Como o Fogo
7 Capítulo 6 - Ur
Notas iniciais

26 de junho de 2005, Moscou, Rússia
Os passos apresados de Ur ecoavam pelo extenso corredor. Os sapatos de salto gritaram e rangiam cada vez em que a morena os comprimia com demasiada força no lustroso piso de madeira, que a guiava até o final do corredor.
Controlando a respiração ofegante, Ur, quando chegou ao seu destino, não pensou duas vezes antes de adentrar no cômodo sem bater, logo questionando a enfermeira onde o estranho garoto fora colocado.
– Ur, tenha calma. – pediu Grandeene, a enfermeira – Ele esta bem, porém se descontrolou e congelou a enfermaria inteira, tivemos que move-lo para a sala de contenção antes que algo pior acontecesse.
– Francamente, saio durante duas semanas e olha o que me acontece. Por que não o acalmaram? – berrou a morena cerrando as mãos em punhos e fazendo a temperatura do escritório d enfermeira chefe abaixa-se.
– Ur. – tentou chama-la, porém Grandeene só teve como resposta o estrondoso som da porta ao ser fechada com força.
Suspirando e balançando a cabeça para os lados, a enfermeira se dirigiu para sua mesa, continuando a preencher papeladas sobre o tal garoto.
Jogando os sapatos de lado, Ur se preparou para a corrida até o outro lado do instituto, uma zona mais isolada, onde se encontrava a sala de contenção.
A sala de contenção, nada mais era do que um cômodo revestido com partículas e runas magicas, que tinham como efeito apaziguar os poderes descontrolados de novos moradores. Porém haviam efeitos colaterais, como a perda de memória momentânea, o esgotamento físico – já que, quando as partículas magicas adentravam no corpo da pessoa, procurando pelo núcleo do problema, o que era um processo demorado e algumas vezes doloroso – que faziam o sujeito dentro as sala entrar em uma espécie de coma. Claro que haviam efeitos permanentes, como perda de visão, audição, memória e até mesmo a morte, em casos mais extremos.
E esse era, obviamente, um local inadequado para uma criança ficar.
– Abra essa maldita porta. — berrou Ur ao chegar no local. Estava furiosa, socava e chutava a entrada com todas as suas forças. Até mesmo tentava congela-la.
Claramente não obtivendo progresso em nenhuma das tentativas.
– Ur o que esta havendo? – perguntou Freed, um misterioso homem com estranhos e longos fios de cabelo esverdeados. Estes de tão compridos, eram presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça do rapaz. Era alto e muito magro, e a postura rígida com o rosto serio afastavam muitas pessoas de sua figura.
– O que esta havendo? O que esta havendo? Serio isso? Você ainda tem coragem de me perguntar isso? – gritou a mulher se virando para o homem e lhe mandando um olhar irritadiço.
– Se eu soubesse não estaria perguntando. Sejamos lógicos, Ur. Fale de uma vez por todas. – falou impassível – Não tenho tempo para dramas.
– Quero que abra a porra da porta.
– Desculpe, mas isso não será possível. – dando de ombros e com o rosto nulo de expressão, Freed virou suas costas para a figura feminina e rumou para uma pequena entrada disposta ao lado da sala de contenção, que só fora percebida agora por Ur.
– Não vire as costas para mim. – Berrou Ur para Freed, que continuava a andar calmamente em direção à pequena entrada, não dando a mínima para o aviso da morena.
Até que, quando fora esticar sua perna esquerda para dar o próximo passo, a sentiu ficar presa em algo gélido. Olhando para trás, pode ver os cabelos, antes negros, da mulher com uma coloração azulada, assim como sua pele que ficara com uma aparência frágil e cristalina dando vista para Freed de suas veias e órgãos internos de Ur – que agora possuía suas roupas rasgadas.
Era uma visão selvagem, assustadora, mas acima de tudo deslumbrante e fascinante.
