Como Vivem Os Anjos
11 Obcecado
Gabriel Melnick selou os lábios de Ethan Lemnsack e descansou a cabeça em seu peito. Estavam no quarto deste último, na cama, inteiramente nus. Um ar de excitação pairava sobre os dois. Pela posição que estavam, mal se podia dizer que Gabriel era 10 centímetros mais alto que Ethan, apesar de ter a idade de Nick.
Lorenzo estava no quarto de Nick, que não estava em casa. Aquilo provavelmente enfureceria o loiro, mas Ethan descobriu que não ligava.
— Onde ele está? — Gabriel perguntou, referindo-se ao irmão do maior.
— Não faço ideia, nem quero saber — Ethan respondeu, seco.
Gabriel franziu as sobrancelhas.
— Como assim?
— Nós… não estamos muito bem.
— Por quê?
— Por causa de Lorenzo. Nick o odeia.
— Por causa de… isso… não faz sentido.
— Faz um pouco. Na verdade, não sei o que estava pensando quando pensei que ele se acostumaria com a ideia… com a existência de Lorenzo.
— Lorenzo é tão amável.
— É, mas Nick não ama pessoas amáveis. Nick ama… Nick. E eu. Eu acho. Não dá pra mudar isso.
— Ele está ficando meio destrutivo, não acha?
Isso chamou a atenção de Ethan, que se sentou.
— Como assim… destrutivo?
Gabriel repetiu o movimento lentamente, parecendo desconfortável.
— Você não sabe?
Ethan endureceu a expressão.
— Não sei o quê?
— Ah… eu… não queria que você ficasse sabendo disso por mim.
— Disso o quê? — A voz de Ethan era fria como gelo, mas Gabriel não teria percebido nem se tivesse começado a nevar no quarto.
— É que… bom… esses dias entrou um garoto novo na nossa sala, chamado Luca Granelli.
— Granelli não é aquela família mafiosa?
Gabriel assentiu.
— É sim.
Ethan sentiu um calafrio.
— Continue.
— Bom, não era preciso muito pra ver que as meninas estavam babando por ele. Então eu acho que ele… bom, ficou com inveja. — Era óbvio que ele ficaria com inveja. — Então, ontem, no final das aulas, eu o vi indo ao Corredor com Luca.
— Indo ao Corredor… com Luca? — A ideia o fez se sentir, ao mesmo tempo, enojado, confuso, desesperado e, por incrível que pareça, com ciúmes. Nick nunca havia demonstrado interesse por pessoas do mesmo sexo. Além de Ethan. E agora aquilo? — Pra quê?
— Pra que você acha?
— “Ele está pegando o jeito do sarcasmo.” Bem… o que aconteceu?
— Nicholas saiu de lá um pouco depois e falou algo pra pelo menos uma dúzia de meninas. Eu vi porque estava por perto, mas acho que ele não me viu, porque saiu correndo pelo portão depois disso. Foi pouco antes de você chegar para irmos embora. Enquanto isso… as meninas foram ao Corredor.
Ethan pegou-se ficando ainda mais apreensivo.
— E?
— Bom… — Gabriel cerrou os dentes. — Digamos que acho que Luca nunca mais vai dar as caras novamente na escola. — O maior começou a arfar. — Ele estava… nu. E usando um vibrador.
Ethan pulou da cama. Gabriel sabia que ele ia começar a gritar, então levantou-se também e pôs as mãos nos ombros dele.
— Aquele…! Não acredito que ele fez isso com o garoto! Como é que… como é que ele pode ter caído nessa?
— Eu falei com Luca uma vez, antes disso. Ele me pareceu bem ingênuo.
— Ingênuo que nem uma garota virgem e inocente. Oh, meu Deus. Ele não merecia isso. Tudo por causa…!
— Bem, eu tenho que admitir que as garotas voltaram a dar atenção a Nicholas.
— Mas é claro que voltaram! — Ethan estava começando a ficar histérico. Gabriel segurou seus ombros mais fortemente. — Pelo amor de Deus. Eu sei que ele é egoísta, egocêntrico, superficial e não liga pra ninguém, mas como é que ele pôde ter feito isso com um garoto inocente?
— Acho que Luca é mais tapado que inocente.
