Notas iniciais
Um aviso: os capítulos não são narrados seguindo uma ordem cronológica. Esse capítulo não ocorre imediatamente após os acontecimentos do capítulo anterior, ele ocorre mais ou menos no meio dele, sob a perspectiva de outro personagem. Assim, vocês vão ver que há algumas cenas nesse que também estiveram no outro, mas que serão narradas sob outra perspectiva.

O mundo era um tabuleiro e as pessoas eram as peças. E ele, ele era o jogador. O manipulador, enquanto os outros eram marionetes. Ele tecia suas finas teias invisíveis e amarrava-as, movimentando-as a seu comando. E quando as peças notavam os fios atados às suas mãos, já estavam tão apertados que eram impossíveis de serem tirados.

Melon Chioren havia tecido com cuidado sua teia. Cada movimento seu era cuidadoso e bem pensado, como se estivesse dando um passo em areia movediça. Lidar com seres humanos era como andar por uma velha ponte de corda caindo aos pedaços sob uma vala sem fundo, com ventos jorrando de um lado e uma parede cheia de espinhos venenosos do outro. Um passo em falso e tudo acabava.

Melchior construíra sua vida encima de contatos delicados, informações preciosas, sussurros e segredos, favores que relutava em usar sem um grande motivo, favores que conseguia de bom grado ou a força, se preciso. Parecia ser apenas um garoto pálido com rosto de anjo, mas sabia identificar as fraquezas alheias. A cama era, normalmente, a maior fraqueza de todos, motivo pelo qual se tornara um mestre na arte dos prazeres.

A vida era seu império, Jardim de Ouro, seu castelo, e ele era o imperador.

O ar estava abafado e fazia-o suar, como ele gostava. Por dividir a própria casa com sete irmãos, dois pais, um tio e quatro primos, nunca encontrava privacidade. Mas, ali, ele tinha. A cortina do quarto estava fechada, de modo que apenas alguns poucos raios de sol adentravam o quarto quente.

Nu, Melchior deslizou pela cama. Deitou a cabeça sobre o peito de Ritchi Revonne.

— Contei sobre você a Nicholas, ontem — o ruivo disse, mesmo sabendo que Melchior já sabia disso. Ambos sabiam que Nicholas não era estúpido. O louro sabia que, se sabia de tudo aquilo, era porque Melchior quisera assim.

Melchior beijou um dos mamilos de Ritchi, pouco antes de mordê-lo levemente.

— É melhor assim. Ele vai ficar mais cuidadoso, e gosto de um desafio. Quis descobrir algo sobre ele na festa que ele supostamente devia dar, quis torná-lo meu amigo, mas o irmão dele não permitiu. Ethan Lemnsack pode ser um problema.

— Um problema para o império dos segredos de Melon. O império dos melões.

Melchior torceu-lhe um dos mamilos com força, mas arrancou apenas risadas de Ritchi, que perguntou:

— Por que o quer?

— A família Hentz é uma família antiga e ainda influente — respondeu —, mesmo após o declínio da Kruger-Vorheel. O nome Hentz é uma chave que ainda pode abrir muitas portas. Eles têm poder. E, ainda mais importante, dinheiro. Ethan controla uma fortuna de aproximadamente um bilhão e cento e vinte milhões de dólares. Todo mundo precisa disso de vez em quando. Já pensou se Ethan, quando atingir a maioridade, resolve recriar a Kruger-Vorheel do zero e se tornar um John Francis Hentz moderno, jovem, bonito e rico? O mundo cairia a seus pés, todos o regozijariam ainda mais do que já o fazem. Oh, ele não faz ideia do potencial que tem.

— Acho difícil. John Francis Hentz nasceu pobre, criou um império do nada e encheu um nome de glória.

— Não por mérito. Ele achou um diamante, fim. Sim, Ethan nasceu em berço de ouro, mas tenho certeza que a imprensa se disporia a esquecer disso para lamber os pés dele. O país precisa de outro queridinho e ele tem todo o necessário para isso e um pouco mais.

— Só porque ele parece ser promissor, não quer dizer que seja. Ele pode não ter o faro nos negócios dos Hentz. Olha o cabelo dele. Ele é claramente mais Lemnsack.

— Nicholas tem cabelo louro, e é tão inteligente quanto uma porta. Mas pode ser verdade. Os Hentz sempre foram orgulhosos e arrogantes, Ethan não é assim. Eu acho. Mas, se não fosse inteligente, não teria conseguido a emancipação e a guarda do irmão com apenas dezesseis anos, e a guarda do irmão bastardo com dezessete.

