Como Vivem Os Anjos
9 Segunda Temporada — Há Males Que Vêm Para O Bem
Notas iniciais
Antonella estava ao pé da cama, ajoelhada, apertando a gravata borboleta preta por cima da camisa de manga comprida branca de Lorenzo. Abotoou o fraque preto e contemplou o filho. Ele não parecia ter oito anos, parecia ser bem menos. Era muito pequeno, como se o mundo a sua volta o oprimisse e o impedisse de crescer. Ajeitou uma mecha de cabelo muito preto, quase azul, que lhe caía pela testa branca. Os olhos cinzas e foscos de Lorenzo fitavam o nada e ao mesmo tempo viam tudo. Ele era cego de nascença, mas isso nunca o impedira de ver as coisas ao seu redor.
Antonella levantou-se e olhou para si mesma no espelho de corpo inteiro rachado que era provavelmente a coisa mais cara no quarto daquele hotel barato. Usava um tomara-que-caia vermelho escuro como um odre de vinho que caía graciosamente por suas pernas longas até seus pés calçados com saltos altos de 10 centímetros da mesma cor que o vestido. Seu cabelo castanho escuro ondulado deslizava pelo pescoço alvo até o meio de suas costas. Não gostava de usar maquiagem, mas colocara mesmo assim, algo leve e discreto que cobriria as imperfeições de seu rosto. Agradeceu mais uma vez por seu filho ter puxado ao pai, que Deus o tivesse.
Era uma mulher estonteantemente linda, mas que definitivamente não sabia disso.
— Já estamos prontos, mamãe? — perguntou Lorenzo, em italiano, quase sem mover o rosto. Apenas seus lábios finos e róseos se mexiam.
— Quase, Lore — respondeu no mesmo idioma. — Pietro ainda precisa chegar.
Antonella sentiria falta de Roma. Do ar da cidade, dos monumentos históricos que embora existissem desde que se entendia por gente, sempre pareciam esconder algo novo. Sentiria falta das pessoas, da comida, das luzes que iluminavam a cidade de noite, da Cidade do Vaticano. Sentiria falta da villa em que vivia desde que descobrira sua gravidez, da casa onde acompanhara o crescimento de Lorenzo, dos pomares em que passeara com ele desde que era pequeno, de como ele desenvolvia os outros sentidos para dar lugar à falta de visão. Mas isso era passado, velhos fantasmas. Nesse momento, sua villa devia estar ardendo em chamas. Felizmente, Pietro a avisara a tempo do atentado e ela fugira com seu filho em segurança.
E agora precisava abandoná-lo. Só esperava que Pietro tratasse bem dele até que fosse definitivamente adotado. “Mas que bobagem”, pensou. É lógico que ele o faria.
A porta abriu e Pietro entrou. Era um homem de pouco mais de cinquenta anos, baixo, grisalho, mas com poucos cabelos, gordo, a pele vermelha como um tomate e tinha sempre um ar apressado. Usava um terno cinzento amarrotado e grande demais para ele. Antonella deu-lhe um abraço e um selinho nos lábios. Embora ele nunca tivesse dito, sabia que ele era homossexual, mas não se importava com isso e, de certo modo, a confortava.
— Toni, ele precisa ir agora — sussurrou-lhe, olhando fixamente para Lorenzo. Então desviou os olhos para ela. — Nós dois precisamos. — Antonella deu um longo suspiro. Depois de tanto tempo, Pietro ainda não aprendera que Lore conseguia ouvir sussurros por mais baixos que fossem.
O garoto, porém, não disse nada.
— E eu também — completou ela.
— Sim — confirmou Pietro. — O avião parte às 21h00min em ponto. O seu parte uma hora depois, mas o aeroporto é do outro lado da cidade. Aqui estão as passagens. — Deu um bloco de papeis com dados que Antonella não se deu ao trabalho de ler. — Essa é a sua — Deu outro bloco parecido, porém de outra companhia aérea — e essa é a de Lorenzo.
Antonella estremeceu. Ela precisava mesmo viajar pela Aero-Brent? Como se lesse seus pensamentos, Pietro disse:
— Eram as duas únicas companhias aéreas disponíveis para tais lugares a essa hora. Pensei que preferiria que você viajasse pela Aero-Brent do que Lorenzo.
— Fez bem, fez bem — murmurou ela. — Leve Lorenzo até o carro. Eu vou pegar o outro daqui a quinze minutos. Apenas… dê algum tempo para nós.
— Tudo bem — disse Pietro energicamente, saindo do quarto e fechando a porta atrás de si.
Antonella trancou-a e dirigiu-se ao filho que a esperava quietinho. Tímido e calado, esperando que os outros decidissem aonde deveria ir ou o que deveria fazer, como sempre. Ajoelhou-se ao pé da cama como há momentos atrás e começou a falar, mas foi interrompida pelo filho.
— Nós vamos nos ver de novo, mamãe?
A mulher reprimiu o nó em sua garganta. Não queria chorar e borrar sua maquiagem e sabia que Lorenzo perceberia se o fizesse.
— Talvez, filho.
— O que acontecerá comigo? Quem vai cuidar de mim?
Parecia que ele queria que ela chorasse.
— Você pegará um avião agora para outro país. Você vai ter que viver com pessoas que não conhece, Lore. Mas elas cuidarão de você, eu prometo. Você ficará bem e eu também ficarei. — Hesitou. Não queria mentir, mas achou que daquela vez apenas não faria mal. — Vamos nos ver de novo, eu… eu tenho certeza.
Então, como se subitamente toda a ideia da coisa o tivesse atingido de uma vez, Lorenzo começou a chorar, mas sem fazer barulho, sequer mudou a expressão facial. A única menção disso eram as lágrimas que nasciam gordas de seus olhos sem vida e morriam em suas bochechas.
Antonella passou os dedões em cada e deu um selinho em seu filho, abraçando-o fortemente, sabendo que seria a última vez que o veria. Ele sabia que ela mentia e aceitara isso porque não tinha outra opção.
