Como dizer adeus em robô
4 O beijo de Ripper
Eu estava sendo testada, sem dúvida alguma. Ou poderia estar até pagando por pecados da vida passada. Sei que se estivesse acontecendo com outra pessoa, eu estaria achando engraçado e, juro, olhando de fora, sei que é uma puta sacanagem do universo, mas se Merlin tem um propósito maior para mim, poderia ter me deixado sem essa.
Como, afinal de contas, eu vim parar aqui?
Pansy Parkinson estava sentada na primeira fileira e, se antes ela me olhava com nojo (ou sequer olhava), hoje faz questão de me lembrar que eu tinha um trato com ela.
Kim estava na fileira ao lado, e tinha ficado responsável por realizar os testes e selecionar todo o elenco, auxiliando Sutcliffe. Kim exalava ansiedade aqueles dias e parecia mais seguro não incomoda-la até o início dos ensaios. Ela olha para nós duas de repente e gesticula para que Pansy me deixasse em paz.
E também tinha Robert, da Lufa-Lufa, que estava sentado no meio do palco com um monte de pergaminhos e sorri quando me vê. Eu aceno, sentando na primeira poltrona que vejo.
— Por que não vai falar com ele logo de uma vez? – eu ouvi da serpente ao meu lado.
— Por que você não vai cuidar da sua vida? — resmunguei, irritada, percebendo que tinha me sentado ao lado da cobra.
Malfoy dá de ombros:
— Estou retribuindo um favor — responde, completamente sarcástico.
— Sonserinos são capazes de fazer isso? — falei.
Draco me olha de lado, provocando-me.
— Não tem ideia do que um sonserino é capaz.
— Prefiro não saber — respondo — E eu não pedi sua ajuda, não sei em que momento pareceu que eu te dei alguma intimidade — falei.
— Você está babando – Malfoy responde sem me olhar.
Vimos Karolyne Dalavia, da Corvinal, se aproximar e começar conversar gentilmente com Robert. Eu dou um suspiro e Malfoy não diz nada.
— Eu não estou babando nele… Estou só alheia. Estou com muita coisa na cabeça — respondi baixando a guarda um pouco.
Malfoy me olha, confuso:
— Quer falar sobre isso? — ele pergunta, um pouco hesitante.
Dou risada.
— Com você? Claro que não! — retruquei, corrigindo a postura, lembrando com quem estava falando. E falar com ele era como sangrar perto de um tubarão.
Mas eu estava péssima. Eu precisava mesmo conversar.
Desde que fiz um trato com Pansy Parkinson, as coisas só vieram a piorar. Todo dia, Parkinson deixava escapar algum tipo de indireta. É como se ela tivesse colocado um alvo na minha testa.
— E como vai a sua busca? – alfinetei Malfoy – Já perguntou sobre ela para os elfos? Os fantasmas, quem sabe? Tenho certeza que os quadros sabem de alguma coisa. Ou talvez você devesse procurar um psicólogo logo de uma vez para tratar isso.
Malfoy me olhou sarcástico, mas eu sabia que ele estava se divertindo. Minha vontade de matá-lo chegava em qualquer pessoa naquele castelo, menos nele.
Seria cômico se não fosse trágico.
— Você não é desse mundo – ele apenas concluiu. — Como é estar apaixonada e ser uma grande covarde? — ele muda de assunto, o que me irrita por um breve momento. Primeiro, apaixonada? Como ele ousa? Segundo, uma grande covarde? Desde quando Draco Malfoy virou exemplo?
— Por que acha que estou apaxonada? — falei, e Draco deu de ombros, me olhado como se fosse óbvio...
— Me parece bem óbvio...
— Eu nunca me apaixono.
— Não, é? – perguntou, com um sorrido ridículo.
— Não.
— E o que acontece se você se apaixonar?
— Eu não vou me apaixonar, eu não me apaixono por ninguém.
— Não consigo acreditar.
— Isso porque você é um grande canalha e o maior motivo de muitos choros no banheiro feminino — revirei os olhos — Isso porque não tem um pingo de respeito pelas garotas desse castelo... Isso porque acha que qualquer pessoa se apaixonaria por você, sem nem você fazer esforço... Isso porque é um grande idiota.
O que mais me irritava era que ele sabe que estou certa e sabe que é um grande egoísta. Sabe que o único motivo para estar procurando uma garota que ele nem conhece é somente pelo seu ego.
— Garotas se apaixonam por mim. O que posso fazer? — ele dá de ombros.
Balancei a cabeça.
— Elas não se apaixonam por você. Elas só querem diversão. Você acredita nisso? Amor? Acredita quando elas dizem que te amam?
— É amor, não é Papai Noel, Hermione.
— Bom, tá legal, e o que é que eu não estou vendo?