— Não foi difícil conseguir a emancipação. Ele casou-se com a filha do governador, que só aceitou isso por causa da visibilidade que receberia através da filha. Lembra-se de quando Ethan agrediu um paparazzo? O cara deve ter ganhado meio milhão de dólares.

— Dez vezes menos. Cinquenta mil.

Ritchi pegou um cigarro da cabeceira da mesa e acendeu-o. Tragou e passou a Melchior, que fez a mesma coisa. Apesar de sempre insistir ao ruivo para que ele parasse com o hábito, às vezes nem ele conseguia resistir.

— Ethan parece ser teimoso como o diabo — Ritchi disse, soprando a fumaça. — Mas Nicholas parece ser mais maleável.

— Por isso quero que ele dê a maldita festa. Ouvi falar um pouco dele, alguns sussurros nascidos na Academia Alphonse Enoi. Você não acreditaria no que ele fez ao filho do ex-chefe da máfia italiana. E, pelo visto, parece ter um interesse sórdido em garotas e um inversamente proporcional em estudar. Conta-se que ele já desvirginou umas quarenta meninas da escola. Na escola. Outras pessoas contam sessenta. Não importa. É isso que sei dele. É um playboy que gosta de garotas e dinheiro.

— Acha que ele gosta de rapazes também?

— Receio não saber — admitiu. — É possível. A primeira vez que olhei para ele, pensei que fosse uma menina.

Ritchi riu e Melchior acompanhou-o. Este último sentou-se na cama e passou a admirar o corpo do ruivo. Suas pernas eram grossas como as raízes de uma sequoia, cheias de pelos da cor do sangue, mas as coxas eram torneadas e completamente lisas. O peito era definido e duro como pedra, sem um pelo sequer, e os braços, grossos e musculosos. Um emaranhado de pelos da cor do vinho amontoava-se logo acima do pênis. Vê-lo largado ali, de qualquer jeito, fumando e sorrindo aquele sorriso sacana, o excitou.

Melchior segurou seu membro entre os dedos e começou a estimulá-lo. Quase ninguém sabia sobre os dois, apenas London e Marco, e, mesmo assim, seu irmão descobriu apenas por acidente, num momento em que Melchior se descuidou. Depois deles, sempre teve mais cuidado.

Quando Ritchi estava duro o suficiente, montou-o.

— O que os Lemnsack Hentz podem te dar que eu não posso, além de dinheiro e poder? — Ritchi indagou, entre gemidos e suspiros. Arranhava as nádegas de Melchior enquanto ele cavalgava, apertando a carne macia de suas coxas. Melchior era magro e alto como uma lança, o peito pouco definido, sempre pálido e liso, quase sem pelos nenhum abaixo da cintura e muito menos ainda acima desta, como Ritchi gostava.

— Dinheiro e poder são tudo, ruivinho. — Melchior parou de pular em cima do pau dele e passou apenas a rebolar, num vai-e-vem frenético e prazeroso.

Ritchi deu-lhe uma palmada.

— Me surpreende ouvir isso, porque, às vezes, você parece se interessar mais pela minha pica do que por… ahhhhhhh! — Ele ejaculou. — Qualquer outra coisa.

— Eu me importo. — Melchior separou-se de Ritchi e o beijou longa e apaixonadamente. — Claro que me importo.

— Prove isso.

— Como?

— Assuma. Nós.

— Não posso. Não podemos.

— Quero poder sair de mãos dadas com você e te beijar na rua.

— Eu também quero.

— Então assuma.

— Pare de insistir. Me deixa mal assim.

Ritchi gostava de torturá-lo e fazia isso com um sadismo adorável. Puxou o menor para si e o beijou de novo, passando a mão por seu corpo macio.

— Nicholas e Ethan têm um segredo — Melchior confidenciou. — Eles andam juntos demais para o meu gosto, colados demais. Não é apenas amor fraterno… tem algo de malicioso ali.

Ritchi sentou-se na cama, espantado. Melchior sentou-se em seu colo e envolveu seu pescoço com os braços.

— Acha que eles têm um caso? Eles? Dois irmãos?

— Ethan já provou que prefere os mais novos. Ele tinha um namorado chamado Gabriel Melnick…

— Melon, eu sei disso. Todo mundo sabe.