– Eu falei para não me dar as costas e abrir essa porra de porta. – sua voz antes feminina e dócil, mesmo quando brava, mudara para uma rouca e arrastada, como se estivesse fazendo muito esforço para recitar dais palavras.
– Temperamental como sempre. – murmurou o esverdeado se virando completamente para figura de gelo e liberando sua perna sem esforço – Sabe que não tenho permissão para abrir a porta antes da quarentena, então facilite as coisas Ur. Deixe o garoto definhar em paz, sabe que ele não tem muito tempo de vida. Você quer que ele tenha uma morte calme e dormente ou quer iludi-lo com falsas esperanças de uma vida longa e saudável, rodeado de amigos? Você mesma viu os estragos que ele pode fazer.
– Cale a boca seu verme imundo. – gritou vociferou a mutante, colocando uma expressão de ódio em seu rosto, deixara seus olhos completamente brancos. Fechando as mãos em punhos os fazendo tremer de tamanha força usada, Ur diminuiu a temperatura do corredor, o fazendo ficar ao seu favor em uma futura batalha. Os vitrais das janelas estavam ficando cada vez mais embaçados, o oxigênio tronava-se mais denso e ralo, fazendo Freed ofegar inconscientemente, tentando forçar aquele ar espesso entrar pelo seu nariz e viajar através de sua faringe e laringe até chegar a seus pulmões – Sabe que podemos fazer isso do modo fácil, mas realmente desejo que você escola o difícil. Faz muito tempo que estou planejando te dar uma surra.
Suspirando, na esperança de controlar a respiração, Freed revirou os olhos. Sabia que Ur era movida por suas emoções, descartando por completo a razão – principalmente quando nervosa -, e era extremamente fácil usar isso contra ela mesma. Focando seus olhos nela, Freed pode notar um sorriso psicótico brotar em seus lábios roxos quando esta flexionou as pernas para pegar impulso para se lançar em cima de si.
O movimento fora rápido, se Freed não tivesse uma percepção maior e melhor que a das outras pessoas, Ur com certeza teria arrancado seu cabeça com um único golpe.
Afastando-se com um pulo, Freed começou a pensar em uma estratégia para acabar de uma vez por todas com aquela luta sem sentido. O que talvez não tenha sido uma boa ideia, já que estava, agora, em um território comandado pela mulher de gelo. Abaixando a guarda por míseros segundos, o homem perdeu de vista, logo iniciando sua busca pelo corredor nevado.
Era agoniante ficar em um local totalmente branco como aquele. Seus olhos ardiam toda vez que olhava para algum canto com a pouca luminosidade que a pequena lâmpada junto das janelas lhe proporcionava. O brilho causado pela luz batendo na neve faziam Freed se desconcentrar de seu real objetivo.
“Claro, ela esta tentando me distrair”, pensou ele com rápido lampejo de lucidez passando por sua mente. Porém fora lento demais, quando deu por si já estava beijando a parede mais próxima com uma gosta de ferrugem saindo por entre seus dentes e lábios.
Alevantando-se com cuidado e passando a mão canhota na boca, pode constatar que o estanho gosto provinha de seu próprio sangue. Olhando para o local onde estava segundos antes, pode ver Ur se preparando para mais uma investida, esta prometendo ser mais violenta que a primeira ou a segundo que o acertara.
As pernas femininas se flexionaram novamente, dando o impulso desejado para Ur dar o seu golpe final. Lançando-se para cima do homem esverdeado, Ur soltara um pequeno sorriso de satisfação, achando que a luta acabaria rapidamente. O que ela não esperava era que Freed conseguisse desviar e acerta-lhe um chute na boca do estomago, a fazendo perder o ar e o equilíbrio, caindo no chão em agonia.
Com os olhos arregalados, Ur pode notar que sua forma estava mudando, voltando a ser “humana” novamente. Mandando um olhar de puro terror para Freed, a morena pode notar que seus olhos castanhos agora possuíam uma coloração inteiramente negra, somente com a íris em uma estranha cor arroxeada.
