Como esquecer o verão de 1969? Fazia um dia ensolarado na cidade de Oxford, apesar de ser tempos frios de nevasca para a Inglaterra. Acredito que o sol fez questão de o seguir no atravessar das águas do Atlântico. Não havia outra explicação. Até as estrelas contemplavam os traços de sua pele bronzeada, seu sorriso que aquecia as minhas vistas e seus olhos, tão belos e intensos que me marcaram para uma vida inteira.

Como esquecer o verão de 1969? Eu era jovem, querendo experimentar aventuras e novas realidades, apesar da repressão de pais tão conservadores que sufocavam o meu anseio por liberdade. Eu entendo, a tradicional família Davies tinha um legado a se manter e uma honra a perpetuar. Sorrio ao lembrar de como eu era rebelde para uma garota de 20 anos daquela época. Ora, eu já devia estar casada naquelas circunstâncias, mas nenhum dos meus belíssimos e requisitados pretendentes suportavam meu temperamento.

''É impossível!'', Hamish gritou para meu pobre pai depois de passar uma tarde comigo. ''Só um louco para querer casar-se com sua filha!''.

Creio que desde criança sem fui contra imposições e regras. Meus filhos e netos falam que eu era revolucionária para os padrões da Inglaterra, bem, eu discordo.

''Não se vale a pena viver uma vida de aparências para os outros'', eu sempre repetia ao servir o chá da tarde para minha família, quando ainda morava em Oxford.

Queria não ser hipócrita e poder dizer que não aceitei a imposição dos meus pais, mas quando se tem vinte anos e nenhum lugar para morar sob ameaça de ser expulsa de casa, você acaba cedendo a pressão. Mas não fiz isso antes de conseguir o que eu realmente queria: estudar. Fiz um acordo com meu falecido pai. Eu cursaria a paixão dos meus dias, a Literatura, por quatro anos. Assim que me formasse, eu me casaria com um pretendente de sua escolha, sem contestar.

Não via alternativa mais benéfica para alguém na minha posição. Sei que o matrimonio me uniria um dia a algum homem e que o amor não estaria envolvido nessa negociação.

''Precisa comportar-se'', minha mãe me olhava através do espelho sempre que escovava meus cabelos castanhos, que desciam pelas minhas costas em ondas, na tentativa de os alisar. ''Precisa ser gentil, delicada com os gestos e sorrir com naturalidade. Nenhum homem irá querer desposar uma garota rude e que não entende sua função na vida social.''

Não a culpo por ter uma cabeça tão arcaica naquele tempo. Ela foi criada com essa ilusão da boa família e principalmente, da boa esposa. Ao me recordar desses dias, penso se minha mãe nunca se perguntou que talvez fosse eu que não queria desposar alguém.

Como esquecer o verão de 1969? Há quatro anos atrás dessa data eu estaria entrando na Universidade de Oxford, com um brilho no olhar e na esperança de realizar minhas tão esperadas aventuras. Não imaginava, porém, que a mais surpreendente delas chegaria após quatro verões.

Como esquecer o verão de 1969? Me recordo bem do que senti quando vi um californiano se apresentar na minha turma. Florence Brooks era um rapaz de vinte e quatro anos, vindo de um projeto de sua faculdade nos Estados Unidos. Ele também fazia Literatura e estava em seu último ano, como eu. Florence era um escritor formidável e eu tive o prazer de me tornar sua companheira nas letras que inundavam as anotações de seus cadernos.

''Veja, Joanne'', ele me dizia, enquanto deitávamos de bruços na grama verde aos fundos da universidade. ''O que achas?''

Florence me estendia seu caderno. Nos sentamos e com um sorriso, comecei a recitar o seu poema.