— … que tem catorze anos. Mas eles terminaram. Pelo visto, nosso querido Ethan colocou um par de chifres na cabeça dele, embora eu não saiba… com quem. Esse sussurro ainda não chegou aos meus ouvidos.

Ritchi entendeu.

— Você acha que Gabriel descobriu sobre Nicholas e Ethan. — Não era uma pergunta.

— Se descobriu, essa história já deveria ter se espalhado. Ou talvez não. Preciso ficar perto de Gabriel, saber o que ele sabe.

— E se for verdade? E se Ethan realmente comer o irmão dourado dele? — Ritchi pôs os braços atrás da cabeça, revelando os pelos ruivos debaixo de suas axilas.

Melchior mordeu seu bíceps proeminente, dando um chupão logo depois. A marca vermelha de vasos sanguíneos estourados ficou lá, abaixo de uma leve camada de saliva.

— Então, eu o terei na minha mão.

— Vai conquistar Nicholas com simpatia e Ethan à força? — Ritchi aspirou o cheiro de seus cabelos castanho claros, quase cinzas. — Por que não logo os dois à força?

— A única coisa mais poderosa que o medo é o amor. Mas não posso descobrir nada enfurnado em Jardim de Ouro, Ethan mal sai de casa e Nicholas não vai abrir a boca. — Então disse o que Ritchi tanto esperara ouvir: — Esse ano, vou para a Academia Alphonse Enoi.

O ruivo torceu o nariz.

— Aquilo ali é um antro de filhinhos de papai e patricinhas nojentas. Só vai dar real motivo para Ethan pensar que você também é assim.

— Sei disso, sei disso, mas Chioren não é um sobrenome famoso ou influente. Pense, Ritchard. Vou passar despercebido, como um fantasma. O mestre dos segredos vai se esgueirar pelos cantos mais obscuros daquela formosa instituição e dominar o sistema.

— Como?

Melchior deu de ombros.

— Deve haver algum esquema de corrupção lá. Algo sujo, que eles não querem que os alunos saibam. Talvez algum professor tenha um caso com algum aluno. Depois de ver como Nicholas Hentz é, não me admiraria ver algo assim.

— Vai chantagear a diretora? — Ritchi parecia consternado.

— Não, só a diretora não. O Conselho escolar inteiro. Eu sei como a Alphonse Enoi funciona, sei que Hellen Page é uma mulher competente e dura, mas toda muralha tem suas brechas. Quando eu as encontrar, vou derrubá-las.

— E seu primeiro passo após isso será…?

— Fazê-los mandar Ethan para bem longe numa excursão enquanto convenço Nicholas a fazer a festa aqui e vejo como minhas peças se movimentam no tabuleiro.

— Tem ideia de quanto a mensalidade da Alphonse Enoi é?

— Uns mil dólares. Mas a Academia é uma escola tão rica, Ritchi. Pra que eles precisam de dez mil dólares por ano a mais…? — Deu uma risadinha mansa. — E vou levar Robb comigo. E Marco.

Ritchi torceu o nariz de novo. Melchior conhecia o longo histórico de brigas e discussões do ruivo e do irmão menor. Ritchi tinha ciúmes de Marco, e Marco sabia disso. E o torturava cruelmente. Seu irmão era surpreendentemente astuto para um garoto de nove anos, além de ser inteligente e perceptivo. Se algum dia tivesse que deixar seu império de segredos para alguém, este seria ele. Ritchi era uma boa pessoa, mas era impaciente demais, pouco suscetível à sutileza e pavio-curto.

— Robb tem a idade de Nicholas. Marco tem a idade de Lorenzo — falou, acariciando seus cabelos da cor de uma fênix renascida. — Robb pode cuidar de me informar sobre o último leão dourado e do ex-namorado do adolescente mais rico do mundo. E Marco fica com Lorenzo. Eles podem até ser amigos. Lorenzo cantou e toda uma organização ruiu. É mais do que aparenta, aquele garotinho cego.

— Se eles virarem amigos, a lealdade de Marco pode pender para o lado dos Lemnsack Hentz. Crianças são crianças. A lealdade delas pende para todos os lados a todo momento.

Melchior riu.

— Não a de Marco. Não… não a de Marco.

— Você sabe que ele gosta de garotos.

