Notas iniciais
Leiam esse capítulo com bastante atenção, há vários detalhes nele importantíssimos.

Ele estava cansado. Ele estava exausto, estava dolorido, estava triste, estava exaurido, abatido, esgotado. Mas ele não descansaria. Ele não descansaria porque o mundo era dele, porque o mundo pertencia a ele, então era seu dever cuidar dele.

Ele estava cansado porque Lance Chioren estava morto. Estava cansado porque Sttan Molihnar estava morto. Estava cansado porque Terrence Revonne estava morto, assim como Jimmi Weswalk e Julie Chioren. Estava cansado porque Lorenzo Barcarolli estava com depressão. Estava cansado porque Ritchi Revonne estava aleijado. E estava cansado ainda mais porque Meera Cinneto estava morta, e, junto com ela, Charlie Ethan Cinneto Lemnsack Hentz, que nem chegara a viver e já estava pagando pelos pecados dos humanos. E não menos importante: Nicholas Hentz.

Nicholas Hentz não estava morto, pelo menos não por fora, mas no momento em que trinta e seis facadas foram dadas nas costas de Mia e um pentagrama fora desenhado por cima, uma parte dele morreu. Sua felicidade, seu júbilo. Nicholas havia posto toda sua expectativa de vida na mãe de seu filho. Mas ela morrera. Então Nicholas morreu também

Melchior não se lembrava da última vez que vira a luz do sol. Oh, não, aquilo era um exagero. Estava sentado há apenas doze horas em frente a sua escrivaninha, com uma pilha de papeis a sua frente e vários retratos colados num painel de camurça afixado à parede, painel esse muito parecido com aquele que destruíra do prédio do terceiro ano da Academia Alphonse Enoi.

Também na escrivaninha, um molho de chaves do tamanho da cabeça de uma boneca, aquele que Marco roubara do zelador Zig, aquele que Melchior usara para entrar nas unidades da Academia após ter invadido o campus. Trancada numa gaveta, uma lata de tinta spray roxa que já devia estar acabando. Logo teria que comprar outra.

Melchior olhou para o rosto de seu falecido tio com repugnância. Então para o rosto redondo e adorável de Julie, que agora jazia frio e sem vida num caixão em um cemitério qualquer. Jimmi estava ao lado dela, e, afixados a sua foto, retratos menores de sua família. O mesmo era com as outras vítimas. As outras vítimas da Coruja.

Fizera um bule de café inteiro àquela noite, mas agora já era de manhã e o bule estava vazio, e a caneca a sua frente também. Era uma caneca em forma de lente de câmera, presente de Marco para ele. Ele dissera que comprara pensando que era um vibrador.

Quem é você, hein, seu desgraçado?, pensou, fitando o rosto vazio de Terry. Ritchi estava bem ao seu lado, preso por um clipe de papel, ainda com a cabeleira vermelha e os olhos cheios de vida e alegria. Forçava-se a não se culpar pelo que acontecera a ele, mas era difícil.

E sentia-se profundamente triste. Triste pelo filho que Nicholas jamais chegara a ter. Pelos filhos dos Revonne, mortos ou maltratados. Por London, cujos pais estavam se separando e cujo irmão morrera de forma tão cruel. Por seus próprios pais, que enfrentavam a morte da filha e de um irmão e cunhado. Sentia até mesmo pelos pais de Sttan.

Mas o pior de tudo fora mesmo Mia. Não por Charlie, mas pelo que ela fizera enquanto estava à beira da morte.

Estendida na escrivaninha, uma foto gigantesca em alta resolução da cena do crime. Melchior ocultara por si mesmo o corpo desfalecido de Mia Cinneto, pois o que lhe interessava era o asfalto fumegante em que estava jogada.

Uma frase, escrita com sangue.

A Coruja pia.

Mia havia escrito aquilo enquanto morria, pelo visto, o que só tornava a coisa toda muito mais cruel. Ela havia morrido lentamente, com sanidade o suficiente para escrever uma misteriosa pista com o próprio sangue. Mas era aquilo que mais o intrigava. Por que diabos ela escreveria aquilo, ao invés de escrever o nome do autor do crime?

A não ser que ela não tivesse visto o rosto da Coruja, mas se fosse assim, o que aquela pista significava? Aquilo tudo era tão frustrante, tão insuportavelmente injusto. Não deveria ter acontecido. Não no Jardim. Não no mundo de Melchior.

Ele tentava achar um padrão nas mortes, mas simplesmente não havia. As vítimas podiam ser homens ou mulheres. Não importavam as idades nem aparências. Suas famílias eram distintas umas das outras, assim como seus poderios econômicos. Não havia nada em comum entre Lance, Sttan, Terry, Jimmi, Julie e Mia, e Ritchi também, se se compreendesse que ele fora empurrado pela Coruja. Coruja já era um termo ultrapassado. Ele não atacava mais apenas à noite.

Sttan provavelmente passara os últimos minutos de vida trepando com o assassino, ou assassina, no caso. Deus e o mundo sabem que Sttan odiava Ritchi porque sabia entre ele e mim. Ele acabaria comigo também, se não fosse por Ritchi.

Cansado demais para raciocinar, Melchior abriu as cortinas do quarto. O relógio analógico fixado à parede marcava cinco horas e meia da manhã.

— Ei… Deus, feche isso. — Robb reclamou, enfiando-se debaixo dos lençóis. Melchior dividia o quarto com ele e com Grey. Seus primos ficavam numa beliche, enquanto ele ficava numa cama de solteiro, intocada desde o dia anterior. — Você passou a noite acordado? O que está fazendo? — Ele pulou da cama.

Melchior fitou-o longamente, perguntando-se se conseguiria seduzi-lo, se quisesse.

Ele já está na palma da minha mão, não precisaria nem tentar.

— Explorando o poleiro de uma Coruja — respondeu suavemente. Sentou-se de volta. A pilha de papeis que se amontoava eram rabiscos e anotações de pensamentos e teorias. A resposta estava ali, em algum lugar, sentia isso.

— O quê? — Robb ainda estava meio sonolento, provavelmente não entenderia nem se lhe perguntassem quanto era dois mais dois. Seus olhos eram azuis, nem um pouco púrpuras, escuros como um mar em tempestade, e seu cabelo era castanho escuro, nem perto de cinza.

Como será que Robb se sentiria se eu dissesse que sou neto de Samuel Hentz, mas ele não? O pensamento o fez rir.

— Estou tentando descobrir quem é a pessoa que assassinou sua prima e meu tio, além de todas essas pessoas que não lhe dizem nada.

— Por quê? Deixe isso para a polícia.

— A polícia está trabalhando firmemente nesse caso desde fevereiro e não tem dado bons resultados. E eu costumo ser uma pessoa bastante impaciente. — Não era verdade, mas esperava que Robb entendesse a indireta.

— Você deveria deixar de ser tão nervoso. — Ele não entendeu.

Nervoso? — repetiu, gargalhando. — Eu já tomei cinquenta xícaras de café, estou tão nervoso que tive que me prender aqui nesta cadeira.

— Eu tive um sonho incrível essa noite. — Sentou-se no chão e abraçou seus joelhos, pensando sonhadoramente. Estou começando a achar que ele tem déficit de atenção, porque… meu Deus. — Sonhei com a Katie Parker essa noite, aquela da Avenida Wee. Você acha ela bonita?

— Ela é linda. — Parkers, Parkers, o que eu sei sobre os Parkers? Deus, por que eu quero saber isso? Família de quatro pessoas, a mãe, e três filhos, dois meninos e uma menina. O pai morreu há alguns anos, não estou bem certo quando.

— A mãe dela não trabalha. — Robb fungou. — Me pergunto como eles vivem naquele casarão. É maior que essa casa.

Se Melchior tivesse a xícara na mão, a teria deixado cair.

O Sr. Parker tinha uma empresa de segurança que, inclusive, monitorava as câmeras de segurança do Jardim, mas quando ele morreu, a empresa faliu. As câmeras ainda estão aí, mas não funcionam mais.

— Robb. — Sorriu para ele. — Você é um anjo. — E jogou-lhe o bule. — Agora seja gentil e me prepare outro bule de café. Tenho que pensar.

Ele foi, resmungando e praguejando, mas Melchior não se importou. Uma ideia nascia em sua mente, não estava bem certo de qual, mas estava lá. Elas sempre faziam assim, nasciam do nada e germinavam até brotarem como uma linda muda de flor.

Faz sentido, afinal. Estamos na primavera.

Depois de esvaziar metade do bule de Robb, cujo café estava revigorantemente forte, Melchior tomou um banho, escovou os dentes e vestiu seu sobretudo, mas não sem antes pegar seus binóculos militares. Não os usava muito, apenas quando era necessário.

Apesar dos perigos de ultimamente, aparentemente todos de Jardim de Ouro acreditavam que se muitas pessoas estivessem juntas no mesmo lugar, nenhum ataque aconteceria. A Escola Minerva estava fazendo uma competição de futebol com os alunos do sétimo ano. Ela era a escola para qual a maioria das crianças e adolescentes do condomínio iam, inclusive Ritchi, London e o próprio Melchior, antes de ir à Academia.

Com tantos adultos nas arquibancadas e crianças no campo, parecia impossível discernir qualquer um de qualquer um. Melchior sabia que Andrew Parker estava no campo. Ele tinha doze anos e garotos de doze anos gostam de futebol, então aquilo era o mais lógico.

Dito e feito, lá estava ele, com cabelos castanhos esvoaçando ao vento. Melchior sorriu meigamente ao vê-lo perdendo o primeiro gol e xingando de volta quem o xingava primeiro. Na arquibancada, não via sinal nem de Katie Parker, nem de seu irmão mais velho, Alexander, que devia ter a idade de Ethan, mas a mãe deles, Nancy, estava lá, linda e morena.

Como aquela mulher sustentava uma mansão de dois andares sem trabalhar era realmente um mistério, um lindo e misterioso mistério. Melchior observou-a com os binóculos conversar com outra mulher que não conhecia, mas que sabia que morava no Jardim. Discretamente, Nancy tocou na bolsa da outra mulher, como que a elogiando. A outra mulher fez exatamente a mesma coisa na bolsa dela.

Como eu pensava.

Mas ainda era muito cedo para conclusões apressadas. No final daquela tarde, no parque II, enquanto Nancy Parker elogiava a bolsa de uma mulher alta e loura e esta repetia o gesto, Melchior vigiava-as como uma águia do outro lado do campo verde.

Certo, chega. Um anjo de sobretudo e binóculos do tamanho de um carro não pode ser discreto por muito tempo.

Pretendia usar da chantagem, embora fosse uma atitude perigosa, mas quando estava se preparando para ir embora, outra pessoa tomou o lugar da mulher loura. Era um homem cujos músculos deviam ter o dobro do tamanho dos de Ritchi. Usava boné e parecia ser latino. Falou agressivamente com Nancy por um minuto, levantou-se e foi embora.

Ah, isso pode mudar as coisas.

O próximo passo teria de ser a mansão dos Lemnsack Hentz. Talvez Nicholas não aparecesse em seu caminho e não fosse obrigado a olhar para o rosto louro e bonito dele, era o que esperava.

Seguiu o caminho da Avenida Coruja Dourada até se deparar com a gigantesca construção, com a Campina e o Garganta Dourada bem protegidos por uma grade eletrificada de quase dois metros de altura. Melchior tocou o interfone, esperando que apenas sua linda imagem fosse suficiente para deixá-lo passar.

Foi. Atravessou o pátio de cimento até chegar à porta da frente, que foi aberta por Ethan.

— Olá — disse pesarosamente. Mesmo que não quisesse ver Nicholas, era educado demonstrar tristeza. — Posso entrar?