— Não duvido disso. Sabe o que é pior? Não faço a mínima ideia de como puni-lo por isso. Parece que qualquer coisa está bom para ele, ele se acomoda. — Ethan olhou pensadoramente pela janela do quarto, a face uma mistura de raiva e desespero. — Que foi que meu irmãozinho se tornou?
— A culpa não é dele.
— Não, não o defenda. Eu sei que você nunca gostou direito dele.
— Bom, eu… admito que o acho um pouco arrogante.
— Um pouco?
— Você entendeu, Ethan. Mas veja bem, se quer puni-lo por causa disso, pode obrigá-lo a passar um tempo com Lorenzo.
— No que isso ajudaria? Ele odeia Lorenzo.
Gabriel sorriu amavelmente.
— Exatamente.
Ethan pensou um pouco, o rosto inexpressivo.
— Talvez… talvez… é, quem sabe isso.
— Aliás, proibi-lo de transar também seria uma boa.
— Mandar Nicholas Hentz parar de transar é como mandar a chuva parar de cair. Ele não iria me obedecer. Não nisso.
— Eu sei. Mas tenho certeza que teria o cuidado de fazer sem você ver, o que já é alguma coisa.
— É… tem razão. — Ethan sentou-se na cama, um olhar pensador muito longe dali. Gabriel surpreendeu-se de ver como ele se parecia com Nick com aquela expressão. Então ele sorriu. — Você é bem criativo.
— Obrigado, eu realmente fiquei com pena do garoto. A escola toda ficou sabendo disso no dia seguinte. Aliás, era só o que se falava. Você não percebeu?
— Não. — Ethan torceu o nariz. — Não é costume das pessoas me contarem as coisas.
— Mas ninguém mencionou Nicholas nisso. Acho que, ontem, Luca não contou pra ninguém que havia sido ele.
— Ele não foi à escola hoje, não é?
— Não.
Ethan Lemnsack suspirou longamente. Depois beijou o rosto de Gabriel com letargia. Primeiro o nariz, depois a bochecha direita, esquerda, então as têmporas e finalizou com um selinho.
— Foi Lorenzo que me ensinou isso — Ethan disse. — Ele chama isso de top de cinco segundos, assim mesmo. Ele o faz pra demonstrar que gosta muito da pessoa. Menos o selinho. — Ele sorriu. — Eu adicionei esse pra fazer com você.
Gabriel beijou-o de novo, dessa vez enfiando a língua em sua boca.
— Tenho uma coisa pra você — Ethan disse. Abriu a gaveta da cômoda e tirou uma caixinha azul escura aveludada. — Eu sei que é simplesmente a coisa mais brega do universo, mas não consegui resistir. — Gabriel abriu a caixa e viu o brilho branco do anel. Uma pedra da cor do sangue incrustrada em seu topo com outras minúsculas da mesma cor rodeando toda a extensão do anel.
— Ethan, isso é…! Rubis. E… ouro branco. Pelo amor de Deus. Eu não…
— Se vier com “não posso aceitar”, vou soldar isso no seu dedo. Agora ponha.
— Mas…
— Gabriel!
— Mas, Ethan…!
— Nick não ficou assim quando eu dei o colar a ele.
— Nicholas é Nicholas, eu não me sinto bem em desfilar por aí com um anel de cinco mil dólares no dedo.
— Se alguém perguntar, diga que é bijuteria.
— Sabe do que me chamaram outro dia? Interesseiro.
— Pode ser interesseiro o quanto quiser… — Ethan o forçou a se deitar e deitou-se em cima dele, beijando seu pescoço. — Eu não importo.
— Mas… é sério. — Sentou-se. — Semana passada, na minha sala, um garoto te chamou de “garoto de um bilhão de dólares.”
— Mas eu sou um garoto de um bilhão de dólares.
Gabriel empurrou seu ombro, quase que com agressividade.
— Pare com isso. Depois perguntou se eu já planejei o golpe do baú.
— Planejou?
Dessa vez, o esmurrou com força.
Ethan apenas pôs a mão no ombro para aplacar a dor, ainda sorrindo.
— E o que você fez?
— Nada — Gabriel respondeu. — Nick bateu nele. Eu… apreciei isso. Achei gentil. Do jeito dele, mas gentil.
— Você sabe que ele fez isso por minha causa, não por sua, não é?
— Como eu disse, do jeito dele.
— Ah, que fofo, você gosta do meu irmãozinho.
Gabriel sorriu.
— E tinha outro jeito? Quando uma pessoa te ama, ela tem de amar toda a família Lemnsack Hentz.