Ao meu alento,

Nem as rimas de Shakespeare

Descrevem com tamanha formosura

Teus cabelos ao vento

Nem os vinhos de Dionísio

Embriagam tanto,

Quanto teu olhar

O doce mel

que pinga de teus lábios

Escorre doce,

Mistura nossos venenos

''Isto é...'', digo, observando seus olhos castanhos que reluziam o brilho do sol que insistia em o iluminar. ''Isto é lindo, Florence. Os sentimentos que você colocou em cada verso são intensos e fascinantes.''

Ele delicadamente segurava minha mão, um toque suave, capaz de me provocas as mais diversas sensações.

''Pensei em você a cada palavra'', Florence me lançava um sorriso tímido e abaixava o olhar, temendo a minha reação.

Meu coração se aquecia, do mesmo modo que o sol fazia com a minha pele. Me lembro de apertar sua mão, um ato que uma garota não deveria demonstrar com tanto fervor. Ele levantou seu rosto para o meu e eu sorria, resplandecente, esperando que Florence me beijasse. E ele assim fez.

Foi o meu primeiro beijo e o suficiente para eu me apaixonar perdidamente pelo californiano. Seus lábios eram macios, seu sabor era doce e seu toque me fazia arrepiar. Igualmente como o seu olhar, esse beijo marcou o resto dos meus dias.

Escondido de meus pais, nos encontrávamos todos os finais de semana no lago de Worcester College. Dançávamos ao som do canto dos pássaros do parque, nos beijávamos debaixo da sombra refrescante das árvores e ríamos com a nossa imaginação criativa de dois jovens cativados entre si. Florence vivia me contando sobre as praias ensolaradas da Califórnia e as magnificas ondas que costumava surfar.

''Quero mostrar-te um dia'', suas pernas balançavam ao lado das minhas sob o lago, sentados no píer. ''Ah minha querida amada Joanne'', a emoção das palavras que ele utilizava me faziam viajar com os cenários descritos. ''A vida é muito mais do que Oxford. Quero mostrar-te um dia.''

Meu espírito implorava por isso. Queria ver o mundo ao seu lado, ele me entendia, compreendia meus sonhos e os apoiava como ninguém.

''Seu destino é escrito por você, minha querida amada Joanne'', a intensidade de seu olhar me fazia acreditar em cada letra dita. ''Se queres voar, então voas!''

E eu realmente queria. Liberdade, uma palavra tão simples e fácil, mas capaz de transformar realidades e vidas. Uma palavra que eu não consegui contemplar.

Como esquecer o verão de 1969? A dor de o ver partir com amargura no olhar manchou a minha alma em agonia para a eternidade. Passamos o verão nos amando clandestinamente e nos formamos juntos em Oxford no final do inverno. Pela primeira vez, consegui sentir orgulho emitindo dos meus pais. Eles sorriam e comemoravam, apesar de terem sido contra essa loucura de faculdade. Mas eu havia feito uma promessa. Eu me casaria assim que me formasse e meu pretendente já havia sido escolhido: Dominic Anderson. Dentre todos que eu conheci obrigatoriamente, ele com certeza era o melhor. Um rapaz da minha idade, educado e cavalheiro, filho de grandes empresários da Inglaterra, que se interessou por mim.

Mesmo amando imensamente o garoto californiano, eu não conseguia me desprender da gaiola que minha família construiu ao meu redor.

''Serás feliz na Califórnia, minha querida amada Joanne'', Florence suplicava, na nossa última noite juntos na Inglaterra. ''Nunca permitirei que lhe falte amor e zelo. Venha comigo, Joanne.''

Chorando, sentindo meu peito afligir-se e minha garganta arranhar, eu neguei. Eu estava com medo de causar um dano ao nome da família Davies, com medo de me aventurar em outro continente e o principal, com medo da liberdade.

Agora vejo que nunca fui dona da minha vida, apesar de sempre ter acreditado que sim. Minhas escolhas não foram próprias, eram moldadas pelo pensamento de meus pais e suas expectativas. Não queria decepcioná-los, não queria os fazer sofrer para a minha felicidade. Neguei Florence e ao mesmo tempo, neguei o meu coração.

