Quando tentou se levantar, não conseguiu.

Por um momento de puro terror, pensou estar de volta há alguns meses, quando tivera aquele sonho, aquele sonho branco, terrível, cheios de cabelos louros e olhos azuis que gritavam agonizados… não podia, não podia suportar aquilo de novo…

Mas não. Era o dia seguinte ao dia em que decidira viajar com seus irmãos. Nicholas Hentz aninhava-se em seu peito ternamente, ronronando enquanto dormia, como um gato. Achou aquilo adorável. Depois foi acometido de uma pontada no estômago.

Ethan Lemnsack levantou-se e olhou-se no espelho do banheiro. Estava pálido, mas não com olheiras. Não suava frio, como na última vez que ficara doente. Estava trêmulo sim, mal se sustentava nas pernas. Sentiu a própria testa. Estava quente, mas não havia outros sintomas de febre.

Não estava doente.

— Que é que há comigo? — indagou debilmente.

Voltou à cama e se enrolou nos lençóis. Até esse esforço o cansava. Uma tontura o atingiu e Ethan teve a sensação de estar caindo de um lugar muito alto rumo a um chão que nunca chegava. Mas era só ilusão… começou a arfar.

Nick se remexeu a seu lado. Levou a mão à cabeça e começou a gemer.

— Uma ressaca deveria durar tanto assim? — Gemeu mais alto. — To enjoado. — Olhou para Ethan, que o observava silenciosamente. — Você também está assim, o que… — interrompeu-se, seus olhos arregalaram e ele correu ao banheiro, tropeçando no caminho. Abriu a privada e despejou todo o pouco conteúdo de seu estômago lá através da boca. Gemeu de novo.

A porta do quarto abriu e Ethan escondeu a nudez do corpo com o lençol. Lorenzo se aproximou lentamente, esfregando os olhos com as mãos, sonolento. Estava branco e sua expressão denunciava o mal-estar.

— Ethan… — ele gemeu. — Não me sinto bem.

— Eu sei que não. — Ethan o puxou para si e o aninhou sobre o próprio corpo, sobre o lençol. — Eu também não. — Nicholas saiu do banheiro mais pálido do que já estava, mal notando a presença de Lorenzo.

— Alguém nos envenenou — ele disse.

Ethan franziu as sobrancelhas e pela sua expressão Nick soube que não deveria ter dito aquilo na frente do menor, mas tudo parecia tão óbvio que não conseguira se conter.

— Você não trocou as fechaduras. — Não era uma pergunta. — Como nós três estamos com exatamente os mesmos sintomas de algo que com certeza não é uma doença?

Ethan não falou nada. Esperava que Lorenzo dissesse alguma coisa, mas ele apenas se remexeu um pouco em seus braços e depois se aquietou, fechando os olhos e voltando a dormir.

Nick se aproximou dele, engatinhando na cama como um felino.

— Alguém está tentando nos matar.

Viu o irmão mais velho crispar os lábios.

— Você não entende? — insistiu. — Devem ter posto algo na nossa comida. Vamos, você é inteligente. Que foi que puseram?

— Apesar do meu leigo conhecimento sobre venenos — resmungou — eu diria que foi… quer dizer, poderia ser, sei lá, arsênico. Mas há um milhão de coisas que poderiam causar falta de apetite, desidratação, dores, cãibras, náuseas e vômito… — Falar acabou por se tornar muito difícil, Ethan sentia sua voz engrolada. — Inclusive um vírus.

Mas não é um maldito vírus! — Nick exclamou e então tossiu. Caiu no colchão pesadamente, se encolhendo em posição fetal e gemendo. — Que é que contém arsênico?

— Pesticidas… — Ethan lentamente se desvencilhou do corpo pequeno de Lorenzo. Tentava raciocinar, mas até pensar era difícil. — Pelo menos… é o modo mais fácil de conseguir arsênico. — Tossiu. — Acho que devíamos ir ao hospital.

— Não… não, não podemos ir. Deveríamos ter um médico particular.

Ethan achava a ideia maravilhosa para ser realizada numa outra hora. Mas naquele momento, só sentia sono… um sono incrível, feito de travesseiros macios e nuvens fofas como algodão…

— Ethan, Ethan! — Nick ralhou. — Você não pode dormir. Acorda!

A cabeça de Ethan doía, mas mesmo assim levantou-se.

— Venha comigo.

— Pra quê? — perguntou Nick. De repente, a ideia de dormir não parecia tão ruim…

— Vamos jogar fora toda a nossa comida.

Esvaziaram a geladeira, jogando até a última migalha de pão dentro de sacos plásticos e atando-os. Alguns alimentos, Ethan notou, tinham um cheiro estranho e certamente não natural. Aliás, alguns objetos da cozinha estavam dispostos fora de ordem. Definitivamente, alguém havia estado lá.

O trabalho estava estranhamente exaustivo demais. No final, Ethan e Nick estavam arfando, mas a cozinha estava impecavelmente vazia. Apesar disso, sentiam a nuca tensionada e a fraqueza assolando o corpo, embora estivessem certamente mais dispostos do que quando acordaram.

Lorenzo também sentia mesma coisa. Ethan praticamente o forçou a dizer o que sentia, dado que o menino não queria importuná-lo com o mal-estar. Na verdade, Ethan teve que deduzir que ele não queria contar. De qualquer forma, ao final daquela tarde, os três já se sentiam melhor. Aparentemente, os sintomas do envenenamento por arsênico só persistiam se o consumo fosse contínuo.

Decidiram não contar a ninguém sobre aquilo. Ou melhor, Ethan decidiu e forçou Nick a aceitar. Não queria que Gabriel soubesse e se preocupasse, ele já estava atazanado demais com a semana de provas que seria na semana seguinte, e Amy já havia ajudado demais para incluí-la em seus planos. E Nick sabia que Luca gostava demais dele para querer preocupá-lo com isso. Quando se deu conta disso, percebeu como estava sendo atencioso.

