Como Vivem Os Anjos

32 Os Antigos Egípcios Tinham Um Deus Chamado Anhert


Notas iniciais
Aqui está mais um capítulo. :3

Sua Alteza Real, o príncipe Senn Henrietta Antoniette Jaime Alexander Walker-Fellow da Califórnia, das Casas Walker e Fellow e Conde de Southeria, estava sentado havia quatro horas escrevendo avidamente em folhas de papel outrora em branco. Sua caligrafia era pequena e apertada, com a elegância natural que apenas um príncipe podia ter.

A avaliação continha apenas uma pergunta; mesmo assim, Senn desdobrou-a em todas as direções possíveis e escreveu tanto que sua mão começou a doer. Quando ergueu a vista para o aposento em que estava, percebeu-se tonto.

Aileen estava sentada no sofá do quarto, mastigando a tampa de uma caneta, numa mania involuntária e inconsciente; lia um livro da grossura de sua coxa e tomava sua sexta xícara de café daquele dia.

— Terminei. — Senn largou a caneta que segurava e levantou da cadeira, espreguiçando-se. — Está aí. Toda a história da Revolta Californiana.

Ela levantou os olhos azuis. Aileen era loura com um cabelo naturalmente ondulado que batia na altura de sua cintura. Tinha lábios pintados de vermelho e um minúsculo sinal acima destes, no lado direito. Também usava óculos retangulares e discretos. Aileen era sua tutora desde que se entendia por gente, e, por algum motivo, nunca parecia envelhecer.

— Dê-me aqui. — Senn estendeu-lhe as páginas completamente rabiscadas, frente e verso.

— Tenho mais algum compromisso hoje? — indagou, sentindo a cabeça latejar. Aquele quarto estava lhe dando claustrofobia. Não havia nada que quisesse mais que abrir as janelas, mas se o fizesse, uma enxurrada de fotógrafos acenderiam a noite com os flashes.

— Sua Majestade anunciará o novo Primeiro Ministro hoje à noite, em frente à Prefeitura. Você deve estar lá.

— Pra quê? Vão substituir o cara daqui a cinco anos mesmo. — Como era costume, a rainha anunciaria o novo Primeiro Ministro na cidade onde ele nasceu, o que tornava todo o mistério da coisa uma idiotice sem tamanho, uma vez que no momento em que era divulgado para onde a família real viajaria, já era óbvio o vencedor. — Por que eu tive que vir mesmo? Toni ficou em Sacramento.

— Você é o conde de Southeria, estamos no condado de Southeria. Preciso dizer mais alguma coisa?

— Ah, títulos, títulos… de nada valem. Assim como provas de história.

— Você será o rei um dia, Senn, mas no momento tem apenas dezesseis anos. Sua bisavó quer que você esteja preparado.

— Por que eu tenho que estar preparado se ela simplesmente se recusa a bater as botas? — A rainha Henrietta tinha cento e três anos e já vira doze Ministros, metade destes já haviam falecido. Não dava indícios de que faria o mesmo em breve, nem de que iria abdicar a favor de sua neta, pois o filho unigênito da rainha, avô de Senn, estava, como todos sabiam, trancado num hospício. — Aliás, quando minha vez chegar, a monarquia provavelmente já estará sendo abolida. Olha só pra isso — Apontou para a xícara de café de Aileen —, essa xícara deve custar mais que metade das casas dessa cidade.

— Certamente — ela bebeu o resto do líquido preto e fumegante. — Mas o café é o mesmo, a cafeteira é a mesma, as sementes também e os homens que as colhem, igualmente. Agora apresse o fim da sua rebeldia de adolescente socialista e vá se trocar, hoje é o dia da independência, Sua Alteza terá de falar algumas palavras para a multidão sobre isso, sobre a tentativa de assalto ao Banco Nacional ontem e sobre o Massacre da Coruja.

— Ah, Aileen… — Senn sorriu sonhadoramente. — Sabe que eu adoro você, mas se me chamar de Sua Alteza de novo, terei de lhe mandar para a forca.

OoO

Vinte e duas horas antes, Nicholas Hentz estava no hospital.

— Você vai ficar bem… oh, pelo menos, olhe pelo lado bom. Não é todo mundo que pode se gabar de ver uma tentativa de assalto a banco com os próprios olhos, tão de perto.

— Seria melhor se eu não quase tivesse ficado aleijado — Lucas gemeu, choramingando.

Qualquer pessoa normal teria tido náuseas ao olhar para aquele pedaço de ferro que provavelmente estava cheio de germes e ferrugem inteiramente atravessado na perna de Lucas. Apesar das diversas ataduras cobrindo-a, estavam todas ensopadas de sangue. É claro que ele precisara de uma transfusão.

— O meu sangue é B negativo e isso é tipo… o segundo tipo de sangue mais raro que existe — ele dissera, sem conseguir conter o choro de dor. Nick achara-se adorável com uma expressão particularmente indiferente ao olhar seu rosto sujo de poeira e diversos médicos trabalhando em sua perna. — Minha mãe não tem esse tipo sanguíneo e meu pai está morto.

É claro que o grande Ethan Lemnsack tinha que salvar o dia.

— Eu tenho esse tipo de sangue — ele sussurrara com aquela imponência que apenas o primogênito de Charles e Mary Alice Lemnsack Hentz poderia ter. — E sou maior de idade. Posso doar para você.

Dito e feito, Ethan doou o maldito sangue, Lucas estava bem. Isto é, da cintura para cima. Apenas aguardava ser levado para a cirurgia.

Mas uma coisa incomodara Nick: a forma com a qual Ethan se preocupara com Lucas. Não era apenas porque o garoto era bonitinho (claro que ele era, parecia-se com Ethan), sabia que não era. Havia algo submerso sob tanta complacência e preocupação; Lucas e Ethan pareciam se conhecer há anos. Nick sabia que isso era impossível, mas então por que Ethan demonstrara tanto desespero ao ver o ferro enfiado na perna de Lucas quando a poeira da explosão do banco se dissipou? Ele até chorara, embora tivesse tentado esconder esse fato.

Quando se encontrou sozinho com ele (que, ironicamente, havia saído para tomar um ar fresco e fumar um cigarro), colocou-o contra a parede.

— Por que doou sangue pra ele? — indagou. Ethan mediu-o de cima a baixo, como que analisando algo. A coleira de Charlie agitava-se o tempo todo na mão de Ethan, ele estava enlouquecido com o cheiro dos carrinhos de comida de perto do hospital.

— Por que eu não doaria? B negativo é realmente um sangue muito raro.

— Não me venha com essa, todo mundo que te conhece sabe que você é um porco egoísta. — Ele levantou uma sobrancelha. Nick tirou o cigarro da boca dele e deu uma tragada, agachando-se e coçando a orelha de Charlie logo depois. — Desculpe, estou meio estressado com tudo isso. Com… tudo. Acho que eu só estava com ciúmes, mas isso é bobagem. Afinal, você doou sangue pra mim quando eu levei um tiro, não foi?

— Claro que foi. — Ethan agachou-se também, sorrindo e acariciando seus cabelos ruivos que já apresentavam uma raiz loira. — Eu sou complacente com a vida humana. Quando ela merece. Lucas não me parece ser um mau garoto. E não me custaria nada. Aliás, ganhei bolo de chocolate depois. Não é maravilhoso?

Nick riu levemente. Sua voz estava mais grossa do que jamais fora, falar demais o cansava pela primeira vez na vida, como se estivesse sempre rouco. Sua risada tornara-se algo diferente. Os dois se levantaram.

— Então me faça o favor de largar esse cigarro ou você vai desmaiar. — Tirou-o dos dedos de seu irmão e esmagou-o no chão. — Acabou de perder um litro de sangue e, de sobra, ainda oblitera seus neurônios restantes com isso. — Olhou fundo nos olhos escuros de Ethan, tão negros quanto quase qualquer coisa que pudesse existir.

— Você sabia que os antigos egípcios tinham um deus chamado Anhert? — ele indagou. — Sua forma humana era a de um homem barbado usando quatro plumas na cabeça. Sua forma animal era a de um leão. Um leão dourado. Anhert. An… hert. Bonito nome, não é?

— Claro que é. — Nicholas olhou para o céu escuro da noite. — Já posso ver a Anhert como uma das dez maiores empresas do mundo daqui a uns anos. — Fitou-o de volta, observando sua expressão surpresa. — Não me diga que você não pensou em nomear sua futura empresa com esse nome.

— Eu pensei. Mas ela não existe.

— Vai existir — sussurrou. — Pode crer que vai, e seu símbolo será um leão dourado como um leão Hentz. Você será o presidente e eu posso ser o seu secretário sexy com quem você dá umas puladas de cerca de vez em quando.

— E quem não daria tudo para ver Nicholas Hentz usando uma minissaia? — Ethan puxou Nick para si e beijou seu pescoço longa e carinhosamente, aspirando seu cheiro natural.

— Amanhã, a rainha vai estar na Prefeitura anunciando o novo Primeiro Ministro; o príncipe Senn vai estar lá e ele é quase tão bonito quanto eu. Que tal irmos secá-lo publicamente?

— É uma ótima ideia. — Ethan beijou a testa de Nick protetoramente, segurando sua nuca com uma mão. — Agora que a mãe de Lucas chegou, vamos nos despedir dele e ir para casa trepar como coelhos.

