Como nunca imaginei
31 Capítulo 31
Notas iniciais
Balas de dor e desespero ricocheteiam todo o meu corpo...
“Kaleb!” Grito e as lágrimas já estão rolando novamente pelo meu rosto. Helena acorda assustada com meu grito e ao me ver em choque toma o celular de minhas mãos.
“Jacob? Sim... O que? Não pode ser! Estamos indo pra lá agora!” Ela pula da cama, troca de roupa e eu só choro repetindo baixinho uma oração: “Não... Não pode ser... Deus não deixe que nada aconteça... Por favor... Por favor...” Helena pega minhas roupas e joga para mim. “Loren, por favor, vista-se e vamos para o hospital... Ele está entre a vida e a morte!” Suas palavras me despertam e eu ponho uma calça jeans, uma camisa e uma sapatilha e saímos correndo para o carro.
Helena decide dirigir pois estou muito abalada para agir.
Helena fala com Jacob pelo celular algumas vezes e dirige o mais rápido possível. Não consigo conter as lágrimas... É como se meus olhos fossem feitos para isso, e não tivessem outra função...
Chegamos ao Barra’Dor.
A recepcionista nos recebe simpaticamente mas estou desesperada e só quero entrar e ver onde está.
“Qual o nome do paciente?” Minhas mãos soam e mesmo assim Helena não as solta.
“Kaleb. Kaleb Parker” A recepcionista confere na tela do computador e nos indica a sala.
Corro para dentro sem me importar com o que vão pensar de mim... Só quero vê-lo... Meu amor... Meu Kaleb...
Sigo pelos corredores onde a recepcionista me indicou.
Chego à sala de espera.
Jacob está aflito.
Ele me abraça e abraça Helena. “J-Jacob, me diz o que aconteceu? Como ele está? Ele vai ficar bem?” Digo entre soluços. Jacob passa as mãos pelos cabelos e diz: “Loren, ele sofreu um grave acidente de carro... Estava na serra e deve ter dormido ao volante, trocou de pista sem perceber. O motorista do caminhão disse que ele estava vindo à direção dele, Kaleb desviou em direção a queda da serra. Seu carro capotou inúmeras vezes e ficou completamente destruído. Kaleb está em estado gravíssimo e está passando por uma delicada cirurgia agora. Devemos aguardar o médico. Já dei seu nome para ele passar o diagnóstico para você que é esposa!” Acidente... Capotou... Estado grave... Essas palavras martelam em minha mente. “Não!” Choro e Jacob me segura.
Passam-se minutos, horas... Choro e choro...
Droga! Fui muito dura com ele... Kaleb me perdoe meu amor!
Eu choro e ando de um lado para outro na sala e Helena está sentada roendo as unhas.
Um médico entra na sala de espera e meu coração vai até a boca.
“Sra. Parker?” Ele diz olhando de mim para Helena. “S-sou e-eu” Porra de gagueira! “Prazer, Sou o Dr. Petterson. Vim para dar notícias do Sr. Parker” Balanço a cabeça freneticamente sem conseguir conter as pesarosas lágrimas. “As notícias não são boas Sra. Parker. Como já deve saber, seu esposo capotou com o carro várias vezes em um serra, se chocando contra várias árvores deixando o carro totalmente destruído.
Ele esta no CTI em coma e em estado grave. Ele lesionou a medula espinhal, que é a medula mais importante da coluna. Ele acabou de passar por uma delicada cirurgia. A cirurgia foi bem sucedida. Mas seu estado continua grave e não sabemos quando sairá do coma.” Ouvir essas palavras fazem meu mundo cair. Por favor, que dê tudo certo!
Jacob se aproxima e passa os braços pelos meus ombros. “E sua recuperação doutor? Ele poderá ter sequelas?” O rosto do Dr. Petterson esta impassível, sem emoção alguma. “Por ter lesionado a medula espinhal bem nas vértebras cervicais, ele pode não andar mais.” “NÃO!” Jacob e Helena me abraçam e minhas pernas fraquejam.
Os espasmos do soluço tiram todo o meu ar.
O Dr. Petterson pega água para mim e me acalmam.
Minutos mais tarde consigo apartar o choque de mim.
“Sra. Parker, a senhora já pode ver seu esposo.” Ao ouvir seu anuncio, meu ar se esvai dos pulmões. Não sei o que vou ver, não sei como está... Kaleb! Fique bem, por favor! Rezo em minha mente repetitivamente.
O médico me indica o caminho e eu o sigo.
