29 de setembro de 2013

– Quer ajuda?

Mariana abaixou o seu caderno aberto, escondendo um mangá do Attack on titas, com receio de alguém visse lendo aquilo, não queria ser zoada de Nerd. Subiu seu olhar um pouco e se depara com o garoto menor de altura da sua sala.

– Oi, Leandro. — Mariana fechou o seu caderno com mangá dentro. – Eu te chamei naquela hora para ver se teria como colocar o meu nome do seu exercício de matemática. Eu não sabia que era para entregar hoje... E acabei não fazendo. Posso colocar o meu nome então?

– Sim... — Respondeu meio desapontado, afinal a garota só chamava ele quando precisava de algo.

Leandro foi até a sua mesa pegar cinco folhas de cálculos complicados já feitos e entregou para ela. Mariana colocou o seu nome e nem teve o trabalho de levar as folhas para a professora, apenas devolveu para o baixinho do Leo, em seguida voltou ler seu mangá escondido. De jeito nenhum queria ninguém da turma soubesse que gostava nessas...Coisas.

Assim que entregou o trabalho para professora sentou no seu lugar.

– É aí? — Perguntou Bina mastigando a tampa da caneta bic que não possuía mais forma de uma tampa, só um plástico azul deformado todo mastigado cheia de saliva.- O que a branquinha queria? — Perguntou novamente. Bina era o colega funkeiro que sentava ao lado do Leandro devido ao lugar de mapa. ¹

– Ela não fez trabalho de novo e pediu para colocar o seu nome do meu. — Respondeu Leandro. Toda vez que sentia frustrado por algo ficava tentando puxar a pelezinha perto das unhas.

– Sério? Tu é muito otário, moleque. — Bina havia tirado a tapa da caneta da sua boca, abriu mais as pernas e depois voltou mastigar. — Isso que dar em ser capacho de mulher! Tem que colocar moral, pô!

Leandro não queria olhar para o seu amigo porque que estava certo. Gostava da Mariana já fazia dois anos. Era daquelas paixões platônicas que sabia que não levaria para lugar nenhum.

Apesar das distinções das personalidades, Bina considerava como seu melhor amigo. Enquanto Bina era funkeiro, todas as sextas ia para baile funk, tentou colocar aparelho odontológico para adentrar na onda de ostentação, ser o mais alegre e mais sociável da turma, Leandro era Nerd e virava as noites de sexta-feiras jogando videogames craqueado. Era calmo e quieto. Tinha uma manta de seriedade tão marcante, que aparentava ter mais idade do que tinha, especialmente quando apresentava algum trabalho em grupo, porque só ele que falava.

Apesar de tantas distinções tinham uma coisa em comum: Morava no mesmo bairro.

Rocinha.

Os dois eram vizinhos, enquanto Bina fazia questão de falar onde morava ( tinha até um certo orgulho), Leandro tinha receio. Quando alguém perguntava:

“Mora aonde, Leandro?” respondia zona sul, perto da avenina Niemeyer... Por aí.

– Tsc! Tem largar essa vida de virjão e pegar umas novinhas do baile comigo. — Arrancou um pedaço do plástico da tampa com dentes.

– Já disse que não vou lá. Parece que sofro discriminação por ser branco... — Disse Leandro ainda concentrado em tirar a pelezinha da unha quase deixando cair o seu óculos devido a angulação do seu corpo.

– Ah pô! Nada a ver, nada a ver! É só torrar no sol que fica na cor de chocolate que nem eu! Porque não convida a branquinha da Mari para ir sua casa? Para dar uns tratos dela?

– Você pode está brincando! Moro em uma comunidade. Esqueceu?

Bina revirou os olhos, cuspiu um pedacinho da tampa da caneta deformada e falou:

– Cara! Para de achar que todos vivem em uma novela de Manoel Carlos! Que todos são playboys na zona sul ou que todas as minas são como essas patricinhas de coque frouxo que parece que tem vento na cabeça. Existe pobreza, existem favelas. Pô, cai na real! Está parecendo aquelas menininhas que postam no face “Ai, como eu queria morar em Londres” — Bina imitou uma voz feminina. -Aqui é Br, caralho! Fica dando mole para esses gringos que só querem comer elas, dar um pé na bunda depois dessas gurias.

