Como foi?
3 A volta para casa.
Notas iniciais
— Dá para ir mais devagar?! — Eu gritei para o meu namorado. Aposto que íamos bater o recorde de velocidade alcançada numa bicicleta! — Sério. Para! — Eu deixei claro que era urgente.
Ele freou pouco tempo depois e eu pude largar a cintura dele. Minhas mãos estavam tremendo um pouco por causa da força com que eu agarrei a cintura dele.
E, se você acha exagero, eu acho que podíamos ultrapassar um carro!
— Qual é o problema? — Ele me encarou. — Eu sei que estávamos meio rápido, mas isso já é exag...
Antes que ele terminasse a explicação furada de porque ele queria alcançar a velocidade da luz, eu já estava sentado na calçada com as mãos no estômago.
E sim, eu estou morrendo de dor de barriga, valeu por perguntar!
E não, eu não vou admitir para o Bruno. Eu não preciso do discurso de “eu avisei para não comer três pedaços de pudim, dois pedaços de bolo, um cachorro quente e um algodão doce sozinho”.
Que foi? Eu como quando estou nervoso!
E, considerando que eu e o Bruno fugimos da minha festa de aniversário depois dele me pedir em casamento, eu tenho todo o direito de estar nervoso!
— Dor de estômago? — Ele sentou ao meu lado, me olhando sério. Eu não gosto quando ele fica sério!
— Nem começa o discurso de “eu avisei”. — Eu já estou sentado numa calçada no meio da rua com dor de barriga e voltando para casa depois de um pedido de casamento superinesperado. Não preciso de sermões hoje!
Ele suspirou.
— Foi mal. Não devia ter te arrastado para um parque de diversões depois de você se entupir de comida. Claro que ia passar mal! Se quiser podemos ir mais devagar na bicicleta.
— É, seria bom. — Concordei. Cara, eu estou muito ferrado quando chegar em casa! Minha mãe já vai estar furiosa porque eu fugi da festa e não contei para ela que estava namorando... Um cara. Agora também vai brigar porque eu comi até passar mal!
Por que a vida me odeia tanto?!
Nem reparei para onde o Bruno estava nos levando até que a bicicleta parou.
— Por que diabos estamos na sua casa? — Sim, eu sou muito amável. Principalmente quando sinto dor!
Conseguiu sentir a ironia?
— Porque, por mais que você mereça uns puxões de orelha, nós dois já temos problemas demais por hoje. Entra. — Ele agarrou minha mão e destrancou a porta. — Relaxa, meus pais estão fora.
Bruno me mandou esperar no banheiro e foi para a cozinha. Normalmente eu retrucaria, mas não estou muito no clima para discutir.
— Voltei! — Ele entrou no banheiro com um copo d’água. — Bebe.
— Como água vai ajudar?!
— Não é água. — Ele disse simplesmente. — Agora bebe.
— E o que é? — Agora eu estou preocupado! O que essa criatura está planejando?
— Uma coisa ruim com um gosto horrível, um gole vai te dar vontade de cuspir, mas você tem que tomar tudo até o fim. — Pelo menos ele foi sincero... Eu não quero provar isso!
— Vai. — Ele deve ter reparado que eu não curti muito a ideia. — Não confia em mim?
Chantagem emocional é golpe baixo!
— Tá! — Eu exclamei. — Dá isso aqui. — Eu coloquei logo um grande gole na boca.
Minha primeira reação foi cuspir aquilo. Mas acho que o Bruno já esperava, já que ele colocou a mão na minha boca.
— Engole. Depois vai melhorar, prometo.
Depois de muito esforço e algumas palavras (inúteis) de incentivo do meu namorado, eu consegui acabar aquela coisa!
Essa é a segunda coisa horrível que eu já provei por causa dele!
— Ok. Para que eu tive que engolir esse troço? — Perguntei. Mas ele não teve tempo de responder. De repente meu estômago revirou e eu senti algo ácido subindo pela minha garganta.