Pegou o passaporte, a identidade e a passagem de avião de Lorenzo de cima do criado-mudo ao lado da cama e os guardou por dentro do fraque dele. Contemplou sua beleza mais uma vez antes de abrir a porta e entregar o garoto a Pietro.
— Comporte-se. E Pietro… cuide dele. — Foi o que conseguiu dizer antes de ver os dois descendo as escadas. As mãos hábeis da criança tateando as paredes, em busca de apoio.
Antonella fechou a porta e olhou-se novamente no espelho. Pegou os brincos numa das gavetas do criado-mudo e começou a pô-los, um de cada, quando alguém vestido totalmente de preto surgiu da noite, abriu a janela do quarto rápido como um gato, tirou uma sofisticada arma unida a um silenciador de dentro das roupas e apontou-a para a mulher, puxando o gatilho e metendo uma bala em suas costas, que se tingiu da cor de seu vestido ao explodir em sangue. A sua frente, o espelho se estraçalhou.
Sete anos de azar, diziam as más línguas.
OoO
Havia paparazzi empoleirados nas árvores perto do portão de entrada da Academia Alphonse Enoi, de modo que Ethan Lemnsack e Nicholas Hentz foram pela entrada lateral. Porém, um dos porteiros era na verdade um paparazzo disfarçado e conseguiu tirar duas ou três fotos antes de ser enxotado por um dos guardas da escola. Pouco antes disso, fizera uma pergunta a Ethan, chamando-o de senhor Hentz, que em resposta apenas gritara:
— Meu nome é Lemnsack!
— Você tem que se acalmar mais — Nick disse, enquanto passavam pelo pátio interno da Academia. — Por que nunca pegamos esse caminho? É mais bonito.
— Não vou me acalmar com aqueles abutres. Tenho certeza de que se não fosse compactado, eles fuçariam até nosso lixo. — Apertou o passo. — E faz ideia de como essa escola é grande? Rodeá-la para pegar esse caminho praticamente dobra nosso trajeto.
— Já pensou se eles achassem camisinhas usadas e vendessem o esperma? — indagou alegremente.
— É, mas não vão. Você sabe que não pode levar garotas para casa.
— Eu sei, estou falando de você.
Ethan olhou para o menor e viu que ele estava sorrindo.
— Fala — Nick continuou, se divertindo —, vocês já fizeram?
— Não é da sua conta, meu amorzinho. — Chegaram ao fim do pátio e entraram num corredor bifurcado. Deu-lhe um beijo na bochecha e virou à esquerda, sabendo que o irmão teria de virar à direita.
— E desde quando algo que você faz não é da minha conta? — gritou antes de Ethan subir as escadas e sumir de vista.
— Pessoas têm segredos, Nick.
Observou-o desaparecer.
— É, mas não nós — pensou tristemente.
Não era exatamente como antes o relacionamento dos dois. Embora o acontecimento relacionado a Oliver tivesse sido deixado no passado, como devia ser, ele não deixara de existir. Ethan nunca se esqueceria dele e Nick sabia que ele também não. Estava lá, impregnado em suas memórias, uma lembrança marcada a ferro que arrastava grilhões como fantasmas, para lembrá-los de que existia.
A exemplo daquela situação. O Ethan de poucos meses atrás nunca deixaria de responder uma pergunta ínfima como aquela, apesar de ser algo privado. Nick nunca havia escondido nada sobre sexo ou deixado de responder nada por vergonha a Ethan. Mas ele estava fazendo isso. Estava distante e não havia nada que pudesse fazer.
Desde que os dois irmãos Lemnsack Hentz foram descobertos pela mídia, paparazzi choviam em cima de ambos como abelhas. Estavam em todo lugar, em cima de árvores, dentro de bueiros e até de latas de lixo. Uma foto em boa resolução de um Hentz conversando animadamente com alguma garota podia ser vendida por mais de 100 mil dólares, com reações públicas relativamente desastrosas. Não foi preciso muito tempo para que a opinião pública a respeito de Nicholas Hentz deixasse de ser o garotinho assustado e órfão de pai e mãe para transformá-lo num galã adolescente promíscuo e desejado por todas as meninas do país. Ele não parecia ligar. Porém um dia, Ethan agredira um paparazzo que quase invadira o prédio em que moravam, história que foi deliciosamente explorada por quase todos os meios de comunicação existentes incansavelmente por semanas. Para evitar mais publicidade negativa, Ethan fizera um acordo com o paparazzo para evitar um processo judicial.
— Quanto você gastou nessa brincadeirinha? — Nick indagara, irritado, segurando um exemplar de tabloide com uma manchete mais que chamativa sobre a agressão.
— Uns 50 mil dólares — Ethan respondera da mesma forma. — O mundo já tem uma péssima impressão de nós dois para eu me dar ao luxo de sofrer um processo. — A ideia exageradamente idealizada que a revista Oddete fizera dos dois na primeira matéria foi deixada pra trás há tempos.
— Você realmente aderiu à vida de socialite, hein?
— Eu não sou um socialite! Nenhum de nós é.
— Bom, tecnicamente, nós somos sim.
— Não importa — dissera Ethan, encerrando a conversa. — Só temos… que viver normalmente.
Mas não dava para viver da mesma forma sabendo que todos os seus passos estavam sendo vigiados. Ethan nunca deixara Nick levar garotas para casa, de forma que o menor nunca usara prostitutas, mas inexplicavelmente fotos dele ao lado de acompanhantes choviam como granizo em todos os lugares.
— Você disse que eu não podia levá-las para casa — Nick dissera a Ethan, com raiva, quando seu irmão o indagara sobre aquilo —, mas não disse que não podia ir pra casa delas. — E quando Ethan abrira a boca pra falar, Nick o interrompera. — E não me venha com essa hipocrisia de dizer que eu tenho que mudar, não quero ouvir isso de alguém que espancou um paparazzo. Eu não vou mudar e eu quero que a mídia vá pro inferno!