— Que é que está havendo com meu eu egoísta? — indagou para si mesmo. — Esse não sou eu.

— Está se desvanecendo — Ethan respondeu, sorrindo de modo sincero e cínico ao mesmo tempo. — Você o ama. Legal, não?

— Eu não amo aquele pirralho. Eu já disse, eu não sinto desejo…

— Não precisa sentir desejo para amar — retorquiu. — Afinal, nós dois acabamos aprendendo a amar nosso meio-irmão, não foi? — Nicholas fechou a cara e Ethan forçou-se a não rir. Por algum motivo, não sentia ciúmes de Luca. Talvez fosse porque era verdade que Nick não sentia desejo por outros garotos além de Ethan.

— Amor nos deixa estúpidos — lamentou-se. — Luca é literalmente um tapado quando tá perto de mim, mas, com outras pessoas, ele é bem esperto. Às vezes, sinto medo dele. Uma vez, um garoto que eu acho que não sabia que ele é filho de um chefe da máfia chegou para ele e o chamou de viado, ou algo assim.

— O que houve com ele? — Ethan indagou, sentindo um arrepio passar por seu corpo.

— Ele… tropeçou da escada na hora da saída e caiu de tal jeito que, provavelmente, fraturou a coluna. Ele ainda está no hospital. Acho que vai ficar paraplégico. Ou talvez morra. Eu queria aprender a cozinhar.

Ethan ficou tão chocado com o que Nick dissera que mais de uma vez se perguntara se ouvira a segunda parte direito. Nunca antes na história da humanidade alguém havia falado duas coisas tão sem relação, uma seguida da outra.

— Por quê? — perguntou com cautela.

— Porque ultimamente acho que eu deveria começar a depender menos de você. — Nick respondeu. Ethan sentiu uma pontada de compaixão. Estava realmente passando tempo demais com Gabriel, se comparado do que passava com Nick antes de conhecê-lo. Mas a viagem mudaria as coisas, embora a presença de Lorenzo fosse imprescindível.

— Ah, Nick… — Puxou-o para si. O abraço dele era tão gostoso. Sempre foi. Sempre seria. — Você tem 13 anos. Pode depender de mim, por enquanto.

— Mas não quero. — Nick se afastou de Ethan delicadamente, mas a ação magoou o mais velho mais do que deveria. — Quero aprender a fazer as coisas. Me sinto um inútil por não saber sequer nosso endereço de cor. Me ensina a cozinhar, pelo menos não morro de fome quando você não está em casa. Sabe o que a mídia pensa de você?

A capacidade que Nick tinha de falar uma coisa e logo depois falar outra completamente sem relação era impressionante, mas não tanto quanto a de falar sobre as duas coisas ao mesmo tempo e então criar uma conexão entre elas.

O medo de Ethan não era o inevitável fato de que seu irmãozinho estava crescendo e ficando mais independente, mas sim de ele colocar fogo na cozinha. O que não era muito improvável.

— O que a mídia pensa de mim? — indagou, sem saber se realmente queria a resposta.

— Acham que você é humilde. Porque eles sabem que não temos empregada, assim, você é o único que cuida da casa e que cozinha. Além disso, você mesmo faz compras.

— E quem mais faria? — indagou, confuso.

— As celebridades contratam gente até pra fazer isso. Mas então, as pessoas gostam de você porque você não sucumbiu ao luxo após ter herdado uma fortuna tão grande. Sabe o que as pessoas pensam de mim?

— Não…

— Que sou um pirralho metido a galã que pega todo mundo. Não que eles estejam errados. Mas, por algum motivo, não gosto disso. Queria que as pessoas pensassem que eu tenho algo na minha cabecinha loura além de dinheiro e sexo demais e inteligência de menos. De alguma forma, meus boletins foram parar na internet, todo mundo acha que sou estúpido. Será que essa gente não entende que tenho déficit de atenção e hiperatividade? Ethan, me ensine a cozinhar.

Foi aí que Ethan percebeu que Nick não queria fazer aquilo para se tornar independente. Não queria sair debaixo da asa do irmão. Ele apenas se importava com a opinião pública e queria mudá-la. Ethan nunca se importou com o que os outros diziam de si, mesmo após descobrirem sobre Gabriel. Talvez fosse porque… ninguém falasse. Ninguém falava nada na sua cara desde o incidente com Tommy Overgreen, mas pelas costas… estremeceu.

— Tudo bem. Te ensino a cozinhar.

Nick sorriu.

— Obrigado.

Abraçou o irmão e, dessa vez, ele não se desvencilhou. Nick não usava nada além de uma camisa de pano alaranjado sem mangas e uma cueca box impecavelmente branca. Por algum motivo, Ethan se excitou em vê-lo assim.

Deitou-o na cama gentilmente e então fez o mesmo sobre ele. Suas bocas encontraram-se rapidamente e em pouco tempo, beijavam-se com tanto fulgor que o ar do quarto ficou quente, e as janelas, embaçadas. Ethan brincou com a língua do irmão enquanto deslizava as mãos famintas pelo corpo quase que completamente destituído de pelos de Nick. A puberdade o havia atingido de forma incrivelmente estranha. Quando Nick tinha 11 anos, sua voz era infantil e feminina, ele não tinha um pelo sequer no corpo inteiro, nem nas pernas, nem nos braços, mas o pênis era desenvolvido o suficiente para se parecer com o de um garoto dois anos mais velho. Com 13 anos, a voz de Nick passara de feminina para aguda e ainda com leves toques infantis, os pelos de suas pernas eram finos e tão claros que eram quase indistinguíveis, assim como os pubianos. Da cintura para cima, continuava completamente liso, como uma criança.

Ethan sorriu. Ele era sua criança.