— Vai saber quando sentir.
Fiquei em silêncio, encarando Malfoy e evitando olhar para o palco e trocar olhares com Parkinson.
Amor, amor, amor. Sinceramente, para que que serve? Simplesmente para tirar nosso foco de coisas que realmente importam e, adivinha, nunca nunca nunca termina bem.
— Eu não tempo para isso — respondi.
— Eu imaginei… Na verdade, não estou surpreso vindo de você… Você perde as coisas boas da vida desse jeito, Granger.
Eu revirei os olhos.
— Obrigada, Malfoy, mas acho que não preciso de conselhos amorosos vindo de você, que está há dias procurando por uma garota que claramente não quer ser encontrada.
Ainda sim, não consegui irritar ele do jeito que ele me irritou. Malfoy tinha aquela vantagem; um ego enorme que não se deixava levar tão fácil.
Ele dá risada.
— E o que você sabe? Não estava lá. Se bem que acho mesmo que você está muito envolvida nessa história — responde, levantando o dedo indicador.
— Eu? Jamais. Eu só acho que… Se olhar com cuidado… talvez… vai ver que pode ter uma pessoa legal bem de baixo do seu nariz… se você der uma chance.
Uma parte de mim queria que ele quebrasse a cara, porque eu conhecia o histórico do Malfoy e o que interessava ele era o jogo, a caça. Malfoy não conseguia manter um relacionamento por mais de duas semanas.
Mas ao mesmo tempo, ver ele com tanta esperança me apertava o coração. Não ia terminar como ele queria.
— Te falo o mesmo, Granger — ele respondeu, sério.
Antes que pudesse responder, Sutcliffe chegou na sala de teatro, pedindo desculpas pelo atraso.
— Fiquei sem café – ele explicou mostrando a caneca escrito "Ringo" – Sabem como é... Ok, vamos lá – e Sutcliffe subiu no palco, e depois de muito falatório e passar alguns recados, ele anuncia: — Pamela Parkinson, você dará vida a nossa heroína Arabella. Vai ser muito dramático, você é perfeita para o papel — Sutcliffe diz, entregando o roteiro para Pansy que apenas agradece sem esboçar qualquer reação. Sutcliffe então completou: — E, como par romântico da Srta. Parkinson, nosso príncipe das trevas, Alec Foster!
Alec arqueia as sobrancelhas, visivelmente surpreso.
— Uau, eu não esperava por isso… Sutcliffe, eu nem fiz os testes — ele diz passando a mão no cabelo.
— Bom, alguém viu seu trabalho duro e acredita que você merece o papel… E para ser sincero, eu concordo com esse alguém — ele dissera olhando rapidamente para Kim sem que Alec percebesse.
Ao meu lado, Malfoy diz baixinho:
— Alec sempre faz testes para o papel principal e nunca consegue passar — ele me conta.
— Por que não? — pergunto, no mesmo tom.
— Vamos dizer que há uma família muito rica no Mundo Mágico que sempre faz doações um tanto quanto generosas para o Clube de Teatro… — ele responde — Doações muito generosas.
Eu reviro os olhos, me lembrando das apresentações anteriores em que Malfoy sempre tinha um papel de destaque nas peças.
— E essa família desse aluno não fez nenhuma doação esse ano? — perguntei, provocando-o.
Malfoy riu: — Claro que fez, mas esse aluno apenas disse que esse ano não faria parte disso… Pelo menos uma vez.
— Você recusou o papel? — eu pergunto, um pouco chocada com a história.
Malfoy balança a cabeça.
— Ah, sei que eu daria um ótimo Étienne, mas simpatizei mais com Ripper — ele responde, metido. Continuo olhando para ele, esperando uma resposta sensata. E ele diz, por fim, parecendo sincero: — E, além do mais, Alec merece mais.
Ripper era um anjo, assim como Arabella. Praticamente um vilão. Descrê no amor e faz de tudo para resgatar o lado racional de Arabella.
O final é quase que óbvio: Arabella abandona tudo, a cidade, o trono, seu povo e sua família para viver feliz com Étienne. Tragicamente, os dois morrem porque são de mundos completamente opostos. Incendiário. Trágico. Dramático.
Alec estava em um misto de felicidade e confusão e veio se sentar ao nosso lado, com o roteiro nas mãos.
Penso que se não fosse por aquele roteiro, eu poderia ter menos problemas hoje.
— Parabéns — eu disse, cumprimentado-o.
— Obrigado, Hermione — ele dissera, feliz. Malfoy dá um tapa nas suas costas e ele agradece sorrindo.
— Precisamos comemorar — Malfoy dissera.