Eles andavam brigando mais do que deveriam e isso era péssimo. Nick achava que sua vida andava uma droga. Ethan se arrependia amargamente de ter sido ele o causador de tudo aquilo. Nem o sexo andava mais a mesma coisa. Talvez fosse porque Ethan alternasse entre ele e Gabriel, talvez porque ele considerava aquilo traição.
— Eu sou seu irmão — Nick dissera uma vez, na cama, entrelaçando seu corpo ao de Ethan. As marcas do que acabavam de fazer estavam nas respirações descompassadas e no suor que lhes cobria todo o corpo. — Isso não é traição. — E colocara seu membro na boca.
— Mesmo assim, Nick — respondera gemendo. — Eu não me sinto bem assim… ahhh, Deus.
— Esses gemidos não são de dor — Nick retorquira. — O que você quer dizer? Quer parar de transar?
— Eu não sei. Eu estou confuso.
Nicholas sentara-se em seu pênis, penetrando-se com ele e começando a cavalgar freneticamente. Ethan gemia baixo, apertando-lhes as coxas.
— Você não quer parar, só precisa se livrar dessa sensação de culpa… — Quando Ethan começara a mover seu quadril para acompanhar seus movimentos, Nick soubera que estava no caminho certo. — Não está fazendo isso por prazer, está fazendo por amor… ahhh. — Parou de cavalgar e começou a apenas rebolar e mexer seu quadril, fazendo o irmão gritar de prazer. — E eu só aguento não transar com garotas quando faço isso com você… porque eu te amo… Ah, Ethan! — Quando ele gozou, Nick soubera que conseguira convencê-lo.
Mas a disposição do irmão para o sexo só estava disponível às vezes. Tudo parecia estar desmoronando.
Nick refletia enquanto se dirigia a sua sala. Durante o caminho, viu cerca de seis ou sete garotas amontoadas em volta de um garoto que parecia tão assustado quanto elas excitadas, bombardeando-o com perguntas e elogios estúpidos. Não sabia quem ele era.
Aproximou-se, puxou uma garota que conhecia pelo cotovelo e perguntou:
— Quem é o garoto?
Ela sorriu e respondeu:
— Ele é novato. O nome dele é Luca Granelli. — E isso já dizia muita coisa. Granelli era o sobrenome de uma família mafiosa. Não tinha quem não conhecesse os Granelli. Tinham ascendentes italianos também mafiosos cujos nomes eram tão conhecidos quanto seus feitos. Luca provavelmente seria filho de Enzo Granelli, chefe da máfia.
Apesar disso, o garoto parecia certamente inofensivo. Era muito baixinho, provavelmente tinha a altura de Nick ou até menos, a pele branca pálida como um fantasma, o cabelo escuro curto e espetado. Os olhos eram grandes e expressivos, uma mistura de azul claro e cinza e estavam tomados de terror.
— Vocês não acham que estão assustando o garoto? — indagou Nick, dirigindo-se ao grupo que pelo visto não parava de falar e tocar obstinadamente nele. Luca era bonitinho demais para ser deixado passar. Elas iam comê-lo vivo. — Oh, deixem o garoto respirar!
Nick puxou o menino dali pelo cotovelo e pôs-se a andar em direção à sua sala, ouvindo os murmúrios e assobios das meninas ao longe.
— Agradeço — suspirou Luca, limpando o suor da testa. Nick estava certo, o menino era ainda menor que ele. A voz era surpreendentemente grave e fina ao mesmo tempo, cavernosa, como se tivesse ficado muito tempo sem falar. O modo como se portava era aristocrático e formal. Parecia estar falando com o presidente. — Elas estavam me aborrecendo.
“Elas estavam me aborrecendo”, repetiu Nick mentalmente. “Ele parece um aristocrata inglês.”
— Isso vai acontecer muito, só avisando — advertiu Nick. — Luca?
— Sim — confirmou ele. Então olhou fundo nos olhos pretos do loiro e os seus arregalaram-se levemente, a boca se entreabriu e ele falou: — Você é… você é Nicholas Hentz?
— Sou — Nick confirmou e viu uma fileira de dentes tão brancos quanto marfim que pareciam brilhar surgirem na boca de Luca.
— Ah, é um prazer te conhecer! — exclamou, levemente exasperado. Porém, pareceu perceber seu desleixo e portou-se como antes, a coluna tão reta quanto uma régua, o queixo levantado. Pigarreou e estendeu a mão. — Perdão. Luca Granelli. É um prazer te conhecer.
— “Santo Cristo. Você não está num baile de gala do século XIX, milorde.” — As palavras vieram à boca e quase as disse, mas conteve-se. — “Será que se usar uniforme não fosse obrigatório ele estaria usando terno?” Prazer. Então — Voltou a andar para a sala e Luca o seguiu —, me fala de você. Quantos anos?
— Treze. Na verdade, creio que estou na mesma sala que você.
— Mas é claro que está, como não podia deixar de ser. — Deu uma risadinha sarcástica, mas Luca não se alterou. — “Ou ele é muito educado para reparar na minha grosseria ou deve ter Síndrome de Asperger também.” — Também tenho treze. Por que entrou aqui agora?
— Eu tinha aulas em casa. Decidi vir para uma escola porque achei que seria uma experiência antropológica interessante.
— Mas é claro que pensou. — Nick sorriu. — “Meu Deus, tenho que parar de fazer isso.” Se não se importa que eu pergunte… o que você aprendia?
Luca pensou por um momento e respondeu:
— Matemática, geometria, raciocínio lógico, química, física, biologia, filosofia, sociologia, história, geografia, literatura, interpretação textual, inglês, francês, italiano… esgrima e arco e flecha.
— “Arco e flecha”?
— Não sou muito bom nisso — admitiu ele.
