Como eles não deram certo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Lily se lembrava de como começou. Não o romance em si, mas da primeira vez que se viram, por exemplo. Até antes, na verdade, da primeira vez que o viu.
Ela estava se despedindo de seus pais antes de entrar no trem que partiria para Hogwarts iniciando sua jornada na vida bruxa, uma vida totalmente diferente. Isso a separaria de todas as pessoas que conhecia do mundo trouxa, como seus pais que ainda que a apoiassem não faziam parte daquilo, e como sua irmã, que já tinha deixado bem claro o fim da relação fraternal e não estava ali para se despedir de Lily.
Mas, voltando a ele, ela estava distraída pensando no máximo de problemas que uma criança de onze anos conseguiria pensar em uma situação como aquela, quando viu uma mulher adulta e ruiva passando. Ela já tinha notado que cabelos ruivos era algo mais comum no mundo bruxo do que no seu — antigo — mundo, mas ainda não conseguia deixar de observar. A mulher era uma mãe, ela estava junto de seu marido e seu filho, provavelmente um primeiranista como Lily, que trazia consigo um malão grande e cheio de adornos. Ela viu pouco do garoto, mas guardaria a lembrança da mulher ruiva beijando uma pequena cabeça de cabelos escuros e arrepiados.
A segunda vez que de fato o viu, prestando atenção, foi na seleção das casas. Como seu sobrenome vinha antes na ordem alfabética, viu ele ser selecionado para a mesma casa que ela, já sentada na mesa da Grifinória, mas não fez grande caso. Quando ele se sentou, apresentou-se a ela sem muita atenção, já que aparentemente esperava descobrir para onde os amigos que fizera na viagem de trem iriam. Lily entendia, já que estava no aguardo de que Severus fosse selecionado.
Não tinha grandes ideias de que casa gostaria de ir, mas os conselhos de Severus Snape eram pra que jamais fosse para a Grifinória e desejasse a Sonserina. Esperava que ele não ficasse brava com ela e ainda pudessem manter a amizade, mesmo quando o viu ser recepcionado pela casa de vestes verdes.
Absorta demais nesses pensamentos, ela não notou que James Potter a encarava de um jeito curioso, o que Sirius Black, ainda eufórico pela escolha do chapéu, fez questão de notar.
Claramente foram incontáveis as vezes em que eles se viram no decorrer dos anos em Hogwarts, já que eram da mesma casa e, portanto, quase sempre frequentavam as mesmas aulas.
No começo, James era terrível. Lily sentia sua amizade com Severus tão frágil e queria que voltasse ao que era antes de se separarem por conta de algo tão bobo quanto uma casa, e, de certa forma, James contribuiu para isso dar certo e para não dar ao mesmo tempo. A raiva de James os unia, mas Lily, sendo no fundo uma pessoa bondosa, não aguentava por muito tempo as palavras de ódio de Severus, e isso os fez brigar diversas vezes.
James constantemente a incomodava, trocava seus livros de lugar, fazia pedaços de bolo flutuarem até seu prato nas refeições, mandava bilhetes para ela durante as aulas. Inicialmente, ela sentia o desejo dele de a importunar. Ele era uma criança extrovertida e enérgica e esse era seu modo de chamar a atenção.
Com o tempo, ela entendeu que suas motivações tinham mudado.
A partir do quarto ano ela notou que ele acreditava gostar dela. "Claramente o vício em me importunar causou a ele o falso sentimento de gostar de mim", ela pensava, balançando a cabeça ao vê-lo observando-a na biblioteca, nos jogos de Quadribol enquanto jogava, no salão comunal com suas amigas.
Era irritante, mas pelo menos ele começava a largar do pé de Severus e não pregavam tantas peças neles.
Lembrava-se de quando ele mandara entregar um buquê de flores coloridas no seu dormitório durante a madrugada e acordara com o cheiro forte de perfume, quando homenageava-a nos gols para a Grifinória, quando deixava saquinhos de feijões dos sabores favoritos de Lily escondidos em sua bolsa.
"Talvez a maturidade de fato chegasse para todos", ela pensou, quando, no início do sexto ano, James Potter parecia diferente. Ele tinha sido escolhido monitor-chefe da Grifinória naquele ano, juntamente com ela, e estava levando seus deveres bem a sério. Era pontual, exemplar nas punições que aplicava e respeitava Lily, estando durante suas rondas ou não.