''Não se vale a pena viver uma vida de aparências para os outros'', o californiano me fitava com decepção, enquanto as lágrimas caiam de seu rosto. ''Espero que tenhas uma vida feliz, minha querida amada Joanne, de verdade. Porém também espero que aprendas o preço de se recusar a escrever o próprio destino''.

Me perdoem se esse pequeno desabafo ficar direcionado ao meu grande amor, mas preciso lhe contar como foi viver sem ele.

Meu Florence Brooks, eu definitivamente aprendi. Me casei com Dominic Anderson e posso dizer que fui feliz, em algumas partes do tempo. A partir desse dia, eu apenas fui saber o que era viver para mim, trinta e seis anos depois. Construí uma grande família nesse percurso, pareço ingrata ao pensar que não é o maior orgulho da minha vida, apesar de serem pessoas maravilhosas. A cada dia, a cada semana, a cada mês e ano, minhas asas eram cortadas gradativamente. Cuidar de sete filhos enquanto o marido viaja à trabalho, não me permitiu viver para a Literatura. Meus sonhos, anseios, vontade e desejos, foram acabando aos poucos.

A única memória que me mantinha firme e me fazia sorrir antes de adormecer, é a tua, meu Florence Brooks. Você é aquele que possibilitou uma singela fagulha despertar em meu peito quando tudo parecia acabado. Onde estaria? Teria se casado e tido filhos como eu? Estás feliz, meu Florence? Ainda se lembras de mim? Será que recordas o calor do nosso amor de verão em 1969?

Pensei em procurar-te quando Dominic morreu trinta e seis anos depois de nos casarmos. Sim, no mesmo período que narrei saber o que era viver para mim. Eu o amava, é claro, mas nada que se compare a você, meu Florence. Meus filhos estavam com a vida estável e segura, não precisavam mais de uma velha para os atormentar com lamúrias e lágrimas. Com a parte da herança que me coube, vendi a casa que me acolheu por tantos anos e fui para os Estados Unidos. Minhas asas começaram a crescer quando as grandes de minha prisão invisível foram derrubadas. Fui para a Califórnia, atrás de ti, meu Florence. Vi as praias que tanto o impressionavam, as ondas que você se admirava e senti o forte calor do sol, que um dia iluminou o nosso amor.

Me perguntei se era certo pensar em você. Me julguei uma tola quando a realidade voltou a me dominar. Você deve estar com outra, ter amado outra e eu sempre serei apenas uma boa história para que você conte aos seus netos.

Decidi, mesmo que tarde para a minha idade, viver para mim mesma. Não mais de aparências, como fiz durante toda a minha caminhada. Fiz o que você me falou, Florence. Me mudei para Manhattan, em Nova York. Construí a Divina Comédia, uma doceria que abrange uma biblioteca para que jovens possam se encontrar e reunir. Gosto da presença deles, me rejuvenesce.

Você gostaria de conhecer os dois funcionários de que mais gosto. Os ver conversando, mesmo que insistem em dizer que são amigos, me fazem lembrar de nós, Florence. Jovens, de boa aparência e com expectativas tão vivas que voltam a me inspirar. O garoto até costuma surfar, como você. A menina é mais parecida comigo, sempre lendo algum livro. Às vezes me perco no tempo olhando para os dois e pensando no que eu e você poderíamos ter sido. Espero que eles percebam o quanto se gostam e precisam um do outro, antes que seja tarde demais, como foi para nós, meu Florence.

Como esquecer o verão de 1969? Preciso dessa resposta, pois a cada piscar de olhos lembro de sua boca amando a minha. Lembro do seu olhar juvenil e sonhador, que tanto inspirou as minhas mais belas poesias. Onde você está, meu Florence? Volto a perguntar-me. Serás que pensas em mim?