Ethan assentiu. Subiram até o quarto deste, que estava vazio.

— Como está se sentindo? — perguntou. Ele deu de ombros.

— Estava começando a me animar com a ideia de ser tio. Não aconteceu, bem. Nick está pior que Lorenzo alguma vez esteve. Eu tenho que literalmente alimentá-lo. Ele não se levanta da cama e passa a maior parte do tempo dormindo, sem falar absolutamente nada, sem falar que está há três semanas sem ir à escola. Isso é assustador porque ele é hiperativo. É de partir o coração vê-lo daquele jeito. — Podia-se ver que Ethan estava realmente preocupado. Olheiras se acumulavam em baixo de seus olhos e ele parecia realmente cansado. Dois de seus irmãos estavam com depressão severa e a escola estava dilacerando a parte sã que lhe restava. Melchior parara com os ataques do Senhor do Mundo M desde a morte de Julie, deixando o último enigma ainda intacto.

Sentiu pena de Ethan e do último leão dourado, que, afinal, acabaria continuando sendo o último.

— Eu odeio fazer isso, mas é necessário. Eu preciso te pedir um favor. — Ethan deu de ombros novamente.

— O que você quer?

Melchior mordeu o lábio inferior.

— Dinheiro. — Ele levantou uma sobrancelha.

— Você tem dinheiro.

— Não, Ethan, meus irmãos e primos é que tem, não eu. Sim, Julie morreu, mas eu sou menor de idade, de modo que precisaria ir com meus pais até o banco para que pudesse ter acesso ao dinheiro da poupança que fiz para ela, e eu não posso fazer isso com eles, não agora. Empreste para mim e eu juro que pagarei a você quando eu puder. — Esbugalhou os olhos levemente. Com a luz do sol, deviam estar cor-de-rosa.

— Tudo bem. Quanto você quer?

Ele parece não se importar mais com nada.

Mordeu o lábio inferior de novo.

— Duzentos… mil… dólares.

— Duzentos mil? — ele repetiu, sem acreditar.

Certo, com isso ele se importa.

— Em dinheiro vivo — acrescentou, dando um sorriso amarelo.

Ethan jogou os braços para cima.

— Oh, que seja. Venha, me ajude a tirar o colchão de cima da cama. — Sem saber para que, Melchior o ajudou. Após retirarem o imenso colchão do suporte, percebeu que aquilo era um cofre. Um cofre enorme. Possuía quatro alavancas, quatro segredos e uma fechadura, e a porta parecia tão pesada a ponto de ser impossível levantá-la. Virou a cara quando Ethan girou a senha uma vez, e então outra vez e mais duas. Ele tirou uma chave do tamanho de uma garrafa de refrigerante de algum lugar e a enfiou na fechadura, girando-a três vezes e meia. — Me ajude aqui, a porta só abre se as quatro alavancas estiverem giradas juntas. — Juntos, com cada mão, ambos giraram-nas e puxaram a porta do cofre para cima. Era mais leve do que parecia.

Dentro de um compartimento totalmente metalizado, um bolo de papeis inidentificáveis, um bauzinho de madeira com detalhes vermelhos cujo conteúdo era um mistério, algumas caixas de veludo e… dinheiro. Lotes e lotes de dinheiro.

— Duzentos mil, você disse? — Ethan pegou dez lotes de notas de cem novas e verdes, cada um com vinte mil dólares, e enfiou-os numa mochila preta que também estava escondida no cofre. — Aí está. — Entregou-a a Melchior, que ficou observando a quantidade de dinheiro que ainda sobrara ali. — Tem um milhão aqui, só para casos de emergência. Tenha cuidado.

— Terei. — Deu-lhe um beijo no rosto, fazendo uma promessa a si mesmo. — Eu te devolverei cada centavo, prometo. As coisas vão melhorar, Ethan. Você vai ver. — Ia se separar, mas Ethan puxou-o pelo braço e beijou-o nos lábios, enfiando a língua em sua boca. Melchior perdeu o fôlego, quase perdendo o controle nas pernas também. Por que ele faz isso comigo? Como ele faz isso comigo? Ninguém mexe comigo dessa maneira. — Você sabe como seduzir alguém, hein…

Parou de falar. Observava os olhos de Ethan, aqueles olhos tão escuros quanto buracos negros, negros como ônix, que não refletiam nenhuma luz, mas que eram tão brilhantes quanto diamantes ao sol, como se houvesse duas lâmpadas por trás deles. Seus joelhos falharam, mas Ethan o segurou pelos cotovelos, forçando-o a continuar fitando, e Melchior não queria fitá-lo, mas não conseguia evitar. Sentiu calor e frio, e cada pelo de seu corpo estava arrepiado. Ele estava olhando para sua alma, sentia isso.

— Ahnn… — murmurou, suas pálpebras estavam pesadas, e seus lábios estavam secos. — Que droga, Ethan, pare com isso.

Ethan piscou, interrompendo a hipnose. Sorria.

— Não faça isso de novo — Melchior reclamou, esfregando os olhos. De repente, todo o sono que não sentiu de madrugada surgiu de uma vez. — Preciso ir agora. Me faz outro favor: pare de fumar. E dá um beijo no seu irmão por mim. Sei que você está acostumado.

Saiu do quarto aos risos, antes de ser enxotado. Faria o que precisava fazer no dia seguinte, mas, no presente momento, só desejava uma cama quente e que Nancy Parker sobrevivesse até a hora de entregar-lhe a mochila.

Chegou em casa com um peso enorme na nuca. Ethan era um desgraçado, mas um desgraçado extrema e estranhamente atraente. Melchior despiu o sobretudo, vendo o sol se pôr lá fora. Seus irmãos estavam todos em casa, deste Tarly até Sam. Seus pais não os deixavam mais sair desacompanhados, mas, na verdade, era Melchior quem os proibira de fazer isso. Do contrário, sabia que eles desobedeceriam à ordem na primeira oportunidade que tivessem.

Foi à cozinha, onde Tarly e Robbet brigavam por um boneco de plástico.

Me… devolve! — Tarly gritou, puxando o brinquedo para si. Melchior não sabia se sua voz havia ficado magicamente mais fina ou se era a dor-de-cabeça mesmo. Aproximou-se sorrateiramente dos dois e puxou o boneco para si, levantando-o tão alto que nem Robbet pode alcançar.

— De quem é o boneco? — indagou suavemente. Não era uma pergunta, era um pedido de resposta. Ele sabia de quem era o boneco.

— É meu — Tarly gritou, tentando alcançá-lo. Parecia prestes a chorar.

Melchior olhou para Robbet.

— Era dele, mas nós fizemos uma aposta e eu venci. Agora ele não quer me dar. — Ele também parecia prestes a chorar.

— Muito bem, meus amores, estou impaciente demais para resolver esse impasse, então vou esconder essa coisa até não ter mais vontade de matar vocês dois por gritarem tão alto. — Eles se calaram. — Está certo? — Silêncio. — Está certo? — Lentamente, assentiram. — Ótimo, agora vão assistir à TV como duas boas crianças alienadas pela mídia capitalista. Eu vou dormir.

Trancou o boneco em seu guarda-roupa, onde uma variedade de outros brinquedos estavam escondidos. Sempre que havia um impasse daqueles (e havia muitos), Melchior escondia os brinquedos até o Natal ou aniversário de algum de seus irmãos, e então lhes dava-os de presente. Eles nunca reclamaram, nem sequer se atreveram.

Guardou a mochila lá também.

Só de cueca, caiu na cama, cobrindo-se com o lençol. O frio se fora, estavam no meio de um sonho de primavera e o frio só se fora há alguns dias. Mesmo assim, Melchior ainda o sentia dentro de si, crescendo como suas ideias, mas não da forma boa. Crescia como um parasita.

Levou um minuto para adormecer, um minuto de ideias agonizantes e perturbadoras.

Acordou com a aurora no céu e o autêntico frio da madrugada no ar. Dedos róseos abraçavam o negro salpicado de nuvens escuras. O sol já havia nascido, mas ainda estava invisível. Melchior espreguiçou-se no meio do quarto, sentindo-se renovado. Foi ao banheiro e escovou os dentes cuidadosamente.

— Ah… Deus, você abriu a janela de novo? — Robb se remexeu em sua cama quando Melchior voltou, ignorando-o. — Nem amanheceu ainda e… — Parou de falar ao fixar os olhos nele. Melchior levantou o olhar. Estava de costas para Robb, apenas virando o pescoço. Notou-o medindo-o de cima a baixo, tão rápido e discreto quanto Ethan fazia.

Ora, ora, quem diria. E o melhor é que Grey está dormindo com Hugh e Howl.

— Ah, desculpe — sussurrou. — Eu te causei uma ereção?

Robb arregalou os olhos.

— Não, tá doido? — Deu um sorriso amarelo. Melchior sorriu também.

— Então você não se importa se eu tirar a cueca, não é? — Sem esperar resposta, despiu a peça de roupa e jogou para ele. Robb desviou-se dela como se fosse venenosa, mas fixou os olhos no quadril desnudo do primo. — Ahh, que adorável, meu primo está de pau duro. Deixa eu cuidar disso.

Subiu a beliche rapidamente, engatinhando por cima do lençol.

— S-S-Sai… o que está fazendo…?

— A mesma coisa que Olívia Olrwen fez em você. — Achou seu membro por cima da cueca e o apertou entre os dedos. Robb estava tão duro quanto poderia estar.

— E-E-Espera, s-só um segundo. — Ele pulou da cama e correu até o banheiro. Melchior o esperou pacientemente escovar os dentes. Quando Robb voltou, estava só de cueca também. Subiu a beliche e a abaixou, revelando seu membro. — Pronto, continua.

Segurou-o novamente entre os dedos e repuxou a pele levemente para baixo. Melchior passou a língua na glande de Robb, sentindo-o estremecer entre seus lábios. Quando ele menos esperava, meteu seu membro inteiro na boca. O mais novo reprimiu um gemido, acariciando os cabelos cinzentos do primo.

Robb começou mexer o quadril para frente e para trás, estocando lentamente a boca de Melchior, que deslizava sua língua esguia por seu pênis com ferocidade e desejo.

— Ahhh… — ele gemeu, puxando o cabelo cinzento do mais velho, olhando aquelas esferas púrpuras que lhe proporcionavam a felação. — Isso… chupa. Chupa com força. Vai. Vai, me chupa… que gostoso.

Melchior separou-se por um minuto, masturbando-o fortemente.

— Quem diria que meu primo tão amado é uma bicha. Gosta disso, Robb? — Encostou seu polegar na abertura piscante dele, pressionando-o lá. — Gosta?

— Gosto — ele gemeu, contorcendo-se de excitação. Pegou a cueca de Melchior que há muito estava jogada a seu lado e enfiou-a no nariz, aspirando o cheiro. — Demais.

Melchior separou-se de Robb, deitando-se de bruços do lado oposto da cama. Abriu as pernas o suficiente para que ele visse sua entrada.

— Então não goze na minha boca. Venha, goze dentro de mim.

Com olhos famintos, Robb começou a beijar seus pés, subindo para as pernas, mordeu suas coxas sem piedade e então fincou seus dentes na carne de suas nádegas, deslizando a língua para seu ânus. Com as duas mãos, separou-as, penetrando-o ainda mais, gemendo e se masturbando.

Melchior se contorceu com a língua dele. Sentia-a deslizar para cima e para baixo, penetrá-lo, lubrificando-o. Pressionou seu baixo-ventre contra o colchão enquanto tocava o membro de Robb com um dos pés, pressionando-o entre os dedos. Ele finalmente se separou, começando a procurar algo em baixo do colchão. Tirou de lá um pacote de camisinha, abrindo-o e deslizando sobre o próprio membro.