Chupou seus lábios com volúpia, arrancando gemidos longos e cheios de paixão. Sem se cansar, Ethan continuou usando os lábios e a língua. Arrancou a camisa de Nick, propositalmente rasgando-a, e desceu dos lábios ao queixo e então ao peito pouquíssimo definido. Rodeou um dos mamilos com a língua até deixá-lo duro, e então fez o mesmo com o outro. Nick odiava que os apertassem entre os dedos, mas ia à loucura quando se usava a língua neles.

Ethan chegou à sua barriga quase inexistente. Como forma de controlar a hiperatividade, Nick fazia quase todos os esportes que a Alphonse Enoi dispunha, e o resultado disso era quase 0% de gordura. Enfiou a língua no umbigo do louro e fez como se o penetrasse, chupando-o e mordendo-o por fim. Vendo a pele marcada em vermelho do menor, Ethan despiu-se de todas as roupas.

Nick apreciou o corpo mediamente definido de Ethan. Embora ele não gostasse de fazer esportes, seu abdômen continha traços de exercícios, assim como os músculos dos braços e das pernas. Ethan parecia ser mais velho do que realmente era. Ou Nick que parecia ser mais novo. O membro pulsante e já vermelho de excitação do mais velho estendia-se duro com vontade. Nick mordeu o próprio lábio inferior, como sabia que excitaria ainda mais Ethan se o fizesse.

Dito e feito, Ethan se jogou contra seu corpo e enfiou novamente a língua em sua boca. Estava tão excitado que ejaculou quase que imediatamente quando pressionou o pênis contra o de Nick, muito embora a ereção não desaparecesse, e nem o faria tão cedo.

Nick ficou de quatro e fez questão de tocar o membro do irmão com os pés, enquanto empinava as nádegas. Ethan parecia que ia ejacular novamente. Mordeu o lábio de novo. Queria senti-lo dentro de si.

— Manda ver, garotão.

Ethan enfiou a língua entre suas nádegas e arrancou a força um grito do irmão. Resvalou-a em torno da entrada piscante e completamente despida de pelos de Nick, sentindo aquele cheiro de sexo que a tudo se impregnava, e então a pressionou contra ele. Nick começou a se masturbar, gemendo incontrolavelmente. Parte dos gemidos era verdadeira, a outra parte era para excitar Ethan.

Ethan se ajoelhou atrás de Nicholas e encostou a glande em seu ânus.

— Não perca tempo — gemeu. — Enfie de uma vez.

Ele o fez. Ambos abafaram um grito, Ethan de tesão e Nick de dor. O louro sentiu as estocadas nascerem do nada e logo tornarem-se investidas violentas e barulhentas. O cheiro de sexo impregnava o ar. A dor logo tornou-se prazer absoluto e Nick entregou-se ao êxtase. Não sabia se estava tendo orgasmos, porque ainda não ejaculara, mas se aquilo não era orgasmo, era muito melhor do que. Quando Ethan entrava nele, sentia-se completo, como se tivesse passado a vida toda procurando sua outra metade da laranja quando ela estava bem ali, crescendo do seu lado.

Ethan curvou-se para frente e começou a masturbar o irmão. A cama rangia tão fortemente que quase abafava seus gemidos. Não conseguia raciocinar. Por um momento, pensou em sussurrar ao ouvido dele que o amava, para no outro chamá-lo de vadia ao mesmo tempo em que mordia seu ombro. Como sabia que ele gostava.

Saiu de dentro de Nick, que se deitou na cama de lado. Deitando-se por trás dele na mesma posição, Ethan penetrou-o de novo e voltou a estocá-lo. Movia apenas o quadril num vai-e-vem frenético e incansável. Não sabia se já havia ejaculado ou não, mas não importava. Não era tão cedo que pararia.

Sem se separar de Nick, Ethan segurou o corpo com força e sentou-se na beirada da cama, os pés tocando o chão frio. Nick estava sentado em seu colo, parado enquanto Ethan continuava a estocá-lo. Parou de fazê-lo e então o louro começou a rebolar numa frequência violenta.

— Rebola, Nicholas. — Deu um tapa forte em sua coxa direita e recebeu um grito de êxtase em troca. — Vai, sua putinha, rebola. Você gosta disso, não gosta? — Afundou os dentes na carne de seu pescoço, marcando-o.

— Claro que gosto, seu imbecil. — E com isso, Nick ejaculou um jato tão forte que atingiu a parede. Ethan gemeu intensamente em seu ouvido e então Nick sentiu o gozo quente dentro de si, em tamanha quantidade que escorreu por suas pernas quando Ethan saiu de dentro dele. Estava tão trêmulo que quase foi ao chão. Seu irmão sempre fazia aquilo com ele. Era maravilhoso.

Caíram na cama, nus, exaustos, cobertos por uma película de suor, sentindo o cheiro de sêmen e sexo no ar. O pescoço e o ombro de Nick começaram a latejar após um tempo, mas ele não se importava. A dor era deliciosa.

Ficaram apenas a se beijar e agarrar sob os lençóis maculados, friccionando os corpos um no outro, apreciando a companhia alheia, o sabor e o cheiro de cada um, o amor que sentiam provado em carícias e longos beijos molhados.

Ethan amava tanto Nick que não conseguia pensar numa forma de descrever o que sentia.

E não precisou. Não eram necessárias palavras para fazê-lo. Ele fazia todo dia, quando ralhava com Nick às cinco e meia da manhã para ele acordar e ir à escola, quando o obrigava a almoçar antes de passar a tarde inteira jogando futebol e tinha um jantar delicioso e uma banheira cheia quando ele voltava, exausto demais até para falar, e quando fazia amor com ele antes de dormir, entregando-se ao irmão de corpo e alma, como nunca seria capaz de fazer com mais ninguém.

Nick resumiu tudo o que sentia. Virou os olhos negros para Ethan e perguntou.

— Me ama?

E Ethan respondeu.

— Te amo.

OoO

Ethan saiu do apartamento carregando em cada um dos braços dois sacos de lixo negros, cheios até a borda. Lamentava-se ao pensar que não era necessariamente lixo que havia dentro deles, e sim tudo o que outrora havia estado na cozinha.