Quando percebi já estava vomitando no vaso com o Bruno me encarando.
Que cena estranha!
— Sério que você ficou aí me olhando enquanto eu vomitava? — Perguntei depois de um tempo.
— Se você tivesse cabelo longo eu seguraria para você. — Riu. — Está melhor?
— Um pouco. — Admiti enquanto limpava a boca com a mão. Minha boca está com um gosto péssimo e eu estou meio zonzo, mas pelo menos a dor passou! — O que era aquilo?
— Água morna com sal e bastante vinagre. — Ele deu de ombros. — Induz o vômito fácil. Mas o gosto é péssimo.
— Hm... Obrigado, eu acho. Vamos ter que ir para minha casa agora, certo? — Eu realmente não estou animado com a ideia, mas acho que já posso aceitar isso.
— Ainda não. — Ele sorriu. — Primeiro você vai comer alguma coisa!
Espera aí. Ele quer que eu coma? Eu acabei de vomitar! Não estou nem um pouco a fim de comer algo hoje!
— Nem vem! Sem comida para mim hoje!
Ele só me ignorou, pegou minha mão e me guiou para a cozinha. Logo senti um cheiro agradável, mas não sabia dizer bem o que era.
— Fiz chá. — Ele explicou. É tão óbvio assim quando eu não entendo nada? — Já deve estar pronto.
— Você cozinha?
— É. — Deu de ombros. — Não tenho uma irmã mais velha para cozinhar para mim quando meus pais saem. — Me provocou. — Então tenho que me virar.
Sentamos e ele me serviu chá e quatro biscoitos de sal. Eu fiquei encarando os biscoitos e mexendo o chá com uma colher. Estou incrivelmente sem fome! E isso é realmente impressionante!
— Se continuar fazendo birra para comer vou te dar na boca. — Ele zombou, mas acho que a ameaça era séria!
Eu adoraria dizer que o Bruno estava só brincando, mas ele já fez isso para valer! E foi em público da última vez, então é claro que ele faria agora sem problemas!
— Entendi! Já estou comendo! — Coloquei um biscoito na boca sem muito ânimo. Duvido que alguém normal estaria animado com a ideia de comer algo depois de vomitar para poder voltar para casa e encarar os pais furiosos.
— Melhor acabar logo, não quero te levar para casa muito tarde. Quero causar uma boa impressão para seus pais! Eles parecem legais. — Ele sorriu. Como eu disse: Ninguém normal estaria animado com isso.
E o Bruno não pode ser definido como “normal”.
Não acho que ele vá causar uma boa primeira impressão. Primeiro: Ele apareceu num vídeo com camiseta de super-heróis e sujo de tinta para me pedir em casamento. Segundo: Ele me “sequestrou” para ir ao parque de diversões. Terceiro: Ele está uma verdadeira bagunça nesse exato momento.
É nisso que dá inventar de correr de bicicleta por metade da cidade usando terno! Se bem que eu fiz exatamente o mesmo, então deixa. Não estou muito melhor que ele!
Comi dois biscoitos e metade da xícara de chá. Ele não reclamou.
— Pronto para ir? — Ele sorriu e abriu a porta. — Podemos ir a pé se quiser.
— Na ordem: Nem um pouco e eu topo.
Fizemos o percurso todo em silêncio. Eu fiquei pensando no meu aniversário e, francamente, não faço ideia do que se passava pela cabeça do Bruno.
Quem nunca foi pedido em casamento no aniversário de 18 anos, fugiu para um parque de diversões no meio da festa, andou de montanha russa mesmo tendo se entupido de doces e passou mal na volta para casa?
Ah, só eu? Sério?
Quando chegamos minha única vontade era que o chão magicamente decidisse me engolir. A luz da sala estava acesa! E nessa hora meus pais geralmente estão dormindo! O chão não quis me engolir, então eu tive que tocar a campainha.