Ethan passou a mão pelo cabelo.
— Já me disseram isso antes.
— Por que é verdade.
Ethan aproximou-se do namorado e o fitou profundamente nos olhos, sem piscar, sem fazer um sequer movimento. Suas mãos pousadas em suas coxas, seu rosto ligeiramente levantado pra cima para compensar a falta de altura, os diamantes negros que eram seus olhos fitando as esmeraldas verdes como água do mar.
Gabriel sentiu-se sonolento e então com frio e com calor ao mesmo tempo. Um calafrio subiu-lhe pela espinha e ele começou a arfar inconscientemente. Seu coração acelerou e suas pálpebras começaram a pesar. Tudo sem desviar a vista dos olhos de Ethan.
— N-nunca — Gabriel murmurou, quase um sussurro, fraco e por pouco não inaudível — vou entender como você hipnotiza as pessoas apenas com um olhar.
— Nem eu… — Aproximou-se ainda mais dele. Seus lábios estavam a um dedo de distância. — Só sei que eu gosto.
Beijou-o e Gabriel sentiu-se como se uma supernova explodisse dentro dele, e depois como se estivesse caindo e caindo e caindo e caindo… e não sabia por que, só sabia que era muito bom.
OoO
Uma bandeira vermelha agitava-se no topo da cúpula da prefeitura. O céu negro da noite acomodava nuvens cinzentas, carregadas de água. O vento estava forte e gelado, transpassando até os ossos de quem não se protegesse. A iluminação da rua era tão fraca que Nicholas Hentz teve de fazer esforço pra ver. Não havia ninguém por perto. Ele estava sozinho.
“O que é que eu estava pensando quando aceitei ir pra casa daquela garota? Ela mora no fim do mundo. Bom, pelo menos faz anal.”
Não necessariamente no fim do mundo, estava vendo o prédio da prefeitura, o que indicava que estava no centro da cidade. Mas o centro era estupidamente longe de sua casa e não tinha dinheiro para o táxi. Aliás, estava frio e provavelmente ia começar a chover.
“Que ironia. Tenho 500 milhões de dólares e não tenho dinheiro para o táxi. Será que se eu implorar, o taxista faz a corrida de graça?”
Uma fina garoa começou a cair do céu.
“Acho que vou ter que engolir o orgulho e ligar para o Ethan para ele fazer alguma coisa. A essa altura, ele provavelmente já sabe sobre o que eu fiz com o Luca. Não posso ver a cara dele.”
Ao longe, muito, muito ao longe, um trovão ecoou, abafado pela distância.
— Melhor começar a andar — murmurou para si mesmo e para a negritude. A rua estava escura demais. Inconscientemente, tocou seu colar com o medalhão NE, como sempre fazia quando ficava nervoso.
O caminho do centro até sua casa era de aproximadamente quatro quilômetros. Nick optou por pegar uma rua menos movimentada ao invés da avenida principal de Middleland. A essa hora, devia estar tão movimentada que não conseguiria andar um cento de metros sem ser parado por alguém.
Foi quando atingiu um cruzamento de quatro vias, escuro como o breu, que foi pego.
Eram três pessoas, todas aparentando no mínimo uns 20 anos. A primeira coisa que Nick pensou quando se viu encurralado num beco escuro sem absolutamente ninguém por perto além dele e daqueles outros, foi que estava pagando por seus pecados. A segunda coisa, foi em Oliver.
A terceira coisa, foi em como eles estavam bem vestidos para precisarem realizar um assalto.
— Eu… eu não tenho nada — Nick disse. Então arrancou o colar de ouro que usava e tirou o celular do bolso e jogou-os para um deles. — Aqui, isso é tudo o que eu tenho. Me deixem ir.
Um deles, um mais alto com uma eterna expressão sarcástica, cabelo preto e curto, pele quase translúcida, aproximou-se um passo e falou. Nick estava colado contra uma parede de tijolos, mas, se pudesse, teria dado um passo pra trás.
— Olha só o que temos aqui — murmurou, uma voz divertida e surpreendentemente aguda. — Esse cabelo. Nunca confundiria esse cabelo.
— Você não é Nicholas Hentz? — perguntou outro, o que havia pego o colar e o celular de Nick e colocado no bolso.