A cada passo pelo corredor meu coração se aperta mais em meu peito. As paredes são branca e verde-alface, e o cheiro conhecido do éter adentra minhas narinas trazendo mais aflição a minha alma. Todas as minhas vísceras se reviram ao avistar uma sala com o letreiro em vermelho: CTI. O médico me instrui algumas coisas que não consigo ouvir. Preparo-me e entro. Ahhh não Deus! Kaleb! Ele está deitado, com tubos pelo nariz e boca. Soros conectados em sua mão, aparelhos medem seu batimento cardíaco. Sua barba está por fazer e sua cabeça enfaixada e um pouco suja de sangue. Ele está coberto com um lençol azul e seu peito oscila levemente com os aparelhos. Meus olhos embaçam com tantas lágrimas.
Não consigo piscar.
Seu rosto está salpicado por arranhões e hematomas. Meu príncipe! Aproximo-me mais da cama e tento controlar meu impulso de chorar, soluçar, gritar e pular em seus braços naquela fria maca. Seguro suas mãos. Estão inchadas e machucadas. Um soluço escapa da minha garganta. “Amor me perdoe! Isso tudo que está sofrendo agora é culpa minha, somente minha. Deveria ter te ouvido, deveria ter ficado ao seu lado... Agi sem pensar! Agora sei... O amor cega à gente. Achamos que por ser ‘amor’ deve ser perfeito. Mas não é. É aí que temos que estar fortes e preparados para as dificuldades.” Limpo as lágrimas e dou um fraco sorriso. “E eu estou meu amor, estou preparada para ouvir meu coração e superar qualquer dificuldade que vier pela frente... Só... Só não me deixe...” Um soluço irrompe da minha garganta e as lágrimas descem incontavelmente pela minha face. Aproximo-me do seu rosto, beijo sua têmpora coberta por gase. “Eu estou com você amor... Te amo!” Ao dizer essas palavras a enfermeira entra na sala anunciando que não posso mais ficar na sala.
Me retiro e desabo na sala de espera no colo de Helena.
Deito em seu colo e minha cabeça dói.
Reflito sobre minha vida... Rachel...
"Não há nada que eu possa fazer irmãzinha para te ajudar, as coisas vão dificultar muito agora. Vão ser quase impossíveis! Mas te digo: Nunca perca a fé e confie sempre no seu amor!"
Arrepios sobem pela minha espinha ao me lembrar do sonho com Lohanna...
"Hoje você cai para levantar, as feridas que adquiriu na queda vão doer, mas depois serão só cicatrizes para você levar por toda a vida o que foi necessário acontecer para você crescer!"
“Amiga, você já parou para pensar se isso não é uma armação da cadela?” Penso... Penso... “Mas como seria amiga?” Ela acaricia meus cabelos e diz: “Não sei, mas vou descobrir!”.
************************************
Passo o dia, à noite, o dia novamente ali.
Não tenho ânimo para trabalhar... Não tenho ânimo para comer.
Em certas horas o visito, e ele está lá:Quieto, sem esboçar nenhuma reação aos estímulos dos médicos e seu estado ainda é crítico. Choro e choro!
Alguns dias depois Kaleb foi para a UTI, continua em coma, mas pelo menos consigo ficar o tempo que eu quiser com ele.
Já passou por várias cirurgias e procedimentos médicos para o coágulo no seu cérebro.
Os médicos já me prepararam para sua recuperação... Será lenta e as sequelas ficarão. Jacob está cuidando da empresa em meu lugar.
Kaleb sempre dizia que confiava em Jacob plenamente, então dei as coordenadas para ele dar continuidade ao trabalho, mesmo tendo a sua empresa.
Chega a hora das visitas.
“Com licença.” Mamãe entra e eu corro para abraçá-la.
“Mamãe!” Ela me beija meu rosto e afaga meus cabelos. “Filha você precisa dormir, está com uma olheira terrível!” Dou um meio sorriso e ela se vira para Kaleb.
Seus olhos se enchem de lágrimas instantaneamente e eu me contagio pela emoção. “Deus está com vocês minha filha. Logo, logo ele irá melhorar...” Abraço-a e choramos juntas em silêncio.
Dizem que o paciente em coma consegue ouvir o que se passa à sua volta. E eu não quero que Kaleb ouça a tristeza depois de tudo que sofreu. Por minha culpa... Papai veio para o Brasil com Ayla me apoiar. Os dias estão sendo os piores para mim. Dias depois, na hora da visita, ouço baterem na porta e já espero por Jacob, Helena, mamãe ou papai. Mas não... Mary entra com um sorriso triste nos lábios. Está com os olhos escuros em volta e pálida. “Ei, chegue mais perto!” Digo encorajando-a. Eu a abraço e ela se afasta. Seu olhar está perdido até encontrar Kaleb. Um soluço irrompe de sua garganta e ela chora caindo de joelhos no quarto. Não consigo entender e a abraço, com lágrimas se formando em meus olhos também. “M-me per-perdoe Loren... E-eu... Me perdoe!” E as lágrimas não param de rolar. “O que está acontecendo? Quer conversar?” Digo, imaginando que saiba de algo. Ela assente e eu decido sair com ela dali. Vamos à cafeteria do hospital e nos sentamos afastada das pessoas que conversam sobre os pacientes e etc.