— Bom, aqui não é muito diferente disso — disse Nick. — Tirando arco e flecha, esgrima e as línguas… é a mesma coisa.
Chegaram à sala e sentaram-se lado a lado, na última fileira.
— Você disse que aquilo ia acontecer frequentemente? — Luca perguntou. Ele era tão pequeno, mas o modo como falava o fazia parecer tão grande.
— Vai — Nick respondeu. — Ninguém vai ignorar um moreno de olhos azuis como você. — Luca deu um sorriso meigo.
— Agradeço.
“É claro que agradece.”
— Deve ocorrer a mesma coisa com você, certo? — Luca continuou.
— É… pode-se dizer que acontecia. — Pigarreou de desgosto. — Agora nem sempre.
— Por quê? — perguntou Luca. — Você é jovem, bonito, rico…
— Não, não — interrompeu. — Meu irmão é rico. Eu não sou nada.
— Seu irmão? — Os olhos dele brilharam como água límpida sob o Sol. — Ethan Hentz?
— Ethan Lemnsack — corrigiu da forma mais amável que conseguiu, mas acabou lhe parecendo sarcasmo mais uma vez. — Ele prefere ser chamado assim.
— Ah, perdão. A última vez que eu ouvi falar dele, ele havia agredido um paparazzi. — Luca sorriu um pouco, pensativo. Então fez uma expressão surpresa que tornou-se constrangida, como se tivesse acabado de perceber o que dissera, mas como Nick já estava farto de desculpas, interrompeu-o:
— Não se desculpe, pelo amor de Deus.
Abaixou um pouco a cabeça, como se com vergonha. Nick sentiu vontade de bater nele.
— Descul… quero dizer… estou acostumado com isso.
— Aposto que sim. “Por que é que não consigo parar de ser sarcástico com ele?” Mas ninguém aqui vai te julgar se você não fizer isso. — Deu de ombros, olhando distraidamente pela janela. — Adolescentes estudam aqui, não cavalheiros ingleses.
Quando o sinal indicando o início das aulas tocou, Luca tocou amigavelmente o braço de Nick, que olhou sem expressão pra ele, e disse:
— Acho que vamos nos dar bem.
Nick deu de ombros novamente.
— Talvez.
OoO
Lorenzo esfregou os olhos cegos com as mãos fechadas, tentando afastar o sono. Pietro dissera-lhe que o avião logo chegaria a seu destino e, desconsiderando os frequentes solavancos e turbulências, foi uma viagem razoavelmente boa. A poltrona era confortável e ele gostava do cheiro de couro e da atenção que as aeromoças lhe davam. As vozes delas eram bonitas e harmoniosas e seus dedos finos frequentemente bagunçavam seu cabelo fino e curto.
Mas sentia falta da voz da mãe. De como ela às vezes sussurrava-lhe no ouvido de repente, fazendo-o se arrepiar deliciosamente, até do “boa noite” que ela lhe dava todo dia antes de dormir, cobrindo-o e dando-lhe um beijo na testa. Sentia falta do toque também. Dos mimos e carícias.
Sempre lhe disseram que ele era cego e por isso não conseguia enxergar o mundo a sua volta, mas Lorenzo não compreendia realmente o que isso queria dizer. Sua audição funcionava perfeitamente bem e o tato era apurado, o olfato e o paladar também, ele conseguia distinguir o sexo das pessoas apenas pela voz ou até mesmo tocando-lhes a pele. Às vezes, pedia para ver o rosto das pessoas, o que consistia simplesmente em segurar-lhes a face e tateá-la levemente. Seus dedos finos e pálidos transpassavam cada centímetro, do pescoço à raiz dos cabelos. E então nunca mais se esquecia da pessoa. Ele nunca se esquecia de um rosto que via ou de uma voz que escutava.
Não conseguia ver, mas nem por isso deixava de observar. O modo como sua mãe agira nas últimas semanas, taciturna e reservada, o incomodara a ponto de fazê-lo perguntar se havia algo errado. Antonella limitou-se a “Não há nada errado, querido, você está vendo coisas.” Então pensara que havia dito algo ofensivo e pedira desculpas, coisa que Lorenzo não entendera.
Mas ele estava vendo coisas, coisas pavorosas. Havia algo errado com sua mãe e ele sabia disso, só não sabia o que fazer. Até Pietro, que sempre falava rápido demais, como se estivesse apressado para terminar, parecia temeroso com alguma coisa. Começara há tão poucos meses que mais pareciam dias, lembranças, reminiscências de um passado que parecia estar deixando.
E agora sua mãe o mandara embora. Não sabia falar muito bem o idioma daquele país para o qual estava indo. Apesar disso, conseguia entender quase tudo, só não sabia falar, propriamente dizendo. Sua mãe nunca soubera que ele conseguia entender, de modo que sempre o falava quando precisava dizer algo particular a alguém e Lorenzo estava por perto. E ele ouvia. Ouvia, ouvia e ouvia mais um pouco. Mas sabia que não deveria…
Na única vez que perguntara à Antonella sobre seu pai, ela lhe dera um tapa. E foi a primeira vez que ele chorou desde que era bebê. Ou pelo menos, desde que se lembrava. Disse-lhe para nunca mais perguntar aquilo novamente, para o bem dele. E não parecia uma ameaça. Ela parecia mais estar implorando.
Em seguida o abraçou e pediu desculpas. E Lorenzo sabia que ela chorava copiosamente.
Ele estudara em casa a vida toda e quase nunca tinha contato com pessoas da idade dele. Sua mãe dizia que era melhor assim, pois ele teria a melhor educação possível e assim ficaria livre de ser incomodado por outras pessoas. Lorenzo sabia que ela se referia à sua cegueira, mas não acreditava que seria incomodado por causa disso. Talvez porque nunca tivesse acontecido.