— Sou — Nick disse, franzindo as sobrancelhas. “Ótimo, agora serei sequestrado porque eles sabem que tenho um bilhão de dólares em cima de mim.” E, estranhamente, não conseguia sentir medo.
— Quem diria — disse o terceiro, aproximando-se demais de Nick, e tinha um sotaque italiano. — Nick Hentz sozinho numa rua escura.
— Não me chame de Nick!
Gritou sem pensar antes no que estava fazendo, e o resultado foi um tapa em sua bochecha direita que a deixou vermelha.
— Olha como fala, rapazinho — disse o mais alto.
Ainda sem pensar, Nick sentiu lágrimas quentes descerem como navalhas por seu rosto vermelho.
— Me deixem ir, por favor.
— Acho que não — disse o outro, o que havia pego os objetos. — Você vem conosco. Temos algo pra você.
Tentou fugir, o que foi ainda pior do que ter ficado parado lá. Não dava para escapar do semicírculo que os três haviam formado, de forma que logo foi pego novamente, e recebendo outro tapa ainda por cima, ainda mais forte.
Depois disso, o mais alto guiou-o para fora do beco de volta à interseção, seguido pelos outros dois, e o fez entrar num carro preto estacionado. Nick sentou-se no banco de trás, com os outros dois sentados a seu lado, para impedir que fugisse pelas portas laterais. O terceiro sentou-se no banco do motorista e logo deu a partida no carro.
Não demorou muito para reconhecer o caminho. Dirigiam-se a leste de Middleland e só havia duas coisas naquele local. A floresta que cercava um quarto da cidade e meia dúzia de condomínios de alta classe.
“Ou eles vão me matar e me enterrar na floresta, ou vou virar brinquedo sexual de algum milionário. Por que eles não me estupraram logo naquele beco?”
Foi a segunda opção. Através da noite fria e gélida, adentraram num condomínio chamado Jardim de Ouro. Nick o conhecia. Já fora lá uma vez, para a casa de um amigo. As casas eram tão absurdamente luxuosas e extravagantes quanto às pessoas. Algumas chegavam a ter quatro andares.
O carro andou por ruas escuras e perfeitamente asfaltadas, através de esquinas, passando por um parque infantil e uma quadra de tênis. Nick viu uma piscina comunitária e perguntou-se para que ela servia, se todas as casas que viu tinham piscina particular.
“Esse lugar é tão bonito. Por que Ethan e eu não nos mudamos para cá? Ah, sim, ele odeia condomínios.” De fato, ele odiava. Dizia que as casas eram como pequenas caixas e todas as pessoas eram iguais, faziam as mesmas coisas, agiam do mesmo modo com todo mundo, a falsidade estampada na cara. Era verdade e, Nick sabia, Jardim de Ouro era definitivamente a exemplificação física do que Ethan mais odiava num subúrbio.
Finalmente chegaram ao fim do condomínio e deram de cara com os portões de uma enorme mansão. A distância entre os portões e a casa em si era de pelo menos um cento de metros. O carro atravessou-os e continuou a seguir. O pátio, feito de ladrilhos de cimento irregulares, possuía uma fonte branca gigantesca de onde pequenos bebês alados e rechonchudos cuspiam água azul. Quando Nick chegou mais perto, percebeu que a água realmente era azul. Havia também uma área gramada com uma dúzia de árvores centenárias de grande porte à esquerda, pequenas mesas de madeira sob elas, e um riacho de água límpida e transparente à direita. Tudo dentro dos muros da mansão. Era a casa mais espetacular que Nick já havia visto. Parecia uma impressão sólida de uma residência urbana e campestre ao mesmo tempo.
A mansão em si, comprida como meio campo de futebol, parecia um castelo vitoriano. Completamente de pedra por fora, uma fachada marcada por pilares de três metros de altura que sustentavam um teto abobadado.
O carro parou bem em frente à fachada e o motorista desligou-o. Os três saíram do carro carregando Nick, que não estava menos assustado do que deslumbrado.
O com o sotaque italiano bateu na imponente porta de madeira, que foi aberta segundos depois por alguém que parecia ser um mordomo. Trajava um smoking tão impecável quanto escuro. Era branco como um fantasma e alto até demais. O nariz empinado e o rosto enrugado denunciavam sua meia idade.
Algo foi falado entre os dois em italiano, algo que Nick não entendeu. Custou até para entender o idioma.
O mordomo assentiu e Nick sentiu um empurrão nas costas, forçando-o dentro da casa.