Posicionou-se em cima do primo, encostando a glande em seu ânus. Beijou seu ombro e pescoço, perguntando se podia ir em frente. Melchior assentiu. Segurando na base do próprio membro, Robb começou a pressioná-lo, achando certa dificuldade no início. Melchior gemeu de dor, mas o mais novo apertou sua mão e deu um beijo em sua bochecha.

Oh, por favor, não me diga que ele está se apaixonando por mim.

Já completamente dentro de Melchior, Robb foi retrocedendo aos poucos, pegando o ritmo com o tempo. Logo, suas estocadas estavam mais frequentes e mais fortes e ele mordia seu ombro e beijava seu pescoço, gemendo em seu ouvido, arranhando suas coxas e dando tapas em suas nádegas.

Os dois viraram-se para ficarem de lado, sem que Robb parasse de estocar o primo, passando a masturbá-lo também.

— Me-Melon… — ele gemeu em seu ouvido. Melchior se arrepiou. — Você é tão… Ahhhhh. Eu adoro seu cheiro.

Os dois corpos colavam-se com o suor. A dança do sexo ritmada naquela cama atingiu seu ápice quando Robb enfiou os dentes no ombro de Melchior, ejaculando dentro dele. O mais velho suprimiu um grito de dor e outro de deleite, ainda movimentando o quadril para frente e para trás, buscando mais prazer.

Robb saiu de dentro do primo e tirou a camisinha. Deitado na cama, de barriga para cima, suado e ofegante, Melchior observava como ele era bonito. Beijou-o carinhosamente, sendo retribuindo com vontade.

— Eu te amo, Melon — ele sussurrou.

— Eu te amo também, Robb. Mas como meu primo. — Beijou-o de novo, obrigando-se a encarar seus olhos azuis e tristes.

Deve ser carma, por não ter ido falar com Nicholas.

— Eu entendo — ele murmurou. — Parei de ver Olívia há meses, desde que os assassinatos ficaram mais frequentes. Pode ser perigoso. E ela disse que Owl tem estado insuportavelmente agitado e perturbado.

É perigoso, por isso as crianças não saem mais de casa, e gostaria que você não saísse também. Não quero que se machuque, porque Julie se machucou, e eu nunca me perdoaria se algo mais acontecesse a você ou a Grey, ou a Hugh ou Howl, ou aos meus outros irmãos. Nem quero que sejam afetados como Owl está sendo.

Robb assentiu.

— Não vou sair, mas tome cuidado também. Você não sabe com o que está lidando.

Melchior lhe deu um selinho nos lábios, abraçando seu corpo.

— Eu tomarei. Ninguém pode machucar o mestre dos segredos.

Mais tarde no mesmo dia, quando o sol já raiava forte e brilhante no céu, Melchior caminhava tranquilamente pela Avenida Wee, carregando a mochila. Chegou a um casarão rosa e laranja de dois andares, com um bonito jardim na frente, cheio de árvores e roseiras. Era uma das maiores casas do Jardim, certamente.

Tocou a campainha. A porta foi aberta por Andrew Parker.

— Olá — cumprimentou-o. — Você não me conhece, mas meu nome é Melc… Melon. Sua mãe está em casa?

— Você usa lentes de contato? — ele perguntou, ignorando o pedido de Melchior, que lhe sorriu amigavelmente.

— Não, meus olhos são assim.

— Ah. — Virou-se de costas e berrou o nome de sua mãe. — Ela já está vindo. — Já ia fechar a porta quando se interrompeu. — Ah, você não quer entrar?

— Seria bom.

Já dentro da casa, Melchior observava o quanto a mobília parecia ser cara. Andrew estava sentado no sofá, mas o mais velho não pretendia fazê-lo até que Nancy aparecesse. Seria indelicado.

Ela finalmente surgiu de uma porta lateral que Melchior pensou dar na cozinha.

— Ah, olá, meu nome é Mel…

— Melon Chioren — Nancy chutou. Melchior assentiu, sorrindo. — Ah, eu já vi você, é impossível esquecer seus olhos ou seu cabelo. — Ela riu.

— Agradeço.

— Por favor, sente-se. Quer um copo de café?

— Não, obrigado, ando tomando café demais.

Sentou-se com ela num grande sofá cor de creme que parecia querer lhe engolir. Andrew estava ao lado da mãe, atento a tudo.

— Então, do que se trata? — Nancy indagou.

— Senhora Parker, há quanto tempo anda devendo dinheiro a traficantes de drogas?

O copo de café que ela segurava caiu no tapete branquíssimo. Melchior quase sentiu pena imaginando o trabalho que ela teria para tirar aquela mancha dali.

— O quê? — ela murmurou, parecendo não ter ouvido direito. — O que, o que você disse?

— Perguntei há quanto tempo deve dinheiro àquele traficante que a procurou ontem à tarde.

— Ele procurou você de novo? — Andrew indagou, irritado. O garoto tem doze anos e sabe o que a mãe faz, mas não se importa. Por que eu nunca o usei como passarinho?

— Quieto — disse Nancy. Fitou Melchior. — Eu não sei do que você está falando, deve estar confundindo as coisas.

— Oh, por favor, senhora Parker. Eu sei que a senhora vende maconha aos moradores do Jardim para manter a si e a seus filhos desde que seu marido morreu, se não como conseguiria morar nesta casa?

Alexander Parker surgiu de algum lugar, sem camisa. Melchior mordeu o lábio inferior, forçando-se a não olhar demais. Louro e de olhos azuis, ele parecia ter sido o único da família que herdara os genes do falecido senhor Parker. Seu peito era mais definido do que deveria ser permitido à humanidade e estava molhado de suor. Ele parecia ter estado malhando. Tinha a idade de Ethan, mas era muito maior.

— Mãe, você viu… — Olhou para Melchior, e então para o olhar parado da mãe. — O que aconteceu?

— Ele sabe sobre U-turn — Andrew disse. Melchior achou que aquele era o nome do traficante.

— Ele procurou você de novo? — Alexander indagou, da mesma forma que o irmão. Nancy mordeu o lábio inferior e assentiu levemente, olhando para o nada.

Da mesma forma que o irmão mais velho, Katie também surgiu de algum lugar, morena e bonita. Por algum motivo, Melchior achava Mia mais bonita, embora Katie tivesse traços mais femininos.

— O que está havendo? — ela indagou, mas pareceu deduzir por si própria. — Ele procurou você de novo?

Eles são todos muito parecidos, isso vai ser fácil.

— Procurou, agora escutem bem. — Levantou-se do sofá, abriu o zíper da mochila e despejou seu conteúdo no sofá. Achou adorável o olhar de Nancy, Andrew, Alexander e Katie. — Fala pra mim, senhora Nancy, quanto deve a ele?

Ela não pareceu que ia responder, por isso Andrew respondeu para ela.

— Cento e sessenta mil dólares.

— Sério? Poxa. — Com uma dor no coração, pegou apenas dois lotes e pôs de volta na mochila. Quem me mandou ser tão mão-de-vaca? — Bem, tem cento e sessenta mil aí. E não se preocupe. Esse dinheiro não foi conseguido de forma ilícita.

Nancy estava aparentemente entorpecida.

— Eu… eu não posso aceitar.

Não pode? — Katie exclamou. — Estamos nessa há sete meses e toda semana ele aumenta a dívida. Você nunca vai quitá-la, vai continuar pagando, pagando e pagando até que U-turn perceba que não precisa mais de você e passe de carro atirando na nossa casa. — Olhou para Melchior. — Por que está fazendo isso?

— Porque eu sou uma pessoa muito boa — sussurrou — e odeio ver famílias se desintegrando. Mas podem me agradecer com uma coisa. Eu quero os vídeos das câmeras de segurança do Jardim.

— As câmeras não funcionam mais — Alexander disse.

— Sim, elas funcionam sim, mas vocês não contaram a ninguém. Eu entendo perfeitamente.

— Sua irmã foi morta — Nancy sussurrou de volta. Melchior assentiu. — Se você quer isso por causa da… Coruja… não vai encontrar nada. Nós já os vimos, e nenhuma delas mostrou absolutamente nada.

— Eu disse que os quero por causa da Coruja? — indagou, levemente cínico. — Se quiserem o dinheiro, eu quero os vídeos. Poderá pagar U-turn e ninguém saberá o que a senhora faz para viver.

— Sabe quantas horas de vídeo isso daria? — Andrew perguntou.

— O dia tem vinte e quatro horas e eu apenas me interesso pela gravação do dia anterior aos ataques, do dia dos ataques e do posterior. Então são setenta e duas horas. Mas foram cinco ataques. Então são trezentas e sessenta. Não se preocupem. Eu sou paciente.

Não precisou ser tão paciente assim. Na manhã do dia seguinte, manhã essa em que Melchior deveria ir à escola, mas não foi simplesmente porque não quis, Alexander entregou-lhe uma caixa com duas dúzias de DVDs. Melchior cometera o erro de julgar que seriam apenas trezentas e sessenta horas, mas havia uma dúzia de câmeras que filmaram áreas próximas aos assassinatos. Não fazia tão mal, as autópsias revelavam mais ou menos quando as vítimas haviam morrido, então já podia peneirar algumas boas horas de absolutamente nada.

Com o partir do dia, enfurnado em seu quarto com o notebook no colo, notou o quanto seus olhos estavam injetados. Já tomara dois comprimidos para dor de cabeça, mas ela insistia em voltar. Sobre o colchão, capas e mais capas de DVDs, uma delas aberta, vazia.

O primeiro assassinato ocorrera nos primeiros minutos do dia vinte e três de fevereiro, pouco após a meia-noite. O ataque a Lorenzo aconteceu na noite do mesmo dia vinte e três, no sábado. Sttan Molihnar morreu dia cinco de março, antes das sete horas da manhã. Na manhã do dia seis, Ritchi Revonne foi empurrado, e provavelmente pouco depois Terry foi morto. Jimmi Weswalk morreu dia catorze de março, no quintal de casa. Julie Chioren morreu dia dezesseis de abril, e Mia Cinneto dia vinte e nove.

Agora, três semanas após a morte de Mia, Melchior sentia a cabeça começar a rodar.

Nem um filho da puta de um padrão entre as mortes. Deus, por que essas pessoas foram assassinadas?

Marco entrou no quarto carregando um bule de café.

— Tentei fazer, mas não sei se ficou bom — ele disse. Há muito Melchior abdicara da caneca. Agora era muito mais fácil beber direto do bule. — Você por acaso gosta de café?

— Odeio café, gosto do efeito dele. É tipo bebidas alcoólicas.

— Posso experimentar bebidas alcoólicas?

— Não.

— Por que não foi à escola?

— Porque eu não quis.

— E por que eu tive que ir?

— Porque eu quis. Espero que esteja se mantendo longe do Ethan. Se você voltar a se aproximar dele, vou pegar uma tesoura e cortar seu cabelo todinho.

— Até parece que você teria coragem de cortar meus lindos cachos. — Jogou os cabelos para trás, trazendo risadas ao maior. — O que está fazendo?

— Assistindo a horas e mais horas de puro nada por absolutamente nenhum motivo, já que não vou encontrar merda nenhuma aqui. Obrigado pelo café, mas está tão fraco que parece chá.

— Eu briguei com um garoto hoje, na escola. Ele estava perturbando Lorenzo por ele ser cego e por ter um irmão gay, então eu não tive escolha.

Ele ama você, você não o quer, mas o defende sempre que pode. Que maravilhosa é a vida.

— Tudo bem. Isso fica para nossos pais.