Pansy Parkinson brotara do nosso lado, de repente:
— Hoje, na Sala Precisa — ela diz, o Malfoy e Alec comemorarem. E, para mim, com os olhos ameaçadores, apenas disse: — E você está convidada, Granger. Bem-vinda ao clube de teatro, oficialmente.
Bufei.
Não parecia que tinha negociação.
Volto a atenção para Sutfcliffe que finalizava distribuição de papéis. Fico extremamente aliviada por não ter que fazer parte do elenco porque fiquei responsável pelos figurinos da peça, o que, pra mim, era praticamente uma vitória.
— Dúvidas? Estamos esclarecidos? — Sutcliffe perguntou e todos balançaram a cabeça, sem discussão — Então, parabéns a todos e nos vemos na semana que vem! E, nossa, como pude esquecer?! Draco! Onde está com a cabeça? Que tenda é aquela no Campo de Quadribol?
O resto dos alunos já tinham saído, e na sala só sobrara Parkinson, Kim, Alec, Zabini e Malfoy, que protestava com Sutcliffe.
— Você não pode usar o Campo de Quadribol para essas coisas. McGonagall não vai em pessoa tirar aquela tenda se você não sair por conta própria… ela vai mandar eu. E eu não quero pisar em um Campo de Quadribol, então seja gentil com seu professor do teatro — Sutcliffe continua dizendo.
Malfoy bufa: — Ninguém está sendo prejudicado.
Sutcliffe se virou para Malfoy como se prendesse o riso: – Draco, fiquei sabendo dessa sua perseguição por uma certa garota…
Então Sutcliffe olhou pra mim, como Parkinson fazia toda vez que cruzava comigo no corredor, com o alvo na minha testa. Fechei os olhos lentamente, sentindo meu estômago se revirar todo.
—… e te conheço o suficiente para saber que você faria uma coisa assim — Sutcliffe desceu do palco com Malfoy atrás – Apesar de achar que não é necessário, uma vez que só é preciso você parar de reparar na volta que seu umbigo faz e começar a prestar atenção no que está um palmo a sua frente. Mas, de qualquer forma, apenas tire aquela tenda do Campo de Quadribol. Ou você vai ter sérios problemas e eu não vou intervir em nada. Você tem até amanhã. O último a sair, apaga as luzes.
Suspirei. Ok, Sutcliffe sabia… Parkinson sabia… Tudo estava saindo do controle.
Ouvi Malfoy reclamar atrás de mim, e dei de ombros, indiferente, mas querendo enfiar minha cabeça em um buraco. Parkinson já tinha saído com Kim, deixando só eu lá para enfrentar a fera. O longo e elegante corredor da sala de teatro mais parecia o caminho para o inferno agora.
—… Estou falando com você, Granger — ele dissera atrás de mim. Me virei lentamente. Ainda estava tentando entender como até Sutcliffe sabia e também percebendo que não iria manter aquela história por muito tempo.
O meu plano, na verdade, era manter a mentira até Malfoy desistir.
Mas aquilo também parecia que não tinha negociação.
— O que você quer? — perguntei, irritada, sentindo todos os fios do meu cabelo se arrepiarem.
— Você tem que me dizer o que você sabe.
— Eu já falei, eu não sei de nada — discuto enquanto caminho até a saída e vejo as luzes da sala se apagando, uma por uma.
Senti meu rosto corar no escuro. Eu queria sair correndo, mas não sentia as próprias pernas, e estava escuro demais, poderia facilmente esbarrar em algum degrau e cair.
— Estou ficando sem opções — ele desabafa, por fim.
— Então desiste — falei rápido. Malfoy me olhou boquiaberto, como se eu tivesse soltado alguma ofensa.
— Eu não posso desistir. Onde está a graça nisso?
— Não é para ser engraçado, Malfoy.
Ele me olhara sério, como se realmente se importasse em continuar buscando, mas de repente Malfoy parecia confuso.
Talvez ainda não tivesse ouvido de alguém que era melhor desistir.
Mas talvez aquela fosse a hora perfeita para dizer a verdade. E eu respiro fundo antes de tomar coragem para falar.
A sala de teatro estava praticamente escura quando paramos na porta, somente com luzes do palco acesas. Ele não estava vendo meu rosto e eu poderia sair correndo depois de falar…
— Olha, Malfoy, preciso te dizer uma coisa – passei a mão na testa, me preparando para sair correndo.
— É só que… Ela parece uma pessoa que sabe o que quer, mas parece perdida, parece que quer estar com alguém que quer estar com ela – ele de repente me conta. Arqueio uma sobrancelha. Era aquilo que ele achava? — E eu quero estar com ela, sabe?
Eu poderia cair dura ali na frente dele facilmente.
Eu poderia me jogar da janela se tivesse uma janela na sala.
Era demais para mim.