Fomos recebidos por minha mãe, que lançou um olhar desconfiado para o Bruno. Acho que ela não gostou muito de nos ver de mãos dadas, mas nos convidou para entrar de qualquer forma.
“Convidou” não é bem a palavra, ela ordenou que entrássemos!
Claro que meu namorado sem noção não consegue perceber quando as pessoas estão irritadas e apenas agradeceu a hospitalidade. Admito que nem eu esperava por essa!
— Claro... Tudo bem. Entre... Bruno, certo? — Ela disse menos brava e mais confusa.
— Sim, senhora. Obrigado por me receber tão tarde. Temos que conversar. — Ele sorriu confiante, como se estivesse apenas visitando a casa de algum amigo.
Será que ele lembra que meio que me pediu em casamento essa noite?
Na sala estavam meu pai, minha mãe, minha irmã e a Renata, minha prima. Ela sorriu quando me viu, não esperava que ela fosse ficar aqui, mas isso com certeza me conforta!
Minha prima é demais! E ela sabe defender as pessoas.
— Então, Bruno, o que queria falar?— Minha mãe exigiu sem disfarçar o tom de ordem.
—Bem, senhora, eu sei que é um pouco cedo, mas eu gostaria de pedir a mão do Gustavo em casamento a você e seu marido. — Ele sorriu e segurou minha mão, exibindo as alianças.
Foi a primeira vez na minha vida que alguém deixou minha mãe sem palavras! Como ela não disse nada, Bruno continuou:
—Em primeiro lugar, saiba que eu não pretendo tirá-lo de vocês, podemos ficar noivos por alguns anos. Podem escolher a data do casamento se quiserem. Além disso, eu ficarei feliz em responder qualquer pergunta.
Às vezes eu odeio a capacidade do Bruno de falar tão bem em público! Eu gaguejo só em dizer “oi” quando estou nervoso!
— Então, Bruno— Meu pai se manifestou —, quando vocês começaram a namorar?
Eu conseguia sentir o desconforto geral no ar! Mas acho que meu namorado estava completamente alheio a isso.
— Começamos a namorar pouco antes da metade do ano passado, senhor. Aliás, o Gustavo foi quem me pediu em namoro.
Senti olhares demais em mim. Acho que meu rosto ficou muito vermelho, porque ele pegava fogo! Por que o chão se recusa a me engolir?!
— E quando pretendiam nos contar? — Minha mãe finalmente pareceu retomar o controle da situação.
— Bem... — Agora foi a vez dele não saber o que dizer. — Peço desculpas por isso. O assunto era delicado demais e nenhum de nós sabia como contar.
— A culpa foi minha, mãe. — Sim, eu resolvi entrar na discussão! Já tenho 18 anos, tenho que começar a fazer o papel de “homem adulto”! E tenho certeza que deixar meu namorado se explicar sozinho não é muito corajoso da minha parte. — O Bruno queria contar desde o começo, mas eu fiquei adiando.
Minha irmã e a Renata ficaram caladas, apenas observando. Acho que minha irmã só queria sair dali o mais rápido possível, ela nunca foi boa com brigas. Já minha prima ouvia tudo atentamente, como se estivesse pronta para entrar na discussão se necessário.
— Por que demoraram tanto? Para onde foram? — Ela continuou o interrogatório.
— Eu levei o Gustavo para um parque de diversões. E acabamos demorando por causa de um imprevisto. — Bruno tentou esconder a parte que eu passei mal por uma coisa ridícula.
—Hm, entendo. E qual foi esse “imprevisto”?
— Bem... — Ele me olhou, como se não soubesse se contava ou mentia.
— Eu comi doces até passar mal. — Admiti. Minha mãe me encarou surpresa, não por comer demais, claro! Eu faço isso muito! Mas eu nunca admitiria isso em voz alta... Até agora.
— Entendo... E já está melhor? — Ela parecia tão perdida quanto eu.