— Poderia ficar para a Coruja.

— Não diga isso… — Aqueles lençóis que forravam o colchão eram caros, de modo que Melchior jamais se perdoaria se deixasse cair café em cima deles, mesmo um tão ralo. Lentamente, pousou o bule no chão, com os olhos arregalados. — Marco, você é um gênio. Um pequeno e brilhante gênio.

Despachou-o logo depois, voltando aos seus pensamentos. Uma coisa que poderia ser padronizada nas mortes é que todas aconteceram à luz do dia ou ao amanhecer, exceto por Lance e pelo ataque a Lorenzo, mas Lance foi o primeiro, o tiro de início, e Lorenzo escapou com vida. Além disso, foram em lugares abertos, exceto por Sttan. Parecia que o assassino não se importava em ser pego, a aleatoriedade das vítimas podia realmente ter uma ligação.

Motivo. Onde ele arrumaria motivos para matar todas aquelas pessoas? Melchior parou de se centrar só a um círculo e expandiu a mente. Talvez não fosse nelas em si, mas sim em pessoas próximas a elas. Talvez elas tivessem sido mortas para machucar quem fosse próximo, parentes, amigos…

Motivo, talvez fosse por causa disso.

E Sttan havia feito sexo antes de morrer. Uma coisa que a autópsia descobrira, mas Melchior descartara, foi que Sttan possuía costelas quebradas. A princípio, pensaram que a queda causara aquilo, mas então foi descoberto que os ferimentos foram causados antes da queda por um objeto grande e duro, algo como um pedaço de madeira. O prédio queimado dos Gramp estava cheio disso, e se ligasse os pontos… Sttan também tinha arranhões nas costas.

Sttan… não estava apenas fazendo sexo. Ele estava… estuprando alguém. Alguém que o matou. Alguém que o matou porque precisava matá-lo.

— Finalmente achei uma brecha no círculo — falou em voz alta a ninguém, feliz demais para guardar isso para si mesmo, tão feliz que quase deixou de prestar atenção ao vídeo da morte de Mia.

A câmera não pegava a praça IV, apenas a entrada de um de seus lados. Mia devia estar do outro lado quando foi morta, pois os bancos eram lá. Não havia ninguém perto da entrada, ou, se havia, a câmera simplesmente não pegava. Quando a filmagem chegou às três e quinze da tarde (segundo Ethan, eles a haviam encontrado às três e meia, então Mia poderia ter morrido a qualquer hora antes daquilo) um vulto apareceu num canto. Era um garoto jovem, da idade de Melchior, provavelmente, de aparência comum, se não fosse pelo fato de que ele estava com uma tipoia no braço direito. Olhou para o lado direito da praça e arregalou os olhos, começando a andar lentamente para trás até que saísse do campo de visão da câmera.

Ele pode ter agido assim apenas por ter visto Mia, ou então pode ter sido outra coisa além dessa. Mas antes, preciso falar com ele. Seria bem mais fácil se eu soubesse quem diabos ele é.

Tirou um printscreen da cena do vídeo em que ele aparecia e imprimiu a foto, guardando-a com cuidado no bolso. Vestiu o sobretudo e saiu de casa, para o ar quente da primavera.

Ninguém, absolutamente ninguém a quem Melchior perguntou o conhecia. Presumiu então que ele não morava em Jardim de Ouro. Presumiu então que nunca o encontraria e começou a pensar seriamente em suicídio, dada sua frustração.

Enquanto andava a esmo pelas ruas do condomínio, sentiu uma queimação nas costelas.

— Ah, que ótimo! — exclamou para o céu. — E agora, para completar, estou com uma úlcera. Acho que vou para casa beber outro bule de café e me estressar mais um pouco.

Mas então, quando estava a um passo de voltar à Avenida Chimera, deu uma olhada na praça I e o viu. Cabelos pretos e uma tipoia no braço, sentado num dos bancos de madeira, lendo um livro despreocupadamente.

Lendo um livro despreocupadamente como se não houvesse um Melchior ou uma Coruja atrás dele. Por algum motivo, sentiu-se irritado.

Aproximou-se sorrateiramente, sentando-se bem ao lado do garoto, que pareceu não notar sua presença.

— Olá — disse, tentando parecer o mais amigável possível. O susto que ele levou foi patético. Mediu Melchior de cima a baixo, provavelmente se perguntando como alguém poderia usar sobretudo num calor dos infernos daquele. — Se importa se eu me sentar aqui?

Ele meneou a cabeça para os lados negativamente, parecendo nervoso demais para conseguir se concentrar novamente no livro.

— Então me diga, qual seu nome? — sussurrou.

— Ahn… — murmurou, pensando se deveria dizer ou não. — Rick.

Nome medíocre para uma pessoa medíocre. Argh, tenho que parar de xingar as pessoas mentalmente. Eu devo ser maníaco-depressivo.

— Meu nome é Melchior. Agora, Rick, me diga, o que foi que você viu há três semanas, perto do corpo desfalecido de Mia Cinneto, na praça IV?

Rick arregalou os olhos e planejou fugir, mas Melchior antecipara seu movimento. No momento em que se levantou, puxou-o de volta ao banco, olhando fundo em seus olhos escuros.

— Olhe para os meus olhos, Rick, eles são violetas, ou púrpuras, ou roxos, ou cor-de-rosa, dependendo da luz. Como eles estão agora?

Como o aperto em seu braço não cedesse, Rick, pausadamente, murmurou:

— Violetas. Ou… ou roxos. Eu não sei a diferença.

— Você não sabe a diferença porque você é um estúpido que mal sabe mentir. Que dificuldade teria em dizer que nunca viu o corpo de Mia? Muito embora não houvesse essa possibilidade, já que eu sei que você estava lá.

— C-Como você sabe? — ele indagou, assustado. Melchior sorriu.

— Eu sei tudo, eu estou em todos os lugares, eu posso tudo. E se você não me disser o que viu perto do corpo de Mia, vou quebrar o seu braço bom, esse que eu estou segurando.

— E-Eu não v-vi nada lá. — Tentou se levantar de novo, mas o olhar de Melchior fê-lo mudar de ideia. — E-Eu juro.

— Mentiroso. — Melchior puxou o cabelo da nuca de Rick para trás e torceu seu braço, girando-o no eixo do próprio cotovelo. Rick gritou de dor.

— Ahhh! Não, me solta! — Melchior torceu um pouco mais, então afrouxou levemente, assim como o aperto do cabelo.

— Diz, Rick — sussurrou cruelmente. — O que você viu lá, hein? Anda, fala!

— Uma pessoa! — ele gritou, quase chorando. — Um garoto, ele a estava segurando nos braços.

— Que garoto? — Torceu um pouco mais.

— E-Eu não sei! Eu não moro aqui, eu não o conheço!

— Então… descreva-o, seu imbecil. — Se torcesse mais, provavelmente quebraria o membro, então permaneceu onde estava.

— Ele era loiro de olhos azuis — Rick murmurou, chorando verdadeiramente.

— Existem muitos garotos loiros de olhos azuis aqui.

— Não era um loiro qualquer, o cabelo dele era quase branco…! E os olhos… eram… diferentes de tudo que já vi.

Melchior soltou-o.

— Eram enormes e expressivos — completou para ele. — Brilhavam tanto que parecia que havia duas lâmpadas por trás deles, e eram claros como se fossem pedaços de céu estrelado encrustados no rosto branco e redondo dele, tão penetrantes que parecia não haver ninguém por trás deles.

— A-Acho que sim… — Rick balbuciou, meio perdido — e ele usava um casaco branco enorme. E não parava de murmurar uma palavra, com ela nos braços e… e ele estava chorando. Eu os vi lá e… havia sangue nos bancos e neles dois. Saí correndo, não sei o que aconteceu depois…

Quando eu penso que encontrei a Coruja, acabo me deparando com a coruja. Melhor assim, se fosse realmente o assassino, eu não daria muito tempo a mais de vida para Rick.

— Obrigado, Rick, você foi de grande ajuda — sussurrou, sorrindo amigavelmente. Rick estava ensopado de suor e tremia como se estivesse tendo um choque epiléptico.

Melchior levantou-se e partiu.

Só espero encontrá-lo a caminho de casa. Não quero ter que me deparar com a Senhora da Língua de Aço. Aquela mulher me assusta.

Acabou precisando. Sem encontrar Owl pelas ruas, Melchior percebeu-se em frente à casa dos Olrwen. Ela lhe dava claustrofobia, tão alta e estreita, como uma lança pontuda no topo do mundo.

Tocou o interfone e esperou alguns segundos antes de uma voz metálica atendê-lo.

O que é, ham? — Olenna Olrwen indagou, parecendo mal-humorada. Ela sempre parecia estar daquele jeito.

— Olá, Owl está em casa? — perguntou no tom mais suave que conseguiu, mas nem isso foi suficiente para aplacar a velha.

Está. — E se calou. Melchior respirou profundamente.

— Posso falar com ele?

— Ham, creio que sim, ham, esses jovens parecem que não têm mais o que fazer a não ser importunar os mais velhos… — Olenna continuou resmungando por mais cinco minutos antes de finalmente abrir o portão.

Melchior entrou na casa e deparou-se com milhares de olhos amarelados fitando-o ameaçadoramente. Corujas, corujas por todo lado, por todo maldito lado, de todas as cores e tamanhos. A sensação de claustrofobia voltou junto com uma bela tontura.

Olenna Olrwen estava no sofá, tomando chá, como de usual. O coque dela parecia tão apertado que Melchior teve que controlar a vontade de ir lá soltar um pouco aqueles cabelos da cor da neve tão repuxados.

— Rhanys está no quarto dele — ela disse, sem nem olhar para ele. — Porta no fim do corredor. Até você conseguiria achar, ham.

Por que eu tenho a ligeira impressão de que ela não gosta de mim?, pensou ao bater na porta. Por que alguém não gostaria de mim? Eu sou um amor de pessoa. Quase quebrei o braço de um inocente, mas, mesmo assim, um amorzinho.

— Owl — Owl disse lá de dentro, permitindo sua entrada.

Quando Melchior entrou no quarto, achou-o encolhido em sua cama, de pernas cruzadas, com uma caixa de veludo verde com várias facas longas. Owl estava polindo uma faca avidamente, cuja ponta estava torta, compenetrado em tirar uma mancha inexistente da lâmina afiada como uma navalha.

Ele o olhou com surpresa, aqueles mundos azuis e brilhantes o observando penetrantemente (por que ele parecia tanto assim com Oliver?), e então sorriu.

— Owl — cumprimentou-o.

— Oi, Owl. Posso me sentar?

— Owl — ele assentiu. Melchior sentou-se em sua cama com as pernas cruzadas, assim como ele.

— Owl, você sabe que eu sou uma pessoa bastante direta. — Fixou os olhos na lâmina que ele tinha nas mãos. Aquela coisa devia ter uns trinta e cinco centímetros, no mínimo. Não importava o que Melchior achava, não falaria sobre aquilo com aquela arma nas mãos dele. Todos sabiam que Owl tinha uma mira perfeita. — Quero te perguntar uma coisa, mas preciso que largue a faca.

— Owl? — Owl questionou, meio suspeito.

— Você vai entender. — Lentamente, meio emburrado, o garoto guardou-a na caixa de veludo, alinhando-a perfeitamente com as linhas bordadas no lençol da cama. Ele realmente era metódico em relação às facas. — Owl, o que você estava fazendo na cena da morte de Mia?

Sua expressão mudou para uma de horror, e Melchior viu o medo em seus olhos.