— Você nem conhece ela — falei. Não tinha conseguido pensar em um argumento rápido dessa vez.
— Mas eu vou — ele respondeu abrindo a porta da saída.
Eu suspirei.
— Malfoy, eu preciso te falar uma coisa.
Malfoy se vira para mim, curioso.
Abri a boca e quase disse algo. Quase. Tudo poderia ter sido diferente se eu tivesse dito alguma coisa naquela hora. Mas não disse. Só fiquei olhando. Paralisada. Queria estar qualquer outro lugar, menos ali.
— Ah — enfim, consegui falar — Foi legal o que você fez pelo Alec… de ter desistido do papel principal esse ano.
Malfoy arqueou as sobrancelhas. Me virei para fechar a porta, vendo as luzes da sala se apagarem por completo.
— Tem certeza que era só isso que queria me falar?
Antes que eu pudesse responder, Parkinson apareceu no corredor e foi até nós. Ela teve que inventar qualquer desculpa para Malfoy ir sozinho para o Sala Comunal da Sonserina e nos deixar sem fazer perguntas. Talvez porque Malfoy é meio lento às vezes ou talvez porque todos fazem o que Pansy quer.
Ou talvez os dois.
Pansy me arrastou de volta para o teatro, e, só balançando sua varinha, fez o piano aparecer na sala de teatro.
— Temos muito trabalho antes da festa, Granger — ela dissera, me empurrando até o piano.
— Eu odeio vocês sonserinos e tudo que vocês tocam — eu briguei.
— Eu também odeio ter qualquer envolvimento com grifinórias metidas a inteligentes — ela retruca, se sentando em uma das poltronas, mas sem se importar com a ofensa.
Eu bufei.
— Não consigo fazer isso sob pressão — cruzei os braços. Encarei o piano e senti que ele me encarava de volta.
Ninguém tinha culpa, mas desde que a história se espalhou por Hogwarts, eu não consegui tocar mais nada e estava muito bloqueada.
— Você não está se esforçando o suficiente, Granger — ela diz. Eu olho para ela, irritada. Ela bufa — Ok, como eu posso te ajudar?
— Ninguém pode me ajudar. Eu já estou presa em um trato com você. Foi como fazer um pacto com o diabo — respondi.
— Você é muito dramática. Eu te pedi um favor.
— E o motivo nem é tão bom.
— Não fale dos meus motivos — ela dissera cruzando os braços.
— Por que vocês terminaram? Tem certeza que isso vale a pena? — perguntei, ainda discutindo.
Pansy suspirou. Achei que ia dar uma resposta grosseira, mas, calmamente, ela respondeu:
— Eu terminei com ele nas festas de fim de ano… Era demais para mim. E, sim, vale a pena.
Eu queria perguntar o que era demais, mas desconfiava que sabia a resposta e provavelmente envolvia o relacionamento sólido e duradouro com a artes das trevas que a família Malfoy tinha.
Fico um pouco surpresa dela estar me contando aquilo, e por um momento esqueço que Pansy Parkinson é Pansy Parkinson e deixo as desavenças de lado.
— E dessa vez você acha que vai ser diferente? — falei, quase que retoricamente.
Ela deu de ombros: — Passo tanto tempo com Draco que não sei quem eu sou longe dele… Mas nas férias eu me aproximei de outra pessoa e sinceramente estou confusa.
— Significa que estou livre do nosso trato? — falei tentando quebrar o gelo. Queria perguntar tantas coisas para ela.
Pansy riu.
— Você é muito chorona! Eu vou te ajudar… Comece do começo — ela disse, se levantando.
Eu suspirei.
But baby I know
(mas, baby, eu sei)
Cause you love, love, love
(Porque você ama, ama, ama)
When you know I can't love
(Quando você sabe que eu não posso amar)
You love, love, love
(você ama, ama, ama)
When you know I can't love
(quando você sabe que eu não posso amar)
You love, love, love
(você ama, ama, ama)
When you know I can't love you
(quando você sabe que eu não posso amar)
Foi quando me dei conta de que segredos não duram muito em Hogwarts.
Que o universo conspirava contra mim eu já suspeitava, mas só foi no momento em que vi Blasio Zabini entrando na sala, com um largo sorriso no rosto, como se ele tivesse descoberto a cura do câncer, que eu tive certeza.
Foi mais ou menos dessa forma que Zabini descobriu que a garota que estava todo esse tempo procurando, o novo amor do Malfoy, era eu.
E nem tinha para onde correr.
— O que está fazendo aqui? – nós duas perguntamos juntas. Rapidamente saí do piano e desci do palco. Zabini, ainda com seu sorriso de quem ganhara na Mega-Sena Bruxa, se sentou numa das poltronas, me fitando, como se somasse um mais um.