— Por que não? Ei, quando você acha que Charlie estará apto a fazer pequenos Charliezinhos? Soube que Shih-Tzus valem uma fortuna.

OoO

Na noite daquele dia, no prédio mais alto da Rua Symphonia, pouco antes da meia-noite, Lorenzo Barcarolli levantou-se da cama com os olhos fechados. Sua mente estava muito longe dali, longe o suficiente para não perceber seu corpo caminhando lentamente para fora do quarto a passos silenciosos. Passou pelo quarto de Nick e pelo de Ethan. Desceu as escadas para o primeiro andar com cuidado, sem tropeçar. Estava sem a bengala.

A luz da lua iluminava a sala de estar, refletindo nos cristais do lustre transparente pendurado acima da mesinha de centro. Lorenzo girou a chave da porta duas vezes e a atravessou, fechando-a atrás de si. Caminhou os poucos metros do corredor antecedente à porta da cobertura, pisando descalço no carpete vermelho, deslizando os dedos nus pelo mármore trabalhado das paredes.

Quando o elevador chegou ao vigésimo terceiro andar, Lorenzo entrou nele e apertou o botão do térreo. Sempre tivera medo de andar de elevador sozinho, mas não era ele quem controlava aquele corpo. Um andar abaixo, Rowan Pyatt entrou no elevador também. Usava um pijama azul-claro infantil do qual quase ninguém sabia da existência, ou deveria saber. Estava de olhos fechados também.

OoO

No andar vinte e dois, Gillian sonhava. Seus sonhos eram sempre macabros e sombrios, cheios de escuridão, dor e tristeza. Não importava que ela conseguisse ver todas as dimensões existentes, por algum motivo, sempre acabava vendo a pior perspectiva possível de tudo.

Em seu sonho, estava trancafiada numa tigela de vidro parecida com um aquário, a qual estava flutuando num plano completamente branco despido de tudo. De repente, as Sombras começaram a encher a tigela, surgindo de lugar nenhum e de todo lugar, sufocando-a. Gillian sentiu pequenas sanguessugas grudando em seus braços e pernas até que quase sumisse.

O rosto de Rowan surgiu naquela escuridão, e seus olhos eram negros. Estava sentado numa cadeira de madeira no meio do nada, então uma faca surgiu e cortou-lhe o pescoço. O rosto de Lorenzo Barcarolli surgiu ao lado dos restos de seu corpo, também sentado numa cadeira. Outra faca, mais sangue. A vermelhidão tomou o negro e tudo se tornou uma grande ferida aberta no meio do nada, e Gillian não tinha outra escolha senão assistir àquilo. Uma voz monstruosa e tão antiga quanto às próprias Sombras rugiu colossal; foi aí que Gillian acordou.

Estava suando e ofegante. Rapidamente, pôs seu roupão e saiu de seu quarto, entrando de supetão no quarto de Rowan. A cama estava vazia, os lençóis desarrumados.

Não fora um sonho, fora uma visão.

Olhou em volta. Seguindo para fora do apartamento, uma trilha tão negra quanto tudo que pudesse existir flutuava no ar, quase sumindo. Era parecida com uma névoa, intangível e invisível para quase todo mundo, exceto para ela e seus olhos amaldiçoados. E talvez para Lorenzo também.

A névoa era Sombra pura e levava através do corredor em L para o elevador. Lá, Gillian notou que ela se intensificava.

Lorenzo. Droga.

OoO

Já era uma da manhã quando finalmente chegaram ao fim da linha. Quase seis quilômetros longe do prédio, Rowan e Lorenzo encontravam-se em frente a uma antiga loja de antiguidades chamada Ultimum Temporum. Apesar de estar com a placa de fechada e das luzes estarem desligadas, a porta da loja estava destrancada. Rowan estava a ponto de empurrá-la quando uma mão tocou seu ombro.

Acordou sobressaltado, caindo de joelhos. Seus olhos azuis escuros abriram-se arregalados, observando o ambiente a sua volta. A primeira coisa que notou foi que não estava em seu quarto. A segunda coisa foi que Gillian estava pouco atrás de si, ofegante. A terceira coisa foi Lorenzo abrindo a porta da loja de antiguidades a qual estivera naquela mesma tarde e entrando no espaço. A quarta foi que estava sem suas luvas.

Gillian pulou por cima do irmão e puxou Lorenzo pelos ombros para trás. Ele abriu os olhos e deu um grito fino, começando a ofegar.

— O que diabos aconteceu aqui? — indagou Rowan à Gillian. Aproximou-se dela e tocou seu braço. Imagens escuras encheram sua mente de uma só vez, mas nem um terço delas lhe importava.

Esse lugar… é maldito, ouviu Gillian dizer. Tem alguma coisa ruim aqui, não sei o que é. As Sombras se alojam por toda parte.

— Onde eu estou? — Lorenzo indagou à escuridão, a voz cheia de medo. — R-Rowan?

— Sou eu, venha cá. — Rowan puxou-o pelo pulso até se lembrar de que estava sem luvas. O fluxo de imagens sem forma deixou-o tonto. — Não posso tocá-lo.

— Por que não?

Rowan olhou para Gillian, cuja expressão era de pedra. Os olhos dela diziam tudo. Sempre disseram.

— Tem algo sobre nós que precisa saber — sussurrou. — E talvez sobre você também.

OoO

— Certo, agora você pode me dizer por que estava com meu irmão às duas da madrugada — Ethan disse. Rowan achou adorável a sonolência dele suprimindo a aparente raiva. Estavam na sala de sua casa, no primeiro andar, sob um lustre de cristal exageradamente grande que balançava silenciosamente. Gillian sentava-se encolhida no sofá ao lado de Rowan, enquanto Ethan estava na poltrona. Tinham acabado de voltar ao prédio e Lorenzo subira para seu quarto, para tentar salvar aquela noite de sono.

— Eu não posso te contar — Rowan sussurrou, sorrindo. Ethan levantou uma sobrancelha. — Mas posso te mostrar.

Levantou-se e pediu para que fechasse os olhos. Ethan o fez sob grande hesitação. Rowan tirou sua recém-colocada luva e encostou a ponta de seu dedo indicador direito na testa do maior. Como esperava, ele jogou o corpo para trás, abrindo os olhos arregalados. Começou a arfar.

— Isso deveria acontecer. — Tocou-o de novo, mas segurou o dedo lá. Ethan apertou os olhos e abafou um grito. Rowan sentiu-o tremer de cima a baixo antes de soltá-lo.

— O-O… — ele gaguejou — que foi isso?

— Minhas lembranças — Rowan respondeu, sentando-se de novo. — Eu não sou uma pessoa normal, Ethan. Quando eu tinha dez anos, sofri um acidente no mar que quase me matou. Ou melhor, que me matou durante pouco mais de quarenta segundos. Quando eu acordei, podia fazer isso. — Ergueu seu dedo indicador. — Eu podia… ver lembranças. Explicando do modo mais sucinto possível, quando eu tocava em algo, eu podia ver tudo o que aquele algo passou sob a perspectiva dele. Quando eu toco nesse sofá, eu percebo que você o comprou na Goldenschild’s Eletronics por seis mil dólares, um preço absurdo, por sinal, e percebo também que demorou seis dias para chegar. Você entende? — O olhar de Ethan era indecifrável. — Por isso uso luvas o tempo todo. Quando toco algo, as imagens surgem na minha mente de repente num fluxo ininterrupto. Eu também posso ver lembranças das outras pessoas se tocá-las, e passar as minhas para elas.

— Você me tocou — ele sussurrou.

— Sim, toquei. As imagens que você viu foi o que aconteceu essa noite. O sonho que você teve, do afogamento, na verdade são memórias minhas que foram passadas para você. É o acidente.

— Não — ele interrompeu. — Ontem, no elevador. Você me tocou. E a Lorenzo.

Gillian fitou o irmão com um misto de reprovação e divertimento.

— Toquei — Rowan confirmou ligeiramente constrangido.

— Então acha que roubar memórias de pessoas é divertido? — Ethan indagou cinicamente.

— Imensamente — respondeu no mesmo tom. — Embora já tenha esquecido quase tudo que soube naquele momento, ainda sei o suficiente. — Esperava que aquilo abaixasse a crista dele, mas não. Ele era Ethan Lemnsack Hentz, nada poderia intimidá-lo. A única pessoa que sabia disso melhor que Rowan era o próprio Ethan. — Quase tudo que eu absorvo, as informações alheias, desaparece da minha mente dentro de poucos dias. É como se fosse um quarto com duas portas que não podem ficar fechadas ao mesmo tempo. Quando elas entram por uma, a outra fica aberta. Logo, logo elas se esvaem… eu não costumo fazer isso com todo mundo porque é muito desgastante dividir a minha mente com outra, mas fiz com Nicholas por pura curiosidade, e então com você e com Lorenzo. Mas deixemos a moralidade de lado; Gillian também tem habilidades especiais, embora não as tenha conseguido numa experiência de pós-morte, e sim nascido com elas. Ela consegue… ver… pessoas… que já se foram.

Ethan levantou uma sobrancelha, abrindo um ligeiro sorriso.

— Você vê gente morta? — indagou olhando para Gillian. Ela assentiu. Ele riu. — Ou talvez seja apenas esquizofrênica.