— Ele tem nove anos e recentemente aprendeu a se masturbar. Está como uma cadela no cio, gosta de qualquer coisa que se mexa. Não quer dizer que ele será assim ao crescer. Mas não se preocupe. Marco não vai se apaixonar por Lorenzo.

Ritchi virou para o lado. Melchior abraçou suas costas largas por trás, cheirando seu cabelo e envolvendo-o inteiro com a perna direita.

— Consegue imaginar Ethan e Nicholas assim, como nós? — o ruivo perguntou.

— Consigo imaginar nós dois, assim, daqui a alguns anos. Um como parte do outro. Um pertencente ao outro. Nós dois… — sussurrou ao seu ouvido. — Me ame de novo, Ritchard Revonne.

— Não estou com vontade.

— Quieto. Sou seu mestre dos segredos e ordeno que você me foda.

Ritchi o fez. A manhã inteira, aliás.

Na manhã do campeonato de futebol, Melchior foi com London ao campo, além de Robb, Marco, Daemon, Robbet, Tarly e Sam. Owl já estava lá, murmurando seus Owls, como sempre. Gostava de pensar que havia alguma relação que chegava ao destino entre ele e aquele casaco branco imenso. O casaco tinha uma cintura muito baixa para mangas tão compridas. Aliás, o capuz também era anormalmente grande. Era um defeito de fábrica, Owl encontrara-o aos seis anos, jogado numa caçamba de lixo, levara-o para casa e ficara com ele desde então. Quando era pequeno, o casaco era tão grande que podia usá-lo como um lençol, disseram-lhe.

Nicholas chegou algum tempo depois, com Lorenzo e Ethan que, pelo visto, se instalou propositalmente longe deles.

Observara divertido Ritchi quase derrubar o louro em campo, embora fossem do mesmo time. Nicholas era bom com a bola, rápido e ágil, mesmo não conseguindo acompanhar o ritmo do ruivo. Ele parecia uma gazela correndo, mas com a determinação de um leão.

Fizera um terço dos gols até o final do primeiro tempo. Ritchi fez o resto.

Quando viu que Ethan aproximava-se de Nicholas, Melchior chamou Ron e Jimmi, irmãos de London.

— Ron, Jim, por que não vão conversar com Lorenzo? Ele é quase da idade de vocês, devem ter algo em comum. Aliás, ouçam o que Ethan conversa com Nicholas e venham cantar para mim depois.

Depois, chamou Sam.

— Leve Daemon para o andar da arquibancada de Ethan e Nicholas. Ouçam o que eles falam.

— Abobrinhas, apenas abobrinhas — ele disse, mas foi mesmo assim.

Pensou em mandar Marco também, mas ele impedia Robbet e Tarly de brigarem. Aliás, levantaria suspeitas demais.

Nicholas falou algo mal-humorado ao irmão, que respondeu na mesma medida. Então fitou os gêmeos, que conversavam com seu irmão mais novo, e então Sam e Daemon, que fitavam o campo sem nada em mente. Era evidente demais que eles estavam ali por algum motivo. Nicholas sussurrou algo a Ethan e eles se calaram.

Devia ter mandado Marco.

Os meninos voltaram sem nada de novo, como esperava que fosse. Eles estavam muito crus ainda.

O segundo tempo começou razoavelmente bem. Ritchi fez outro gol. Melchior e seus irmãos comemoraram. London grunhiu, como sempre.

— Futebol é a única coisa que o mantém longe de problemas — disse ao amigo. O pentagrama no anel em seu dedo brilhava a luz do sol. — Fica cansado demais até para pensar.

— E desde quando Ritchi pensa? — ele indagou. Jogou os cabelos negros para trás. — Não se pode fugir de um problema quando você é o problema.

— Você é cruel demais com ele…

— Sei o que vai dizer, que ele é assim por causa do âmbito familiar e blábláblá… A mãe dele tem um caso com o pai do namorado dele e o pai tem meia dúzia de amantes.

— Eram sete, da última vez que contei. Uma delas teve um filho há pouco tempo, a única que não era casada. Ritchi não sabe disso.

— E nem deve saber — completou London, como sabia que Melchior gostaria. — Mas ele não é nenhum bebezinho. Ele tem responsabilidade pelo que faz.

— Da última vez que eu vi a pica dele, realmente, ele não era nenhum bebezinho.

Uma gritaria vinda do campo interrompeu a discussão dos dois. Nicholas Hentz gritava com Rodrik Storm, que jogava de azul e estava jogado no chão, segurando o tornozelo. Ele era tão grande que era difícil acreditar que Nicholas o tinha derrubado.