Havia uma abertura no corredor da cobertura que separava o elevador da porta do apartamento que era usada para jogar o lixo fora, mas, por algum motivo, Ethan decidiu descer o elevador e jogar o lixo diretamente no depósito. Talvez precisasse respirar outros ares.

Desceu os vinte e três andares e chegou ao térreo. Saiu pelo hall e virou a esquerda, onde se guardavam dois latões de lixo enormes, dentro dos limites do prédio. Precisava apenas descer os catorze degraus.

Lá, encontrou um garoto com o cabelo tão, mas tão amarelo que, por um segundo, seu coração falhou. Oh, o cabelo de Oliver era idêntico. Embora fosse mais comprido…

O garoto não o viu. Estava jogando o lixo fora, como não podia deixar de ser. Quase tropeçando nos degraus, Ethan desceu a fachada do prédio e aproximou-se lentamente. Então percebeu que estava tão silencioso que ele não percebera sua aproximação. Imaginou se devia fazer mais barulho para ele se dar conta disso ou não, mas tudo foi por água abaixo quando o garoto virou-se para ele.

Ethan sentiu a respiração falhar. Ele era tão lindo. Os olhos claros e a pele branca como porcelana e uma eterna expressão que mixava tranquilidade e… o quê? Esperteza? Algo assim. Estava vestido completamente de preto.

O garoto arregalou levemente os olhos ao ver Ethan, mas sua expressão não se destoou da anterior. Apenas sorriu.

— Olá — disse.

Por alguns momentos, Ethan não soube o que dizer. Então se deu conta de como estava sendo estúpido. Estava apenas apreciando a beleza do garoto. Só isso. Não era?

— O… Olá — murmurou. — Meu nome é… — Deus, qual meu nome mesmo? — Ethan. — Que é que há comigo?

— Meu nome é Danny. Danny Nevarnost.

Ethan levantou as sobrancelhas. Será que ele era filho de Angel? Possuía o mesmo formato de rosto triangular e angelical. E aquele sorriso leve, mas tão atraente… adorável. Não sabia o que dizer. Era como se tudo que pensasse tivesse se esvaído de sua mente.

— Ah… olá, Danny — disse estupidamente. — Acho que já conheci sua mãe. — Deu uma risadinha.

Danny alargou o sorriso.

— Eu sei. Ela me contou. Também conheci seu irmão.

— Ah… é mesmo…?

Por que Nick não me contou isso?

— Sim — Danny respondeu. — Ele é adorável, como você.

Se Ethan pudesse ficar um pouco mais corado, ficaria.

— O-Obrigado. — Aquele branco em sua mente de novo. Balançou a cabeça nervosamente, irritado consigo mesmo. Forçou-se a sorrir, mas o sorriso no rosto branco de Danny tirava-lhe de uma linha racional de pensamento. — Você também é.

Seus olhos apertaram-se meigamente.

— Obrigado. Tenho que subir, agora. Até

— Até.

Ethan observou Danny subindo, sem desviar os olhos uma única vez, até que ele desaparecesse de vista.

— Deus — murmurou. — Ele… tem uma bunda linda.Que é que eu vim fazer aqui mesmo? Ah, sim, o lixo.

Aproximou-se da caçamba que Danny usara e jogou os quatro sacos lá dentro. Mas, ao invés de se virar e ir embora, Ethan permaneceu parado, estático, o olhar fixado no lixo.

Caindo de uma sacola azul estourada, vazias certamente, latas e mais latas de pesticidas.

OoO

Nicholas Hentz observava tranquilamente um pandemônio: aviõezinhos de papel voando pelo ar e se chocando contra cabelos escuros e claros que se emaranhavam, guerra de bolinhas de papel mascado atiradas à queima-roupa com canudos. Alguma coisa fazia com que alunos de pé necessitassem conversar com os outros aos gritos, apagar as anotações do professor da aula anterior com os dedos ou simplesmente achar algo para vandalizar. A lata de lixo da sala estava jogada no chão, seu conteúdo despejado.

Como é maravilhoso o sistema de ensino da Academia Alphonse Enoi.

Estava sentado no colo de Andrie Sarkosian, que enlaçava sua cintura com os braços. Perguntava-se por qual motivo meninas gostavam tanto disso. Não sabia, mas não ia recusar. Afinal, diziam por aí que Andrie era virgem…

A professora entrou na sala de aula e sua voz logo estalou como um chicote.

— Eu quero todos sentados agora! — berrou da porta. O esforço que ela fazia para tentar intimidá-los apenas com o olhar era tão patético que Nick sentiu pena. Havia trinta alunos naquela sala e, aparentemente, nenhum a havia escutado.

— É isso que dá ser mal comida — Nick disse, com uma mistura de malícia e falso pesar. Andrie e a garota sentada ao lado dela, Lucille, riram do comentário.

As garotas mais próximas também riram. Nick, em sua eterna humildade, se sentia um deus entre elas. Aos poucos, os alunos foram sentando-se e o ambiente tornou-se menos caótico. Bolinhas e aviõezinhos de papel pararam de cortar o ar como navalhas.

— Nicholas, Andrie, Lucille, sentem-se em seus lugares! — a professora ralhou. — Seus colegas não são carteiras.

— Depois eu volto — murmurou para Andrie e saiu de seu colo. Sentou-se em sua carteira, a da última fila, e começou a bater na mesa com os dedos de modo ritmado.

Com alguns cochichos remanescentes, a professora começou a passar um sermão.

Nick, desinteressado, virou-se para um garoto próximo e levantou as sobrancelhas. Sorriu. Entendendo o recado, o garoto sorriu de volta e assentiu, puxou o celular do bolso, assim como Nick, e ambos passaram a jogar algo juntos, conectados por Bluetooth.

— Hoje, quem vai ganhar sou eu — ele disse.

