Como foi seu dia?

1 Capítulo único


Notas iniciais
Então eu sempre quis escrever sobre o casal Laurel e Tommy, acho os dois muito fofos, embora ele tenha morrido tão cedo na série. Já tem um tempo que eu escrevi essa oneshot, sequer me lembrava dela, mas espero que gostem. Aproveitem, beijos.

A noite estava fria e escura para Laurel, mas ela tinha deveres a cumprir. Tranquilamente calçou a meia arrastão, o collant e sua jaqueta. Passou uma maquiagem forte como era de costume e soltou os cabelos loiros que caíram em cachos às suas costas. Ela também arrumou uma muda de roupas e colocou em sua mochila, algo que ela levava caso precisasse trocar de roupa rapidamente. Então, verificando tudo ela saiu de casa, pronta para fazer o que ela considerava como um trabalho extra.

Esgueirou-se pela escuridão até chegar ao cemitério. Antes ela passava em dois túmulos, mas desde que Sara voltara dos mortos ela não tinha mais essa necessidade. Agora ela passava somente em um: o de Tommy Merlin.

Ainda doía lembrar-se da morte do amante. Como ela fora tão fraca que deixara ele morrer em seu lugar? Porque ela não conseguira salva-lo naquele dia? A visão dele morto ainda a assombrava à noite, mas ela a afastava sem pestanejar. Tommy sempre odiou quando ela se culpava das coisas e não será porque ele não estava ali mais para repreendê-la que ela deixaria o sentimento de culpa a dominar.

Finalmente chegou à placa que carregava o nome de Tommy. Ela sentou-se no chão cruzando as pernas sem se importar com a frieza do solo. Seu coração há muito se tornara mais frio que aquilo. Colocou a mochila sobre seu colo e observou as letras ali impressas. Segurou as lágrimas e começou a falar.

—Oi Tommy. Meu dia hoje foi tranquilo, sabe? Só o de sempre. Muitos processos, muitas leituras, nada de importante. Ainda não temos nenhum caso bombástico, o que eu descobri ser bom sabe? É bom viver na tranquilidade de vez em quando. — Laurel fez uma pausa olhando para a própria roupa. Então riu alto. — A quem eu estou querendo enganar? Estou até virando vigilante pela falta de emoção no trabalho!

“Você tem que ver Tommy, eu estou orgulhosa de mim! Meu treinamento está cada vez melhor; ainda não supero Oliver, afinal ele ficou cinco anos treinando vai saber onde, mas eu estou, aos poucos, chegando lá. Sara está se recuperando bem. Ela agora está morando um tempo com meu pai até as coisas melhorarem, ou a cabeça dela ficar melhor. Almoçamos hoje, foi muito legal. Falamos de você sabia? Eu disse que sentia sua falta, porque realmente sinto. Queria que estivesse aqui para impedir minha loucura.”.

As lágrimas agora estavam no limite. As cenas da morte dele bombardeavam Laurel abrindo feridas antigas, mas ainda poderosas. Tentando fugir dessas memórias ruins, a loira desenterrou um caso antigo, que havia acontecido enquanto Oliver ainda estava “morto”.

Era sexta à noite e o TCC se aproximava cada dia mais. Laurel não saía mais de casa havia um tempo e por mais que desejasse uma noite de folga ela sabia que não podia. Tinha pedido pizza e estava lendo a tese que precisaria apresentar na segunda quando a campainha tocou. Pensando ser o entregador, ela mal olhou no olho mágico, abrindo a porta de uma vez e oferecendo o dinheiro. O entregador na verdade se revelara Tommy que estava com o boné da pizzaria e sua tradicional roupa despojada. Trazia nas mãos a caixa da pizza e um sorriso que só ele conseguia fazer.

—Pode deixar senhorita. Sua pizza já foi paga. — Laurel revirou os olhos, colocando o dinheiro no bolso e abrindo passagem. Tommy entrou beijando-a no rosto como cumprimento. Então deixou a pizza na mesa de centro e já abriu a caixa, pegando um pedaço.

—Sabe Laurel, você bem que podia pedir um sabor mais agradável como calabresa ou bacon. Portuguesa não é exatamente minha favorita. — Ele comentou enquanto mastigava. Laurel sentou-se no outro sofá, desfrutando rapidamente de um pedaço daquela maravilha.

—Calado Merlin, você não sabe o que é bom! — Tommy olhou todos aqueles livros e fez uma careta.

—Se isso aí for bom, eu to feliz de ter mau gosto. — retrucou o homem rindo alto. Laurel também sorriu, embora não achasse graça.

—Estudar é importante sabia? Alguns aqui não têm a sorte de depender do pai a vida toda. — o homem fez uma expressão ofendida.

—Eu vou trabalhar ok? Um dia! Por enquanto vamos apenas queimar o dinheiro do velho. — Laurel soltou uma risada sem humor e balançou a cabeça. Eles terminaram com a pizza em silêncio.