Peço um café bem forte.
É a única coisa que ando tolerando nessas duas semanas.
Ela olha fixamente para seu colo, respira fundo e diz. “Loren, primeiramente quero te pedir perdão pelo que fiz. Mas sei que não sou digna de tal. Eu cooperei pra isso tudo que está acontecendo agora” Ela começa a chorar... Seca as lágrimas e continua: “E-eu sabia de tudo, eu cooperei com tudo e não contei... Eu fiz por dinheiro... Eu... Eu estou péssima por isso!” Minhas mãos soam e minhas pernas tremem. O que ela está querendo dizer com isso? “Sobre o que está falando Mary?” Meu tom de voz é rude. “Quando você estava na Turquia, Kaleb ficou desolado por você deixar ele. Foi até o Sr. Parker, e exigiu que te aceitasse, o pai dele contou sobre as fotos que recebeu. Ele deduziu que havia sido Rachel e foi encontrá-la para saber. Nós combinamos e eu consegui a droga.” Droga? “Ele foi ao banheiro, ela colocou no uísque dele e ele bebeu. Eu fui para o local para saber se sairia tudo conforme planejamos. Ele já estava ficando alucinado e ela o levou para o hotel. Lá o efeito da droga foi se tornando mais forte. A intenção dela era conseguir o sexo para engravidar. Ela me pagou e eu os deixei sozinhos. Não sei se o ato foi consumado. Mas ela disse algo sobre ele só chamar seu nome... Eu mereço todo o desprezo que quiser me dar... Me perdoe...” Uma forte náusea se forma em meu estômago e sinto minha pulsação acelerar e bater em todo o meu corpo. Dou uma tapa forte na mesa e ela se assusta. O barulho chama a atenção de todos e eu não me contenho. “Você tem noção do que é ver o ser que é motivo da sua felicidade em uma cama entre a vida e a morte praticamente vegetando quando ele sempre foi uma fonte de saúde? Sabe o que é ouvir dos médicos que o homem que te faz completa, não irá mais andar ainda se sobreviver? Você preferiu acabar com o nosso amor por dinheiro! E agora? Está feliz? Recebeu o que tanto queria? Saiba de uma coisa Mary, dinheiro não compra o amor, a bondade, a solidariedade... E Deus é justo... Tudo que plantamos, colhemos!” Grito entre lagrimas e as pessoas nos olham... Pego minha bolsa e saio dali com o coração na boca. Helena após o expediente vem para o hospital e eu conto tudo para ela. “Ah não! Vou matar essa vadia agora!” Estou desconsolada... “Loren, está com o exame da cadela aí?” Lembro-me de ter colocado em minha bolsa, confiro-a e acho o papel. “Posso ver?” Entrego o exame a Helena e ela o avalia atentamente. “Loren, você lembra da minha consulta com a ginecologista e obstetra?” “Sim, lembro-me” Ela cerra o olhos, pensa um pouco e diz “Ao entrarmos ela nos recebeu simpaticamente, mas ao ouvir seu nome, ficou um pouco nervosa... Lembra? Conferindo o exame da cadela, está aqui... Ela é a mesma obstetra que realizou o meu exame. Dra. Yara... Acho que já estamos começando a encontrar pistas para desmascarar a vadia!” Porra! O instinto investigativo da minha amiga não falhava mesmo! “Se prepare minha próxima consulta é amanhã. Iremos visitá-la!” Concordo e abraço Helena. “Obrigada por tudo amiga, não sei o que seria de mim sem você!” Ela retribui o abraço e eu me sinto consolada.
Volto para o quarto.
Kaleb continua com a sua mesma expressão. Os médicos entram para a bateria de exames, remédios no soro e todos os cuidados comuns de um paciente em coma. “Sra. Parker, seu marido está reagindo bem à cirurgia. Seu coágulo sumiu e sua pulsação está boa. Mas o coma ainda continua o mesmo... Sem reações e sem previsões.” Só balanço a cabeça e seguro nas suas mãos.·. Já está tarde, me aproximo da cama, beijo sua testa e digo: “Amor, melhora logo... Estou morrendo de saudades de ouvir sua voz... De ver suas lindas covinhas quando sorri... Da sua risada, o jeito como mexe os cabelos quando está nervoso... Eu te amo amor, e não importa o tempo ou a consequência... Eu jamais vou deixar de te amar” Deito-me na cadeira de couro marrom inclinável ao lado de sua cama. Me cubro com meu edredom. Fecho os olhos e tento dormir.
“Amor, jamais te deixarei... Estou com você, e falta pouco para tudo se acertar. Só te peço uma coisa: Só ouça seu coração! Eu amo você Loren!”
“Eu também amo você Kaleb...”.
Fale com o autor