Rowan mordeu o lábio inferior.

— Assim como Oliver? — sussurrou. Ethan não se alterou. — Sabe quantas vezes a família da minha mãe já disse à minha irmã que ela é louca? Sabe quantas vezes já quiseram interná-la num hospício? Quantas vezes já quiseram dopá-la de remédios? — Inclinou-se para frente. — Certamente não tantas vezes quanto a família de Oliver fez com ele. Pare de pensar que você sabe algo que eu não sei, eu sei tudo que você sabe, conheço seu modo de pensar. Sei o quanto amava Oliver e o quanto sua mente imatura de catorze anos queria apenas ajudá-lo, queria que ele melhorasse. Mas Oliver… não era esquizofrênico, ele não era louco. Era sensitivo. Pense só um pouco na noite em que ele morreu. Como ele estava?

Ethan não respondeu.

— Eu respondo por você; eu vi, afinal, através dos seus olhos. Ele estava perturbado, ofegante, passando mal. Fechava os olhos e tapava os ouvidos frequentemente, e sabe por quê? Quando pequena, Gillian costumava fazer isso também, era quando ainda não sabia porque via pessoas que os outros não viam. Tanto Oliver quanto ela o faziam porque queriam parar os gritos dos espíritos que se acumulavam ao redor deles, queriam interromper o fluxo de informações. Se você não falar com eles de vez em quando, eles se irritam com você, porque, afinal de contas, eles não passam de humanos que não sabem que morreram. E é tão difícil convencê-los disso quanto convencer um incrédulo de que eles existem. Não dá para te explicar de outra maneira, Ethan. Explicar a maneira dos espíritos para alguém que não os vê é como explicar para um cego a diferença entre azul e amarelo. Eu só entendo porque os vi através dos olhos de Gillian. — Rowan baixou a cabeça, suspirando pesadamente. Aquilo estava sendo desgastante demais. — Eles o alertaram. Eles sabiam o que iriam acontecer. Eles pediram para que vocês fossem de carro para casa, mas Oliver quis ir andando para contrariá-los. Afinal, eles eram apenas coisas da cabeça dele. — Cuspiu a última frase com um nojo maior do que pretendia. — Ele poderia estar vivo se os tivesse ouvido. Há espíritos bons e ruins. E há as Sombras.

— As Sombras? — Ethan indagou.

— Não sei o que são, mas são antigas. Estão em toda parte em que algo ruim acontece, como se fossem a emanação física de alguma desgraça ou maldade, ou simplesmente representam o que não é normal. Estão sempre em volta de pessoas sensitivas ou que tenham habilidades especiais. Lotaram a rua ontem de tarde, quando o banco explodiu. São como um nevoeiro denso e escuro. Elas perseguiam Oliver aonde quer que fosse. — Rowan olhou para Gillian, que pedia seu toque. Ele a tocou.

Eu o vejo. Ele está aqui. Está triste, mas cheio de amor. As Sombras ainda o perseguem.

— Há alguma coisa de errado naquela loja de antiguidades — Rowan disse, soltando-a. — Eu e Lorenzo estávamos hipnotizados andando para lá sem ter a mínima consciência disso. Se Gillian não tivesse tido uma visão e nos salvado…

— Uma visão?

— Eu não falei? Ela pode ver o futuro. — Sorriu. — Ou não exatamente. Ela pode ver todas as possibilidades possíveis para o acontecimento de qualquer coisa, embora algumas sejam extremamente improváveis. Ela pode ver um avião entrando nesse apartamento daqui a cinco segundos. — Propositalmente, Rowan esperou cinco segundos. Nada aconteceu. — Viu? Nada. Só porque vê, não quer dizer que vá acontecer. Quer dizer que possibilidade de acontecer. É como se ela visse todas as dimensões existentes quando nós vemos apenas três. É meio difícil de controlar no princípio, mas você se acostuma. Ela viu a mim e a Lorenzo tendo nossas gargantas cortadas.

— Você quer que eu acredite — Ethan se levantou da poltrona, massageando as têmporas — que vocês dois têm poderes especiais? Será que você consegue perceber o quanto isso é absurdo?

— Consigo. Eu quis me matar quando descobri o que podia fazer, pensei estar ficando louco. — Levantou-se também. — E eu tentei. — Estendeu seu pulso direito, onde uma linha horizontal já cicatrizada o atravessava. — Gillian me salvou, ela viu o que eu pretendia fazer. Ethan, como eu poderia saber sobre Oliver? Que ele é canadense, que morava num lugar chamado Vale das Sombras, que se perdeu numa floresta de neve quando criança por um mês e que não morreu?

— Uma pessoa que eu mal conhecia já descobriu sobre ele.

— E quanto a verdade sobre o nascimento de Nicholas?

A expressão de Ethan fechou.

— Como eu poderia saber que a senha do cofre escondido no seu quarto é uma mistura das datas de nascimento sua, de Lorenzo e de Nicholas? Como eu saberia que a última coisa que sua mãe lhe disse foi Tenha bons sonhos? Que há uma mínima possibilidade de Lorenzo ser meio-irmão do filho de um ex-chefe da máfia italiana? Que você e Nicholas quase foram mortos por Ned Nevarnost por causa da filha dele, Leanne, e que no mesmo dia Enzo Granelli atirou em Nicholas ao mesmo tempo em que Lorenzo atirou nele? Que você é trineto de Ondromeda Olrwen, te tornando parente distante de um serial killer? Como eu poderia saber que o banco explodiria hoje? É por isso que saí gritando pela rua, porque, através de Gillian, eu vi os corpos despedaçados do seu irmão postiço e do biológico voando pelos ares. Pelo amor de Deus. Apenas você sabe essas coisas. E Melon Chioren também, algumas delas. E você dormiu com ele. — Aproximou-se lentamente de seu corpo, jogando os cabelos castanhos para trás. Mordeu o lábio inferior, franzindo levemente as sobrancelhas. Nicholas tinha essa mania. — Eu não quero te fazer mal. Mas alguma coisa muito estranha está acontecendo, e se trata de algo com proporções que a maioria das pessoas jamais veria ou entenderia na vida. As Sombras estão por toda parte. Você quer me ajudar a descobrir o que é?

Os olhos escuros de Ethan estavam fixos nos de Rowan. Ele era pelo menos cinco centímetros mais alto e simplesmente não conseguia esconder o fato de estar sentindo atração pelo menor. Rowan sabia que ele tinha um fraco por garotos baixinhos de cabelo grande e feições delicadas.

— Seria uma aventura. — Rowan sorriu. — Você está acostumado com elas. Sobreviveu a vários assassinatos. Você é um leão negro. Não o último, infelizmente.

— Ele não pode saber disso — Ethan murmurou. — Nick. E Lucas. Eles não podem saber sobre o nascimento deles.

— E não vão. Minha boca é um túmulo. E Gillian não fala quase nunca. Lorenzo sabe de tudo isso que te contei, e eu acho que ele também… pode fazer coisas que os outros não podem. Você nunca percebeu que é impossível mentir para ele? Se você não acredita que o que diz é verdade, ele também não acredita. E eu me sinto estranho perto dele, como se tivéssemos algo em comum. Ele disse que se sentia da mesma forma com Luca Granelli. — Uma frase aleatória sussurrada por uma voz rouca e cruel surgiu dos lábios de Rowan momentaneamente. — Estrella não era mãe dele. Meu palpite é que Antonella era mãe dele. — Ele piscou, estupefato com o que acabara de acontecer. Balançou a cabeça. — Ele sempre sabe quando alguém mente — continuou —, ele consegue sentir o que os outros sentem, e ele as vê. Ele vê as Sombras.

— Bem interessante, considerando que ele é cego — sussurrou cinicamente.

Rowan olhou para sua irmã, que sorriu meigamente.

— Você ainda não acredita, não é? Ninguém acredita — ela murmurou. Rowan levantou as sobrancelhas. Fazia mais de meio ano que não ouvia a voz de Gillian, e parecia ainda mais desgastada do que antes. — Esquizofrenia. Essa maldição. Não é uma doença. Todos eles voltam para pegar o que é seu depois de um tempo. — Ela começou a ofegar, perturbada. — Todos pensam que é algum tipo de truque, que eu fuço a vida de seus falecidos até descobrir as coisas que eles me contaram, até que eles, os azuis, começam a entrar em seus sonhos e perturbar suas mentes, furiosos e desesperados por atenção. — Após uma pausa, ela continuou: — O que é azul e o que é negro, as Sombras… Não há truque. Não é a minha cabeça. Essa coisa maldita… não me mostra o que não existe, ela só revela aos meus olhos o que sempre esteve aqui.

OoO

O príncipe Senn odiava muitas coisas na Califórnia (uma delas era sua própria família disfuncional), mas o calor era certamente a maior delas. O céu estava nublado, santo Deus, e ainda assim ele se sentia cozinhando dentro de suas roupas. O prédio da prefeitura era uma estrutura de pedra retangular com um grande domo em cima e uma longa e inútil escadaria, numa tentativa de copiar o Capitólio americano.