— Owl… Owl? — murmurou, baixando a cabeça. Ele ficava daquele jeito quando estava triste. Melchior forçou-se a não ficar emotivo, mas era difícil. Owl tinha a aparência de uma pessoa quebradiça, aquele tipo de pessoa que nos dá vontade de abraçar e proteger. Os cabelos loiros dançavam por suas bochechas rosadas. Ele parecia um ursinho de pelúcia. E não parava de murmurar Owls. — Owl… Owl, Owl, Owl… Ooooooooowl.

Então começou a chorar baixinho, escondendo o rosto com as mãos.

— Owl… — Pelo amor de Deus, não chore. Tem tanta coisa presa dentro de mim que eu explodiria se começasse a chorar também. — O que aconteceu? Você a encontrou lá?

Ele assentiu, fungando.

— Owl… Owl, Owl.

— Você a encontrou lá, morta, e ficou abalado? — Assentiu novamente. Melchior arriscou tocar levemente em suas costas, mas Owl se retraiu como uma criança assustada. — Não chore, por favor. Ninguém vai te culpar por isso, você não podia fazer nada. Ela já estava morta quando você a encontrou? — Owl assentiu de novo, murmurando outro Owl. — Ah, minha pequena coruja.

Santo Deus, alguém dê um abraço nesse garoto. Nunca desejei tanto ser Olenna Olrwen, que vai me odiar mais ainda quando vir que eu pus o neto dela nesse estado.

Deixou a casa dos Olrwen alguns minutos depois, quando Owl se acalmou um pouco e Olenna e Odette começaram a discutir por algum motivo fútil. Ele dissera (Melchior quem deduzira e ele apenas confirmara) que não havia ninguém por perto quando encontrara Mia, e que quando viu Rick correndo, correu também. Ethan e Nicholas deviam ter chegado cerca de quinze minutos depois.

Quando pensara que estava saindo do labirinto, dera de cara com uma parede. Agora Melchior não tinha nada.

— Tenho sim. Tenho outras milhares de horas de vídeo. Só não tenho milhares de horas de vida para assistir. — Seu estômago doeu, fazendo-o se curvar de dor. — Maldita úlcera.

No dia seguinte, na terça-feira, Melchior decidiu finalmente voltar à escola.

Todos sabiam que as turmas da unidade do terceiro ano do ensino médio da Academia Alphonse Enoi eram secretamente divididas pelas notas dos alunos, mas nem sempre era assim. Às vezes, a turma Quarta apenas acomodava os alunos que incomodavam a direção, tipo Ethan Lemnsack, por ordem de Ernst Overgreen. No intervalo, era para lá que Melchior se dirigia.

Subindo as escadas, entrou na única sala do primeiro andar.

Na sala, adolescentes extasiados conversavam com bandanas azuis escuras na cabeça. Era tradição dos terceiranistas usarem aquelas coisas ridículas perto da época de provas. Overgreen destituíra os sábados de provas, voltando ao velho sistema de semana de provas uma vez por mês.

Porque será que quando se chega ao terceiro ano se fica tão idiota?, pensou. Ethan não estava na sala. Parece que são todos uns porras loucas simplesmente por estarem aqui. Eu estaria mais preocupado com o vestibular.

No fim da sala, sentados em carteiras lado a lado, praticamente isolados do resto dos alunos, Melchior achou quem procurava. Um rapaz e uma garota, tão normais quanto poderiam ser, exceto pelo fato de que ela tinha o cabelo verde e azul e ele parecia não ter mais lugar no rosto para pôr piercings. Imaginou como ainda estavam na Academia. Pedido dos pais, talvez.

Piedosamente, aproximou-se.

— Boa manhã — disse, alegremente, sentando-se na carteira em frente ao garoto. Os dois olharam-no como se estivessem vendo um fantasma. — Seriam vocês Alecus Northist e Mistrees Heaven?

A pergunta fora cortesia, é claro. Era impossível que não fossem. Era impossível confundi-los com qualquer outro.

— Meu nome é Miss — a garota disse. — E o dele é Alec. Quem quer saber?

Esse cabelo deve ter mais química que uma usina nuclear, como ela consegue mantê-lo tão hidratado? Pareço estar olhando para uma aurora boreal.

— Melon Chioren — respondeu, estendendo a mão. Nenhum deles estendeu de volta. Humildemente, Melchior se recolheu. — Também conhecido como Melchior, o mestre dos segredos, e por Senhor do Mundo M também.

A expressão abismada de ambos o agradou imensamente.

Você é o Senhor do Mundo M? — indagou Alec, sussurrando. Ele devia ter uns sete piercings nos lábios, e Melchior temeu que o metal fosse se enganchar uns nos outros e rasgar a pele. Seria agradável de ver, mas precisava de Alec com a boca inteira. — Você?

— Eu. — Sorriu. — Ninguém mais teria esse rostinho. Eu sei o que vocês fizeram dois anos atrás.

Seus olhos verde-folha, grandes e expressivos, se arregalaram. Pensavam que ninguém conhecia a história, mas Melchior não era qualquer um. Há dois anos, quando estavam no primeiro ano, Alecus Northist e Mistrees Heaven escreveram e interpretaram uma música chamada Ensino Médio Inocente, onde, através de quase trezentos versos poéticos, relataram detalhadamente os casos sexuais mais sórdidos entre alunos e alunos, professores e alunos, professores e professores, todos da Academia, disseminando-a por toda escola em forma de gravação. Foram tantos nomes citados, tantos professores demitidos e tantos alunos expulsos que quando Hellen Page descobriu os responsáveis, por um fio não foram expulsos. O caso foi abafado e a verdade é que, apesar de seus legados terem sido escritos à pedra, quase ninguém sabia quem havia escrito Ensino Médio Inocente. Os que sabiam, não tinham bem certeza. O nome da música não fazia juízo ao conteúdo, afinal, Nicholas Hentz era do sétimo ano do fundamental na época e fora citado nada menos que dezessete vezes.

— Nós não fizemos nada — disse Alec, na defensiva.

— Shh, não precisam ter medo de mim — sussurrou. — Eu sei que a diretora Page por pouco não arrancou a pele de vocês, afinal, a Alphonse Enoi tem uns dois mil e quinhentos alunos, mas, citando o nome de cem, mais o de alguns professores, vocês estamparam todas as conversas e discussões da escola por semanas, do fundamental ao médio. Eu escutei uma versão de Ensino Médio Inocente cantada por um aluno do primeiro ano, pouco antes de ele ter sido suspenso por isso. Veem? Mesmo tendo sido censurados, a herança de vocês continua.

— Ensino Médio Inocente foi uma grande idiotice — Miss disse, enrolando uma mecha verde do cabelo no dedo, nervosamente. — Mas sinto saudades da música.

— Eu também sinto, mas quase fomos expulsos por causa dela. — Alec virou-se para Melchior. — O que você quer de nós?

— Ora, eu quero vocês — disse, simplesmente. — Quero a voz de vocês, a escrita de vocês. Quero seus talentos como compositores. Quero uma nova versão atualizada de Ensino Médio Inocente.

— Não temos mais esse talento — disse Alec, indicando, com o tom de voz, exatamente o contrário do que pensava. Era difícil ver sua expressão por trás de todos os piercings, mas ela estava lá, zombando de sua tentativa de fingir que não estava louco para escrever outra música.

— Oh, não? — Melchior indagou, inocentemente. — Ano passado, Nicholas Hentz transou com Daniella Schultz no campo de futebol da escola. O que me dizem disso?

Os lábios de Alec tremeram. Miss mordeu os seus. Suas mentes estavam trabalhando.

Nicholas Hentz e Daniella Schultz… — ela entoou, com uma voz tão pura quanto o ar de inverno e tão doce quanto o mel.

— Miss, não… — Alec falou, mas era tarde demais. Ela estava tomada.

— … tiveram um caso de amor. — Olhou para Alec. Ele suspirou, irritado.

Debaixo da arquibancada, durante o Verão de Sandor — completou. Tinha uma habilidade incrível de mudar a entonação da voz de grave à aguda. — Deus, como é bom cantar de novo.

— O que é o Verão de Sandor? — Melchior perguntou. Sabia o que era, mas também sabia que eles gostariam de dizer.

— Foi como ficou conhecido o verão do ano passado — explicou Miss, levemente exaltada — em que Hellen Page se ausentou por algumas semanas e Sandor Ornic, membro do Conselho, dirigiu a escola.

— O pior diretor de todos os tempos — disse Alec.

— Até a chegada de Ernst Overgreen — sussurrou Melchior, graciosamente. — Aquele cara é um monstro. Vão me ajudar a derrubá-lo?

— Não — disseram em uníssono. Suas vozes quase não admitiam contestações, mas havia uma levíssima hesitação.

E todos sabem como Melchior é insistente.

— O semestre está acabando — explicou —, e eu não pretendo voltar a Alphonse Enoi semestre que vem. Preciso deixar meu legado. Meus amores, tenho certeza que vocês entendem.

— O que entendemos é que vamos ser expulsos por nada — Miss disse.

— Eu garanto que posso dar-lhes proteção. Eu sou o Senhor do Mundo M. Essa escola não é de Ernst Overgreen, nem nunca vai ser. Não estou fazendo isso por mim. Estou fazendo pelos alunos.

Então, um longo silêncio.

— O que está dizendo é que… — balbuciou Alec.

— Uma revolução — completou, meigamente.

— Uma revolução não pode ser feita com uma música — murmurou Miss, olhando para o chão.

— Isso é verdade — concordou Melchior. — Mas ajuda. E como bem devem imaginar, nenhum golpe de estado para derrubar um cruel governo ditador pode ser completo… sem uma trilha sonora.

Quando Miss e Alec se entreolharam, com os lábios entreabertos, Melchior soube que os tinha.

— Muita coisa aconteceu nesses dois anos — sussurrou. — Tenho certeza que vocês vão ter um grande trabalho para atualizarem a música. A revolução do Senhor do Mundo M acontecerá no primeiro dia da última semana de provas do primeiro semestre de 2013, na segunda-feira do dia três de junho, dia esse que, coincidentemente, também é o aniversário de quinze anos de Nicholas Hentz e de dez anos de Lorenzo Barcarolli. Exatamente às oito horas da manhã, no Campo Verde, onde as unidades do terceiro, segundo e primeiro ano se encontram, assim como a do nono. Não poderia haver lugar melhor para iniciar uma revolta, bem enquanto alunos saturados estão quebrando a cabeça fazendo uma prova de matemática impossível. — Inclinou-se para frente. — Sejam bons para mim, e serei bom para vocês. Quero derrubar o Overgreen, e preciso que estejam por trás de tudo. Vocês virarão lendas, e tudo o que acontecer nesse dia será eternamente conhecido por Revolução M. O dia em que os alunos da Academia Alphonse Enoi derrubaram o cruel diretor. Os principais mentores? — E então sibilou: — Alecus Northist e Mistrees Heaven. Pensem nisso, pessoal. Só peço um favor: não toquem no nome de Meera Cinneto. E adorei seu cabelo, Miss.

Dito isso, deixou-os com seus próprios pensamentos. Se Alec e Miss não aceitassem sua proposta, seria forçado a obrigá-los a participar. Não gostaria de ter que fazer isso, de qualquer forma. Simpatizara com eles e Ensino Médio Inocente era uma obra-prima. Quem mais teria condições de rimar trezentos e doze versos com nomes de pessoas?

Naquele dia, tiveram aula à tarde. Melchior descobriu que realmente precisava cumprir com o último enigma de seu alter-ego. O que acontece quando uma Coruja entra num prédio?