— Sim, e eu sou virgem — Nick retorquiu meigamente, arrancando algumas risadas de pessoas próximas. Com os dedos ligeiros tocando a tela em pontos precisos, ria, sem sequer fazer o esforço de ocultar o aparelho, totalmente esquecido da presença da professora.

— Nicholas e Cam, guardem esses celulares agora! — ela gritou da frente. Virou-se para uma garota sentada na fila do meio. — Amandha, não é hora de escutar música. — A professora continuava tentando explicar a matéria, já tendo anotado metade do quadro.

Nick abaixou o aparelho um momento e pausou o jogo. Inclinou-se para Luca, que sentava-se ao lado dele e permanecia calado.

— Como você consegue ficar quieto assistindo aula? — indagou sinceramente curioso. — Parece que ela acumulou frustração sexual de décadas apenas para descontar em seus pobres alunos tão queridos. — Olhou para quem sentava a frente de Luca e viu Gabriel Melnick mexendo no celular discretamente, levantando a vista às vezes para tapear a professora. Inclinou-se para ele. — Como se sentiria Ethan se soubesse que o amor da vida dele não presta atenção na aula?

Gabriel demorou um tempo para perceber que Nick falava com ele, mas não se alterou.

— Não seria grande surpresa, não é? — indagou.

Ele realmente pegou o jeito do sarcasmo. E tenho certeza que não foi de Ethan. Deus, o que eu faço com as pessoas? Sentiu-se tentado a rir, mas chamaria atenção e a última coisa que desejava era ser expulso de aula.

Virou-se de volta para Luca.

— Que tal a escola? — indagou. — Maravilhosa, não?

— Bom… Ainda não me acostumei ao sistema de ensino de uma escola… Então eu tento direcionar toda a minha atenção à aula. Por isso presto atenção. Aliás, ela não é tão… chata.

— É sim.

— Não, não é…

— É sim.

— Nick, se você tentasse…

— Ela é.

Não…

— É sim.

Ela não é…!

Dessa vez, esperou alguns segundos antes de responder.

— É sim.

Luca bufou de irritação. Nick não estaria fazendo aquilo se não achasse que ele achava exatamente a mesma coisa. Luca tinha alma de CDF, assim como Ethan, embora ele mesmo já tivesse dito que não era nenhum gênio.

— Sendo ou não… ainda falta um tempo inteiro até o recreio.

— Intervalo.

— O quê?

— Você quer dizer intervalo. Não somos crianças de dez anos.

Ele pareceu desconcertado, até mais que irritado.

— Intervalo. Um tempo inteiro até o intervalo.

Nick recostou-se de volta na cadeira e voltou a prestar atenção no jogo, usando da agilidade dos dedos que moviam-se rápidos como facas para explodir o personagem do adversário. Virou-se para Cam com um sorriso vitorioso. E então suspirou. Luca tinha razão, ainda tinham um tempo inteiro até o intervalo, e então, mais o quê? Quatro aulas? Não dava pra aguentar… E antes de guardar o celular, uma ideia cruzou-lhe a mente.

Sentiu um arrepio passando pela espinha. Poderia ser expulso. Poderia ser preso. Poderia ir pra casa mais cedo.

Ah, todo mundo sabe que eu sempre fui uma pessoa extremamente otimista.

— Ei, alguém aqui quer ir embora agora? — perguntou o mais alto possível que a professora não conseguisse ouvir. Muitos a sua volta concordaram, interessados. Inclusive Luca e Gabriel, que discretamente passaram a ouvi-lo. Gente que tem medo de se dar mal é fogo. — Eu tive uma ideia. Mas preciso de um desodorante em spray e um isqueiro.

— A Noe deve ter, ela anda com um isqueiro no bolso para cima e para baixo — comentou Lucille, já fora de seu lugar. — E eu sempre deixo meu desodorante na mochila.

— Pra quê? — indagou.

— Educação física.

— Ótimo — Nick sorriu como uma criança ao ganhar um doce, cutucando outro menino a sua frente. — Pode pedir o isqueiro da Noe emprestado?

Sem conseguir conter a curiosidade, Luca inclinou-se para Nick.

— Vai mesmo fazer com que sejamos liberados mais cedo?

— Já me viu mentir?

— Já.

— Então você teve uma primeira impressão muito errada de mim. — Se o cinismo que usava pudesse ser visto, estaria escorrendo de sua boca. — Por quê?

— Você gostaria de… ahn, é que ficaremos com um longo tempo vago depois daqui, então pensei que, talvez…

— Ir à sua casa?

— Ah… sim.

Nick sorriu. Da última vez que fora à mansão de Luca, era quase um refém. Talvez fosse melhor ir como convidado e ver aquela propriedade direito. Deus sabia o que aqueles incontáveis quartos escondiam.

— Vamos para lá direto daqui, então.

Antes que Luca pudesse expressar sua felicidade, Lucille lhe entregou o desodorante e outro menino lhe passou o isqueiro de Noe. Nick pegou-os e esperou pacientemente a professora se virar para apagar uma parte do quadro e começar a anotar outra. Quando isso aconteceu, Nick destampou rapidamente o desodorante e, com o coração queimando e quase pulando da caixa torácica, apontou-o para um mural afixado à parede dos fundos da sala. Sorriu insanamente e colocou a ponta do isqueiro na frente do spray. Ascendeu-o e acionou o jorro do desodorante. Uma chama amarela e viva nasceu como uma fênix e lambeu violentamente o mural apinhado de papeis, agressiva como uma fera. Cinzas começaram a cair, amontoando-se no chão, e uma fumaça começou a ser produzida.

Quando viu que o fogo não ia cessar, atirou o desodorante de volta a Lucille e mandou entregarem o isqueiro a Noe, tudo isso enquanto ouvia os alunos mais próximos suspirarem e começarem e murmurar em tom de riso: “Você é doido, Nicholas!”, “Você vai colocar fogo na escola!”, “Já pensou que pode ser expulso?” Como se não tivesse feito nada, Nick batucava na mesa ritmicamente, o nervosismo só sendo denunciado pela camada de suor que cobria sua testa. Só ficaria mais cínico se começasse a assobiar.