Recostou-se à cadeira e tentou dormir. Alguns segundos depois, a voz do piloto ecoou robótica por todo o avião:
— Senhoras e senhoras, apertem os cintos, aproximamo-nos rapidamente do Aeroporto de Middleland…
OoO
Nicholas Hentz estava no Corredor, espremido entre as irmãs Montgomery. Duvidava que elas fossem irmãs de verdade, Betty era loira natural e tinha olhos verdes e Chloé era morena natural e tinha olhos castanhos. Mas isso não interessava, o importante é que elas o estavam fazendo gritar de prazer como não fazia há semanas.
Quando terminaram, Nick jogou-se deitado no chão de cimento, mas então Chloé voltou a colocar seu pênis na boca e Betty sentou-se em seu peito, inclinando-se para frente para que ele a chupasse.
Nicholas acariciou seus pelos curtos perfeitamente aparados numa linha clara e retilínea apertando suas coxas e então enfiou a língua em seu clitóris. Betty jogou a cabeça para trás e gritou um nome.
Só que não era o de Nick.
Nicholas separou-se lentamente do centro de seu ser e quase gaguejou:
— O que você disse?
— Disse seu nome, querido — falou com uma voz manhosa, acariciando seu cabelo louro suavemente.
Nick saiu de baixo dela e levantou-se de supetão, arrancando seu pênis da boca de Chloé, que perguntou:
— O que há, meu bem?
— O que há é que — disse, enquanto punha a cueca com agressividade. Em um dado momento, quase tropeçou, mas recuperou o equilíbrio e começou a colocar a calça —, é que é meio desagradável ouvir o nome de outra pessoa durante o sexo. — Colocou a camisa e penteou o cabelo com os dedos. — Eu broxei.
Saiu do Corredor ciente de que estava vermelho de raiva. Como é que aquela periguete se atrevia e gritar o nome de Luca Granelli enquanto ele a chupava? Como ela sequer se atrevia a pensar nele? Não que ele não fizesse coisas assim, mas não era essa a questão.
O intervalo estava para acabar quando Nick voltou à sua sala. Algumas poucas pessoas conversavam alegremente, mas ele dirigiu-se à sua carteira e se enfurnou nela. Sentia-se uma criança birrenta.
“Não, não posso ser uma criança birrenta. Crianças não fazem sexo. Mas peraí, quem foi que perdeu a virgindade com 11 anos mesmo? Argh, que inferno. Perdi minha única transa em semanas e por culpa daquele… daquele… e ele nem sequer está interessado nas garotas!”
Luca entrou na sala e sentou-se ao lado de Nick no momento em que este pensava em formas de torturá-lo.
— Oi, se deu bem? — Ele estava tentando adequar à linguagem adolescente. Tentando era realmente a palavra certa. — Vi você indo àquele espaço parecido com um corredor por trás daquele espaço de eventos.
— Chamamos o espaço de eventos de Espaço, e o corredor atrás dele de Corredor — resmungou, mais mal-humorado do que esperara parecer.
Luca notou sua irritação.
— Não deu certo?
Nick ainda dignou-se a sorrir amavelmente.
— Deu, mas não foi muito legal.
— Por quê?
— “Porque a vadia gritou seu nome, por isso.” Não é nada. Me diga, alguém mais deu em cima de você?
Nick viu os olhos cor de gelo do menino brilharem de desgosto, como o inverno após uma tempestade.
— Sim, muita gente.
— Não pretende fazer nada sobre isso, meu querido? — Sentia a língua afiada.
Luca sequer se dignou a notar seu cinismo.
— Creio que não. Se eu continuar a ignorar, elas vão acabar por desistir, certo?
— Não — respondeu rapidamente. Luca deu-lhe um olhar indagativo. — Adolescentes são persistentes, você não faz nem ideia. Elas não vão desistir.
— Mas — Ele parecia estar ficando nervoso — o que eu devo fazer?
E de repente a ideia surgiu na mente de Nick, uma semente numa terra fértil, germinando como um feto no ventre da mãe. Uma ideia maléfica, perversa. Começou com uma simples pergunta: “Devo ou não devo?” Então evoluiu para: “Quantas advertências eu já tomei esse ano e de quantas eu preciso para ser expulso?” Depois tornou-se: “Se eu fizer isso, Ethan vai ficar com muita raiva?” Logo depois: “Se ele ficar com muita raiva, será que apenas sexo vai acalmá-lo?”
Então os se tornaram-se quando e novos questionamentos surgiram.
“Quando eu fizer isso, será que as meninas finalmente vão querer voltar a transar comigo?” “Quando eu fizer isso, vai dar muitos problemas a Ethan se eu for descoberto?” “Quando eu fizer isso, será que algum dia ele vai me perdoar?”
Nicholas percebeu que conhecera Luca naquele mesmo dia e já o odiava. O odiava porque ele era o único menino tão bonito, adorável e tímido quanto Nick fingia ser. Porque era o único tão atraente quanto ele em todo o nono ano da Academia Alphonse Enoi e era aquele que as meninas escolheriam para substitui-lo. O odiava porque a ingenuidade e timidez dele supriam as de Nick. A diferença era que elas eram realmente genuínas. Não havia como lutar contra isso.
Por isso precisava destruí-lo.
Nick sorriu-lhe meigamente.
— Venha comigo.
Levou-o ao Corredor. O lugar já estava vazio e quando chegaram lá, o sinal indicando o fim do intervalo tocou.
— Acho melhor voltarmos — Luca disse nervosamente. — O sinal tocou.
— Eu tenho cara de quem liga pra isso? — Tirou a camisa e observou satisfeito o rosto pálido como mármore do garoto tornar-se vermelho escarlate.
— O… O que está fazendo?
— Respondendo sua pergunta.
Nicholas o colocou entre si mesmo e a parede áspera. Conseguia notar suas pupilas dilatadas, sua respiração começando a se descompassar, provavelmente seus batimentos cardíacos estavam acelerados. Luca fincou suas unhas nas palmas das mãos e forçou-se a não morder o lábio inferior.
