky murmurou, ainda dormindo – vou perfurar cada centímetro que existe nessa miserável pessoa que você é com um marcador de gado afiado e aprofundar cada ferida com minhas próprias mãos...
– Ricky, que péssimo momento – Nico se lamentou, abaixando a cabeça.
– Vou observar você sangrar e gritar até morrer, eu vou fazer você sofrer – ele continuou.
– Realmente inofensivo – Scott levantou o polegar com um sorriso irônico.
– Seu desgraçado. Vou te matar, Joseph.
– Ha! – Nico aliviou-se – viu? Só o que precisam saber sobre Joseph é que ele não era legal com Ricky. Então, sejam legal com ele e os nossos problemas estão resolvidos. Pelo menos eu terei controle sobre a situação: se ele ficar no acampamento, não saberei de nada que ele fizer.
– Eu voto para que ele vá – Jill levantou a mão. Cori fez o mesmo gesto, sendo seguida por Nico. Leo, ainda confuso, levantou a mão também, para não ficar de fora.
– Tanto faz – Scott revirou os olhos – mas se ele machucar ou matar algum de vocês, eu vou rir.
– Agora estou pensando em fazer você ficar – Jill arregalou os olhos – mas, de qualquer maneira, isso não é nossa prioridade. Leo, eu sei que você tentou desviar a conversa, mas trate de explicar o que tem a explicar.
– Querem mesmo saber?
– Sim – Cori respondeu, rápido.
– Eu também – Nico e Jill disseram em uníssono.
– Você tem mesmo que contrariar tudo? – Leo voltou-se para Scott, que virou os olhos – bom, já que a maioria quer saber, acho que vou dizer o que aconteceu enquanto estava fora da enfermaria. Ou o que eu me lembro.
.
– Então a garota era Calipso? –Nico perguntou, só para conferir, ao fim da explicação.
– Pelo menos eu acho. Mas pelo que vocês me contaram sobre o que ela “me forçou” a fazer, não pareceu ela.
– A gente nem entrou no barco para a missão e já temos um inimigo? – Cori se preocupou – e nem sabemos quem é!
– Você não precisa olhar as coisas desse jeito – Nico falou, sorrindo – eu tenho uma interpretação melhor.
– Como você tem uma interpretação boa disso? – Scott indagou.
– Talvez ter o nosso primeiro inimigo mostre que seja hora de entrar na missão logo.
Os semideuses trocaram olhares empolgados.
– Eu vou preparar o barco, então – Leo começou a andar para fora da sala – vocês saem hoje.
Nico sorriu olhando para Jill. A garota parecia extremamente animada, embora um tanto preocupada e nervosa.
Leo colocou a cabeça para dentro da sala de novo.
– E ele é todinho de vocês.
Com uma piscadela, ele saiu de uma vez, indo preparar a partida de Nico para a primeira missão exclusiva dele da vida.
E para um possível encontro com Bianca.
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