Luca e Gabriel olharam-no como se não acreditasse no que ele havia feito. Mas ninguém teve tempo de comentar nada, a professora virou-se para explicar a matéria novamente e arregalou os olhos, vendo o mural ser consumido pelas chamas que se alastravam rapidamente. Quando pensou que ia gritar, uma sirene entoou estrondosa e água começou a jorrar do teto. As garotas gritavam pelas chapinhas desfeitas. Um burburinho insuportavelmente alto tomou conta da escola. O alarma de incêndio havia sido ativado e a Academia Alphonse Enoi estava provavelmente sendo afogada em água.

Os alunos começaram a correr para fora da sala, sendo imitados por tantos outros que chutavam as portas para sair. Mas os corredores também jorravam água, o que não adiantava muito. Nick pegou a mochila e, mordendo o lábio para não rir, apressou-se para sair, junto a vários outros que gritavam, fingindo terror, mas que na verdade apenas queriam fazer mais bagunça. Fora da sala, recebeu vários tapinhas no ombro de agradecimento, algumas risadas cúmplices e um olhar incrédulo de Noe e Lucille, que haviam emprestado o isqueiro e o desodorante sem fazer a mínima ideia do que Nick iria fazer com eles.

Aproximou-se das duas e estalou um selinho na bochecha de cada uma.

— Lamento pela chapinha de vocês, mas, obrigado… vocês foram um amor. — Piscou para as duas e aproximou-se de Gabriel. — Acho que, se você sabe o que é bom para você, não vai comentar com Ethan nada sobre o ocorrido que culminou nessa maravilhosa manhã molhada, não é, meu querido?

Gabriel ficou sem expressão, depois sorriu e passou a mão pelo cabelo escuro, para tirar o excesso de água.

— Não sou tão idiota quanto pensa.

— Eu duvido disso. — Afastou-se dele e aproximou-se de Luca, que ficara vermelho com a corrida. — E então — Sorriu —, vamos?

— Não deveríamos esperar ser liberados pela direção?

— “Liberados pela direção”? — indagou, fingindo incredulidade. — Quer que esperemos aqui enquanto somos consumidos vivos pelo fogo? — Olhou em volta. — Tá todo mundo indo embora, vamos… — Virou para a posição oposta para correr, puxando o braço de Luca, mas chocou-se contra alguém.

Quando viu quem era, quase caiu de joelhos.

— Ethan, oi! — disse, a mente a mil. — A escola está pegando fogo, acho melhor corrermos.

— Apenas me diga — Ethan estava ensopado até o cabelo, que ficara estranhamente liso. Sua voz era cortante — que você não teve absolutamente nada a ver com isso.

— Pelo amor de Deus, é claro que eu não tive. — Lutava tanto para parecer atarantado que acabou ficando realmente assim. Ao ver a face incrédula dele, realmente caiu de joelhos. — Você não acredita em mim? Não vê como estou nervoso?

— Vejo, mas não sei por qual motivo. — Gabriel aproximou-se deles e antes que pudesse falar algo, Ethan deu-lhe um selinho. Nem uma viva alma perto deles se atreveu a olhar. A diferença de altura entre eles era tão grande que era difícil acreditar que Gabriel tinha 13 anos. Muito menos que Nick era mais velho que ele. — Você está bem?

Gabriel assentiu.

— E não foi Nicholas quem começou o fogo.

Os dois irmãos franziram as sobrancelhas.

— Não? — Ethan indagou e Nick quase fez o mesmo, mas conteve-se. Ao invés disso, levantou-se num pulo.

— Claro que não! — fingiu mágoa. — Você sempre me culpa de tudo, odeio isso. Posso ir pra casa de Luca?

— Desculpa, Nick… — Ethan disse, envergonhado. Nick não se dignou a sentir pena dele. — Pode ir sim, eu vou descer para pegar Lorenzo.

— Ótimo, vá mesmo, ele deve estar aterrorizado. — Puxou Luca pelo braço e desceu as escadas com ele, praticamente o arrastando.

OoO

— Não se sente mal em enganar seu irmão assim?

— Se eu fosse capaz de enganar Ethan Lemnsack Hentz, eu seria imperador do universo.

Era a primeira vez que andava de limusine, e estava adorando cada segundo. Não sabia por que, era só um carro normal… com nove metros de comprimento, sistema de iluminação a laser, poltronas de couro, frigobar, três telas de TV, ar-condicionado e telo solar, como não podia deixar de ser.

— Acho que — Nick continuou dizendo —, no fundo, ele sabe que fui eu. Mas confia mais no Gabriel do que em mim. — Havia um tom de pesar em sua voz que Luca notou. O menor aproximou-se do louro e, hesitante, colocou a mão em seu ombro. Como Nick não o repeliu, Luca envolveu seu pescoço com o braço. A cabeça dele encostou-se a seu ombro e, por um momento, sentiu-se no céu.

A limusine adentrou o condomínio Jardim de Ouro e continuou seguindo até quase seu final. A casa de Luca era encorpada pela floresta que cercava um quarto de Middleland, as árvores verdes e altas invadiam o condomínio com atrevimento.

O carro parou bem em frente à fachada da mansão e o motorista abriu a porta. Nick seguiu Luca, que entrou pela porta, passou pelo pequeno hall e começou a contornar uma infinidade de quartos e salas.

— Quero te mostrar uma coisa.

Se a casa de Luca era grandiosa por fora, por dentro era simplesmente fantástica. Durante o trajeto, Nick se deparou com um salão de jogos que devia conter praticamente todos os jogos já produzidos na história da humanidade, uma biblioteca de tirar o fôlego que se elevava pelos quatro andares da mansão, uma academia, uma piscina térmica com uma cachoeira artificial ambientada num lugar que mais parecia um parque aquático e, passando por um corredor com janelas que iam do chão ao teto, viu um jardim particular que de tão bonito dava vontade de chorar.