Felizmente, ainda tinha o dinheiro que Ethan lhe dera. Depois das aulas, a primeira visita de Melchior foi a uma loja de tintas, onde comprou seis latas pequenas de tinta vermelha e aproveitou para comprar outra lata de tinta spray roxa. A segunda visita foi a uma loja de manequins, onde encomendou doze manequins de silicone, seis masculinos e seis femininos, todos de porte médio, e pediu para serem entregues no dia seguinte, na quarta-feira do dia vinte e dois de maio, às cinco horas da manhã na porta da Academia Alphonse Enoi. Então visitou um supermercado e comprou doze facas de grande porte.

Aquele seria o último ataque antes da revolução, então precisaria ser grande para segurar os ânimos por doze dias, quando tudo acabaria.

Chegou em casa tarde da noite, e depois de ter ouvido uma bronca de sua mãe (Melchior desligou-se do mundo durante cinco minutos nesse período, de modo que o que ela dissera era uma incógnita), tomou um banho pelando de quente. Gostava do calor na pele. Não conseguia sentir-se limpo sem.

Daemon estava em sua cama de solteiro, de pernas cruzadas e mexendo num celular.

— O que faz aqui? — indagou, secando o cabelo com uma toalha de mão. — Já é meia-noite e você tem aula amanhã.

— Você também, mas está aqui. — Olhou para Melchior. De todos os seus irmãos, Daemon era o que tinha os olhos mais azuis. Era apenas um ano mais velho que Marco, mas tinha sua altura e seus cabelos pendiam mais ao castanho que ao cinza. — Não consegui dormir. — E então acrescentou: — Sozinho.

Melchior vestiu um pijama preto e roxo e aconchegou-se na cama de solteiro, sentindo o frio do ar-condicionado acariciar e arrepiar seu corpo. Cobriu-se com a colcha e fez Daemon deitar-se, cobrindo-o também.

— Não consegue dormir? — indagou suavemente, acariciando seu cabelo. — Desde quando?

— Desde Julie — ele respondeu. — Tenho medo até de sair de casa.

Apesar de Daemon ser o filho do meio, atrás apenas de Samwell e de Melchior (e outrora de Julie), ele era o mais tímido e quieto. Tarly e Robbet eram ferozes desde pequenos, e Marco era um pequeno e adorável dragão. Sam era meio desligado das coisas, parecia nunca se importar muito com nada. Melchior abraçou o menor contra si, sentindo-o tremer levemente. Ele não chorara no enterro de Julie, enterro esse que fora o primeiro momento em anos que vira Marco e Sam fazerem-no.

— Pode chorar — sussurrou. — Sei que você precisa. E ninguém vai saber.

— Eu queria ser como você — Daemon falou, a voz embargada.

Agradeça a Deus por não ser.

— Ser eu é difícil e sofrido. Você é melhor sendo você, meu pequeno Daemon. — Beijou a ponta de seu nariz. — Largue o celular e feche os olhos, amanhã terei que sair de casa cedo, então não estarei aqui quando você acordar.

— E-Eu não consegui dormir, então procurei algo pra fazer, por isso vim aqui. — Daemon se sentou na cama. — Achei o celular do tio Lance em baixo da minha cama. Achei que você saberia o que fazer com ele.

Melchior deslizou seu olhar pelo pequeno objeto vermelho e preto na mão do irmão. Pegou-o cuidadosamente, como se pudesse quebrar-se a qualquer momento, e guardou-o dentro da gaveta da cômoda.

— Feche os olhos — repetiu, sentindo a sonolência atacar-lhe também. — Feche os olhos e entre lentamente na terra dos sonhos… onde tudo pode ser realidade, e as coisas são sempre boas, nunca ruins…

Adormeceu nesse momento, acordando quatro horas e meia depois. Melchior arrumou-se para a escola silenciosamente, pegou o celular de Lance e guardou-o no bolso, pegou sua mochila, onde guardou o molho de chaves da Academia, a lata de tinta spray, as latas de tinta vermelha e as facas e saiu de casa de mansinho. Pedira um táxi para a escola, chegando lá pouco antes do caminhão da loja de manequins, a tempo de abrir os portões e trazer um carrinho de compras que sabia que era guardado nos fundos do Corredor. Recebera os carregadores de braços abertos, pedindo para que despejassem os corpos de silicone no carrinho, onde ficaram espatifados uns nos outros.

Assinou o recibo e os observou indo embora, enquanto o céu estava apenas começando a clarear. Nenhum funcionário estava na escola ainda, era bom andar rápido.

Trancou o portão de entrada novamente e estacionou o carrinho em frente ao prédio do sétimo ano, ainda trancado. Precisava desligar as câmeras para fazer o que queria. Desde o nascimento do Senhor do Mundo M, elas começaram a ficar ligadas o tempo todo.

Invadiu o prédio da direção, o único da escola que não tinha câmeras, nem podia imaginar por quê. Antes de entrar na sala de segurança, deu uma olhada na sala do Conselho, onde cadeiras, mesas e bancadas de mogno marrom faziam-na parecer um tribunal. Se tudo desse errado e fosse descoberto, seria lá onde os donos da Academia iriam comê-lo vivo, num espetáculo de tirar o fôlego de qualquer aluno que, no futuro, pensasse em se rebelar.

Pegou um extintor de incêndio da parede e caminhou tranquilamente até a última sala do térreo. Abriu a porta, vendo várias telas planas fixadas à parede, onde uma bancada eletrônica controlava-as todas. Era possível ver todas as câmeras da Academia dali.

Melchior usou o extintor para quebrar todas as telas com pancadas, e então lançou a espuma branca em cima da bancada eletrônica. Chutou um de seus cantos, revelando suas entranhas, e lançou espuma ali também. Quando o extintor acabou, deixou a sala, que parecia coberta de neve.

Olhou no relógio. Eram cinco e vinte e cinco da manhã. Os primeiros funcionários costumavam chegar às cinco e quarenta, então tinha apenas quinze minutos.

Entrou no prédio do sétimo ano rapidamente, carregando o carrinho. O prédio tinha quatro andares mais o térreo, então seriam dois bonecos para cada andar e quatro para o térreo. Passou os próximos sete ou oito minutos despejando os bonecos em cada andar. Foi difícil, pois teve que levá-los nas mãos, já que não havia elevadores no prédio, e eles eram pesados.

Com o trabalho feito, limpou o suor da testa. Tinha apenas sete minutos.

Melchior deitou o primeiro manequim de silicone de bruços e deu trinta e seis facadas em suas costas, então desenhou um pentagrama. O corpo ficou quase despedaçado e a ponta da faca entortou nos choques contra o chão, meio que o rachando, fazendo-o pensar que deveria diminuir um pouco sua agressividade. Em seguida, despejou metade de uma das latas de tinta vermelha no corpo, deixando a faca usada ao lado deste, ensopada de tinta. Fez o mesmo no segundo corpo, trinta e seis facadas, dessa vez mais brandas, um pentagrama, tinta vermelha e a faca ao lado. Abriu outra lata para os outros dois corpos e aproveitou para espalhar a tinta restante por todo o chão do corredor, como se os corpos tivessem macabramente se arrastado. Seria uma beleza.

Ao terminar o térreo, partiu para o primeiro andar, agora correndo. Primeiro corpo. Facadas, pentagrama, tinta, faca. Segundo corpo. Facadas, pentagrama, tinta, faca. Segundo andar, mesma coisa, assim como o terceiro e o quarto.

Melchior voltou ao térreo faltando apenas meio minuto. Tirou a lata de tinta spray roxa da mochila e escreveu na parede:

Mortes acontecem. O que acontece quando uma população se revolta? Senhor do Mundo M.

Guardou toda a bagunça na mochila, saiu do prédio do sétimo ano, trancou-o e correu para o portão. Havia chamado um táxi para ir para casa. Não podia ficar na escola, estava sujo de tinta vermelha e roxa, era óbvio que alguém iria ligá-lo aos fatos.

Enquanto rodava de volta para casa, Melchior tirou o celular de Lance do bolso. Checou a última ligação e viu que as onze últimas eram para o mesmo número. Clicou a tecla verde, esperando exatos seis toques antes de a ligação cair na caixa postal, que era uma espécie de secretária eletrônica.

Ao ouvir a voz que falava automaticamente do outro lado pedindo para deixar seu recado, Melchior sentiu-se numa bolha prestes a explodir. Desligou o celular antes de a mensagem ser completada.

Quando chegou em casa, tomou outro banho e caiu na cama, exausto. Seu despertador tocou nesse momento, fazendo Melchior tacá-lo na parede.

Seis horas da manhã e já fiz tudo que deveria ter feito hoje. A Coruja sentiria orgulho de mim. Parabéns, Melchior, mestre dos segredos e Senhor do Mundo M.

É claro que havia a possibilidade de Ernst Overgreen ligá-lo ao caso, já que era da consciência de todos que sua irmã havia sido assassinada pela Coruja. Mas Mia também fora, e ela também estudava na Academia. Mas Mia estava morta. E Melchior estava a ponto disso.

Era engraçado ir dormir bem quando a casa Chioren & Thanathos estava a acordar. Demorou mais de uma hora e meia para pegar no sono, já que todo mundo parecia falar, tomar café-da-manhã e se arrumar para a escola ao mesmo tempo.

— Robb — chamou-o de sua cama, com o rosto enfiado nos travesseiros. Robb estava a ponto de sair do quarto para ir embora. — Me diga como eles reagiram com o que aconteceu hoje na unidade do sétimo ano da Alphonse Enoi.

— Como assim? — ele indagou, confuso. Melchior puxou-o para si e lhe deu um beijo, enfiando a mão dentro de sua cueca, o que o fez estremecer.

— Você saberá. E se as notícias me fizerem feliz, te faço feliz durante a tarde de hoje. Na cama. Agora vá, ou vai se atrasar.

Uma velha e desagradável sensação de ansiedade atacou Melchior depois disso, fazendo-o ter que tomar algo para dormir, o que se revelou uma grande lástima. Quando acordou mais tarde, ao meio-dia, parecia que tinham-no atropelado. Não se deixou tomar café.

Sentou-se com Robb na mesa da cozinha, com um copo d’água e um antiácido nas mãos.

— Depois que o prédio do sétimo ano foi aberto e eles viram aqueles corpos lá, uma menina desmaiou e outra vomitou. — Ele riu. — Foi engraçado. O Overgreen chamou a polícia, e dava pra ver que ele estava apavorado, principalmente com o enigma. Quando os legistas constataram que não passavam de manequins e que o sangue era, na verdade, tinta, todos começaram a rir do diretor. Ele tentou gritar com os alunos, mas não deu certo. Depois disso, eu vi umas limusines entrando na escola durante o intervalo, e depois um monte de gente velha entrou no prédio da diretoria. Seis homens e sete mulheres. Todos pareciam ricos.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

O Conselho, Melchior pensou, feliz. Devem tê-lo feito mijar nas calças.

— Olha, eu consegui roubar uma das facas que estava ao lado dos primeiros corpos. — Ele pousou o artefato sujo de tinta vermelha no balcão da cozinha. Era a faca do primeiro corpo, cujas estocadas de Melchior fizeram a ponta entortar. — Você está feliz? — Robb indagou, ansioso. Melchior sorriu.

— Imensamente. Venha.

Passou a tarde no quarto, tapando a boca de seu primo para que ele gemesse mais baixo.

Quando a noite chegou, pegou-se olhando para o celular desligado de Lance enquanto dormia de cueca na cama de Robb, sentindo-o abraçá-lo amorosamente.

Não entendo isso. Onze chamadas diretas para o celular dele. Onde é que está a ligação entre Lance Chioren e Sttan Molihnar?

Remexeu-se na cama, olhando para o peito levemente definido de Robb, para suas pálpebras fechadas e seus lábios grossos e rosados que tanto beijara.