Lily não teve mais o problema deles implicarem com Snape, já que sua amizade com o sonserino tinha terminado. Apesar de sempre sentir uma ponta de arrependimento, Lily soube que fez o certo ao se afastar de Snape. Ele claramente estava se envolvendo com coisas obscuras e escondia muitas coisas dela, que sabia que poderiam ferí-la.
A partir de então, afastada do seu antigo amigo, e com James mudado, foi fácil acontecer uma amizade entre os dois. Com o tempo que passavam nas rondas e com todos os rumores do que estava acontecendo por fora das paredes da escola, não poderia ter sido diferente. Eles tinham muito em comum pra se preocupar e isso rapidamente levou de uma amizade à um romance.
No sétimo ano, Lily se viu sem forças para fingir que não tinha sentimentos por James, e deixou o orgulho de lado. Eles começaram a sair e a passar ainda mais tempo juntos, durante ou depois das aulas.
O começo de um namoro é quase sempre parecido. Eles já se conheciam há muito tempo, mas quando você se relaciona com alguém dessa forma, tudo muda. A forma como você lê a pessoa, como você age quando está com ela, as coisas que espera dela. Os parâmetros mudam e é por isso que muitos casais não sobrevivem muito tempo. Foi por isso que James Potter e Lily Evans não deram certo.
Lily estava acostumada com a atenção contínua de James, com seus bilhetes e feitiços inesperados, mas em algum momento tudo isso parou. Não foi de uma vez, mas ela notou quando começou a sentir falta. Da espontaneidade, das novidades, das surpresas. As matérias foram necessitando de mais atenção, e os jornais desgastavam tempo para ler e absorver mais uma morte, a animação já não era a mesma.
James estava acostumado com uma Lily enérgica quando se tratava de defender seus pontos, e sabia que ela era conciliadora quando precisava, mas de repente todos os assuntos do relacionamento ela abria mão do seu ponto de vista só para evitar mais brigas. Todo o horror que vinha crescendo e cercando eles era tão grande, que ela não queria perder as coisas boas por motivos bobos, então sempre evitava discussões.
Lily percebia que os dois passaram a viver em seus próprios mundos dentro de sua cabeça, porque James sabia todos os medos que ela sentia em relação a Voldemort. Ela era nascida trouxa, e seria uma das primeiras atingidas assim que o maníaco decidisse agir com mais afinco e ela estivesse fora de Hogwarts — ou ainda se ele decidisse entrar lá. Ela sentia o perigo constante em que se encontrava, assim como toda sua família e vários de seus amigos próximos.
E James também tinha medo, mas não por si mesmo como ela. Ele era puro sangue, sua família inteira estaria a salvo se quisessem. Ele sentia medo por seus amigos e colegas, e sentia medo, claro, por sua namorada. Mas ele sabia que somente colocar seu corpo na frente do dela não a impediria de morrer logo em seguida dele. Ele morreria por ela, com certeza, mas sabia que não seria o suficiente para mantê-la a salvo, o que era um pensamento frustrante demais.
Essas diferenças entre eles se aprofundaram em diversos momentos.
Como quando James ia almoçar na casa de Lily. Ela estava sempre tão esgotada e a ponto de explodir o tempo todo… Seus pais simplesmente não acreditavam no perigo que Voldemort representava para eles próprios e sua filha, e Lily se desgastava sendo a única que estava em pânico naquela casa enquanto não recebia apoio deles. Assim, ela passou a evitá-los ao máximo. Mas, quando James vinha para jantar e eles tinham que ficar pelo menos 40 minutos na mesma mesa, era torturante.
Seus pais não tocavam em nenhum assunto que rondasse o mundo bruxo além dos pais de James. Fora isso tudo era sorrisos e brincadeiras, trocas de piadas entre ele e seu pai, comentários bem humorados sobre a comida… James topava fingir que nada estava acontecendo lá fora naquele momento. Aquilo deixava Lily estarrecida.
"Como você consegue fingir que está tudo bem?", ela o questionou um dia. As lágrimas estavam a ponto de sair e sentia seu rosto formigando, mas ela não aguentava mais chorar e definitivamente não aguentava mais chorar na frente de James.
"Lily, é assim que eles são", ele dava de ombros, "o que posso fazer? Supere." E então ele ria e mexia com o cabelo ruivo e longo dela.