Embora não tivessem saído do térreo, o que Nick viu realmente o fez ficar com vontade de chorar, se pensasse no que atualmente tinha.

Em praticamente todos os cômodos, Nick perguntava, ansioso, se podiam parar e apreciá-lo. Luca insistia pacientemente que deviam continuar andando.

Por fim, chegaram a um pequeno corredor com apenas uma porta no fundo. Nick notou que aquele não tinha janelas, absolutamente nada, na verdade, chão e paredes de pedra cinza completamente destituídos de qualquer decoro, e a iluminação era fraca. Era assustador, decerto.

Luca aproximou-se da ameaçadora porta marrom e tirou um molho de chaves do bolso, pegando a maior e mais envelhecida. Abriu a porta, revelando um armário minúsculo com nada mais que um buraco no chão. Podia-se ver uma escada que levava até o subsolo.

— Do que se trata? — Nick perguntou, sorrindo inocentemente.

— Há cerca de cem anos, havia uma mina de diamantes na floresta que era o principal sustento de Middleland. Você deve saber, afinal, ela foi amplamente explorada pela Kruger-Vorheel. Depois, a mina secou. Essa abertura leva a um dos túneis que eram utilizados pelos mineiros para transportar diamantes. Eles cobrem todo o Jardim de Ouro, embora só tenham duas saídas, já que as outras foram derrubadas. Uma saída é essa — Apontou para o buraco no chão —, a outra dá para a floresta, para uma antiga abertura da mina em que é possível passar, dado o estado de conservação da madeira que cobre a caverna. — Sorriu ao ver a excitação nos olhos de Nick. — Hoje, os túneis formam um labirinto.

— Você tem um labirinto em casa? — ele indagou, parecendo uma criança.

— Por que acha que meu pai comprou essa casa? Ele dá uma excelente rota de fuga. É fácil se perder lá em baixo, mas eu já decorei praticamente todos os caminhos. Você quer des… — Antes de concluir a pergunta, Nick pulou para a escada e começou a descer. — Cuidado! Quando chegar ao final, não se mova.

Luca desceu as escadas cerca de sete metros. Quando chegou ao chão, tateou as paredes no breu total até achar uma caixa de força. Abriu-a cuidadosamente e empurrou uma velha alavanca para cima. Uma série de luzes pôs-se a ascender-se, começando bem de onde eles estavam, espalhando-se para frente e para trás, revelando os dois lados do túnel. O chão era de terra, mas as paredes eram revestidas de cimento e madeira. No caminho da frente, Nick podia distinguir o túnel se dividindo em dois. No de trás, ele prosseguia como um só indefinidamente. O ar estava quente e abafado, e as luzes eram fracas e trêmulas.

Nick amou cada segundo daquilo.

— O caminho da frente fica bloqueado após andarmos um pouco — Luca disse. — A entrada da floresta fica no de trás. Vamos?

Começaram a andar em caminho oposto, sob intenso silêncio e quietude. Era tudo tão excitante para Nick que ele olhava para cada centímetro do túnel como se fosse algo novo, embora fosse idêntico ao anterior. Num certo momento, o túnel se dividiu em dois, mas Luca optou por ir pela direita.

— Obrigado por me trazer aqui — Nick disse após um tempo.

— De nada. Pensei que gostaria.

Nick olhou para ele de relance. Luca estava com as faces coradas, o cabelo solto, o olhar voador, um sorriso bobo no rosto. E tudo aquilo por quê? Porque estava ali, sozinho com Nick, fazendo-o feliz. Sim. Era adorável. Nick perguntou-se como pôde fazer aquilo com ele. E ele nem se importara. Não ficara com raiva. Triste, talvez. Mas raiva não. Sem mágoa. Sem ressentimento. Compreendeu que não era apenas porque o amava, Luca era uma pessoa boa, simplesmente. Naquele momento, desejou sincera e ardentemente poder retribuir o que ele sentia.

Chegaram a um cruzamento em que o túnel se separava em mais três caminhos completamente perpendiculares, formando um cruzamento de quatro vias. O caminho da esquerda descia numa ladeira íngreme demais para uma pessoa andar normalmente, chegando a ser quase vertical. O problema é que havia poucas luzes no local e a maioria estava quebrada, estando o ambiente escuro demais para alguém perceber o enorme buraco no chão em que se formava a ladeira. Luca sabia disso, então se manteve longe da trilha da esquerda. Mas esqueceu-se de avisar a Nick.

Só percebeu seu erro quando ouviu a voz irritantemente fina dele ecoando, ao mesmo tempo em que assistia seu corpo sumir nas sombras.

Nick gritou quando pisou em falso no buraco, caindo com um estrondo. Por sorte, ele não era tão fundo, não chegava a um metro e meio. Mesmo assim, quando tentou se levantar, deu outro grito.

— Você está bem?! — Luca indagou, meio desesperado, precipitando-se na beira do buraco. Poeira levantou-se com a queda de Nick.

— Acho que torci o tornozelo — Nick gemeu.

— Ai, me desculpa — ele disse. Era como se voltassem ao dia em que se conheceram. Estava a um ponto de chorar, mas Nick não estava com cabeça para lágrimas. — É culpa minha, eu devia ter te avisado que havia um buraco aí… desculpa, desculpa…!

— Pare de pedir desculpas e me ajuda a subir.

Nick levantou-se cambaleando e apoiou o pé cujo tornozelo estava bom na parede de terra, impulsionando-se para cima. Luca ajudou puxando-o pelos dois braços. Foi um processo lento e esforçado, já que nenhum dos dois tinha tanta força assim. No fim, estavam sentados no chão de terra, ofegantes.

— Eu não devia ter te trazido aqui — gemeu Luca, que parecia tão atarantado quanto triste. Nick apiedou-se dele. — Eu sabia que ia dar alguma coisa errada… eu sempre faço tudo dar errado…

— Luca, Luca, gosto de você, mas se continuar a se culpar e lamentar, eu vou te espancar. Já passamos da metade do caminho?