Derrubou, mas não foi por querer. Rodrik tem o tornozelo ruim.

O louro se engalfinhou numa briga com outro de azul, que foi apartada pelos próprios jogadores. Depois de ser expulso do jogo e segurado por Ethan (ninguém conseguira fazer Nicholas parar de se debater, mas quando Ethan o pegou por trás, aquietou-se como um bebê no colo da mãe), foi arrastado pelo mesmo para o vestiário.

— Quem diria — London murmurou, com um quê de divertimento nos olhos, embora os lábios continuassem tão duros quanto sempre. Ele nunca sorria. — O último leão dourado é pavio-curto.

Melchior não pode deixar de sorrir.

Ao final do jogo, eles voltaram do vestiário. Nicholas, perfeito, limpo, com o cabelo brilhando ao sol e aquele nariz empinado e ar arrogante que parecia ser característica de todos da família dele, como não podia deixar de ser.

— Vencemos? — indagou ele a Ritchi.

— Vencemos — ele respondeu. — Fiz o gol da vitória.

É muito estranho. Todos os Hentz são louros e todos os Lemnsack são morenos. Mas Nicholas é um Lemnsack Hentz louro e Ethan, um moreno. E ainda tem Lorenzo, que também é moreno. E ele não é Hentz.

Foi aí que notou que o cabelo de Ethan estava molhado e que ele parecia cansado.

Após um longo tempo fitando-o, Ethan teve de olhar de volta.

— Você tomou banho também? — sussurrou, como sempre fazia quando contava um segredo, ou algo que pensava ser um segredo. — Seu cabelo está molhado. Suas roupas estão coladas ao corpo.

Nicholas respondeu por ele.

— Ele tomou. Qual o problema? O dia está insuportavelmente quente. — Havia uma convicção na voz dele que perturbou Melchior. Ele sabe que procuro algo. Sorriu.

— É claro. Também estou com calor. Está terrivelmente quente.

Chegou em casa cansado, com os irmãos em seu encalço. Robb tinha sumido no meio do caminho, provavelmente fora comer a boceta de Olívia Olrwen. Ela ainda era uma mulher bonita, poderia ter conseguido algo melhor. Melchior não a culpava. Ottis Olrwen era um homem extremamente ocupado, parava pouco em casa e era tão agradável quanto um caso grave de hemorroidas. Bastava dar uma olhada em seus olhos azuis coroados por seus cabelos louro prateados para ver apenas o desprezo que sentia pelo próprio filho autista. Onnie Olrwen morrera no parto, isso era ainda pior. Melchior pensava que era por isso que Ottis decidira quebrar a tradição dos nomes com O. Nesses momentos, agradecia que Owl não tivesse capacidade de perceber ódio ou maldade alheia.

Depois que Onnie morrera, Ottis casara-se com Olívia, uma mulher muito mais nova, que cometera o erro de amar Rhanys Olrwen como seu próprio filho, ao mesmo tempo em que tinha que aguentar a óbvia repulsa de Ottis para com o filho e o fato de que ele claramente ainda amava a falecida esposa. E ainda havia a eterna disputa entre Odette Ovense, mãe de Olívia, e Olenna Olrwen, a Senhora da Língua de Aço, sua sogra. Elas pareciam amar se odiarem e discutirem.

Tudo isso contribuiu para tornar Olívia uma mulher apática e com a vivacidade de um condenado à morte numa cadeira elétrica. O tipo de mulher que aceitaria qualquer coisa por um pouco de consolo, tipo tirar a virgindade de um adolescente.

Chamou Marco para um canto afastado.

— Eu pretendo ir à Academia Alphonse Enoi esse ano — disse-lhe.

— Estudar lá? — ele indagou, seus grandes olhos quase púrpuras brilhando de emoção. — Pretende espionar Ethan e Nicholas?

— Pretendo. Suas ações me causam uma curiosidade imensa. — Possuía um sarcasmo natural na voz que era difícil de identificar como sendo verdadeiro. — Quero que você venha comigo.

A expressão da criança foi adorável.

— Eu quero. Vamos dominar o lugar.

Marco tinha ambições demais para o gosto de Melchior. Criara-o para ser de lealdade apenas ao irmão mais velho, mas ele ainda era uma criança, de modo que teria de tomar cuidado para que ele não se tornasse igual a Ritchi, seguindo mais seus instintos do que o bom-senso. Poder sempre era mais bem desfrutado quando se tinha paciência para alcançá-lo.