Haviam feito um palanque improvisado no intervalo entre as escadas, onde havia o palco e uma área por trás coberta, que era onde Senn estava. Sua bisavó, a rainha Henrietta Walker, estava sentada elegantemente enquanto um batalhão de cabelereiros ornamentavam seus fios brancos. Mesmo tendo mais de cem anos, mal aparentava ter chegado aos oitenta e ostentava uma magnificência e superioridade narcisistas que pareciam ser ignoradas por todo o povo californiano. Bem, Senn não os culpava por idolatrarem a velha, mesmo que ela fosse um abutre disfarçado de gente e tivesse veneno no lugar de saliva. Tinha os olhos verdes acinzentados e ardentes característicos da família real e antes de seu cabelo perder a melanina, fora castanho escuro.

O filho unigênito da rainha, avô de Senn, fruto de seu casamento com George Fellow, falecido já há vários anos, estava trancado num hospício, ou casa de reabilitação mental, como as pessoas gostavam de falar. Jaime Walker-Fellow surtara no meio de um pronunciamento real do qual Senn não lembrava bem qual era, sabia apenas que era a anunciação do novo Primeiro Ministro; o sexto, se não se enganava. Enquanto a doce rainha falava e o mundo ouvia, Jaime começou a rir histericamente ao fundo, então caiu de joelhos e começou a literalmente arrancar os próprios cabelos. Senn já assistira a essa gravação uma centena de vezes, e riu da cara da rainha em todas elas.

O pronunciamento oficial foi de que ele tivera um esgotamento nervoso, o que não era mentira. Corriam boatos de que a velha havia feito lobotomia nele, que, afinal, não queria assumir o trono. Conseguira.

Com a indisposição do herdeiro aparente, a neta da rainha tornava-se a herdeira presuntiva. Mas a mãe de Senn, Antoniette Walker-Fellow, era uma criatura frágil e amargurada com a vida e de pouca popularidade, que enlouqueceria tão facilmente quanto o pai se assumisse a Coroa. E ela era alcoólatra. A rainha pairava como uma nuvem negra sobre a cabeça da família real havia mais de sessenta anos. Matara o próprio marido de desgosto, assim como a esposa de Jamie, mãe de Antoniette e avó de Senn, Louise-Marie, uma nobre de algum país escandinavo dos confins da Europa.

Antoniette e o pai de Senn, Alexander, que descendia de algum importante conde do Reino Unido, geraram, além dele, sua irmã mais nova, que tinha o mesmo nome da mãe, Antoniette. Toni tinha dez anos e era uma autêntica princesa, bonita e delicada, inocente como uma flor de primavera, intocada pelos dedos podres da rainha.

Era consenso geral entre todo o mundo de que quando Henrietta morresse e Antoniette assumisse seu lugar, esta abdicaria a favor do filho. Senn era bisneto da rainha e o segundo na linha da sucessão, tinha apenas dezesseis anos, mas seria o único rei da América. E não demoraria muito.

As duas Antoniettes e o pai de Senn haviam ficado em Sacramento, capital da Califórnia. Ele estava na mesma tenda que o Diabo.

Afrouxou sua gravata. Aileen apertou-a novamente. Quase se esquecera da presença dela ali.

— Quer fazer o favor de agir como um príncipe? — ela indagou. Seus óculos caíam pelo nariz fino. — Tem mais de vinte mil pessoas lá fora e uns duzentos fotógrafos, além de câmeras que, em breve, mostrarão seu lindo rostinho para outras quinhentas milhões. Escreveu seu discurso?

— Para que escrever um discurso quando posso falar improvisadamente? — Sorriu ao ver os olhos arregalados de sua tutora. — Farei meu papel. Não sei lidar com a Sua Sereníssima Majestade, Henrietta Mary Alexandra Walker, a Primeira, pela Graça de Deus, Rainha da Califórnia e Chefe do Estado Californiano, Condessa de Northeria e Protetora, Defensora e Guardiã do Oeste, mas sei lidar com os plebeus.

OoO

Havia tantos seguranças armados até os dentes ali que Ethan sentiu medo de levar a mão até o bolso para puxar o celular e ver que horas eram. A ação ocorreu sem problemas, porém. Quase seis horas e meia da noite, eles estavam atrasados, como não podia deixar de ser.

Aquelas cadeiras na primeira fileira custaram os olhos da cara, mas Ethan não deixaria aquela oportunidade passar. Ao seu lado, estava Nick e, do outro, Lorenzo. A área em que estava devia ser uma espécie de área VIP, pois era a única em que havia cadeiras, cerca de sete fileiras. Havia uma cerca em volta dela, onde uma multidão gigantesca se amontoava em frente à Prefeitura. Várias câmeras estavam apontadas para o palanque real e paparazzi loucos por uma boa história fotografavam furiosamente o palco ainda vazio. Alguns tentaram tirar fotos dos Lemnsack Hentz, mas os seguranças os tiraram dali. Ethan sabia que havia atiradores de elite nos telhados dos prédios próximos e que todas as ruas num raio de dois quilômetros haviam sido bloqueadas. Devia haver duas centenas de seguranças e carros de polícia por perto.

— Quem sabe o príncipe Senn enlouqueça, que nem o príncipe Jaime — Nick comentou animadamente. Seu cabelo estava ligeiramente maior e as raízes louras já eram mais aparentes.

— Há tantas Sombras por aí ultimamente que eu não me admiraria — Ethan sussurrou para si mesmo. Os gritos da multidão abafaram-no. Olhou para Lorenzo, que estava pálido. — Você está bem?

— Estou com uma sensação ruim — ele disse. — Um frio na barriga. Ataque de ansiedade. Sinto que o mundo vai acabar a qualquer momento.

— Então vamos rezar para que isso não aconteça.

— Mas você não acredita em Deus.

— Não, mas acredito que há alguma força superiora que, provavelmente, me odeia muito.

— Shh, está começando — Nick sussurrou.

OoO

Quando Senn saiu para a estufa que era Middleland, a primeira coisa que notou foi Ethan Lemnsack na primeira fila. As fotos borradas dos paparazzi não mentiam, ele realmente era bonito. Mais agora do que há um ano, quando ainda era um recém-órfão. A segunda coisa que notou foi que Nicholas Hentz tingira os cabelos de vermelho. A terceira coisa foi que Lorenzo Barcarolli era uma gracinha e que não tinha absolutamente nada a ver com Nicholas. A quarta coisa foi que os três estavam vivos. E a quinta foi que o hino nacional acabava de acabar.

Nicholas Hentz presenciara a explosão do Banco Nacional com os próprios olhos. Aquilo seria interessante.

Parado em pé com as mãos nas costas pouco atrás da rainha, às vezes Senn revirava os olhos e os arregalava subitamente, imitando o gesto que seu avô Jaime fizera pouco antes de começar a gargalhar histericamente e arrancar os próprios cabelos. Podia sentir em seu âmago os jornalistas tendo orgasmos com a teórica loucura que perseguia a família real. Senn ria por dentro.

Quando Henrietta terminou de amaciar os ouvidos da multidão, o novo Primeiro Ministro saiu da tenda, seguido de um grande e fingido Ohhh. Senn jurava não entender aquilo. Era uma brincadeira estúpida que já se repetira doze vezes e aquela era a décima terceira, e nenhuma das quinhentas milhões de pessoas de todo o mundo que assistiam a posse pela televisão parecia se importar.

Depois de a rainha ter posto a faixa com o título de Primeiro Ministro em Clarke Heath, líder do Partido Trabalhista, uma salva de palmas ensurdecedora encheu os céus. Henrietta odiava aquele cara, mas ainda assim sorria enquanto flashes iluminavam o entardecer e Heath começava a fazer seu discurso.

Se Sua Majestade, a rainha, é o vampiro Lestat, por que Sua Alteza, o príncipe Senn, não pode ser o amante Louis?, pensou com um sorriso. De repente, os aplausos pararam. Vamos lá, Senn. Não envergonhe a família na frente de meio bilhão de pessoas. Isso vai ser tão divertido.

Quando ele terminou e Senn se encontrou na frente do microfone, sorriu.

— Eu prometo não surtar.

Risos.

Senn afrouxou a gravata, fingindo estar sufocado.

— Deus, eu odeio gravatas. Me sinto numa forca, e me pergunto por que estou vendo tantas pessoas usando gravata sob uma nuvem de calor de vinte e sete graus. Vamos, se deem uma folga. Tirem essas gravatas, isso mesmo, até vocês que estão me assistindo de suas casas. Se estiverem usando gravatas, tirem-nas! Isso, perfeito. — Eles realmente tiraram. Pareciam cachorrinhos treinados. — Bem, estou aqui falando por alguns motivos. Primeiro, hoje é tanto o dia da independência dos Estados Unidos, quanto da independência da Califórnia. Os Estados Unidos fazem duzentos e trinta e sete anos livres da Inglaterra e nós fazemos sessenta e três anos livres deles.

Mais risos.