— Sabe o que fez as meninas pararem definitivamente de darem cima do meu irmão, Luca? — falou com uma voz insinuante. Aproximou-se lentamente do garoto, que começou a suar frio. Nick pôs-se a desatar lentamente o nó do cordão de sua calça. — Foi quando ele começou a enfiar a língua na boca do Gabriel Melnick publicamente. — Sorriu malicioso quando viu a surpresa nos olhos dele. — Sabe o que isso significa?
Seus corpos estavam a apenas cinco centímetros de distância. Nicholas conseguia sentir a respiração nervosa de Luca em seu rosto. Nunca pensara que pudesse existir alguém mais baixo que ele, mas era pelo menos um ou dois centímetros mais alto que o garoto.
— Responda — falou ao ver que ele não o faria.
Luca balançou a cabeça negativamente.
— Sabe sim. — Sutilmente, pôs as mãos em sua cintura. Ele quase deu um pulo com esse toque. — Esse é o único jeito, meu querido… — Lambeu os lábios da forma mais provocante que conseguiu, mas sempre achou que era um desastre fazendo isso. Porém, o garoto pareceu responder ao ato. — Vamos lá, guri, fale pra mim. — Aproximou-se tanto que seus lábios quase tocaram os dele. — Você não é realmente interessado nos encantos íntimos das garotas, não é, Luca Granelli? — Sua voz estava impregnada de sarcasmo.
Sem esperar resposta, tocou seus lábios nos dele, surpreendendo-se ao ver como eram frios. A resposta do ato foi um espasmo involuntário de Luca, que separou seus lábios por um momento, mas o menor logo voltou a uni-los. Nick percebeu deslumbrado que era o único garoto que já beijara na vida além de Ethan.
Nick enfiou a língua em sua boca lentamente, brincando com a língua dele, envolvendo-a. Suas mãos foram da cintura para suas nádegas e logo foram enfiadas em sua cueca. Luca soltou um gemido. Conseguia sentir sua ereção.
Mas Nick não iludia a si mesmo. Não estava sentindo prazer nenhum com aquilo. Não chegava a sentir nojo, mas definitivamente o único garoto com quem era possível sentir prazer era com seu irmão. Perguntou-se de Luca fazia o tipo dele.
Nick chupou a língua de Luca e começou a beijar seu pescoço alvo. Sentiu as mãos pálidas e tímidas dele segurarem sua cintura. Pensou em Ethan e finalmente arrumou uma ereção.
— Ajoelhe-se — disse a ele.
Vendo sua hesitação inicial, colocou a mão em sua nuca e da forma mais gentil que conseguiu, forçou-o a se ajoelhar. Depois segurou seu próprio membro e o enfiou na boca do menino.
“Não posso dizer que ele chupa mal, pelo menos ele está tentando chupar bem. Ah, que merda, ele está tentando me satisfazer. Não posso começar a gostar dele, se não nunca vou conseguir as garotas de volta. Vamos, Nicholas, foco!”
Luca passou a lamber sua glande timidamente.
“Pense no Ethan. Não, o Ethan nunca chuparia assim. Ele enfiaria tudo na boca de uma vez, como sempre faz. Não sei como ele consegue não se engasgar. Droga, não posso broxar.”
Sutilmente, segurou o cabelo de Luca e começou a mover seu quadril lentamente para frente e para trás. O menor começou a se masturbar, distraído.
— Ah, Luca… que delícia, garoto. — Não era verdade, mas ele precisava convencê-lo para fazer o que queria.
Quando sentiu que ia ejacular, tirou o membro da boca de Luca e passou a apenas de masturbar. Surpreendeu-se quando o menor voltou a chupá-lo voluntariamente.
Mesmo assim, se engasgou quando finalmente gozou.
— É melhor limpar isso aí — Nick disse, atando o nó do cordão da calça, vendo todo o esperma que o moreno cuspia no chão. — Se houver qualquer prova disso, vamos ser expulsos.
Luca limpou a boca com as costas da mão e sorriu. Levantou-se e deu um selinho em seus lábios.
— Eu te amo — disse ele.
O rosto de Nick podia ser esculpido em pedra. Já perdera a conta de quantas vezes ouvira aquilo de meninas logo após o sexo. E a resposta que dava era sempre a mesma:
— Eu também. — E o abraçou da forma mais carinhosa que conseguiu. — “Eu também me amo. E lentamente… você cai.”
OoO
Lorenzo estava nervoso.
Estava no aeroporto e as pessoas a sua volta falavam no outro idioma, mas não era como sua mãe o fazia, ou mesmo Pietro, era de um jeito diferente. Falavam rápido demais, enrolando as palavras, comendo vogais, vírgulas e pontos finais. Pareciam estar estuprando a própria língua.
Em certo momento, uma senhora de modos macios afagou-lhe o cabelo e perguntou-lhe o nome e quantos anos tinha. Ele tentou responder, mas tinha um sotaque tão agressivamente forte que tudo o que conseguiu arrancar dela foi uma risada que o deixou constrangido.
— Vamos ficar hoje num hotel e amanhã chegaremos lá, senhor Barcarolli — disse Pietro. Lorenzo sempre se perguntou por que ele sempre o chamava pelo sobrenome.
Então ele o puxou pela mão cuidadosamente, para que não esbarrasse nas pessoas, e o levou para fora do aeroporto, onde o sol do meio-dia brilhava forte no céu. Lorenzo respirou fundo e pôs-se a andar lentamente, com cuidado para não tropeçar. Talvez tivesse que arranjar uma bengala, ou algo assim.
OoO
O ar do quarto estava gelado, mas Ethan Lemnsack suava copiosamente, assim como Gabriel Melnick. Este último cavalgava ritmadamente sobre o colo do outro, ouvindo seus gemidos assemelhando-se aos seus próprios. Ethan apertava as coxas do mais novo enquanto estocava-o violentamente.