— Espera, espera aí – ele disse AINDA SORRINDO – É você.
Levei as mãos ao rosto. Merlin, Merlin, Merlin.
— Blaise, não… – Parkinson começou ao meu lado.
— É você – Zabini apontou pra mim — A música é sua. É você que o Malfoy quer.
Incrível como passei a ouvir aquilo com mais frequência do que gostaria. Parkinson, Ron e Harry não me deixaram esquecer ainda. Mas, sinceramente, querer era uma palavra muito forte.
Pansy olhou pra mim, sem saber o que fazer. Me sentei no palco, apoiando o rosto nas mãos novamente. Pensei em inventar uma história, mas Zabini já tinha sacado tudo.
— Não acredito — ele riu. — Mas, para ser sincero, é bem óbvio. Como não percebi antes?
— Você não vai contar, né? – Parkinson finalmente perguntou.
— Me deem um bom motivo.
Zabin se virou pra mim, divertido. Pansy suspirou, impaciente. Os dois trocaram um olhar que me deixou curiosa, um daqueles olhares carregados de muita coisa que quem estava por fora não tinha ideia do que estava acontecendo. Aqueles olhares dos filmes e dos romances… Aqueles olhares de quem ama quando sabe que não pode amar.
E aí eu entendi tudo.
E aí eu entendi quem era a pessoa que deixou ela confusa.
Eu senti uma necessidade absurda de perguntar para ela "você não está vendo o que eu estou vendo?", mas estava muito longe de querer me intrometer. Amor, amor, amor. Não serve para absolutamente nada.
Pigarrei, tentando chamar atenção e me concentrar.
Um problema de cada vez, Hermione.
— Quer motivo melhor que o fato de que "ela" — fiz aspas — sou eu?!
— É, Draco vai surtar — Zabini voltou a sorrir daquele jeito, mostrando todos os dentes.
Eu não ia entregar Pansy, e ela parecia muito agradecida e aliviada naquela hora.
— Foi o que eu disse – Parkinson falou. Não que ela merecesse…
— Ele não tem direito nenhum de surtar – cruzei os braços — A música é minha e a única pessoa que pode surtar sou eu. Principalmente porque ele me expôs.
— E se você está tão irritadiça, por que está fazendo a continuação? – Zabini perguntou.
— Isso não é da sua conta – respondi.
— De forma alguma – ele se inclinou, apoiando os cotovelos no joelho – Mas isso vai ser interessante.
Depois de alguns xingamentos, gritos e feitiços de ataque, Zabini prometeu que não contaria nada para Malfoy. Mas, em troca, queria fazer parte do “processo”.
— E eu tenho opção, Zabini? Está faltando quem aqui, Snape? — resmunguei pegando minhas coisas.
— Granger, você precisa terminar… — Parkinson discutiu.
— Hoje não! — briguei, o que fez ela dar um passo para trás, com as mãos em defesa. Zabini deu risada.
— Não, hoje não… temos uma festa para ir.
Me lembrei que o Clube de Teatro tinha tomado a Sala Precisa. Eu, como monitora da Grifinória, queria poder intervir, mas tive que me abster, já que Malfoy, Kim e Robert, monitor da Lufa-Lufa, se absteram também.
E, além do mais, poucas pessoas sabiam dar uma festa como o Clube de Teatro.
Eu estava com o mesmo uniforme o dia inteiro e carregava minha bolsa cheia de livros e anotações quando Zabini arrastou eu e Pansy Parkinson para a festa.
Pamela já tinha recuperado o bom humor e entrou no salão como a protagonista que ela era. Do canto do olho, eu percebi Zabini acompanhando cada passo que ela dela, com um sorriso no rosto.
Era tão óbvio.
— Você foi na sala de teatro atrás dela, não foi? — perguntei, sorrateira.
Zabini me olhou desentendido, e eu abri um sorriso sínico. Ele tinha entendido.
Zabini bufara.
— Vou ser sincero com você porque sinto que você já é praticamente da família… Eu fui. Mas ela não me aceita.
— Sinto muito — respondi, ignorando a provocação. “Da família”. Eu preferiria a morte.
— Um dia ela vai aceitar — ele deu de ombros.
— Sonserinos não aceitam um não como resposta, né? — eu falo, me lembrando que Malfoy também se recusava nãoencontrar a garota que estava procurando.
Zabini dá risada e me puxa para o bar no canto da sala. Ele me oferece um copo de firewhisky, que eu gentilmente recuso, fazendo ele rir enquanto vira uma dose na minha frente.
— Não, sonserinos não aceitam um não como resposta… e você está em um fogo cruzado, Granger — ele diz.
— Eu sei — assumi, baixando os ombros, e de repente sinto que posso conversar com Blaise Zabini sobre aquela situação, por isso falo para ele: — Estou bloqueada. Não consigo terminar a música.