— E isso graças à nossa rainha, que Deus a abençoe. Embora eu ainda não consiga entender como uma pessoa com um discurso ideológico sobre não podermos ficar sob o governo dos Estados Unidos acabou ficando sobre o governo da Califórnia. — Sorriu largamente. — Bom, o segundo motivo de eu estar aqui é o terrível e lamentável Massacre da Coruja, onde cerca de oito pessoas foram mortas e uma ficou injuriada. Não podemos trazer de volta as vidas que foram perdidas à toa, mas desejo meus sinceros sentimentos às respectivas famílias. — Colocou uma mecha de cabelo por trás da orelha. — Eu sou jovem, mas compreendo a dor de ter, de estar, numa família disfuncional. Gostaria de pedir a todos um minuto de silêncio pela morte de Lance e Julie Chioren, Sttanley Molihnar, Terrence Revonne que, não por coincidência, é irmão de Ritchard Revonne, que perdeu o movimento nas pernas depois de ser atacado, por Jimmi Weswalk e Meera Cinneto também, que, agora sim por coincidência, era namorada de Nicholas Hentz, que está ali, na primeira fileira. E Olenna Olrwen e Odette Ovense também, avós do assassino. — Quando baixou a cabeça, Senn suspirou. Não pensava que conseguiria se lembrar de todos os nomes. O fato de que, se Olenna Olrwen não tivesse sido assassinada, ela estaria sendo indiciada por obstrução da justiça, poderia ser perfeitamente esquecido.

Os fotógrafos não perdoavam nem o minuto de silêncio. Durante aqueles sessenta segundos, a noite tornou-se dia.

Bem, forcei Nicholas Hentz a ter de fingir-se triste, coisa que, se ele não for a mula que eu penso que é, vai fazer.

Quando o minuto acabou, Senn lambeu os lábios.

— E apesar de eu não ter poder para fazer isso oficialmente, gostaria de declarar um luto informal de três dias pelas oito vidas que foram perdidas. — Outra pequena pausa. — O terceiro motivo de eu estar aqui é para falar sobre a tentativa de assalto ontem a uma filial do Banco Nacional localizada na Rua Symphonia, avenida bastante famosa em Middleland, eu creio. Novamente, eu me pergunto qual o prazer que uma pessoa tem em explodir um banco e matar cidadãos inocentes, visto que é bastante improvável que consiga sair correndo por uma rua lotada com sacas de dinheiro nas mãos, por isso não falarei abertamente sobre isso, eu não estava lá. Vou deixar para alguém que estava, Nicholas Hentz. — Olhou diretamente para o ruivo cheio de piercings sentado na primeira fileira da área VIP. Enquanto todos ao seu redor arregalavam os olhos, ele continuava com uma expressão de puro desinteresse e desconfiança. Talvez a morte de Meera tivesse sido demais para ele. Não era à toa que tinha mudado tão radicalmente de aparência.

Ele sorriu e abanou a cabeça. Subiu ao palco com uma aura de superioridade impressionantemente sutil. Senn logo notou que ele não percebia que aparentava ser mais arrogante do que provavelmente era. Fez uma longa reverência à rainha (que tentava esconder a vontade de esganar seu bisneto), assim como Ethan Lemnsack e Lorenzo Barcarolli. Três irmãos com sobrenomes diferentes, aquilo era incrível.

Nicholas Hentz tomou o microfone.

— Vocês sabiam que minha trisavó também é trisavó de Rhanys Olrwen? — ele indagou. Até Senn se surpreendeu com aquilo. — Nossos bisavôs eram meios-irmãos.

A sua direita, estava Lorenzo e então Ethan. A direita de Ethan, Senn observava o maior ávida e discretamente. Sentiu vontade de arrancar-lhe as roupas. Admirava-se que ninguém da imprensa nunca tivesse suspeitado dele; descobriram sobre Ethan nas primeiras semanas em que ele começou a aparecer na mídia. Talvez por isso que Henrietta o detestasse tanto quanto ele a detestava, mesmo que precisasse dele.

OoO

Ethan nunca estivera tão nervoso em toda sua vida. Ao seu lado, o príncipe Senn erguia-se magnificente como uma estátua de ouro. Pouco atrás de si, a rainha e o Primeiro Ministro. Ethan se sentia um pedaço de palha no meio de lençóis de seda egípcia. Um plebeu em meio a tantos deuses. E os olhos verdes acinzentados de Senn eram os mais bonitos que já vira na vida, mas tentou não secá-lo tanto quanto já o estava fazendo na plateia, embora tivesse a ligeira sensação de que ele tivesse notado.

Definitivamente, Senn era o príncipe menos parecido com um príncipe do mundo. Era um adolescente passando por aquela fase que quase todo mundo passava: a da rebeldia e da necessidade de transgressão. Nick estava bem no meio dela, Ethan não tivera tempo de passar por ela e esperava que Lorenzo simplesmente a deixasse para lá, como quase aconteceu com Nick. Se ele não tivesse nenhuma namorada que morresse, isso poderia acontecer. Ou namorado.

Sentiu o toque dos dedos de Lorenzo na sua mão. Olhou para ele.

— Ethan — ele sussurrou. — Elas estão aqui.

Ele olhava para um ponto qualquer do horizonte, ou pelo menos era o que Ethan pensava. Mas quando olhou melhor, viu que fitava o topo de um prédio baixo do outro lado da rua. Se as Sombras estivessem ali, significava que algo muito ruim estava acontecendo ou estava para acontecer.

O que pensava ser uma estrela logo tornou-se um ponto vermelho, vermelho como aquelas luzes minúsculas incrustadas em rifles automáticos para melhorar a mira. Havia vários atiradores em cima dos prédios, eram seguranças da família real. Mas a luz não devia estar acesa a não ser que ele estivesse mirando.

Tudo aconteceu tão rápido que, mais tarde, Ethan teria dificuldade em se lembrar de tudo. O barulho da multidão, a voz rouca de Nicholas cuspindo sarcasmo, tudo pareceu sumir quando o barulho de uma bala sendo disparada encheu o mundo e tudo se tornou pequeno e doloroso. A essa altura, Ethan já havia notado o minúsculo ponto vermelho apontado para o peito de Senn e já o havia empurrado bruscamente para o lado. Quando o barulho veio e seu ombro explodiu em sangue e dor, a multidão começou a gritar e Nick parou de falar.

Mas Ethan não conseguia distinguir mais nada. Apenas a dor…

OoO

Nick não sabia bem como reagir àquilo. Pela primeira vez em muito, muito tempo, via seu irmão mais velho chorando. E aquilo estava doendo mais do que deveria. As lágrimas dele já secaram há muito tempo, mas Lorenzo ainda tremia.

— Não seja uma rainha do drama — disse a Ethan. — Eu levei um tiro no peito, você levou no ombro e a bala entrou e saiu.

Conseguiu ler os lábios dele dizendo Vai se foder. Sorrindo, Nick se recostou na parede da ambulância. Ethan estava com o ombro enfaixado por dezenas de gazes e, inicialmente, recebera oxigênio por falta de ar. Agora ele conseguia respirar normalmente, apenas estava chorando como uma bicha.

O príncipe Senn estava a sua frente.

— Você me salvou — ele disse pela milésima vez. — Eu ia ser assassinado e você me salvou. Sabe o que isso significa? O país inteiro te ama.

Como não podia deixar de ser, não é, Ethan Lemnsack?

— Você sabe qual é o seu nome? — perguntou o paramédico que estancara o sangue de um bilhão de dólares dele.

— Sei, sei meu nome — Ethan respondeu. — Ethan… Barcarolli Lemnsack Hentz. O garoto de um bilhão de dólares. Barcarolli não é um sobrenome, porém. É só um segundo nome.

— Estou perguntando para avaliá-lo — disse o paramédico. — Sabe quantos dedos eu tenho aqui?

— Nick, você devia parar de usar apenas roupas pretas, me lembra os Nevarnost e isso não é bom. Três — Ethan sussurrou. — Três dedos. Bem longos. Você toca piano?

— Não, não toco.

— Então deve ter uma namorada bem feliz.

— Deixe-o perguntar, Ethan — Lorenzo repreendeu.

— Está tudo bem, só preciso que ele fale. Ethan, sabe em que ano estamos?

— Claro, 2013, primeiro ano em que os quatro algarismos são todos diferentes desde 1987, ano do Massacre da Coruja, ano dos sessenta e três anos da independência da Califórnia e dos duzentos e trinta e sete anos da dos Estados Unidos.

— Pelo menos alguém prestou atenção no meu discurso — Senn comentou.

— Pode contar de cem para trás de sete em sete?

— Uma vez eu perdi um concurso de soletrar porque pensei que estalajadeiro fosse com G. — Ele riu. — Que idiotice. Mas eu tinha doze anos. Sou tão ruim em gramática. Em matemática também.

— Não, você não é — Nick disse. — Por que ele está assim?

— São os sedativos — disse o paramédico. — Estão funcionando. Ainda sente dor?

— Sinto que tem estou voando com apenas metade do corpo, enquanto o outro está debaixo de um elefante… acho que estou morrendo.

— Não está, mas você vai dormir agora.

— Não quero dormir, ainda é cedo, vai bagunçar meu relógio bioló… — Ele não terminou a frase, felizmente. Caiu no sono como um anjo. Nick finalmente relaxou naquele dia.

— Ele vai ficar bem? — Senn indagou.

— Deus não existe, então é claro que ele vai. Quem tentou te matar?

— O chefe da segurança me disse que foi um dos próprios atiradores de elite que, teoricamente, deveria me manter vivo — ele disse num misto irritante de sarcasmo e alegria. — Também me disseram que ele se matou logo depois tomando uma pílula de cianureto. Estava numa missão suicida, pelo visto. Imagina quantas teorias da conspiração vão pulular no mundo todo depois disso? Uma tentativa de assassinato na frente de quinhentas milhões de pessoas, quem poderia imaginar?