O quão terrível foi receber essa confirmação, meu Florence. Você partiu quando eu ainda sonhava em reencontrar-te e dizer-te o quanto eu sentia por não ter seguido o meu coração. Um advogado que cuidou do teu inventário conseguiu me encontrar. Era uma tarde nublada quando ele entrou pelo meu escritório, com uma carta nas mãos.

O próprio sol parecia sofrer com a tua ausência, meu Florence. Aquela estrela que o amava e agraciava cada um de seus traços, fazia o céu chorar a tua perda, assim como eu.

Minhas mãos tremiam ao abrir a carta que você fez questão de chegar a mim assim que fosse embora. Ah, meu Florence, você se lembrava da tua querida amada Joanne na mesma intensidade que meus pensamentos sempre recorriam a você.

Meu grande amor, meu primeiro amor, como eu queria que tivéssemos tempo. Como eu queria não ter tido medo de ser livre ao teu lado. Meus olhos não se importavam em deixar as lágrimas escaparem e meu coração se sente fraco sem a sua respiração, que mesmo a milhares de quilômetros, fazia a diferença nesse mundo tão vasto.

Para a minha querida eterna amada, Joanne Davis

Por todos os anos de minha vida, até o presente momento em que escrevo esta carta, não existiu um dia em que eu não tenha pensando em você.

Joanne Davis, seu nome ainda invoca os meus mais amáveis sentidos. Minha memória não está mais como era antigamente, em que nos amávamos no lago de Worcester College. Sim, minha querida amada, ainda consigo me lembrar de tudo relacionado a você. Como te esquecer, minha querida amada Joanne? Nem minha mente permitiria tal ato.

O fantasma do que éramos assombrava todos os meus dias. Lembrando-me de como fui covarde. Como não voltei para te buscar? Para abrir a porta da sua prisão, minha amada?

Porém, minhas mãos estão cansadas e frágeis, sinto que minha vida chega ao fim. Espero que esteja bem e com saúde para ler essa carta escrita por um velho que nunca deixou de te querer. Eu deveria ter insistido em você, Joanne. Não deveria ter deixado que te controlassem. Também tive medo, minha querida amada. Tive medo de te arrastar para uma vida a qual não desejava. Jamais te culpei por nossa vida perdida. Éramos melhores amigos, amantes e companheiras, mas não consegui agir quando precisei.

Me casei com uma mulher, que apesar de ser mãe de três filhos extraordinários, nunca chegou a ser o que você é para mim, minha Joanne. Não trazia a simpatia pelas nossas ideias amigas, muito menos, a faísca da paixão. Ela se foi há cinco anos. Era pacata, não gostava de ler e sonhar ao meu lado, como você fazia. Me conformei com a vida singela e sem emoções, mas me permiti sonhar com você todas as noites. Me confortava saber que a minha segunda alma estava bem na Inglaterra.

Custo a lhe escrever isto, minha Joanne. Mas é preciso. Não quero ir sem que você saiba que sempre será o amor que tive a infelicidade de deixar fugir do meu afeto. A musa das minhas poesias, a garota de meus sonhos e para sempre, minha eterna querida amada. Se com outra vida eu for contemplado, te buscarei e esperarei. Quem sabe desta vez, poderemos ser livres juntos.

Para sempre o seu,

Florence Brooks.

Meu querido amado Florence, espero que ninguém que leia isto saiba o que é viver longe do seu amor. Espero que não sejam covardes como eu fui. Já estou velha para aventuras que tanto desejei, minhas pernas não conseguem me locomover da mesma maneira de antes e minha visão está turva, ao não ver um futuro que você esteja comigo. Eu poderia ter carregado o teu sobrenome, meu Florence. Poderia saber o que era uma vida de liberdade ao teu lado. Agora você se foi e é tarde demais para nós. Ah, meu Florence Brooks, como esquecer o verão de 1969?

Notas finais
Essa história com um capítulo foi uma das coisas mais lindas que já escrevi ❤️Espero que tenham gostado ❤️

Nossa querida amada Joanne está presente na minha história Mismatches
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!