Desmanchou-se dentro dele ao mesmo tempo em que Gabriel fazia o mesmo. O menor caiu ao seu lado, repousando a cabeça em seu peito, ofegando.
O cheiro de sexo estava tão impregnado no quarto que ambos já nem o sentiam mais.
— Eu te amo muito, meu bebê — disse Ethan, puxando-o para si, aspirando o cheiro de seu cabelo. — Muito, muito, muito, muito…
— Oh, Ethan — Ele começara a dar chupões em seu pescoço —, eu tenho que ir.
— Não, não vá. — O maior sentou-se na cama e o puxou para seu colo. Gabriel pareceu ficar ainda mais alto do que era. — Fique aqui e transe comigo de novo e de novo.
Logo estava penetrando-o de novo, estocando mais do que ele cavalgava. O maior prazer não vinha das ondas de prazer violentas que chocavam-se contra Ethan, mas das feições de Gabriel quando atingia o êxtase, o sorriso lindo e branco, os olhos verdes como ácido que amavam-lhe perdidamente.
Abraçou-o como nunca quando gozou pela segunda vez. Ele nunca estivera apaixonado antes, mas agora sabia como era a sensação. E era maravilhosa. Tomou um banho com Gabriel antes de ele ir embora, beijando-o carinhosamente durante todo o processo.
Quando Ethan fechou a porta que ele havia acabado de atravessar, sentiu-se vazio.
Então Nick saiu do quarto dele onde estivera trancado a tarde toda, totalmente nu, e cantarolou debochadamente:
— Querido diário, estou loucamente apaixonado.
Ethan sorriu e saiu andando de volta ao seu quarto quase cambaleando.
— Me diz por que foi que eu lutei pela sua guarda mesmo…?
— Para me comer todo dia. — Nick seguiu-o e entrou no quarto, torcendo o nariz. — Meu Deus, que cheiro de sexo. — Atirou-se na cama do irmão e olhou para ele afetadamente. — Mas pode comê-lo o quanto quiser, quem tirou a virgindade dessa cama fui eu. Ainda tem energia para comer seu irmãozinho o gastou tudo no seu namorado?
— Gastei tudo nele. — Deitou-se na cama e puxou Nick para si. — Mas não quer dizer que não possamos ficar na cama… namorando… ahhh…
Nicholas segurou a glande de seu pênis levemente, massageando-a. Sentia a ereção crescendo em sua mão.
— Quem mete duas vezes, mete três. Vem cá.
Ficou de bruços e abriu as pernas, entregando-se a ele.
Ethan não resistiu e o penetrou.
— Sabe… sabe quem foi que… quem foi que se mudou para a Alphonse Enoi…? Ah, que delícia, vai, mais forte.
— Parece que a cada dia você fica mais apertado… Não, quem foi? Ai, Nick, sua bunda é a melhor que existe.
— É claro que é, por isso que eu só a dou pra você… isso, fode. Luca Granelli.
Ethan parou de estocar por um momento, voltando logo depois, com mais força.
— Da família Granelli? Ah, Nicholas!
— Sim… vai, fode, fode mais forte, me arromba, Ethan!
Ethan saiu de dentro dele o sentou em seu colo, as costas do irmão grudadas em seu peito. Nick começou a rebolar e a gemer, enquanto o maior apenas gemia.
Ethan falou:
— Como… como consegue rebolar tão bem? Falou com ele?
— Acho que nasci pra isso, muito obrigado. Falei.
— Tem razão, você é bonito demais para ser hétero. E como ele é?
— Estranho… ah… isso. Eu… gozei.
— Eu também.
Ethan saiu de dentro dele e deitou-se para recuperar o fôlego. Olhou para os olhos pretos do irmão e chegou à infeliz conclusão de que ele não estava satisfeito.
Apesar disso, o loiro deitou-se ao lado do irmão, falando energicamente.
— Ele é estranho. Fala como um fidalgo inglês. E é a primeira vez que tem aula numa escola. — Sorriu afetadamente. — Não é formidável? — Antes que Ethan falasse, continuou: — As garotas estão loucas por ele. Parecem moscas em carne podre. Pior que os paparazzi atrás de nós. Eu quero transar de novo.
Ethan franziu as sobrancelhas.
— Você está com inveja? E eu já gozei quatro vezes.
Nick balançou os ombros e olhou para o além pensadoramente. Nick pensou que naquele momento ele realmente se parecia com uma menina.
— Ele nem gosta delas. Mas não se preocupe, vou dar um jeito nisso.
Algo no modo de falar do irmão fez Ethan se arrepiar. O déficit de atenção dele o fazia perder interesse pela maioria das coisas rapidamente, mas quando se aprofundava numa ideia, fazia de tudo até realizá-la. Rezou para que o caso fosse a primeira opção.
— Aliás — o menor continuou falando —, não preciso do seu pênis. Abra as pernas.
— Ah, Nicholas.
— Sim?
— Você é… — Selou-lhe os lábios e segurou seu queixo — um anjo e um demônio na minha vida. — Levantou-se da cama e recolocou a roupa de baixo. — Faça como os outros garotos da sua idade. Masturbe-se.
— Mas isso não é uma opção pra mim. — Inconscientemente, fez um bico. — Você sabe que os paparazzi fotografaram o Gabriel saindo daqui, não é?
— Sei.
— É só questão de tempo até descobrirem sobre vocês.
— Não me importo com isso — disse teimosamente, ajeitando o cabelo despenteado com os dedos.
Nick observou-o colocando a camisa.
— “Ele está ficando teimoso igual a mim, que orgulho.” Se eu passar de ano na escola, vou ganhar alguma coisa?
— Sim, vai deixar de perder um ano da sua vida… — murmurou, olhando para o espelho.
— Eu quero um carro.
Ethan olhou para ele e constatou surpreendido que ele estava falando sério.
— Não para mim — continuou dizendo o loiro. — Para nós dois. Com um motorista particular. To cansado de pegar táxis. Tive de dar um autógrafo outro dia. É irritante.