— Por que tentaram atirar em você, e não na rainha? Isso não faz sentido pra mim. — Senn levantou a sobrancelha.

— Quem você acha que vai herdar a Coroa quando Henrietta morrer?

— Princesa Antoniette.

— Sim, claro, mas então ela vai abdicar. Todo mundo sabe disso. — Senn olhou para Ethan. Nick também, depois de volta para Senn. Sorriu.

— Se eu desse um tapa na sua cara agora, minha mão seria cortada? — indagou a ele. O príncipe franziu as sobrancelhas. — Meu irmão foi baleado por sua causa.

OoO

Lorenzo Barcarolli já havia se apaixonado duas vezes, disso ele sabia. O problema é que, nas duas vezes, seu sentimento terminou terrivelmente mal. Jill se afastou dele e ele se afastou de Marco. Quando Lorenzo se lembrava do cheiro do cabelo encaracolado de Marco, ficava triste ao pensar que ele não gostava dele da mesma forma que ele.

Isso não acontecia com Goldie, no entanto. Goldie Lovegood era seu nome completo. Ele dissera que seu cabelo era loiro e seus olhos eram azuis, mas isso não interessava a Lorenzo. Interessava que era impossivelmente liso e macio e tinha cheiro de morango. Que sua pele era delicada e quente ao toque, assim como suas mãos. Que sua voz era doce e quase feminina, seus toques afáveis e tímidos. Ele era uma gracinha. Também tinha dez anos e estava na mesma classe de música que Lorenzo. Era aquele tipo de pessoa que tem vontade de ajudar todo mundo o tempo todo, mas não admite quando ele próprio precisa de ajuda.

É claro que Lorenzo sabia quando ele precisava de ajuda. Em certo momento, estava com alguma dificuldade em acertar as notas. Lorenzo segurou suas mãos por trás do banco e as conduziu até as teclas certas, sentindo os sabores que se misturavam em sua boca por causa da música e o cheiro do cabelo da nuca dele. Goldie se arrepiou com o toque; foi aí que Lorenzo lentamente encostou seus lábios na parte de trás de seu pescoço. Ele se arrepiou mais.

— Está tudo bem? — sussurrou. Sentiu-o fitando. Sempre lhe disseram que seus olhos eram, de certa forma, hipnotizadores.

— S-Sim — Goldie sussurrou de volta. — Obrigado.

Quando saiu para o ar frio do campus da Academia, ouviu a voz de Nicholas lhe chamando. Foi até ele, pegando sua mão. Nick era impaciente demais para esperar que ele andasse usando a bengala, então simplesmente o puxava pelo caminho certo. Sempre fora daquele jeito.

Já que Ethan não podia dirigir, estavam com o motorista. Seu nome era Dimitri e Lorenzo não fazia ideia de sua aparência, mas sabia que ele tinha sotaque russo. Ele deu-lhes boa noite e logo entraram no banco de trás do carro. Dez minutos depois, estavam dentro do elevador.

— Nick.

— O quê?

— Lembra-se da Laryan? Laryan Deraut? A primeira garota que você beijou.

— Sim. A garota que morreu.

— Como você sabia que… gostava dela?

— Simplesmente sabia. Não há um padrão. Você apenas tem a vontade de ficar perto da pessoa o tempo todo, mesmo que ela lhe faça mal. Não há como descrever como você se sente como ama, porque só sentindo para saber. Apenas tolos tentam fazê-lo, e, quase sempre, caem no clichê… de quem você gosta? Aliás, preciso das suas chaves. Eu perdi as minhas.

Lorenzo entregou-lhe o molho de chaves que tirou do bolso, se retesando.

— De ninguém. Era só curiosidade.

— Claro que era. — Nick riu debochadamente. — Claro que era.

— Dá pra parar com essa ironia?

— Quem? Eu? Que ironia?

O elevador chegou. Antes de chegaram ao final do corredor antecedente à porta da frente, Nick parou por um minuto.

— Paro com a ironia se você parar de mentir para mim. Saiba que não há problemas em gostar de garotas ou de garotos. Eu gosto de garotas, Ethan gosta de garotos. Acontece nas melhores famílias. Como você sabia que o príncipe Senn iria ser assassinado?

Lorenzo levantou os olhos para fitá-lo. Havia muita frustração em volta dele, mais do que uma pessoa devia ser obrigada a suportar.

— Eu vi as Sombras. Você devia perguntar ao Ethan ou ao Rowan o que elas são.

OoO

O ombro de Ethan ainda latejava quando Nick entrou no quarto. Tinha acabado de tomar banho e de tomar seus analgésicos. Sua cabeça girava, estava vendo tudo meio distorcido e sequer havia tirado o roupão. Estando terrivelmente dolorido, é claro que seu irmão não o deixaria descansar.

— O que são as Sombras? — Nick indagou, sentando em seu colo por cima do roupão. Ethan levou um tempo para processar a pergunta dele, e nem assim a entendeu.

— O quê?

— As Sombras, Ethan. O que são elas?

— Pensei já ter te dito.

— O que você me disse é que essa é uma palavra que o Oliver usava, e Lorenzo acabou de me dizer que sabia que Senn iria ser assassinado porque viu as Sombras, e tenho certeza que você não contou sobre Oliver a ele. Não sei se é a tinta do cabelo estragando meu cérebro ou qualquer outra coisa, mas tenho a ligeira impressão de que você está me escondendo algo. Não confia mais no seu irmãozinho?

— Não consigo te levar a sério quando você não para de vomitar cinismo toda hora.

Ethan experimentou a sensação não tão nova assim de ter Nicholas o odiando por dentro e fingindo que não por fora.

— Tudo bem, me desculpe — disse ao ruivo. — Andei te omitindo algumas coisas porque eu não queria te preocupar. Você anda tão… — Interrompeu-se.

— Tão o quê? Tão cínico, insuportável, infeliz? Aposto que você adorou ver Mia morrendo, não adorou? O carma finalmente volta para assolar Nicholas Hentz, matando a namorada dele três anos depois de ele ter matado o seu namorado. Bem feito.

— Pare com isso, Deus. O que há com você?

— Não sei o que há comigo. São as minhas raízes nascendo, é essa cidade barulhenta, são as altas taxas de impostos, é essa vida. Estou ficando cansado de tudo isso. Não tenho mais motivação nenhuma para levantar da cama de manhã.

— Nicholas.

— O que é?

— Eu era igualzinho a você dos onze aos catorze anos. — Nick levantou uma sobrancelha. — Sofria esse misto de depressão com desmotivação. Isso parou quando eu conheci Oliver e, depois, nunca mais voltou. Acho que… eu tornava as necessidades das outras pessoas motivo suficiente para me tirar da cama de manhã. Eu sentia que, se não o fizesse, Oliver se suicidaria naquele mesmo dia. E mesmo depois que ele se foi, eu ainda tinha outra pessoa. Eu tinha você. Eu levantava da cama por você. Eu vivia por você. Ainda é assim, você não vê?

— O que está tentando me dizer?

— Estou dizendo… se construa uma alma. Faça a sua própria vida. Se ela é um castelo, construa a base. Ninguém pode fazer isso por você, Nicholas Hentz, mas não quer dizer que você não possa pedir ajuda. — Sorriu, acariciando sua bochecha direita. — Você continua sendo o meu bebê, mesmo depois de quinze anos. Nunca vai crescer pra mim. Sempre vai ser aquele pirralho insuportável e carismático que me faz amá-lo um pouco mais todo dia. Eu amo você, Nick.

Ele abaixou a cabeça, sem dizer nada. Quando a levantou, fungou.

— Você quer saber o que são as Sombras? — sussurrou. — Eu juro que te conto, mas o analgésico que tomei é capaz de derrubar um elefante e estou quase desmaiando de sono.

— Está bem. Mas da próxima vez que quiser se colocar na frente de uma bala por alguém, faça isso com alguém mais importante do que um principezinho mimado e arrogante.

— Está falando de Senn ou de você?

— Idiota. — Nick entrelaçou os dedos nos cabelos de sua nuca fortemente e então o beijou. — Me ama?

— Te amo.

OoO

Quando saiu do quarto de Ethan, minutos depois, Nicholas Hentz olhou para as próprias mãos. Fios de cabelos negros como diamantes recém-arrancados. Sorriu para si mesmo.

OoO

No dia seguinte, dia seis de julho, Rowan estava parado em frente à Ultimum Temporum. Gillian estava a seu lado, assim como Lorenzo e Nicholas. O ruivo o pusera contra a parede ao perguntar o que eram as Sombras. Rowan não queria responder, mas teve a sensação de que Nick facilmente quebraria seu nariz se não o fizesse.

Não contara sobre sua habilidade, contara apenas sobre a de Gillian.

Ele ainda estava processando as informações.

— Como pode haver tantas Sombras aqui, se não vejo nada? — indagou consternado.

— A verdade está a sua volta, basta querer vê-la, e poucos querem — Rowan sussurrou. — Mesmo que tentem, no fundo não querem. Não é que tenham medo, é que é simplesmente muito difícil. As Sombras são escuras e escondem horrores que você não poderia sequer imaginar; a luz é bela, traz esperança, calor, alegria. Elas são opostas, assim como gelo e fogo, ódio e amor, amargor e doçura, dor e prazer, mal e bem, vida e morte. Uma não existe sem a outra e é por isso que, onde há Sombras, há luz, assim como, onde há luz, há Sombras. Você vê o que escolhe ver, e escolhe o que o ensinam a escolher.