A vontade dela era de bater em sua mão e gritar com ele. Sabia que talvez estivesse reagindo mais do que precisava, mas nos últimos tempos qualquer coisa a fazia sentir no limite. Então o que fazia era tirar um tempo longe dele.
Haviam dias em que eles deveriam passar juntos, mas James estava em seu quarto enquanto ela estava trancada no banheiro, chorando todas as lágrimas que queria poder mandar para o inferno.
Ela sentia que estava se perdendo. Cada vez mais paranóica com cada esquina e com cada amigo que aparecia de surpresa em sua casa no feriado. Cada jornal que chegava de manhã a fazia suar frio e ela nem se lembrava quando suas crises de ansiedade começaram, mas não a abandonaram mais.
James jogava cada vez mais Quadribol, saia mais com os amigos, dava mais gritos de incentivo e resistência, mas Lily sentia falta de uma mão estendida diretamente em sua direção.
Todas as vezes em que a via chorar ele a abraçava, dizia o quanto a amava e enxugava suas lágrimas. Depois de beijá-la até fazê-la rir e acreditar que dessa vez ele a tinha entendido e poderia finalmente se sentir a vontade novamente com ele, fazia alguma piada estúpida ou forçava um momento safado que ela não tinha como desejar. E então Lily o sentia indo para mais longe.
James via que ela estava pensativa, com o rosto fechado, as mãos batucando nas mesas, nas pernas, nos livros, via seu corpo imóvel na frente da lareira mas seus olhos inquietos, porém em nenhum momento a percebeu longe dele, de fato. Pra ele Lily sempre estava ali, como sempre esteve ou sempre soube que estaria. Parecia que só a ruiva os via se distanciar um do outro, como se estivessem em barcos separados e as correntes tivessem decidido afastá-los então.
Finalmente terminaram Hogwarts, com grande pesar, e então colocaram os pés no mundo real. Lily sempre sonhou se sentir preparada para esse momento, ter decidido sua profissão e ter indicação dos professores para logo iniciá-la, mas em vez disso ganhou a capacidade de se mover sem deixar vestígios, guardar as lágrimas por bastante tempo, e se juntou á Ordem da Fênix, para proteger a si mesma e a quem amava.
Além disso, ela não poderia negar que um dos seus grandes sonhos era permanecer com James. Com tudo o que haviam vivido, ela o amava de corpo e alma, ela o achava a coisa mais bela e preciosa do mundo e queria seguí-lo para onde fosse. Mas haviam tantas coisas no caminho…
Foi num dia ensolarado e, depois de muito tempo, calmo, que Lily e James puderam sair sozinhos. Eles passearam por Godric Hollow, um vilarejo bruxo que ainda estava tranquilo no período da guerra, e, sentados num banco observando o horizonte e o céu limpo, James fez o pedido.
Com direito a discurso, anel de brilhantes e ele ajoelhado a sua frente.
O mundo de Lily parou.
E ela sabia que o que deveria vir agora era milhares de memórias suas e de James juntos, de mãos dadas, se beijando, dormindo juntos, acordando um ao lado do outro, pensamentos sobre crianças e casas e jantares prontos, mas muito pouco disso veio.
O que veio na verdade foram gritos. Gritos de horror, o cheiro de corpos deixados para trás e sangue. Manchetes de ataques a trouxas, uma carteira a mais vazia naquela aula de Poções, e o escuro que envolvia qualquer ideia de futuro para ela. E então veio James. James sorrindo, mas rindo dela. James a abraçando, mas sem reconfortá-la. James protegendo-a de um feitiço, mas irritadiço. James dormindo ao seu lado na cama enquanto ela passava mais uma noite de insônia sozinha. James com ela e seus pais, mas ignorando seu desejo de afastar-se dali. James sendo bom pra ela, mas não o suficiente, nunca o suficiente.
Com um suspiro que ela sentiu tirar dela mais do que apenas o ar, Lily olhou bem nos olhos de quem poderia se tornar seu noivo com apenas uma palavra sua.
Ela tinha certeza de que James a amava. Ela sabia que ele fazia seu melhor por ela, mas seu melhor nunca foi tudo que Lily precisava dele. Sempre se sentiu confusa com essa sensação de vazio em alguns momentos em que estava com ele, como se ele estivesse muito distante para alcançá-la, ela acima e ele abaixo. Ela querendo demais e ele oferecendo não o bastante.