O único cômodo que viu foi o hall, que não se diferenciava muito do hall de seu prédio. Da mesma cor e com móveis parecidos, possuía uma porta fechada na parede esquerda e outra na direita, e na entre as duas, uma escada.
— Siga-o — disse um deles, referindo-se ao mordomo, que começou a subir as escadas. Nick hesitou, mas como não queria receber mais tapas, obedeceu, perguntando o que estava para lhe acontecer.
Subiu a escada, atingindo o segundo andar. Viu, por uma janela, o pátio lá em baixo, escuro pela noite. Atravessou um corredor onde de um lado, haviam janelas de corpo inteiro, e do outro, reproduções de quadros renascentistas. Entrou numa porta à esquerda.
Depois disso, passou a seguir o mordomo de perto. Aquela casa era um labirinto de corredores e quartos, onde poderia facilmente se perder. Por fim, calculou que estava no quarto andar da casa. Quando atingiram uma porta tão imponente quanto à da entrada, o mordomo parou e a apontou elegantemente.
Nick hesitou novamente, perguntando-se se poderia fugir. Deus sabia o que havia por trás daquela porta. Mas entre enfrentar isso e tentar achar a saída daquele labirinto, preferia abrir a porta. E foi o que fez.
E foi aí que viu Luca Granelli.
Ele usava um roupão vermelho escuro com detalhes pretos e dourados, o cabelo estava molhado e a pele levemente avermelhada. Estava claro que havia acabado de tomar banho, de água quente certamente. Nick perguntou-se por que estava imaginando se ele havia tomado banho ou não naquela situação.
E Luca parecia estar tão confuso quanto ele. Olhou para o mordomo que falou algo em italiano. E, pelo tom, e pelo fato de ele ter falado seu nome, parecia o estar apresentando.
— Ahn… — Luca murmurou, franzindo as sobrancelhas. — Grazie, Andrei. Pode ir.
Ele saiu, fechando a porta, deixando Luca e Nick a sós.
— Você fez isso? — Nick conseguiu perguntar, e sua voz saiu tão trêmula que pensou que fosse chorar.
— Isso o quê? — Luca perguntou, sinceramente curioso.
— “Meu Deus, como você é estúpido. Por que não consigo te odiar como eu deveria? Como você merece?” Como assim “isso o quê?” Eu estava andando calmamente quando fui sequestrado!
— Ah, sim — Luca pegou uma toalha de mão em cima de uma cômoda e começou a esfregar o cabelo distraidamente, secando-o. — Peço que os perdoe. Eles são meus guarda-costas. Disseram que te trariam até mim se te encontrassem. Não pensei que falassem sério, por isso concordei.
Nick imaginou como ele ficava bonito com o cabelo molhado, solto.
E não precisou perguntar por qual motivo ele teria sido trazido até Luca. Sentou-se na beira da cama e inevitavelmente, sentiu vergonha. Abaixou a cabeça quando sentiu a face ficando vermelha e depois a levantou de novo. Luca ainda estava secando o cabelo, não parecendo estar nem aí para a presença de Nick ali.
— Desculpe — murmurou, voltando a olhar para baixo.
— Pelo quê? — Nick voltou a olhar para ele e percebeu que a dúvida não era genuína. Era sarcasmo.
Suspirou.
— Por… sei lá. Por ter te humilhado na frente da escola toda por um motivo egoísta, por ter te iludido dizendo “eu te amo” quando isso não é nem perto de ser verdade. Por ter dito que iria tirar sua virgindade quando meu pau não consegue subir com garotos. É tanta coisa que nem consigo enumerar.
— Na verdade — Luca sentou-se ao seu lado. Nick viu de relance seu peito desnudo —, é só isso aí. E eu não me importo com a coisa da virgindade nem do “eu te amo.”
— Você vai voltar pra escola? — Nick perguntou, olhando para seus profundos olhos azuis. — Não ligue pro negócio da humilhação, se você andar comigo ninguém vai te importunar. Aliás, eu consegui, não é? As garotas nunca mais vão te incomodar.
Luca deu uma risada exageradamente comprida, e Nick percebeu por quê. Era… deboche.