— Ah… sim, falta só uns 150 metros, eu acho.

— Então vamos continuar.

— Mas… você torceu o tornozelo.

— Dane-se meu maldito tornozelo. Vem, me ajuda.

A perspectiva de andar o resto do caminho praticamente agarrado a Nick certamente não desagradou Luca. Envolveu o braço direito no pescoço branco e pôs o direito dele no seu próprio. O cheiro natural de Nick era tão inebriante que quase foi ao chão.

Por fim, chegaram a uma caverna fechada com tábuas de madeira já podre que poderia ser facilmente derrubada, se forçada. A luz do sol passava pelas brechas, iluminando o resto do caminho, literalmente uma luz no fim do túnel.

— Eu nunca ultrapassei as madeiras — Luca comentou, arfando —, mas, se você quiser…

— Me ajude a empurrá-las — ele disse sem perder tempo, os olhos brilhando.

Ambos pressionaram as tábuas, que já estavam bem soltas, várias vezes até que elas finalmente cedessem num estrondo. Nick ficou com algumas farpas nas mãos e Luca certamente também. Mas valera a pena.

O verde da floresta era tão denso que o sol mal ultrapassava as árvores mais altas. O cheiro de umidade tomava o ar e uma sensação gostosa apoderava-se de seus ouvidos, o som da natureza. Podia-se ouvir um riacho ali por perto, um pássaro ou outro cantando aqui e ali… árvores e mais árvores espalhavam-se por todos os cantos. O túnel dava numa caverna que dava numa clareira não muito grande, com o chão coberto de folhas secas que se estraçalhavam quando alguém pisava nelas. A paz e a calmaria governaram o lugar. Ao longe, a menos de um quilômetro de distância, Nick podia distinguir a cerca que cercava Jardim de Ouro.

Olhou para Luca, que estava sacudindo a poeira da roupa. Aproximou-se dele e, antes que ele tivesse tempo de raciocinar, puxou-o pela cintura e encostou seus lábios nos dele. Luca gemeu, inconscientemente, enquanto Nick enfiava a língua em sua cavidade. Enlaçou a cintura do louro e o apertou contra si.

Então separou-se dele e beijou sua bochecha carinhosamente.

— Obrigado — Nick disse.

— Pelo… quê? — Luca perguntou, as bochechas coradas, a respiração ofegante.

— Por ter me trazido aqui.

OoO

Nick e Luca ainda estavam cobertos de poeira quando saíram pelo buraco da casa deste último, mas sorrindo, divertidos, excitados, felizes. Quando deixaram o corredor que antecedia o armário com a entrada para o túnel, depararam-se com alguém.

Nick nunca o tinha visto antes. Era um homem, alto, não parecia ser muito velho, mas suas feições eram envelhecidas, embora possuísse na face uma imponência e superioridade claras. O cabelo era preto, com algumas mechas grisalhas e a pele era branca e enrugada. Seus olhos eram de um profundo e intenso azul claro como o gelo, mas tempestuosos. Foi vendo seus olhos que Nick compreendeu tratar-se de Enzo Granelli, pai de Luca. E chefe da máfia.

Um temor nasceu dentro dele, mas soube controlá-lo.

— Luca — o homem murmurou sem grande interesse. Lia um amontoado de papeis em sua mão que mais parecia um relatório, porém Nick não conseguiu nenhuma informação mais precisa porque estava em italiano. — Quem é seu amigo? — Ele nem levantou a vista.

— Ah, pai — Luca murmurou, respeitosamente. — Esse é… Nicholas Hentz.

Enzo Granelli não demonstrou nenhum sinal de reconhecimento, surpresa, nem de nada.

Passaram-se alguns segundos em silêncio até que Granelli falou novamente.

— Já lhe avisei que não quero que desça aos túneis. — Sua voz era gélida de tão severa. — Muito menos mostrar para alguém. Eles devem permanecer secretos.

E que tal o fato de que ele podia se perder ou se machucar lá dentro? Não vai levar isso em consideração?

— Desculpe, pai — Luca disse, sem alteração. — Não farei de novo.

Nick percebeu que ele estava mentindo.

Granelli voltou o olhar para o filho, mas não parecia querer dizer nada. Falou algo em italiano, muito rápido, coisa que Luca respondeu na mesma língua e velocidade. Então entrou por uma porta e foi embora, deixando os dois sozinhos no corredor.

— Me ensina italiano? — Nick perguntou.

Luca olhou-o com um olhar inquisitivo.

— Para quê?

— Acho legal. Aliás, poderia conversar com Lorenzo sem Ethan saber do que se trata. Ele ficaria louco. Seria incrível.

— Quem é Lorenzo?

— Meu meio-irmão. — Luca fitou-o incrédulo. — Depois te explico. Vamos sair daqui. Sinto como se essa casa estivesse me engolindo.

OoO

Enzo Granelli voltou a seu escritório no quarto andar da mansão e sentou-se numa mesa de couro carmesim. Ascendeu um charuto e pôs-se a fumar tranquilamente. O relatório que tinha em mãos era bem específico, embora não tanto quanto deveria. Ainda faltava algo…

Olhou em sua escrivaninha um exemplar de uma revista de fofoca. Por que Luca continuava em deixar aquelas baboseiras ali? Pegou-o pronto para jogar no lixo, quando se deparou com Nicholas Hentz na capa. Estava num shopping, pelo visto. E segurava a mão de um menino moreno, mais baixo que ele, oito anos talvez, que usava uma bengala. Obviamente era cego.

Lentamente, Enzo Granelli deixou o charuto cair de sua boca enquanto analisava melhor aquela imagem tão nítida, tão clara, tão… útil.

Notas finais
Só avisando que só postarei o próximo capítulo com no mínimo 3 reviews nesse. =^.^=