E ela também o amava, ainda assim, mas sabia que eles jamais poderiam ser o que o outro merecia.
Então Lily respondeu "não", fazendo o que sabia ser melhor para ambos. O choque de James foi uma pontada chata em seu peito, mas já não tinha mais volta. Quando ele sorriu achando que ela estava tirando uma com a cara dele, ela balançou a cabeça e tentou explicar tudo o que pensava. Foi difícil, já que durante todos esses meses guardou tudo para si, e levou tempo, pois tinha muito a dizer e precisava dizer da forma correta.
A lua minguante já estava na metade de seu percurso no seu limpo e estrelado quando finalmente não havia mais nada a dizer, de ambos os lados. O silêncio era ensurdecedor, triste, mas satisfeito. Era o que tinha que ser.
E eles involuntariamente se afastaram, porque sabiam que não poderia ser de outro jeito. Era dolorida a presença e a falta, mas a presença trazia esperança, e não havia nenhuma esperança que pudesse tornar real o que faltava em e para ambos.
Os dois continuaram seus trabalhos pela Ordem e se esbarravam em algumas missões, mas Lily percebeu a última vez em que viu James, alguns meses depois.
A sede da Ordem estava um caos fazia dias. Rondava um boato de uma profecia que dizia que um bebê nascido há um ano atrás derrotaria Voldemort em alguns dias. A procura levou até Neville, filho de Frank e Alice Longbottom, seus antigos amigos da escola.
Lily aguentava dias e noites o choro da mãe do pequeno Neville, porque era encarregada de fazer guarda deles quase toda semana. Ela não conseguia imaginar o pavor que eles sentiam, que provavelmente era maior do que o dela mesma. Lily tinha medo de morrer e perder seus amigos, mas eles tinham medo de perder um ao outro, o amor de sua vida, e seu filho, fruto desse amor e maior preocupação, que era o principal alvo de um maníaco fascista e seus seguidores que estavam por todos os lados. O mínimo que podia fazer era protegê-los enquanto conseguiam descansar e consolá-los o quanto fosse possível.
Parecia só mais um dia, mas de certa forma não parecia. Tudo estava mais silencioso, os pássaros cantando menos e voando pouco, o sol escondido atrás das nuvens e as pessoas andando mais rápido e de cabeça baixa. Lily estava na sede da Ordem quando um alvoroçado se iniciou. Ela chegou a tempo de ver um patrono se desmanchando.
"Eram Alice e Frank", comunicou Dumbledore para todos que, assim como Lily, haviam chego tarde demais para presenciar o recado. "Eles acreditam que ele os encontrou."
Começou então a divisão de grupos para ataque, defesa e fuga para a situação, mas tão rápido quanto pôde processar, Lily já estava na casa com os outros.
Ela entrou e viu os pais e o bebê agarrados aguardando o socorro, mas não demorou muito para que houvisse barulhos vindos de fora. Somente James se encontrava dentro da casa com ela, e ele parecia sério e compenetrado, enquanto a cabeça de Lily de repente era só confusão.
Gritos, sons de feitiços e ordens podiam ser ouvidas do lado de fora. Havia algo impedindo que aparatassem para longe dali, então teriam que fugir pelos fundos e correr até que saíssem da zona limitante.
Assim que os seis estavam fora, foram impedidos de continuar pelo próprio Lorde das Trevas.
Lily sabia que havia um plano de emergência para situações como essa, mas ela só conseguia encarar a coisa a sua frente.
Então olhou para James.
Ele suava, mas a mão na varinha apontada era firme e sem dúvidas, diferente da de Lily. Ele olhou rapidamente para ela, que não pôde evitar sorrir, um sorriso de lembranças e pesar enquanto tudo passou pela sua mente. Ela queria ter tempo de poder beijar James novamente.
De alguma forma, ela soube.
Voltou a olhar para frente e Voldemort estava dizendo algo sobre deixarem-no passar para que não houvessem mais vítimas do que o necessário, mas Lily foi rápida. Quando o viu direcionar a varinha para a família, se colocou na frente deles e recebeu o feitiço que já estava sendo lançado.
Tudo não durou segundos: o grito de James, o choro de Neville, o chamado de Alice, a luz verde. Foi atingida em cheio e primeiramente sentiu frio. Então sentiu uma saudade avassaladora, mas não teve tempo de entender exatamente do que.
Então não sentiu nada.
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