Os braços estavam estendidos para frente, em posição de batalha. Na palma de suas mãos, linhas negras semelhantes a veias corriam por sua pele até se esconderem por debaixo da manga de seu caso purpura.
– O que... O... que... – Ur tentava assimilar o tinha acabado de acontecer.
– Sua transformação deixa seu corpo invulnerável somente a ataques físicos, mas se seu oponente conseguir achar um ponto fraco e calcular com precisão, ele conseguira te derrotar. Felizmente, sei que você é vulnerável a ataques mágicos, que por coincidência, são os mesmos que eu uso. Além de que você mantem sua guarda muito baixa. – explicou Freed voltando ao normal.
Olhando mais atentamente, o esverdeado pode perceber Ur abaixando a cabeça. Talvez em sinal de redenção ou de vergonha, não saberia dizer, era péssimo em ler as emoções alheias. Mas logo estes pensamentos saíram de sua cabeça quando Ur começou a sacolejar os ombros jogando sua cabeça para trás logo soltando uma gargalhada insana.
– Você não deveria expor seus conhecimentos durante uma luta, bobinho. Eles podem ser usados contra você. – virando a cabeça toda na direção do homem com um sorriso sombrio. Foi ai que Freed percebeu que era uma armadilha. Despois do sorriso e do anuncio o suposto corpo de Ur se desfez em pequenos blocos de neve.
– Um clone?! – indagou o mesmo virando-se para trás em busca de algum sinal da moça.
Sentindo uma ardência em sua nuca, Freed soube que ela viria por cima. E, graças aos seus instintos, foi que ele conseguiu evitar a lança de gelo que voou em sua direção.
A situação estava ficando séria cada vez mais Ur usufruía de seus poderes, e isso a fazia ficar ensandecida.
Gritando, a moreno se lançou novamente para cima de Freed, desta vez mantendo-se em cima deste. Jogando os braços para o alto, a morena começou a centralizar sua energia na palma de suas mãos, formando uma esfera maciça de gelo prestes a fazê-la beijar a face de Freed, como fizera quando o sacara na direção da parede.
Desesperando, o esverdeado tentava fazer a morena sair de cima de si. Uma tarefa difícil, já que a mesma congelara seus braços, os mantando presos no chão junto com o resto do corpo masculino. Forçando cada vez mais seus membros superiores, o homem pode sentir suas veias se sobressaírem.
Chegando sua expressão e dando-se por vencido, Freed relaxou embaixo da morena, mantendo a mínima esperança de que ela desistisse dessa loucura. Os sentimentos estavam a flor da pele, e foi ai que Freed descobriu como Ur se sentiu quando ele lhe negou a abertura da porta.
Mas isso era estranho, o esverdeado sempre conseguira manter seus sentimentos trancafiados a sete chaves em seu peito, mantendo uma expressão seria em rosto.
Sentiu os olhos lagrimejaram, enraivecido com sua sensibilidade, o esverdeado começou a se martirizar, pensando que tudo isso não passava de uma simples brincadeira da morena para assusta-lo e usar isso contra ele mais tarde. Mas não era Ur estava realmente ensandecida com o seu pedido negado.
Notou a mudança do ar quando o ser acima de si fez a leve menção de tacar a esfera em sua cabeça.
– FREEED!!!! – a pequena porta ao lado da sala de contenção se abrira em um estrondo, dando visão de Laki, adolescente com uma mutação rara, que transformara toda sua pele em madeira. A fazendo ganhar o apelido de Pinóquio no instituto. – Freed, o avião... O avião... Makarov... Mar... Muitas mortes.
A imagem de Laki chorando desesperadamente, com as costas movendo-se de cima para baixo em movimentos constantes, foi uma das únicas coisas que Freed conceguira lembrar, já que Ur perdera o controle e soltara a esfera de gelo em sua cabeça, quando esta entendera a mensagem.
– Não, não..... NNNÃÃÃÃOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!! – berrou a morena voltando ao normal e se abraçando com sua mão sujas de respingos de sangue. Tremendo e chorando, desejando que isso não passasse de um horrível pesadelo.
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