— Vamos. Devagar. Apenas mantenha a paciência. Não fale a ninguém sobre isso, nem a Daemon, Sam, Tarly, Robbet, Julie, Grey, Hugh ou Howl. É segredo. Nosso. E Robb vai conosco.

— Sim. Segredo, só nosso.

Marco beijou-o na bochecha, perto demais dos lábios. Enquanto observava-o se afastar, Melchior sentiu um calafrio.

Vou acabar me tornando um Ethan Lemnsack, se os rumores forem reais.

Marco era só uma criança, mas não era nem um pouco inocente. Quando descobrira sobre ele e Ritchi, o fato de que eles faziam sexo não lhe passara despercebido. Depois de fazer piada com isso meia centena de vezes, dera-lhe uma caixa de camisinhas de aniversário, as gargalhadas.

Quando Marco sussurrou-lhe que havia masturbado um garoto de sua escola no banheiro, Melchior ficara horrorizado.

— Fique calmo — ele dissera, com aquela pressa nas palavras causada pela hiperatividade de sempre. — Ele tem a minha idade. Ficou com vergonha disso, e agora sempre divide o lanche dele comigo para que eu não conte a ninguém. — E rira. — Eu o tenho na palma da mão.

Melchior não conseguiu deixar de sentir uma pontada de orgulho. Marco era seu herdeiro, definitivamente.

Quando Robb voltou pra casa, conversou com ele.

— Preste atenção no que vou dizer — disse a ele. — Você vai pedir, aliás, insistir aos seus pais para ficar aqui durante esse ano. — Não se deteve ao ver o olhar espantado no rosto do primo. — Pedirá para se matriculado na Academia Alphonse Enoi, e não aceitará nenhum outro lugar. Tenho certeza que meus pais aceitarão você aqui com Grey. — Mais um passarinho. — Eles adoram crianças. Têm oito filhos.

— Eu não quero ficar aqui — Robb disse, como se tivesse realmente alguma escolha.

— Oh, Robb — disse, dramaticamente. — Você me decepciona. Sempre fui uma pessoa tão boa com você. Sempre dividi meu quarto com você. Minhas roupas. E nunca pedi muita coisa em troca. Só a sua lealdade. Nunca te traí. Nunca disse a ninguém quem pôs fogo na casa dos Mayfair. — Era só meia mentira. Havia sido um acidente. — Nunca disse a ninguém quem atropelou o Bolas de Neve. — Bolas de Neve era um gato da cor da neve que pertencia a uma velha moradora da casa em frente à dos Chioren, que vivia sozinha. Quando ela descobriu que ele havia sido atropelado por uma bicicleta, teve um infarto fulminante que lhe custou o movimento do lado esquerdo do corpo. — Nunca disse ao senhor Ottis Olrwen quem é que cuida da mulher dele quando ele não está em casa.

Robb quase caiu pra trás.

— Oh, como se sentiria o pobre Owl quando descobrisse que a doce mulher que ele chama de mãe, ou, pelo menos, penso que chama, anda tendo um caso com alguém mais novo que ele? Você consegue imaginar aqueles grandes e expressivos olhos azuis cheios de tristeza e desolação? Consegue, Robb? Consegue ouvi-lo murmurando Owl tristemente enquanto enfia uma das sessenta e sete facas que ele coleciona no seu peito e gira, gira, e gira? Isso se o senhor Ottis não fizer isso antes? Consegue, Robb? Consegue? Consegue? Consegue?

Com os olhos lacrimejando, Robb Thanathos murmurou um aceito.

Ah, os heterossexuais.

Convencer Leoh e Any, seus pais, a colocarem-nos na Academia fora mais difícil do que parecera que seria.

— A mensalidade da escola é exorbitante — disse-lhe seu pai, sendo corroborado por sua mãe logo depois.

— E não há nada lá além de arrogância e pessoas que perguntam seu sobrenome antes do nome — ela disse.

— Marco é inteligente acima da média, não querem que ele se exercite mentalmente? E Robb nos ama tanto que quer ficar aqui esse ano. Sabe, isso seria bom para ele. Sabem como a tia Mel e o tio Grinald brigam. Isso não é um ambiente saudável para os filhos deles crescerem, principalmente para Grey — Melchior argumentara. — O ensino de lá é muito bom. Não é isso o que importa?