— Você nem imagina que tem quatrocentos mil dólares esperando por você, não é? — sussurrou. Robb não respondeu. Melchior abraçou-o, beijou seu pescoço e desceu da cama. Não importava o quanto gostasse de dormir junto a alguém, sua família não poderia vê-lo na cama de seu primo de cueca.

Foi para a cozinha atacar algo da geladeira. Acabo encontrando a felicidade naquela torta de chocolate que Daemon fizera mais cedo. Ele tinha habilidade na cozinha.

Marco surgiu do escuro, sonolento.

— Meu Deus, que susto, o que está fazendo aqui? — Deu outra garfada. Como é bom poder comer como um condenado e não engordar. — Eu quase morri do coração. Você quer? — Apontou para a torta.

— Ando enjoado de doces. Não consigo dormir.

Ninguém consegue dormir, está todo mundo acordado, com medo.

— Como foi na escola hoje?

— Legal. Todo mundo na minha sala ficou com medo dos corpos no sétimo ano. Eu sempre soube que você era o Senhor do Mundo M, aliás. Ah, Lorenzo quase começou a chorar quando lhe contei que a Coruja matara mais doze pessoas e as colocara lá no prédio, mas então eu disse que era brincadeira e que os corpos eram só manequins. Que desperdício de dinheiro, Melchior.

— Para conseguir o queremos, temos que nos destituir de coisas que gostamos.

— O que é destituir?

— Nada. Vá dormir.

— Já disse que não consigo. Deixe-me dormir com você. E seu quarto é mais frio que o meu. O meu parece o inferno.

Melchior acabou deixando-o. Sozinho em sua cama fria e solitária, a presença quente e aconchegante de Marco deixava-o feliz. Mas então viu que ele estava se despindo.

— Eu realmente gosto do frio, sabe — ele disse, arrancando a cueca. — E de você também. — E o beijou. Na boca.

Foi tão repentino e absurdo que Melchior pensou estar imaginando coisas, mas então seu irmão enfiou a língua em sua boca, fazendo-o voltar à realidade.

— M-Me solta. Marco. — Melchior empurrou seus ombros contra a cama, mas Marco agarrara-o com as pernas, fechando-as em volta de sua cintura. Ele estava nu, e o mais velho estava de cueca, involuntariamente criando uma ereção.

— Eu nunca gostei do Ethan — ele sussurrou. Seus olhos estavam púrpuras, pela primeira vez em sua vida, estavam completamente púrpuras. — Ele é gostoso pra caralho e eu bem que gostaria que ele tivesse me fodido, mas então eu percebi que seria errado. Eu pertenço a você, Melchior. — Melchior tentou se separar, mas Marco puxou-o de volta com os braços. — Eu disse a você que estava apaixonado por ele para que me ajudasse a ficar perto dele, porque eu queria espioná-lo. Bem, uma coisa é certa: ele realmente come o Nicholas. Eu percebi isso.

Ele me enganou. Marco Chioren conseguiu… me enganar.

— Marco, eu… sei disso há semanas.

— Eu sei que sabe, você contou isso a ele naquela conversa que tiveram na biblioteca. Eu sei que transou com ele naquele dia e sei que você passou hoje o dia todo dando para Robb. Quantas vezes já traiu o Ritchi? Aposto que não tanto quanto Ethan já traiu Gabriel Melnick. — Ele riu longamente. — Tira a sua cueca, Melchior. Eu quero chupar você.

— Cala a boca, Marco. — Irritado, empurrou-o para longe de si. Sua ereção já pulava para fora da cueca, era impossível de ser negada.

— Eu posso fazer como o Robb, se você quiser — ele disse, sentando-se de pernas abertas em cima da cama. — Já que você é tão passivo assim. Ou então você pode fazer como ele e me foder de uma vez. Já estou cansado de me masturbar pensando em você, eu quero seu pau de verdade.

— Você está fora de si. — Melchior recuou para longe daquela criatura tão pequena e tão insana.

— Seu pau não concorda com isso. — Marco riu, mordendo os lábios. — Se você não vier para a cama comigo hoje, eu juro que vou para a primeira esquina que encontrar e dar para o primeiro desconhecido que quiser. Acredite, deve haver muitos. — Ficou de quatro, balando as nádegas suavemente. — Vem, mano, faz em mim o que Ethan Lemnsack faz em Nicholas Hentz. Eles podem, por que não nós?

Melchior queria recuar, queria dar uma surra no irmão e mandá-lo para a cama, mas sabia que ele não estava brincando quanto à ameaça. E a verdade é que estava excitado com ele. De alguma forma, estava.

Marco me venceu. Ele me tem na palma de sua mão. O mestre dos segredos foi enganado. Perdeu.

Ajoelhou-se atrás dele na cama e, lentamente, passou sua língua entre as nádegas do menor, ouvindo estremecer e gemer.

— Isso, bem aí, bem fundo. Vai, Melchior. — Melchior penetrou sua língua naquele local tão naturalmente liso e tão quente e úmido. Foi lento no início, hesitante, mas então descobriu que Marco era delicioso e afundou o rosto ali, sentindo o cheiro e o sabor da criança. Mordeu suas nádegas e deu chupões nas coxas, sentindo seu membro latejar.

Marco empurrou-o contra a cama e meteu seu membro na boca pequena. Melchior abafou um gemido, mas era difícil se conter. O menor conseguia colocar pouco mais de um terço na boca úmida, mas passava a língua com desejo por aquele pedaço de carne tão duro, gemendo enquanto se masturbava.

Melchior empurrou-o contra a cama e enfiou todo o seu membro na boca, incluindo os testículos. Sentiu Marco apertar seu cabelo com força, contorcendo-se em sua boca, mandando-o chupar mais forte.

O maior empurrou as pernas do menor para cima e enfiou seu membro de uma só vez em seu ânus. Marco reprimiu um grito de dor, agarrando-se aos lençóis. Melchior começou a estocá-lo com vontade, meio desajeitado no início, pois não estava acostumado a ser ativo no sexo. Dava muito trabalho.

Mudou de posição, deixando o irmão de lado. Deitou-se de lado por trás dele e o penetrou de novo sem dó, estocando-o fortemente. Puxou sua cabeça para trás e beijou-lhe com selvageria, sem nunca parar de bombardeá-lo com estocadas.

— Oh, Melchior… — ele gemeu baixinho ao pé de seu ouvido. — Eu te amo, Melchior… você é meu mestre e eu sou seu escravo. Oh, isso, me foda.

Melchior ejaculou dentro dele, dando mais algumas boas estocadas depois disso. Marco ainda era novo demais para ejacular propriamente, mas liberou um líquido grudento e transparente. Deitado na cama, estava com um sorriso sonhador.

— Você gostou? — perguntou, com esperança.

Melchior não teve coragem de mentir.

— Sim. Você será uma excelente vadia quando crescer, mas, no momento, ainda é uma criança, e eu não deveria ter feito isso.

— Criança que faz sexo não é mais criança. — Ele riu da própria piada. — Você quer mais alguma coisa? Um banho, um café, um boquete?

— Quero que você vá dormir.

— Eu vou se você me der a sua cueca. Quero ter algo seu para fantasiar durante a noite.

Melchior jogou os braços no ar, vencido. Deu sua cueca a Marco, que saiu feliz como um passarinho de seu quarto. Assim que fechou a porta, sentiu outra queimação no estômago.

— Estresse, estresse, tenho que me livrar do estresse. Amanhã vou investigar o motivo pelo qual Lance ligou onze vezes para Sttan e ver até onde isso vai me levar. E então tomarei um antiácido. É. Antiácidos são bons.

Acomodou-se na cama e dormiu como um bebê. No dia seguinte, depois de voltar da escola cedo (que se fodessem as aulas à tarde) dirigiu-se ao campo de futebol do Jardim de Ouro, esperando encontrar quem queria.

De fato, encontrou. Alguns garotos estavam jogando basquete no campo, que, na verdade, era poliesportivo. Inclusive o garoto que procurava.

Ele tinha cabelos pretos e olhos castanhos, além de músculos que poderiam esmagá-lo como a um inseto. Melchior ficou apoiado na grade do campo observando-os atentamente. Desejava que o garoto cooperasse. Não tinha mais cabeça para dar dinheiro a ninguém nem trocar informações por sexo.

Quando os garotos fizeram um intervalo e foram para as arquibancadas, Melchior se aproximou sorrateiro.

— Olá — disse alegremente. O garoto olhou-o desinteressado. — Você é Cole Molihnar, primo de Sttan?

— Sim — ele disse, secamente. Bem, pode acabar sendo fácil.

— Meu nome é Melchior — falou. — Eu queria te fazer uma pergunta. — Cole deu de ombros. Pode realmente ser fácil. Vamos lá, Cole, coopere.

— Você sabe qual a ligação entre Sttan e meu tio Lance? — Ele deu de ombros de novo.

— Sei. — E se calou. Estou falando com Olenna Olrwen? Que diabos.

— Você pode me dizer? — tentou. Outro dar de ombros.

— Posso. — E se calou de novo. Oh, Deus, não vai ser fácil.

— Você vai me dizer?

— Vou. — Por um segundo, Melchior sentiu-se imensamente feliz, tanto que poderia beijá-lo. — Se você vier jogar conosco.

Sua felicidade desmoronou aí. Melchior perdeu o fôlego nos primeiros dez minutos de jogo, e nos outros dez quase desmaiou. Parou por cinco minutos para descansar e aguentou mais quinze, antes de sentir que não conseguiria dar mais nem um passo.

Seu sobretudo estava na arquibancada, zombando dele.

Quando tudo terminou, caiu nos bancos, sentindo todas as juntas doerem.

— Você realmente não faz exercício físico com frequência, não é? — Cole perguntou, com uma franja molhada de suor caindo sobre seus olhos. Sorria. — Acho que eu quase te matei. Qual era a sua pergunta mesmo?

Mesmo depois de vários goles de água, Melchior ainda sentia a garganta seca. Suas roupas estavam coladas ao corpo.

— Qual a ligação entre… Sttan e Lance.

— Ah, sim. Eles andaram juntos algumas vezes.

— Só isso? — Sentiu-se decepcionado. Depois de quase ter um ataque cardíaco, aquilo era tudo o que conseguiria?

— Não exatamente. — Cole sentou-se ao lado de Melchior, forçando-o a sentar-se também. — Sttan me contou um dia que eles beberam demais e acabaram… machucando alguém.

— Como assim? — O coração de Melchior palpitava.

— Estou dizendo que eles violaram alguém, foi isso. Ele não me disse quem, não disse onde aconteceu, não disse nem se era mulher ou homem. Só sei que aconteceu no ano-novo. Acredite, Melchior, quando eu soube que Lance e Sttan haviam sido mortos, eu não chorei. Com todo o respeito.

Melchior sorriu amigavelmente.

— Compreendo. Obrigado, Cole. Ajudou bastante.

— Só mais uma coisa — interrompeu-o. — Eles também forçaram aquele irmão retardado do Ritchi Revonne a fazer a mesma coisa. Não sei como foi a situação, mas foi isso. O garoto nem devia saber onde estava ou o que estava fazendo, só fez…

Ao voltar para casa, mancando e com dor nas costas, Melchior encontrou uma carta lacrada endereçada a ele. Era um de seus passarinhos que trabalhavam no departamento de polícia. Fizera sexo com ele uma vez e, já que ele era maior de idade, implorara para que Melchior não contasse a ninguém. Melchior disse que tudo bem, desde que ficasse devendo um favor a ele. Há pouco tempo, finalmente cobrara o favor.