Voltou a olhar para o espelho, sem nenhuma motivação em especial.
— Parece ser uma boa ideia. Vou pensar nisso.
— Obrigado. Agora, Ethan… pelo amor de Deus, volta pra cama. Eu preciso transar.
— Você tem consciência de que vício em sexo é uma doença, não tem?
— Não fui eu quem gozou quatro vezes com duas pessoas diferentes.
Ethan sentou-se ao lado dele na cama, já inteiramente vestido, e segurou seu rosto quase redondo com as duas mãos, os polegares nas maçãs do rosto acentuadas. Nicholas fechou os olhos e deixou-se levar pelo toque. O hálito quente do mais velho aquecia os lábios e as narinas do mais novo, que se arrepiou. Então abriu os olhos e viu o irmão o olhando.
— Como consegue fazer isso? — Nick indagou, esfregando os braços lentamente, hipnotizado pelos diamantes negros que o fitavam profundamente. Pareciam olhar através de sua alma. Sentiu-se ficando cada vez mais quente por dentro. — Eu… eu broxei.
Não conseguia desviar o olhar dos orbes escuros como ônix do irmão. Seus lábios estavam a um centímetro de distância. Começou a sentir sono e frio, e ao mesmo tempo continuava sentindo calor. E era bom, era ótimo, era tão ótimo.
— É um dom, creio — falou com a voz rouca, quase um sussurro. — Hipnotizar as pessoas apenas com um olhar…
Estavam quase se beijando quando o celular de Ethan tocou.
— Deixe essa merda tocar — Nick disse, então libertou-se de sua prisão mental. Balançou a cabeça confusamente. — Que foi que eu disse? Tome, atenda isso. Deus, to tonto.
— Já fiz isso com Gabriel várias vezes, ele ama e odeia — riu-se o maior, com um ar de divertimento. Pegou o celular e franziu o cenho. — É… o advogado dos nossos pais.
Nick sentiu-se estranhamente triste. Por um segundo, pensou que aquilo era uma coisa pertencente apenas aos dois, como um segredo maravilhosamente agradável e desagradável ao mesmo tempo. Mas não importava. Ele teria que começar a dividir as coisas de Ethan com Gabriel dali em diante. “Não me importo com isso”, pensou, “Ele divide o pênis dele comigo e nem sabe. Tenho que lembrar que fui eu quem juntou os dois. Não posso me arrepender.”
— John Fauntleroy? — indagou, quase inaudível.
— Sim — Ethan atendeu ao telefone. — Alô? Sim, sou eu. Precisa? Para quê? Ah… tudo bem então. Vou imediatamente. — Desligou e passou a olhar para o celular como se perguntasse a si próprio o que era aquilo.
— E então?
— Ele pediu para que eu fosse vê-lo em seu escritório. Não posso imaginar para quê.
— Nem eu. Você vai?
— Disse que iria. — Levantou-se. — Quer ir comigo?
— Não… vou ficar aqui e seguir sua dica de me masturbar. Vá você. Vou chamar-lhe um táxi.
— Tudo bem. — Pensou por um momento e disse: — Acho que você tem razão. Precisamos de um carro. — Os dois riram por um momento.
Mas mentalmente, ambos se perguntavam o que lhes estava por vir.
OoO
O escritório de John Fauntleroy, assim como o próprio homem, estava exatamente do mesmo jeito que Ethan vira da última vez que estivera lá, um terço de ano atrás. Sua coroa de cabelos brancos parecia estar escasseando, porém a barba continuava farta e da mesma cor que a neve. Os óculos de meia-lua continuavam a cair por seu nariz pontudo. A caverna marrom que era seu escritório, com as janelas sempre acortinadas e estantes cheias de livros, estava quente e abafada. Três poltronas e um divã completavam o recinto.
Ethan sentou-se na poltrona mais perto da escrivaninha e tentou relaxar, mas por algum motivo não conseguia. Havia uma sensação dentro dele que o inquietava, como se alguma coisa estivesse errada. Como se uma reviravolta fosse acontecer.
— E então… — murmurou Ethan.
— Obrigado por vir — murmurou Fauntleroy. — Mas vamos lá. Há algo que quero lhe dizer. Antes de tudo, gostaria que tentasse… — Procurou palavras que se adequassem, aparentemente sem sucesso — manter a mente aberta para o que vou dizer. É importante.
Ethan assentiu nervosamente.
— Tudo bem.
Os óculos de Fauntleroy deslizavam por seu nariz, então ele os recolocou no lugar.
— Creio que seja melhor dizer isso de uma vez. — Lambeu os lábios finos e secos. — Você tem um meio-irmão.
Ethan demorou vários segundos para digerir o que acabara de ouvir. Sua expressão podia ser esculpida em pedra. Os olhos pretos perderam o brilho, recuperando-o rapidamente, para perdê-lo novamente logo depois. Os lábios crisparam-se e suavizaram depois. Começou a sentir-se tonto.
— O quê? — indagou, quase que inaudível.
De alguma forma, Fauntleroy pareceu menos tenso do que há momentos atrás. Falou:
— O nome dele é… — Interrompeu-se e desviou os olhos pequenos dos de Ethan e fitou algo atrás dele.
De alguma forma, Ethan já esperava o que ia ver. Virou-se para trás e numa das poltronas do escritório, a que estava de costas para a porta, a que ele não vira ao entrar e ao sentar-se, estava sentado uma criança, tão pequena que a cadeira parecia engoli-lo. Um menino. Muito jovem, oito anos quem sabe, cabelos pretos que de tão pretos quase eram azuis, nariz e lábios que identificou como sendo idênticos aos seus e olhos cinzas que não pareciam estar fitando nada.
Foi ele quem completou a frase de John Fauntleroy, com um fortíssimo sotaque italiano.
— Lorenzo. Lorenzo Barcarolli.
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