— Bom, já que a música é para ele… escreva sobre ele.
— A música não é para ele… — eu resmunguei.
— Você me entendeu…
Cruzei os braços, como uma menininha, me recusando escrever qualquer linha para aquela serpente, e procurei aquela cabeleireira loira no salão.
Malfoy estava entretido em uma conversa com Pamela e Alec quando me pegou olhando para ele. Eu senti meu coração acelerar um pouco e foi uma das piores sensações que tive na vida, enquanto me lembrava das palavras de Lilá Brown e Parvati Patil na primeira semana de aula — que naquela hora soaram mais como a maldição de uma bruxa:
— Você não vai sobreviver ao Clube de Teatro! Em uma semana, vai conhecer uma versão do Draco que vai te deixar caidinha — Parv responde.
— E vai entrar em pane porque seus sentimentos de robô não estavam programados para isso — Lilá completou, rindo.
Balancei a cabeça, tentando afastar aqueles absurdos da minha cabeça. Ele ainda era um Malfoy. Ele ainda era uma cobra.
Quando cruza o olhar com o meu, e me pega no flagra, Malfoy vem em nossa direção, e Zabini parece se divertir quando se serve de mais um copo de firewhisky. Sem pensar, pego o copo da mão dele e tomo um generoso gole.
Sinto a bebida descer queimando a minha garganta, na vã tentativa de afastar as palavras de Lilá e Parvati da minha cabeça e fazer meu coração voltar para o lugar.
And these fingertips
(E esses dedos)
Will never run through your skin
(nunca irão correr pela sua pele)
And those bright blue eyes
(E esses olhos azuis brilhantes)
Can only meet mine
(só podem encontrar os meus)
Across a room filled with people
(em uma sala cheia de pessoas)
That are less important than you
(que são menos importantes do que você)
Mas uma coragem — ou covardia? — desceu em mim e, antes que Malfoy encostasse no bar, eu me despedi de Zabini e saí da Sala Precisa correndo, como a Cinderela fugindo do príncipe quando o relógio bate meia-noite.
O fato era que, naquela noite eu pelo menos tinha mais uma parte da música e era toda do Malfoy.
[…]
Depois daquele dia, Zabini passou a me mandar origâmis durante as refeições e em algumas aulas, fazendo piada da situação.
É claro que no começo eu estava irritada com o Universo e só queria preservar a profissão dos meus pais e arrancar todos os dentes brancos dele, mas acabei me acostumando com seu humor sonserino e respondia de volta.
Era por isso que em uma daquelas noites estávamos nós três de volta à cena do crime: a sala de teatro.
De novo, em um passe de mágica, Parkinson fez o piano se transfigurar na sala. Aquilo me fez pensar que ela era realmente uma bruxa poderosa, porque fazer aquele tipo de magia, com as aulas que tínhamos em Hogwarts, era muito avançado para nós, e ela fazia sem nenhum esforço.
— Eu não consigo fazer isso sob pressão — falei de novo, encarando o piano enquanto ele me encarava de volta.
— Você precisa pensar no começo. Por exemplo… o que você estava pensando naquela noite? O que você estava sentindo? — sentada em uma poltrona, ela tentou me ajudar.
Eu sentia raiva. Muita raiva.
Eu não queria contar para Pansy que já tinha uma parte feita da música e não faltava muito para terminar. Não conseguia contar para ela e cada vez mais eu sentia que estava me afogando em segredos.
— Você precisa relaxar. Senta aí, vamos conversar — Zabini falou, cruzando as pernas.
— Eu dispenso — falei.
— A gente não morde, Granger — Pamela diz. — Para quem você fez essa música? Weasley? Potter?
— Eu não fiz essa música para ninguém — revirei os olhos.
— É óbvio que fez – Zabini falou — Granger, nós não vamos contar pra ninguém...
— Eu estou sendo praticamente ameaçada por vocês, esse é o único motivo — eu lembrei. Pansy riu.
— Você poderia simplesmente ter dito não — Pansy deu de ombros.
— Eu tentei.
— Ah, para! Você está aqui por conta própria... Foi para alguém de outra Casa? – Parkinson perguntou, voltando para o assunto.
— Alguém da Lufa-Lufa? – Blaise continuou.
— Corvinal? — ela disse.
— Ou alguém da Sonserina? — Blaise enfim perguntou, sorrindo sarcástico — Conta aí… sem julgamentos. Um amor proibido de uma grifinória e um sonserino é algo que devo contar para os meus filhos.
— "Era uma vez uma grifinória que se apaixonou por um sonserino e…".
— Que isso?! Podem parar – interrompi Parkinson — Não é uma música de amor.