Leandro começou rir, gostava da revolta e do exagero de gírias do seu vocabulário. Bina era sincero e bem escrachado. Era por isso que considerava como melhor amigo.

– Oi, Leandro! — O garoto mais alto da turma com colar de pingente de máscara do Bleach, se aproximou da dupla. Podia ouvir de longe o som alto do j-rock do seu fone, usava lápis de olho e pulseiras de tarraxinhas.

– Fala ae, cotonete! — Bina deu um riso brincalhão, zoando com o pobre garoto.

– Oi...Bina...- Respondeu Renan meio com receio do amigo do Leandro. Odiava funkeiros. Porque alguém havia dito que rockeiros deveria odiar funk. — Então, Leo. O pessoal está a fim de ir no evento de anime nesse domingo. Vai ser do clube América. Vamos?

– Não. — Respondeu Leandro.

– Ah que isso! Anima ae! Nunca te vi em eventos. Vai ser legal.

– Não. Eu gosto mais de quadrinhos americanos, não japoneses.

– Você nunca leu. Como pode afirmar que HQ é melhor que mangá? — Tentou convencer o garoto com os olhos manchados de lápis de olho.

Leandro, tira a concentração nas suas unhas, encosta as costas na cadeira e olha para o seu colega. — Não gosto naquele lugar. Sempre que passo perto, sempre tem filas gigantescas, o ingresso é caro e vivem dizendo que não tem ar-condicionado.

– O que vocês estão falando ae? — Perguntou Leandro. — É baile?...É isso? — Perguntou confuso, não fazia a mínima ideia do que estavam dizendo. Nunca ouviu falar de “eventos”. O único anime que conhecia era Naruto, porque passava no SBT na sua infância.

– Vamos, Leandro! Olha, pega aqui o flyer. — Renan pegou do bolso da sua calça um papel de formato retangular dobrado e deu para o seu amigo baixinho. Leandro pegou o papel, desdobrou e começou ver anúncios de mangás, palestas de dubladores e um destaque bem grande do prêmio de concurso de cosplays: Playstation 3. Para o primeiro lugar do concurso.

– Podia ser o playstation 4. — Falou Leandro assim que viu o prêmio.

– Já é querer demais. Aliás, estamos no Brasil. Uma merda esse país! Todo culpa dos políticos, dos impostos. Odeio esse lugar. — Esbravejou Renan.

– Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país. — Falou Bina pegando a sua caneta transparente bic e começando morder na ponta.

– Hunf! Onde ouviu isso? Para saber uma frase do George Washigton? Aposto que nem sabe ler!- Disse Renan.

– Quem falou isso foi presidente John Kennedy e para sua informação tirei nove e meio na prova de história. — Bina respondeu com seriedade, sem aquele tom divertido que sempre tinha em sua voz.

Renan ficou estupefato. Como um funkeiro podia tirar uma nota tão alta em uma prova que estava difícil? Olhou para o Leandro querendo confirmação daquele fato.

– Verdade. — Confirmou Leandro. — Tirou também 9,8 em física.

– Beijinho no ombro, cotonete! — Bina deu uma pequena gargalhada.

Renan Lançou um olhar de ódio para o Bina.

****

– Cara, desiste nessa mina.

Era a terceira lance de escadas feito de cimento batido que havia subido. Enquanto Leandro levava todos os livros, Bina levava só um caderno e resto de caneta bic que tanto mordia. Os dois subiram juntos quase mortos de cansados.

– Desiste da branquinha, Leo. Vem para o baile comigo. Escuta o que estou te falando! Nessa vida nada se leva.

– Já tentei esquecer ela. — Respondeu Leandro, pegando fôlego para falar.

Assim que chegaram perto de suas casas, Leandro viu a mãe do seu amigo sentada no batente atrás da porta, chorando desesperada. Imediatamente viu Bina correr em direção da sua mãe.

