Como nas pontes de Madison
1 Capítulo 1
Casou muito nova, adolescente ainda. Cresceu num casamento meio estranho, onde o marido não foi exatamente um cavalheiro; na verdade, não foi em nada um cavalheiro.
E agora, anos mais tarde, olhando para o teto da casa que ajudou a construir, uma vez branco, nas amarelecido pelo tempo, pensava se sua vida teve algum significado, se teve algum sentido.
Marido, casa, filhos. Algo valeu a pena?
Algo valeu?
Suspirou.
Os filhos, um rapaz e uma moça, entraram na casa irrompendo as portas, como se ela não estivesse deitada no sofá, sonolenta.
—Deu certo, deu certo! -Larissa, a mais velha, saltitava pela sala.
—Papai conseguiu, vamos viajar amanhã ou depois!- Jorge explicou.
O marido, João, tinha feito uma promessa aos filhos, que os levaria para fazer um curso de duas semanas em outro estado, e ele teria que tirar uns dias de folga, pois segundo os filhos e ele mesmo, a mãe "ia ficar igual barata tonta no meio daquela cidade grande".
Emília não concordava muito com aquilo. Primeiro, como ela cuidava da casa e não trabalhava fora, era conveniente que ela fosse. Segundo, no seu coração ela tinha o sonho de sair daquela cidadezinha medíocre nem que fosse por alguns dias. Mas como sempre, os filhos menosprezavam quase tudo da mãe, então combinaram que só iriam quando o pai pudesse levá-los.
Ela suspirou e levantou-se num salto.
—Tudo bem, crianças. Vão arrumar suas malas.
Os filhos sumiram para seus quartos, e ela foi fazer café, esperando o marido chegar.
João era um homem de estatura mediana, poucos centímetros maior que Emília, gordinho e calvo, com poucos fios de cabelo restantes na cabeça. Usava chapéu toda vez que saía de casa. Nada mais lhe restara do homem por quem Emília se apaixonou e casou. Agora era grosso com ela, a diminuía e o pior: ensinou isso aos filhos, que nunca ouviam nem obedeciam a mãe.
Ele chegou em casa tirando o chapéu, mas entrando de calçado, sujando o chão já pisoteado pelos filhos.
—Consegui folga por duas semanas. Vou levar os meninos fazer o tal do curso que eles tanto querem. – Ele tirou o casaco também, pois começara a chover lá fora.
Emília olhou a chuva calma que caía. Não era época de chuvas, mas o tempo estava meio estranho esses dias.
—Café tá pronto? – O filho gritou.
—Quase! –Ela sorriu olhando para o líquido negro que aquecia no fogão.
Emília não reclamava da vida que tinha em voz alta, e tentava não deixar o cansaço daquela vida transparecer, mas as vezes seu rosto se contorcia involuntariamente em agonia, que os demais habitantes da casa não entendiam nem tentavam entender.
Apesar dos pesados, sabia que a casa sem ela desmancharia, e esse era o combustível que a mantinha em pé. Esse era seu poder oculto.
Café feito, café tomado. Nenhum agradecimento pelo café e pela broa. Nem ao Senhor se agradecia; levantavam e saíam de perto dela, deixando-a só, com as louças, a mesa, o resto do café, os farelos da broa. “Devia estar boa, pois comeram tudo”, pensou a paciente Emília enquanto tirava a mesa.
Foi dormir cedo, deixando trabalho negligenciado na cozinha. Deixou para “ter o que fazer” no dia seguinte, já que não teria que limpar o chão pisoteado de barro dos filhos ou do marido.
Ignorou a filha que reclamava não ser sua obrigação arrumar a mala, o filho pedindo onde estava sua camiseta e seus sapatos, o ronco do marido.
Deitou, mas quem disse que podia dormir?
No dia seguinte ela ficaria sozinha em casa. Isso nunca aconteceu. Como seria comer coisas que gostava, mas que a tanto tempo havia se negado por ser a única a gostar? Como seria ligar a TV e assistir um filme de sua preferência e escolha? Ah, por duas semanas poderia deitar no sofá e tirar uma soneca sem ter que acordar apressada fazer café e pão, sentir alguns prazeres que lhe foram suprimidos há tempos.
Com a mente a mil, foi dormir.
Enquanto Emília se agitava na cama para dormir, Francisco subia as escadas do ônibus rumo ao desconhecido.
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