— Nicholas, eu sou filho de um chefe da máfia. Ninguém me importunaria nem se eu fodesse todo o time de futebol, por que apesar de eu não ter algo que você tem, carisma, eu tenho algo que você não tem. — Aproximou o rosto do de Nick. — Eu ponho medo nas pessoas. Assim como seu irmão. Eu sou intocável, assim como Ethan. Mas e você…? O que você tem? Deixa eu dizer. Porra nenhuma. — Sorriu ao ver a face estupefata de Nick. — Seu irmão está ocupado demais com o namorado dele para te dar atenção, para te proteger de ser atormentado. Você não tem nada que te proteja, além da sua beleza. Mas isso é uma coisa bem instável. — Reaproximou-se de Nick, falando quase num sibilo. — Afinal, o que te aconteceria se as pessoas descobrissem que você vira uma puta na cama… para o seu irmão?
Nick pulou da cama, afastando-se de Luca. Seu coração estava tão acelerado que sentia que Luca podia ouvir as batidas, e a força nas pernas estava se esvaindo. Caiu de joelhos.
— Como… você sabe disso?
Luca ajoelhou-se em frente dele e lambeu os lábios.
— Não sabia. Você acabou de me confirmar.
Nick urrou de frustração, levantando-se novamente. Luca levantou-se também.
— Mas eu admito que tinha minhas suspeitas. Aliás, acho que todo mundo tem. Mas ninguém fala nada, adivinha por quê?
— Sim, eu sei! — Nick gritou. — Por causa de Ethan! É sempre por causa dele! O que está tentando fazer comigo?
— Nada, ué. — E, dessa vez, Luca parecia estar sendo sincero. — Se eu te odiasse, eu poderia fazer da sua vida um inferno. Mas sabe… eu não te odeio. Por incrível que pareça, eu ainda amo você. Esse é o fantasma da minha vida. Amar alguém que não me ama. Sabe como é isso?
Nick balançou a cabeça.
— É claro que não sabe. Já amou alguém na vida além do seu irmão?
— Não.
— Então não dá pra discutir sobre isso com você. Só saiba que é ruim, é péssimo. Você não precisava ter feito aquilo comigo para me destruir, bastava apenas ter me rejeitado.
— Eu não queria te destruir — Nick disse, na defensiva. — Eu já disse, foi um desejo estúpido.
— Uhum, eu sei, você queria as meninas de volta. Mas culminava na mesma coisa. Me diga, uma boceta vale tanto assim?
De novo, Nick balançou a cabeça, lentamente.
— Que bom que sabe disso. Eu vou voltar pra escola semana que vem, aliás. Eu não fui hoje porque fui suspenso por estar fazendo coisas indevidas dentro dos limites da escola.
— Que hipocrisia — Nick disse, quase cuspindo as palavras. — Já levei até duas professoras pro Corredor.
— Entendo, mas eu não me importo.
Nicholas sentia que a conversa estava chegando ao fim.
— Precisa de carona pra casa? — Luca perguntou. Nick assentiu. — Vou cuidar disso.
— Poderia me devolver meu celular e meu colar?
— Também vou cuidar disso.
Havia um interfone na parede, com a área para falar e um botão vermelho. Luca o apertou e falou algo em italiano fluente, recebendo uma resposta no mesmo idioma. Alguns momentos depois, Andrei, o mordomo, estava de volta ao quarto de Luca.
— Ah, Nicholas — Luca falou pouco antes de Nick sair do recinto —, desculpe pelo tapa que meu guarda-costas te deu.
Nick assentiu e, antes de finalmente deixar o quarto, murmurou:
— Pode me chamar de Nick.
OoO
Quando chegou em casa, desabou no sofá.
— Graças a Deus, onde você estava?! — Ethan indagou, surgindo do corredor do apartamento, a voz ríspida, aliviada e desesperada ao mesmo tempo. — É quase meia-noite, faz ideia disso?
— Faço.
— Onde você estava?
Nick não via motivos para mentir, mas decidiu dificultar um pouco a vida de Ethan.
— Na casa de uma garota.
— E ficou a tarde inteira lá — completou.
— É. Foi ótimo, aliás. Como nunca foi com você.
Divertiu-se vendo a face do irmão ficar vermelha.
— Depois — Nick continuou dizendo — fui sequestrado e levado pra Jardim de Ouro. Aquele lugar é incrível, sabia? Por que não moramos lá? To cansado de ser classe média.
— Foi…? O quê?
— É isso mesmo. Quando saí da casa da garota fui andando pra casa.
— Por que você não ligou pra mim?