— Mas é uma música de amor, Granger – Blasio disse – E não precisa se envergonhar, Hermione, sonserinos são ótimos.
— Não comigo.
— Não é para qualquer um se apaixonar por alguém da Sonseria — Pansy falou.
— É, por que acha que Draco não namora ninguém?
— Porque ele é um canalha — eu respondi. Zabini riu.
— Você tem muito que aprender.
— Porque se apaixonar por um sonserino é pedir para sofrer — Pansy respondeu.
— Essa é graça – Zabini disse – E quando você se dá conta, BUM, você está encrencado. Tarde demais, baby.
— Então por que vocês continuam fazendo isso? Por que continuam repetindo esses erros? — perguntei.
— É a nossa maldição — Pansy deu de ombros, trocando um olhar com Zabini.
Senti que estava sobrando, de repente.
— Está tarde, eu preciso ir — falei, me levantando. Pansy revirou os olhos
Subi no palco para pegar minha bolsa e Pansy veio atrás, traiçoeira, e falou baixinho:
— Nós precisamos conversar, mas não agora... E obrigada pelo que você está fazendo — ela disse, quase hesitante. Sinceramente, um "obrigada" e palavras gentis saindo de Pansy Parkinson eram novas para mim.
Não sabia ao certo o que falar, embora tivesse sido tomada pela curiosidade de novo. Ela tinha descoberto que eu estava terminando a música e não tinha contado para ela? Ela ia desistir do trato? Ela ia me libertar? Um milhão de coisas se passaram na minha cabeça enquanto eu ia embora.
E foi no meio dessa distração que no corredor, saindo da sala de teatro, eu esbarrara com uma pessoa infeliz e vi todas as minhas coisas indo para o chão.
Irritada e pronta para brigar, comecei pegar meus livros resmungando e dei de cara com Kimberly.
Ao mesmo tempo que me olhava e olhava toda a bagunça no chão, Kim tinha nas mãos um pedaço de pergaminho… Na verdade, o último pergaminho que alguém poderia ver, era o pergaminho que estava na mão dela. E eu via os olhos dela correrem cada linha e lembrar do pergaminho que o Malfoy tinha.
Ela sorria, mas parecia curiosa. Acho que ainda estava tentando ligar os pontos.
Eu fechei os olhos, lentamente, me xingando por dentro enquanto guardava meus livros de volta. Peguei o pergaminho da mão de Kim e amassei, jogando no fundo da bolsa. Por que eu tinha escrito aquilo? Por que tive a ideia de colocar no papel o meu maior segredo?
— É você — Kim finalmente disse terminando de ler. E, com os olhos arregalados, ela diz: — Draco vai surtar…
— Kim, me prometa que você não vai… — eu tentei, o que mais parecia uma suplicação.
—… Mas agora vendo as coisas desses ângulo… está tudo tão óbvio. É claro que é você — ela continuou.
Olhei a minha volta para ter certeza de que o corredor estava deserto. Era tarde e Kim provavelmente estava fazendo sua monitoria, mas mesmo assim puxei ela pelo braço para um canto sem qualquer quadro para nos ouvir.
— Sim, sou eu, mas ele não pode saber ainda — falei baixinho.
— Meu Merlin, não posso acreditar — ela tampou a boca com a mão, ainda chocada.
— Vai acabar comigo, Kim… — desabafei.
— Pansy Parkinson vai acabar com você. A Sonserina inteira vai te comer viva — ela disse.
— Pansy já sabe.
— O quê? Como eu fiquei sabendo só agora? E desse jeito?
— Não era para ninguém saber!
— Tarde demais, Hermione… E o Malfoy não vai descansar até te achar — Kim falou.
— Eu vou contar… um dia, talvez — me defendi.
Ela suspirou
— Vai para sua Sala Comunal, ok? Nos vemos amanhã. Não vou descontar pontos da Grifinória por você estar zangando pelos corredores esse horário — ela apenas disse, com um sorriso gentil.
— Obrigada, Kim — agradeci.
Vi Kim — depois de me abraçar e dizer “é você" mais uma vez – desaparecer no corredor, e fui para a Grifinória.
Era muito tarde e se eu soubesse que iria encontrar ele no sétimo andar, teria dado meia volta, ou demorado um pouco mais no caminho, mas não! Merlin queria me ver sofrer.
E lá estava ele. Draco Malfoy, no corredor do sétimo andar.
— Granger.
— Malfoy.
— O que faz fora da cama uma hora dessas? — ele perguntou, cruzando os braços.
— E eu te devo satisfações? — respondi, mal humorada. Ele não precisou dizer nada, só me ohou para me lembrar que sim, eu devia satisfações, afinal ele era monitor e estava fazendo seu trabalho.