Diante naquela cena, Leandro ficou sem saber como reagir. Ficou ainda mais assustado ao ver o rastro de sangue que tinha saído na porta de casa do seu amigo. Queria consolar os dois, mas resolveu ir embora e deixar o seu amigo sós com a sua mãe. Duas horas depois, Bina aparece em sua casa, sem sangue nenhum seu rosto.

– É meu pai. Pegaram ele. Querem 3 mil reais. — Ouviu Leandro assim que o viu entrar na cozinha. Nem batia mais na porta, já entrava direto na casa do seu amigo.

– O que?

– Meu pai, cara. — Bina senta da cadeira e coloca as duas mãos em cima da sua cabeça.

Leo, sabia que toda vez que seu amigo ficava preocupado com algo, fazia esse gesto para tentar pensar em algo.

– Mas... Quem levou o seu pai?

– Akatsuki...Porra, Leandro! O povo lá do CV¹ Meu pai é um safado e vagabundo. Não tem envolvimento nenhum com tráfico, mas fica cheirando com gente errada, tá ligado?

Leandro preferiu não falar nada. Dava graças a Deus ser ele e só sua mãe, nunca ninguém na família tinha esse envolvimento e sabia da família do Bina, mesmo eles conhecendo a favela inteira, só quem era o errado era o pai dele.

Leo foi até o armário da cozinha, tinha Nescau em pó e leite na geladeira. Fuxicou ainda mais a fundo e viu rosquinhas da Babel sabor nata. Pelo menos haveria um lanche decente para o seu amigo.

Preparou todo enquanto via o seu amigo no desespero. Não falava nada, apenas olhava para baixo mexendo a colher em cima da mesa.

– Come, vai se sentir melhor. — Leandro colocou um copo de Nescau pronto e o saco de rosquinhas aberta de frente para o seu amigo, mas parecia que isso não animou nem um pouco. É olha que ele gostava de comer.

– Obrigado, Leo. Mas não quero.

– Pelo menos ele está vivo, Felipe. — Toda vez que ocorria algo sério, esquecia o apelido e falava o seu nome verdadeiro. Bina odiava ouvir aquilo na boca dele, porque pesava mais ainda o clima da situação.

Bina apenas suspirou e ficou cabisbaixo. Leandro encostou mais na cadeira, havia ainda nem tirado a roupa do colégio, apalpou os bolsos e viu o papel dobrado que Renan havia lhe dado. Por querer qualquer coisa para distrair nessa situação tensa, começou olhar com afinco o flyer, olhou todos os elementos infográficos que destacava, mais atentamente viu no canto um personagem parecido nos mangas que Mariana lia escondida. Um pequeno homem vestido de manta verde com cintas das calças. Se identificou com a expressão séria do personagem, observou mais os detalhes do desenho e viu mais embaixo, quase com a fonte imperceptível escrito:

Rivaille, Attack on Titas.

– Felipe.

– Que, cara?

Leandro deu o flyer para o seu amigo. — Eu pareço com esse personagem?

Bina pegou o flyer com duas mãos como fosse algum manuscrito antigo, porque nunca vira algo tão colorido e desenhado. Ficou analisando, querendo decifrar qual naquele meio de tantos personagens que Leo se referia. — Qual personagem? Da mulher peituda? Gostosinha ela, hein!

– Não. — Leo revirou os olhos, levantou da cadeira e apontou o homenzinho que tinha mais destaque. — Esse.

– Ah!! Sei qual é, tô vendo. Bom...- Levantou o flyer na altura do rosto do seu amigo querendo ter uma panorâmica melhor para comparar. — Cara de bunda é o mesmo. — Depois largou o flyer de qualquer jeito na mesa. — Porquê? — Disse irritado, tanta coisa acontecendo e faz uma pergunta sem cabimento.

Leandro ao lembrar do concurso de cosplay deu um sorriso para o seu melhor amigo.

– Porque eu sei como nós conseguiremos dinheiro para se libertar o seu pai.

Notas finais
e aí pessoal o que acharam?

1 Mapa de lugar: Quando a professora demarca os lugares onde os alunos irão sentar

2 Cara: Gíria carioca.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.