Nick percebeu que Ethan não sabia se acreditava ou não se ele havia sido sequestrado.
— Porque eu não queria você gritando comigo, que nem agora. Bom, então me levaram para uma mansão enorme. Queria morar numa casa dessas que parecem castelos, com um pátio enorme na frente, que são tão grandes que dá pra se perder dentro delas. Você não tem vontade?
— Tenho mas… espera aí, do que é que você está falando?
— A casa era do Luca Granelli. Até que o ramo criminal é bem pago, hein? Eles devem usar notas de 100 como papel higiênico.
— A casa do…
— Então me levaram pra dentro da casa e eu tive uma conversa bem interessante com o Luca. Foi aí que percebi que ele é bonito pra caramba. Acho que faz seu tipo.
— Meu… meu tipo? Nick…
— Não me interrompa, isso é falta de educação. Sim, faz sim. Só que ele está apaixonado por mim, não é uma lástima? Gostar de alguém que não gosta da gente. Aliás, pior ainda é gostar de alguém que gosta da gente, mas não da mesma forma. Porque aí essa pessoa fica tentando falar com você de boa, e você até tenta ir na mesma, só que não consegue lidar com o fato de que nunca vai tê-la, e isso dói pra caramba…
— Meu Deus, do que você está falando?
— Ele gosta de mim, cacete, não tá entendendo? Só que o único pênis que eu gosto é do meu irmão mais velho, isso é estranho. Mas então, ele não consegue me odiar, e por algum motivo eu não consigo odiá-lo. E eu consegui as meninas de volta, e ninguém vai importuná-lo quando ele voltar pra escola porque ele é filho do chefe da máfia e todos têm medo dele. Assim como é com você.
Ethan não disse nada.
— Então fizemos as pazes — Nick disse alegremente. — Não é adorável? Já reparou como os olhos dele são lindos? Eu queria ter olhos claros.
— Mais alguma coisa? — Ethan indagou com as sobrancelhas franzidas.
— Hm, não, acho que é só isso.
— Ótimo, você está de castigo.
— Mas… de novo? Eu já fiz as pazes com ele.
— Não me importa, nem sei se o que você disse é verdade.
— A parte de gostar de alguém que não gosta de você é bem verdade.
— Não to falando disso e… argh, esqueça. Vá dormir.
— Qual vai ser minha punição?
— Até eu pensar em algo melhor, é bom que você saiba que se você enfiar esse seu pauzinho em mais alguma boceta, vai se arrepender.
— Você quer que eu pare de… transar?
Ethan percebeu que a ideia parecia tão absurda para Nick quanto era para o próprio Ethan. Mas sim, era aquilo mesmo.
— Sim.
— Por que… por que você não pede pra gravidade parar de manter as coisas no chão, ou, ou… o Sol parar de arder ou a Lua cair do céu?!
— Porque você enfiou um vibrador num garoto e depois roubou as roupas dele.
— E… DAÍ?!
— Psiiiiiiu! Fale baixo, Lorenzo está dormindo.
— Lorenzo que se f… — Hesitou, apertando os punhos.
— Tem certeza que quer terminar essa frase? — desafiou o maior. — A propósito, também vou fazer você passar um tempo com ele. Vai ser bom pra…
— Vai o quê?!
— Vai ser bom pra vocês dois.
— Não, não vai!
— Boa noite, Nicholas.
Nick entrou no quarto, cuspindo raiva por onde passava. Lorenzo dormia no quarto de Ethan, e como o quarto de seus pais continuava vazio, Ethan imaginou que acabaria tendo que dormir no sofá. Não que não soubesse que aquilo ia acabar acontecendo, mas esperava que Nick pudesse chegar mais cedo, e assim Ethan poderia amaciá-lo até a hora de dormir. Não funcionou.
Depois de forrar o sofá, Ethan entrou num sono profundo, cheio de sonhos. Sonhou com Nick se dando bem com Lorenzo. Parecia bom demais para ser verdade, mas talvez um dia, quem sabe um dia…
Acordou na metade da noite com a campainha do apartamento. Tonto de sono e perguntando quem poderia ser, Ethan se levantou e ligou a luz, os olhos pretos acostumando-se lentamente a ela.
Foi aí que viu. Na parede branca do apartamento, que não era mais branca, escrito em tinta spray vermelha como sangue.
VOCÊS VÃO MORRER
Fale com o autor