Eu não falava com Malfoy desde a comemoração do Clube de Teatro na Sala Precisa, em que eu tinha praticamente fugido para não falar com ele, porque de repente eu comecei sentir borboletas no estômago quando olhava para ele.
Descobri que não tinha uma boa desculpa. Biblioteca? Não, não iria convencer. Cozinha? Bom… até convence. Ou era melhor eu falar logo de uma vez que…
— Estava na sala de teatro – respondi dando de ombros – Terminando a sua música. Fiz um trato com a Pansy. Sabe como é, termino a música e conto para você que sou eu a – revirei os olhos – garota sortuda que está você procurando.
Vi ele prender a respiração por um instante e seus olhos brilharem, mas se recompôs. Foi rápido.
— Essa foi boa, Granger – Malfoy disse – Quase me convenceu.
— Eu sei, inacreditável – murmurei. Viu só? Até mesmo assumindo em voz alta parecia a maior atrocidade que saía da minha boca.
— É sério, onde estava? — ele insiste.
— Não sei se isso é da sua conta – respondi. Malfoy revirou os olhos.
— Sou monitor e você está fora da cama depois do toque de recolher — ele disse. Nossa!, que tapa na cara. Sabia que ele iria usar aquilo contra mim — Sabe muito bem que posso te colocar em detenção e descontar pontos da Grifinória.
— E eu sou monitora da Grifinória, caso não saiba – me defendi — Também tenho direito de andar por Hogwarts no meio da noite.
— Me convenceria se fosse sua noite de monitoria, mas… que curioso – ele sorriu irônico –, não é sua noite.
— Qual a importância disso? Finge que eu não me viu e me deixa ir para a Grifinória — bati o pé.
— Falando desse jeito nem parece Hermione Granger – ele se encostou na parede, de braços cruzados.
— E você com esse jeito todo certinho nem parece Draco Malfoy – rebati cruzando os braços também. Malfoy riu – Ou você está esquecendo das várias vezes que te livrei de detenções quando fazia minhas monitorias?
— Não muda de assunto – ele respondera.
— Eu já disse – insisti – Estava na sala de teatro.
— Que diabos estava fazendo lá?
— Ei, ei, mil desculpas por ocupar o trono da sua Cleópatra, mas a sala de teatro é uma sala de aula livre para todos os públicos e eu não preciso da sua autorização para ir lá. Ou para qualquer outro lugar desse castelo, sua cobra.
— Eu nunca disse que tinha escutado ela na sala de teatro, Granger — ele dissera, como se já esperasse que eu fosse dar algum deslize de novo.
Eu revirei os olhos.
— Não é óbvio? — eu falei.
Ele ficou me encarando, sem dizer nada, e depois olhou para a janela e se voltou pra mim com um sorriso de lado pregado na cara. Eu pensei: fudeu. Porque por um instante ou eu tinha adquirido um tipo precoce de arritmia ou meu coração começou bater forte por causa daquela cobra.
— Você parece que está com ciúmes — ele disse.
— Você parece que veio atrás de mim — rebati.
— Você bem que gostaria.
— Não me provoca, Malfoy, por que está aqui?
— Eu vim, Granger, porque eu preciso saber uma coisa.
Eu não disse nada e nem deu tempo. O meu coração estava completamente acelerado quando Draco, sem receio nenhum, sem vergonha na cara, passou a mão pela minha cintura e me deu um beijo. E eu juro que aquilo era o que eu mais estava torcendo para ele fazer, ali mesmo, no meio do corredor.
E como ele ousa? Como? Como ele ousa passar por cima da minha autoridade dessa forma? Me deixando completamente sem ar... E, só por um momento, ele não era o Malfoy e eu a Granger... Ele não era Sonserina e eu não era Grifinória. Que raiva! Que vontade absurda que eu estava daquela boca...
Tentei passar um filme na minha cabeça de todas as vezes que odiei Malfoy, mas por um momento – e eu desejo que esse momento jamais se repita –, nada mais importava. Um asteroide poderia ter atingido o planeta e destruir todas as chances de vida que eu não iria me importar.
Para ser sincera, foi lindo. Foi perfeito, eu poderia congelar aquele momento e tirar um foto para colocar em um quadro na cabeceira da minha cama… Mas foi como um tapa na cara, porque não tinha ninguém melhor no mundo mágico para transformar minha vida em um pesadelo e eu juro que se eu estivesse com a minha varinha ali, não ia sobrar uma alma viva naquele castelo.
E a pior parte, diante de todos os pensamentos assassinos e medonhos que tive, foi que em nenhum momento eu pensei em parar, eu só queria continuar beijando ele, me perguntando por que tínhamos demorado tanto tempo.
Era o beijo de Ripper, aquele que iria destruir a minha vida, e era bom.
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