A carta era rápida e sucinta. Dizia que Lance também havia feito sexo antes de morrer, mas que a informação fora ocultada a pedido de seu irmão, pai de Melchior. Dizia também que o DNA presente na saliva encontrada no pênis de Lance combinava com o visto no de Sttan. Também falava algo sobre Mia, algo que mudava tudo.

Pouco tempo depois, Melchior pôs fogo na carta, vendo-a queimar.

Respirou fundo.

Lance, Sttan e Terry estupraram a Coruja. E a Coruja os matou.

Hesitantemente, parou de ver o assassino como um psicopata e passou a ver a ele ou ela como alguém violentado com necessidade de vingança. Mas se fosse isso, por que Lorenzo? Por que Jimmi, Julie ou Mia? Por que eles? Vingança também? Mas ela já não estava completa? Ou havia algo mais que Melchior não sabia?

Será que havia tanta gente naquele Jardim que conhecia a Coruja e não sabia disso? Será que havia tanta gente naquele Jardim feito de ouro que dera motivos para a Coruja matá-los? Será que havia algum padrão no meio de tanta aleatoriedade?

Será que há uma resposta? Para eu começar a sentir pena de uma pessoa que matou minha irmã, Deus, tem que haver uma.

E o que Mia havia dito? A Coruja pia. O que aquela desgraçada quisera dizer com aquilo? Por que ela escrevera uma pista tão difícil de ser decifrada?

Melchior tomou um banho silencioso e demorado. Sua mente estava cheia de ideias, e ao mesmo tempo estava vazia, em frangalhos. Era um paradoxo que acontecia com frequência: quando queria pensar em muita coisa ao mesmo tempo, acabava se perdendo em meio a tantos corredores e alas e não pensando em nada.

Saiu do banho a tempo de ver a porta da frente tocando. Quando Melchior a atendeu, London e Ritchi estavam lá. Ritchi estava numa cadeia de rodas, é claro.

— O que há? — perguntou, temeroso. Sentou-se numa das cadeiras da varanda, assim como London.

— Odette Ovense foi morta — Ritchi falou. Por algum motivo, Melchior não se abalou. E agora isso?

— Nós falamos com Owl agora há pouco — disse London. — Ele parecia uma estátua de cera. Ele, que sempre foi tão ativo e saltitante. Acho que isso é pior do que estivesse se afogando em lágrimas. Toquei no ombro dele, mas aquele desgraçado se esquivou.

Em plena luz do dia, com todos os Olrwen em casa, aquela mulher foi morta. Por que, Deus, por que fez isso com Owl?

— Onde a encontraram? — Melchior indagou.

— Ela estava caminhando perto da praça onde Mia foi morta — disse Ritchi. Melchior sentiu-se subitamente tonto, e parece que Ritchi percebeu isso. Puxou-o para seu colo, onde o menor se aninhou como um bebê, triste. — Foi encontrada lá por alguém, e nós falamos com a pessoa. Ele disse que não havia ninguém por perto.

— Como de usual — sussurrou. — Estou ficando desesperado.

— Não fique — disse London. Ajoelhou-se ao lado da cadeira de Ritchi e beijou a bochecha de Melchior carinhosamente. — Você está se matando, Melchior, está com os olhos injetados e mais pálido que o normal. Qual foi a última vez que teve uma refeição decente?

— Não lembro nem qual foi a última vez que comi. Mas tudo bem, magreza excessiva é o novo padrão de hoje.

— Não se você morrer — Ritchi sussurrou. Melchior deu-lhe um selinho nos lábios. Seu cabelo vermelho ainda estava curto, mas demoraria anos para que voltasse ao tamanho original. — Estou com pena dos Olrwen. Por algum motivo, gosto da Olenna. Ela mandou Owl para longe para afastá-lo disso tudo, mas acabou voltando diretamente para eles.

— Eu já perguntei para o Owl se ele era a Coruja — disse London, com pesar. — Ele ficou irritado e foi a primeira vez que o vi andar uma longa distância sem saltitar, como sempre faz. Foi no mesmo dia em que Jimmi foi morto. E mesmo com isso, ele foi lá me consolar.

— Com tudo isso acontecendo conosco, esquecemos dele — Ritchi sussurrou. — Ele é tão inocente e vulnerável. Alguém pode simplesmente chegar e cortar o pescoço dele que ele não saberia o que está acontecendo. Ficaria apenas murmurando Owl, Owl, Owl

— Vocês sabiam que Mia morreu por perda de sangue? — Melchior indagou. Era o que estava escrito na carta. Eles o fitaram. — Ela não morreu das facadas. O pescoço dela estava cortado. A autópsia confirmou que ela morreu por falta de sangue bem antes das facadas serem feitas. É como se ele tivesse se apiedado dela.

— Bem, ela estava grávida — London disse.

— Estava. E consegui evidências circunstanciais que provam que Lance e Sttan haviam estuprado a Coruja. — Não teve coragem de incluir o nome de Terry, não com Ritchi ali. De repente, sua paraplegia fazia sentido.

Como esperava, ambos ficaram chocados. Melchior se levantou do colo de Ritchi.

— Eu até posso entender que a Coruja os matou, mas por que as outras crianças? E Odette? Não vejo motivos pra isso, é como se… tivesse deixado os grandes motivos, os motivos diretos, para trás e tivesse se envolvido num círculo de influências. Sabe, é como se ela tivesse matado Sttan e Lance por causa do que eles fizeram, e matado as crianças para atingir as pessoas próximas a elas. Mas eu não vejo a porra do motivo!

— Quem sabe ele tenha apenas ficado com raiva deles — London falou. — Talvez… os tenha matado porque se acostumou a matar, então qualquer motivo serviria.

— É, quem sabe.

Melchior desceu a fachada de sua casa e fitou o cimento, quente e cinza. Estava olhando para o exato local em que Julie fora encontrada. A cabeça dela estava meio curvada, e as costas, ensanguentadas… ela era tão pequena.

De repente, notou algo no chão. Várias pedrinhas amontoavam-se ao lado de buracos no cimento. Algo o havia perfurado, algo fino e pontudo.

Os olhos de Melchior se arregalaram.

As informações encheram sua mente de uma só vez.

A Coruja pia. Ela disse que Owl tem estado insuportavelmente agitado e perturbado. Eu os vi lá. Havia sangue nos bancos e neles dois. Estava polindo uma faca avidamente, cuja ponta estava torta. Olenna e Odette começaram a discutir por algum motivo fútil. O corpo ficou quase despedaçado e a ponta da faca entortou nos choques contra o chão, meio que o rachando. Checou a última ligação e viu que as onze últimas eram para o mesmo número. Sttan me contou um dia que eles beberam demais e acabaram machucando alguém. Estou dizendo que eles violaram alguém, foi isso. Eles também forçaram aquele irmão retardado do Ritchi Revonne a fazer a mesma coisa. Dizia também que o DNA presente na saliva encontrada no pênis de Lance combinava com o visto no de Sttan. Odette Ovense foi morta. Ele parecia uma estátua de cera. Ele, que sempre foi tão ativo e saltitante. Ela mandou Owl para longe para afastá-lo disso tudo, mas acabou voltando diretamente para eles. Eu já perguntei para o Owl se ele era a Coruja. Ele ficou irritado e foi a primeira vez que o vi andar uma longa distância direito, sem saltitar, como sempre faz. Ele é tão inocente e vulnerável. Ficaria apenas murmurando Owl, Owl, Owl. Ela não morreu das facadas. O pescoço dela estava cortado. É como se ele tivesse se apiedado dela. É como se tivesse deixado os grandes motivos, os motivos diretos, para trás e tivesse se envolvido num círculo de influências. Quem sabe ele tenha apenas ficado com raiva deles. Então qualquer motivo serviria. Várias pedrinhas amontoavam-se ao lado de buracos no cimento. Algo o havia perfurado, algo fino e pontudo.

Algo fino e pontudo, fino e pontudo como a ponta de uma faca.

Não havia sangue no chão, Rick disse que não havia sangue no chão, apenas neles e nos bancos. E se Mia morreu lentamente por perda de sangue, o assassino poderia tê-la impedido de escrever aquela mensagem, pois ele só a esfaqueou depois de morta. Mia não escreveu aquela mensagem. Outra pessoa escreveu. Uma pessoa desesperada, uma pessoa presa dentro da própria mente, uma pessoa que queria ser pega. A mensagem foi escrita por uma coruja que pia.

Antes de perder os sentidos, Melchior flagrou-se gritando. Não, berrando histericamente, para ser bem franco.

Acordou quando estava escurecendo, ou clareando, não sabia. Melchior não sabia mais de nada. Oh, não! Sabia sim, sabia de tudo! De novo aquele pânico, de novo aquela ansiedade. Ele sabia de tudo.

O quebra-cabeça estava montado.

Quando percebeu, estava fazendo um telefonema. Sozinho em seu quarto, sentiu medo.

Alô? — A outra voz atendeu, parecendo sonolenta.

— Preciso da sua casa. Preciso da sua casa agora. Preciso ir para sua casa com London, Ritchi e Owl. E Nick e Lorenzo também.

Melchior… o que está…? Sua voz está toda engrolada.

— Devem ter me dopado para que eu parasse de gritar como uma cadela no cio. Me obedeça, Ethan.

Melchior, são cinco horas da manhã.

— Eu sei quem é a Coruja.

Silêncio.

— Hoje é sexta-feira, Ethan. Não sei por que estou te dizendo isso, acho que é porque estou me sentindo em cima de um balão. Não importa para onde eu ande, eu caio. Estou me sentindo caindo o tempo todo, então não discuta comigo!Está bem? Está bem. Te vejo em meia hora.

Demorou uma hora, na verdade. Melchior pediu a um London completamente irritado para ir com Ritchi para a casa de Ethan, então ligou para Owl e pediu que ele fosse também. Owl gritou vários Owls com ele, também sonolento e irritado, mas acabou concordando.

— Por que é que todos esses adolescentes têm tanta dificuldade em acordar cedo?

Vestiu seu melhor sobretudo, um preto com detalhes cinzentos quase imperceptíveis. Usara-o na festa de Nicholas, no início do ano. Estava usando-o quando viu seu tio morto.

Pegou a faca que usou no último ataque do Senhor do Mundo M, a que Robb trouxera para casa, e levou consigo também.

A casa de Ethan parecia mais sombria. Uma almofada de nuvens cinzentas revestia o céu como algodão-doce, uma chuva de primavera para lavar as flores recém-nascidas. Melchior sorriu. A natureza estava voltando ao normal, assim como a vida em Jardim de Ouro o faria também.

Tocou o interfone e o portão foi aberto. Quando entrou na mansão, viu que todos os seus amigos já estavam lá, incluindo Ethan, Nick e Lorenzo, que se agarrava ao apático leão dourado. Owl estava o mais longe possível dele, sentado numa cadeira perto da janela, meio que atrás de todos eles. Apesar de seu tom de voz no telefone, parecia feliz como sempre. London e Ritchi não faziam esforços para não demonstrarem a impaciência.

— Bem, vai nos dizer por que estamos aqui ou tá difícil? — London resmungou.

— Senhores. Vou. — Melchior sorriu. Virou-se de costas para o grupo. — Eu descobri quem é a Coruja.

Contou até cinco e virou-se de volta, pronto para ver os rostos chocados. Viu, viu cinco expressões chocadas, extasiadas, temerosas, ansiosas. Então olhou para a cadeira de Owl e viu que ele não estava lá.

A janela estava aberta.

Owl sumira.

Notas finais
Semana que vem é o último capítulo, e então o epílogo.

Nesse último capítulo, todos os mistérios da temporada serão solucionados, mas eu acho que esse capítulo do Melchior já deixou muita coisa bem clara, não? :3

Até lá.