— Estou. O Bruno me levou para a casa dele e fez um chá.
Depois disso um silêncio desconfortável tomou conta da sala.
Muito desconfortável mesmo!
— Então, Bruno... — Renata resolveu salvar a conversa. — Você pediu meu primo em casamento, certo? Não acha melhor repetir agora para... Deixar tudo oficial?
Bruno sorriu. Aposto que estava agradecendo mentalmente por ela ter salvado a cena!
— Senhor e senhora. — Eu ainda acho bizarro ver o Bruno sendo... Normal. — Eu realmente amo o filho de vocês e gostaria muito de ter a honra de casar com ele. E eu quero muito ter a bênção de vocês para isso. Entendo se quiserem ter um tempo para pensar...
A sala mergulhou no silêncio de novo. Vi minha prima fazer menção de dizer algo de novo, mas meu pai foi mais rápido:
— Você está feliz? — Ele me encarou sério. Que medo!
—... Estou, pai. Eu... Eu gosto de estar com o Bruno.
Meus pais se entreolharam e pediram um tempo para pensar. Eles foram para a cozinha e ainda deu para ouvir alguns sussurros preocupados. Acho que eles brigaram um pouco.
...Ou muito, eu realmente não sei qual foi o nível da discussão!
Minha irmã não aguentou ficar na sala com a iminência de briga:
— Boa noite, pessoal. Agora vou dormir. — Ela me deu um beijo na testa. — Boa noite, maninho. E boa sorte.
Eu achei que depois disso ela só fugiria da briga. Mas ela me surpreendeu quando beijou a testa do Bruno também.
— Boa noite, Bruno. E você já é da família, não se preocupe.
Então ela saiu.
Estou com uma inveja dela!
Eu queria poder sair também!
Depois de um tempo meus pais voltaram, já bem mais calmos.
— Então... — Meu pai começou. — Se vocês estão felizes e cuidam um do outro, acho que é o que importa. Você tem nossa permissão, Bruno.
— Almoce aqui em casa amanhã, para que possamos conversar direito sobre isso. — Minha mãe emendou. Acho que já é quase uma da manhã! Todo mundo está cansado, até eu.
De repente meu namorado sem noção pulou da cadeira e abraçou meus pais!
— Obrigado! Juro que vou cuidar muito bem do Gustavo!
Depois do choque inicial eles se esquivaram gentilmente e disseram que iam dormir.
Eu ainda quero entender qual é o problema do Bruno com ser normal!
Assim que eles saíram foi a vez da Renata pular e nos abraçar, claro que o Bruno retribuiu. E eu acabei sendo agarrado no meio do processo.
— Eu estou muito feliz por vocês! — Ela disse.
— Legal, isso é muito bom e tudo mais, mas dá para vocês dois me largarem? — Eu quase gritei a última parte.
E não é exagero nem drama. Imagine ser esmagado por dois ursos bobo-alegres na madrugada! Porque foi exatamente isso que eu senti.
— Foi mal, é a animação.
— Bem, é melhor eu ir para casa. Até amanhã, noivo. — Bruno me provocou um pouco. Demos um selinho de despedida e ele foi embora.
Acabamos apenas eu e minha prima na sala. Acho que já é quase duas da manhã.
Agora que eu fui reparar na roupa dela: Uma camiseta folgada d’O senhor dos anéis e uma calça de pijama que eu tenho quase certeza que é da minha irmã.
— Vai dormir aqui, certo? — Suspirei, ela deu de ombros.
— Queria garantir que vocês não iam se meter em confusão quando voltassem. Posso dormir no se quarto?
— Claro. — Eu disse enquanto subíamos. Ela já tinha colocado um colchão no chão. — Te devo uma por hoje! Agora vamos dormir, estou exausto! Ainda não acredito que vou me casar! Eu acabei de fazer 18 anos!
— Não pense muito nisso agora. Boa noite, primo. — Ela riu.
— Boa noite.
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