A loira olhou para o porta-retrato da cômoda ao seu lado. Era uma foto dela com Tommy e Ollie. Eles tinham terminado o ensino médio uma semana antes e Oliver insistiu para que eles fossem comemorar. Então durante as semanas seguintes eles saíram pela cidade queimando o dinheiro em bebidas apenas para “comemorar” que estavam livres da escola.

Naquele dia em especial Oliver tinha bebido pouco e estava carinhoso com ela. Tommy estava bêbado, mas ainda mantinha o senso de humor impecável. Até Sara estava na brincadeira, ajudando Tommy a atrapalhar o casal a se beijar. Eles brincaram muito e Tommy pediu para que o garçom tirasse uma foto deles. O garçom tirou várias fotos e em uma delas eles não estavam fazendo mais pose. Estavam conversando como amigos mesmo. E fora justo aquela que ela deixara no porta-retrato.

Por algum motivo ela não conseguira tirar a foto dali. Sabia do que Ollie havia feito com ela, do que Sara havia feito com ela, mas ainda assim toda vez que pensava em tirar a foto do lugar seu coração doía e ela desistira da ideia. Tommy percebeu seu olhar vazio e sentou-se ao seu lado, passando o braço em volta dela e a abraçando como só ele podia fazer. Laurel fechou os olhos contendo a onda de emoção que aquele simples gesto provocou. Tinha tantas coisas não ditas sufocando-a...

—Diga Laurel. — pediu Tommy como se adivinhasse seus pensamentos. — diga o que está preso em seu coração.

—Eu... — Ela mordeu o lábio. Então fechou os olhos, enterrando o rosto ainda mais no amigo. — eu sinto falta... Deles. Muita. Queria que tudo fosse como antes.

—Esse é o seu problema querida. Você está sempre presa no passado. Assim nunca vai construir nada no presente para se lembrar no futuro. — filosofou o amigo.

—Eu me sinto... Vazia. Não sei se consigo criar lembranças agora. Eu sinto tanta falta... — ela tornou a repetir e se permitiu chorar. Porque não havia armadura quando estava com Tommy. Não havia máscaras ou disfarce. Ela sabia que podia e devia ser ela mesma, porque Tommy não aceitaria nada menos.

—Eu ia te chamar para uma festa, mas como você não está em condições que tal um filminho mesmo? Eu devo ter algo na minha mochila. — ele se levantou apenas para pegar o objeto e procurar até retirar de lá um DVD. Laurel riu do título.

—Jura que você quer me fazer sentir melhor assistindo missão impossível?

—Achei que as mulheres gostassem de homens bonitos salvando o mundo. — A loira ponderou a afirmação. Realmente, não custaria nada ela ver um filme super surrealista. Teria a companhia de Tommy e o Tom Cruise de brinde. Nada melhor.

—Está bem, Thomas. Coloca aí.

Eles assistiram ao filme rindo das partes ilógicas e fazendo críticas. Tommy imitava as expressões dos atores de uma forma engraçada e Laurel sentiu por diversas vezes a barriga doer de tanto rir. Ela não sabia naquele momento, mas foi ali que ela começou a se apaixonar por Tommy.

Laurel limpou uma lágrima. Era assim que queria se lembrar de Tommy. Fazendo palhaçadas no sofá de sua casa, tentando animá-la e criticando-a por ser tão focada no trabalho. Ela tentaria não chorar, mesmo que a saudade apertasse. Estava encarando o nome da placa quando ouviu passos atrás de si. Ela se levantou e virou, dando de cara com Oliver. Ele estava vestido com o uniforme e a encarava com uma expressão melancólica. Laurel relaxou e voltou seu olhar para a placa de mármore.

—Eu estava só... Contando meu dia. — ela sorriu. — Ele gostava de ouvir.

—Faço isso de vez em quando, embora ele gostasse mais de ouvir o seu dia que o meu. — a voz de Oliver parecia trazer um sorriso triste no rosto.

Laurel se virou vendo um Oliver quebrado e frágil. Ela o tomou nos braços e ofereceu seu melhor consolo que foi bem aceito. O grande homem derramou algumas lágrimas ali até que ele a soltou agradecendo-a com um sorriso mínimo. Limpou o rastro que ficara em sua bochecha e, segurando Laurel pela cintura, brincou ao túmulo:

—Vou precisar roubar a sua garota por algumas horas. Mas não se preocupe, eu vou cuidar bem dela. — Laurel sorriu e pegou sua mochila, deixando-se ser guiada por Oliver. Antes, porém que se afastassem de mais ela virou o rosto e encarou o túmulo de seu amado. E sorriu sentindo em si uma paz que só sentia quando estava com ele.

Notas finais
Obrigada por ler, até mais.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!