— Emocionante — ele murmurou secamente. — O que vamos fazer?

— Quando eu voltei à consciência depois de Gillian me acordar, vi que Lorenzo se dirigia à porta dos fundos. Preciso entrar lá e ver quais maravilhas encontrarei.

— Tudo bem, então um de nós faz uma distração e outro entra lá.

— Não “um de nós.” Gillian tem que fazê-lo, ela é a única que Elizabeth não conhece. Então eu entrarei na porta dos fundos e verei os tesouros que acho.

— E quanto a nós? — Lorenzo indagou.

— Descansem. — Sorriu. — E aproveitem a luz enquanto ela existe, pois nunca sabemos como será o dia de amanhã.

Tirou a luva discretamente e tocou na mão nua de sua irmã.

Esse lugar é horrendo. Sinto presenças terríveis aqui. E são mais de uma.

Os três observaram Gillian inflando o peito e entrando na loja. Através das vidraças, viram-na conversar com Elizabeth até perceberem que não era Elizabeth. Na verdade, parecia-se muito com ela, mas era incrivelmente mais velha. Não era uma idosa, devia ter cerca de quarenta ou cinquenta anos, mas as rugas em seus olhos faziam-na parecer ter bem mais. Também parecia cansada e amargurada.

Lorenzo se arrepiou subitamente.

— Vá logo — ele disse. — Esse lugar me dá arrepios. Não acredito que minha bengala veio dali.

Gillian e a mulher foram para os fundos da loja, bem longe do balcão e da porta dos fundos. Rowan aproximou-se sorrateiramente, andando sem fazer barulho, como sempre fazia. Foi fácil pular para o outro lado do balcão e engatinhar pelo chão até a antessala. A mulher não percebeu, pelo visto.

Era uma antessala bastante comum. Tinha dois sofás, um balcão, uma mesinha de centro, uma geladeira e uma TV fixada à parede. Também havia uma outra porta perpendicular àquela pela qual Rowan acabara de passar. Abriu-a.

No momento em que se viu parado frente a uma escadaria de pedra, Rowan sentiu-se gelar. Era como se tivesse acabado de abri um refrigerador, um frio vivo e pulsante saía dali, mas não era esse o pior. A luz simplesmente não entrava ali. A escuridão que envolvia aquele corredor era tão densa que parecia engolir a fraca luz emitida pela lâmpada da antessala. Rowan logo soube que via com os próprios olhos as emanações das Sombras, tão intensas que eram visíveis.

Ele não queria entrar ali, parecia o inferno. Um desejo poderoso de sair correndo daquela loja maldita o tomou; até deu alguns passos para trás antes de se interromper. Ele estava bem ali, não teria outra chance. Os garotos e Gillian nunca o perdoariam se não fizesse o que tinha que fazer. Rowan respirou fundo e entrou na escuridão.

Então sentiu-se em pânico. Ele não via nada, não ouvia nada. Quando segurou-se nas paredes de pedra para não cair, a certeza de tê-lo feito só não se esvaiu porque ele mesmo o fez. Não escutou o som de sua mão se chocando contra a parede. Para testar, bateu com o pé forte no chão. Nenhum barulho. Ele estava surdo ali. E cego.

Antes de sentir que iria perder o juízo, Rowan começou a descer. Seu tato ainda se conservava, felizmente, até mais forte que antes. Uma sensação horripilante o tomou, ele estava vivendo como um cego, surdo e mudo ao mesmo tempo. Sentia que, se não saísse logo dali, não recobraria os sentidos novamente. E se não achasse o caminho de volta?

Como poderia não achar o caminho de volta? É uma escadaria.

Até seus pensamentos pareciam estar mais baixos.

Rowan andou pelo que pareceram mil anos (pelo que sabia, podia ter descido até o inferno), e quando sua mão direita bateu em uma textura diferente foi que finalmente soltou o ar que prendia. Ele estava com frio, totalmente arrepiado, cercado pelas Sombras, cego e surdo, mas sentia perfeitamente a madeira sobre seus dedos. Nunca se sentiu tão feliz na vida.

Achou a maçaneta facilmente, girando-a e desejando mais que tudo que a porta não estivesse trancada. Não estava.

A sala por trás da porta de madeira era maior que a loja inteira, e Rowan soube disso porque as velas se acenderam no momento em que pôs o pé lá dentro. Rústica, completamente de pedra, gelada como o inverno mais duro e cruel. As paredes eram cobertas com tapetes e havia um grande espaço bem no meio, enquanto nos cantos havia várias cadeiras de madeira cuidadosamente empilhadas, jarras e castiçais. Também havia um pequeno armário de madeira. Havia várias marcas profundas no chão, formando um desenho macabro que levava àquela lareira. E pior: o chão era inclinado a ela.

E o mais curioso era aquela lareira, que parecia ser o centro de tudo. Não havia chaminé na loja, mas havia um grande e escuro buraco bem no fundo, onde as marcas no chão findavam. Uma lareira sem chaminé e com um buraco em seu meio, coisa mais absurda impossível. Vencido pela curiosidade, Rowan se esgueirou de quatro para dentro dela e deu uma olhada no buraco antes de se jogar violentamente para trás.

Um ar quente e silencioso saía dele, mas não apenas saía como voltava também em intervalos regulares que cruelmente assemelhavam-se demais com uma respiração. Rowan não fez nenhum barulho, mas ainda assim tinha medo de que a coisa do fundo do buraco o tivesse ouvido. Um leve rugir muito baixo podia ser ouvido, como se ele estivesse roncando. Ele estava dormindo. Estava? Ou não estava?

Deu uma olhada nas jarras. Havia sal nelas, a última coisa da qual Rowan podia pensar. Temia tanto tocá-las sem as luvas que decidiu não fazê-lo. Aproximou-se do armário de madeira e o abriu. A única coisa que viu foi um punhal de prata com um símbolo estranho incrustado no cabo. Algo, não soube o que, fê-lo guardá-lo dentro do bolso interno do casaco.

Rowan já vira o suficiente. Seu coração estava gelado, se ficasse por mais tempo naquele porão, seu corpo congelaria também. Voltou às escadas escuras, notando que elas desciam ainda mais. Ele já havia descido tanto, como era possível que existisse algo ainda mais fundo? Não sabia, e não queria saber.

Subiu as escadas quase correndo, embora tivesse a impressão de que demorara tanto quanto a descida. Finalmente chegou à antessala, onde a luz tocou seu rosto com carinho, ansiando sua volta. Rowan nunca se sentira tão feliz por ver a luz em toda sua vida.

Colocou a cabeça para fora da antessala, colocando-a para dentro de novo rapidamente, o coração acelerado. A mulher que certamente não era Elizabeth estava de volta no balcão, enquanto Gillian havia sumido. Devia saber que ela não conseguiria enrolá-la por tanto tempo.

O punhal dentro do bolso de seu casaco o espetava; Rowan se sentia cada vez mais nervoso. A qualquer momento ela podia entrar ali e vê-lo, e Deus sabia o que faria com ele. Foi quando ouviu a voz de Nicholas Hentz.

— Olá, bom dia — ele disse animadamente. — A senhora vende bengalas?

— Oh, sim, é claro. Deixe-me mostrá-lo…

— Obrigado. Meu irmãozinho é cego, sabe, e está crescendo rápido. As bengalas dele ficam todas inúteis muito rápido.

Rowan arriscou novamente uma olhada para a loja. A mulher e Nicholas estavam do outro lado dela. Não podia perder aquela chance.

Saiu da antessala e pulou o balcão, visando apenas a porta de saída, tão desesperado quanto se dava ao direito de estar. Seu êxtase, porém, fez seu pé bater na campainha de mesa, que caiu no chão estrondosamente.

Ele levantou-se a ponto de ver que a porta da antessala estava entreaberta e que a mulher o fitava ameaçadoramente. Era como se ela soubesse tudo.

Como se atreve a entrar ? — ela gritou, indo em direção a ele. Antes de ela tocá-lo, porém, Rowan arrancou sua luva fora e agarrou seu pulso, sentindo-se cair, cair e cair.

OoO

— Rowan?

Ele abriu os olhos lentamente. Sua pele estava pálida como papel e seus lábios estavam roxos e secos, sem vida assim como seus olhos. O azul parecia fosco e sem vida, apesar de estarem claramente muito assustados. O castanho de seu cabelo não brilhava como normalmente.

Estavam na sala da casa de Nicholas, e este, Lorenzo e Gillian observavam a criatura pequena e recolhida de cima do sofá.

— O-O que aconteceu? — ele indagou, olhando fixamente cada rosto ali, inclusive o ambiente, como para se certificar que realmente estava lá. — Estamos em casa? — Ele começou a tatear o próprio casaco até perceber que o punhal não estava lá dentro.

— Não se preocupe, o punhal está seguro — Nick disse. — Depois que você tocou a mulher… você começou a gritar. Foi a coisa mais horrenda que eu já ouvi na vida, não parecia nada humano. Então você abriu os olhos e eles estavam… pretos. Não como os meus, estavam totalmente pretos. Depois você desmaiou. — Rowan se encolheu mais no sofá. Gillian pôs o braço em volta dos ombros dele, puxando-o para que se apoiasse nela. — A mulher… ela… ahn, como dizer? Ela momentaneamente mudou de aparência, e só não foi mais horrenda que o seu grito. No lugar dela, eu vi uma criatura horrível, a pele era pálida e esverdeada e totalmente repuxada para todos os lados, quase translúcida. Parecia que alguém tinha embrulhado seus órgãos e ossos numa embalagem de pele a vácuo. Ela não tinha cabelo e os dedos eram compridos como garras. A boca dela era enorme e os olhos do mesmo tamanho. Eles eram pretos e brilhantes, tão escuros quanto qualquer coisa. Ela olhou pra mim e eu me senti gelar. Mas sabe, não era a mulher. De alguma forma, eu via tanto a criatura, quanto a mulher ali, paradas no mesmo lugar, ocupando o mesmo espaço, mas sendo pessoas diferentes. Então você a soltou e a criatura sumiu, e só a mulher ficou ali. Ela agarrou o meu pulso e eu senti uma sensação horrível, como milhares de insetos andando pela minha pele. Depois tanto você quanto ela desmaiaram, aí a sensação parou. Pegamos você e a deixamos lá, então viemos para cá. Aliás, no caminho de casa, Lorenzo me falou sobre o seu poder. Por que não o fez antes?

Rowan tinha os olhos fixos em lugar nenhum, estavam vazios e mortos.

— Eu vi.

— Viu o quê? — Lorenzo indagou.

Tudo. — Ele fungou e então começou a chorar. — Vi as coisas mais terríveis que uma pessoa pode ver. Eu vi… vi o que tem no fim daquela escadaria, vi as Sombras encarnadas. Oh, Deus, ligue essa luz.

— Mas sequer está escuro — Nick disse. Lorenzo o ignorou e ligou o abajur mesmo assim.

Gillian fez menção de tirar a luva de Rowan, mas ele a impediu.

— Não, não quero que você veja. Ninguém pode ver. Ninguém deve ver os horrores que eu vi. Pensei que havia ficado anos preso àquela mulher. Ela não é normal. Nicholas, o que você viu, a criatura, não era diferente da mulher. Era sua forma verdadeira. Velha quando o mundo ainda era novo.

— Do que você está falando?

— Estou falando que algo terrível acontece naquela loja, mas eu não sei o que é porque as lembranças dela estavam todas embaralhadas e confusas, cobertas de Sombras para não serem decifradas.

— Está dizendo que você não viu nada de útil?

— Não, mas vou ver quando tocar o punhal. Mas não agora… por favor. Eu não vou aguentar isso de novo.

— Você consegue dizer exatamente o que viu? — Lorenzo insistiu. — Talvez isso ajude.

Rowan se separou de Gillian, tirando o casaco.

— Me vi dentro de um quarto branco com apenas uma cadeira no meio e uma lâmpada em cima. A luz da lâmpada projetava sombras nas paredes, mas havia muitas sombras, mais do que seria possível. Então eu comecei a ouvir um zumbido enorme no meu ouvido, mas não tinha nada lá, nada acontecia, nem as sombras se mexiam. O zumbido ficou tão forte que me deixou de joelhos no chão, eu podia senti-lo dentro do meu corpo, fazendo meu coração bater. Eu não estava com medo de morrer, eu tinha certeza que isso ia acontecer. Estava com medo de como iria acontecer. Então eu comecei a sentir… não sei o que eram, pareciam pequenos insetos andando na minha pele, e eu sentia eles em toda a minha pele, até nos olhos. Eu comecei a gritar e a rolar no chão, mas a agonia só aumentava. Então eu fiz a única coisa que me parecia ligeiramente sensata: eu sentei na cadeira. No momento em que fiz isso, o zumbido e os insetos pararam, mas foi como se toda a luz tivesse sido sugada de uma vez. Eu estava no escuro total, e logo senti as Sombras me envolverem, apertarem cada parte do meu corpo, mas foi só por um segundo. Eu não conseguia ver, tentei gritar e não consegui me ouvir, tentei tocar meu próprio corpo e não sentia nada. Até meu paladar e olfato pareceram perder a função. Eu não estava mais sentado na cadeira, estava nadando num mar de Sombras onde eu não era nada, como se estivesse flutuando no vácuo eternamente. Não sei quanto tempo fiquei lá, eu perdi totalmente a noção de humanidade que tinha. Eu nunca na minha vida tinha experimentado uma escuridão como aquela, me envolvendo em todas as direções. Nem o zumbido estava lá para me manter são. Me senti desencarnado. Aquilo era o inferno. A luz veio muito tempo depois e eu nadei desesperadamente para ela, porque nada poderia ser pior que aquilo. Quando eu cheguei nela, abri os olhos e me vi aqui… Essa foi a única coisa concreta que me aconteceu. Ao mesmo tempo, eu vi as lembranças da mulher, mas, como eu disse, estavam todas embaralhadas e confusas, passando tão rápido pelos meus olhos que eu não conseguia pará-las. Eram muitas. Mais do que o possível. Pelo que eu sei, aquela mulher deve ter mil anos de idade para acumular tantas lembranças assim.

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— Talvez aquela criança mendiga tenha algo a ver com isso — Lorenzo murmurou. — Tinha mais Sombras em volta dela do que em volta de Gillian, e ela está sempre em volta de Sombras. Nós não demos moedas para ela? E então voltamos à loja, hipnotizados.

— Está dizendo que quem dá trocados à criança acaba voltando lá? — Nick indagou. Rowan assentiu levemente.

— É o que parece. Gillian viu a mim e a Lorenzo tendo as gargantas cortadas na noite em que nos salvou. E eu encontrei um punhal.

— O que, acha que a mulher faz alguma espécie de ritual, ou coisa parecida?

— Não sei. — Rowan balançou a cabeça. — E, por enquanto, não quero saber. Vou ter pesadelos essa noite. Vamos… deixar as coisas esfriarem por algum tempo, vamos tentar ficar longe daquela loja. A mulher me viu saindo da antessala. Quando der pela falta do punhal, saberá que fui eu. Ela não pode descobrir onde moramos. Temos de manter nossos inimigos sempre confusos. Se eles não tiverem a certeza de quem nós somos ou o que queremos, nunca saberão o que podemos fazer.

Nick sentiu algo que há muito não sentia: medo. E, de alguma forma, sabia que todos ali compartilhavam a mesma sensação, como se estivesse sendo irradiada de algum lugar. Por algo. Ou alguém.

OoO

No entardecer daquele mesmo dia, enquanto descia com Lorenzo para levá-lo andando para a aula de música (como ainda era de dia, não precisavam ir de carro), Nick viu Lucas no hall do prédio. Ele estava com a perna enfaixada. Cumprimentaram-no. Quando ele se levantou do sofá, Lorenzo propositalmente tropeçou nos próprios pés e agarrou o cabelo dele para não cair. Levantou-se se desculpando, depois saiu com Nick para o frio lá de fora.

Quando já estavam do lado de fora do prédio, Lorenzo estendeu a mão para Nick. Ele cuidadosamente recolheu os fios de cabelo negros de Lucas.

— Quanto tempo demora a fazerem o teste de parentesco? — indagou ao maior. Nick deu de ombros.

— Certamente mais do que eu vou ter paciência de esperar. — E dito isso, Nicholas lentamente arrancou um fio do próprio cabelo.

OoO

Exatamente cinco dias depois, no dia onze de julho, Ethan chegou em casa depois de uma longa noite de compras no supermercado. Suas costas não foram feitas para carregar sacolas.

A sala estava escura, mas quando a acendeu, viu Lorenzo sentado no sofá. Acariciava o pelo de Charlie, parecendo absorto em alguma coisa. Quando pensou em perguntá-lo por que estava sentado no escuro, lembrou-se que não fazia diferença.

— Ele devia ter ouvido a verdade de você — Lorenzo sussurrou. Ethan franziu as sobrancelhas, então seus olhos se desviaram para o envelope de cima da mesa. Era de um laboratório médico. Lentamente, abriu-o. Quando terminou de ler, largou a sacola no chão. Lorenzo voltou a fitá-lo acusadoramente. — Ele devia ter ouvido a verdade de você.

Charlie latiu.

OoO

No telhado do prédio 266, Nicholas Hentz deslizou os dedos pelo rosto que, pela primeira vez em um mês, estava livre de piercings. A noite reinava sobre si, e as estrelas eram como pontinhos brilhantes costurados no pano negro que era o céu. Estava frio, Nick sentia frio ao mesmo tempo em que tragava o último cigarro de Ethan Lemnsack. Ouviu uma voz atrás de si.

— Você me pediu para vir até aqui? — Lucas Fontanelle indagou. — Meu Deus, desça daí, você pode cair. — Nick estava de pé na beirada no prédio. Se desse um passo para frente, despencaria por mais de setenta metros até se espatifar lá em baixo.

— Lucas — Nick disse animadamente. Atirou o cigarro para frente, vendo-o cair. Pulou para trás, saindo da beirada. Ele já havia tirado o gesso da perna. — Que bom que veio. Temos muito o que conversar.

Notas finais
E então, gostaram da família real? :333E Nick acabou por descobrir o maior segredo de Ethan, assim como Ethan descobriu o maior segredo dele na primeira temporada. Nah, tá tudo se invertendo.Also, deixem reviews. :3