— Não é isso que importa aos nossos bolsos — Leoh disse, dando uma risada estúpida depois.

Quando Melchior percebeu que não funcionaria simplesmente pedir, decidiu ir a cada um pessoalmente. Começara com seu pai.

— O senhor tem razão, a Alphonse Enoi é incrivelmente cara.

— Como eu lhe disse.

— Mas é realmente uma pena eu não ir. Ritchi me disse que a senhora Farris iria mandá-lo para lá. — Era divertido ver as quase imperceptíveis mudanças de expressão facial que ele fazia ao ouvir o nome da mãe de Ritchi. — Sabe como gosto de Ritchi.

Leoh fez um murmúrio de concordância quase inaudível, fingindo não prestar muita atenção. Os olhos azuis quase púrpuras que haviam sido passados para todos os filhos eram dele, assim como o cabelo castanho acinzentado.

— Ele não vai querer ir pra lá, se eu não for — continuou dizendo Melchior. — Vou insistir para que vá. Seria bom para ele se afastar de Jardim de Ouro, pelo menos pelas manhãs. Ele anda triste.

— Por quê?

Melchior inclinou-se para seu pai, a voz impregnada de malícia e cumplicidade.

— Ele crê que a mãe dele está tendo um caso com alguém.

Por um momento, pensou ter visto Leoh engolir em seco.

— Eu acho que ela está — disse o garoto. — Sai muito de casa, sabe? Volta tarde. Creio que não posso culpá-la. O pai de Ritchi, Ike, deve ter meia dúzia de amantes. Não culpo Farris. Culpo o amante dela. É. Que tipo de pessoa iria querer se envolver com uma mulher casada que tem um filho como Ritchi? Oh, que Deus não permita que ele, algum dia, descubra quem é o amante da mãe dele. Ele trucidaria o cara. Nah, por isso que eu gostaria de ir à Academia. Ele também iria, assim, eu poderia apaziguar as suspeitas dele. No fim, poderiam até acabar. Talvez Farris não esteja tendo um caso. Tudo pode ser apenas um erro grave, apenas um erro bem grave.

Esperou mais meia hora para falar com sua mãe. Como esperava, seu pai já havia falado com ela antes, de modo que Any Chioren apenas balançou a cabeça concordantemente.

E aí está.

O primeiro dia de aula foi alguns dias depois, onde o sol dera trégua para nuvens carregadas e cinzentas que covardemente ameaçavam chover. O cenário da escola era exuberante. De um lado, uma formosa instituição. Do outro, devastação causada pelo avião que caíra no ano anterior. Podia ver o antigo prédio dos Lemnsack Hentz Barcarolli. A parte de cima estava sendo reconstruída, e fora isso, não parecia ter sofrido mais danos.

Melchior entrou na Academia Alphonse Enoi com o queixo erguido e um tímido sorriso no rosto. Marco andava a seu lado, sem calar a boca um segundo, e Robb ia atrás dele, com a cara fechada como o tempo, parecendo ridículo no uniforme muito pequeno para ele.

Era a primeira vez que Melchior usava uniforme numa escola. Sentia-se uma bisnaga de padaria enfiada num pote de caviar.

Avistou Nicholas Hentz no fundo de um espaço de eventos do tamanho de uma quadra de tênis, fazendo uma multidão de gente rir. Entre adultos, adolescentes e crianças, não conseguiu enxergá-lo direito, mas sabia que as meninas suspiravam por ele, e até alguns rapazes também.

O velho charme dos Hentz.

Havia crianças correndo por todos os lados, esbarrando em adolescentes e pais propositalmente. Uma chocou-se bem entre suas pernas, o que fez Marco rir. Porém, também fê-lo perder Nicholas de vista. Quando o reencontrou, estava enfiando-se num canto atrás do espaço, com uma garota em seu encalço.

Então aquele é o famoso Corredor? Interessante. Talvez aquele lugar precise de uma câmera de segurança.

Encontrou a sala de Marco e, conferindo a lista de alunos, percebeu que Lorenzo não estava nela.

Cuidarei disso mais tarde.

— Encontre a sua sala — disse a Robb. — Veja se está na mesma sala que Nicholas Hentz e um garoto chamado Gabriel Melnick. Depois venha me avisar.

Encontrou a própria sala, onde alguns poucos meninos e meninas conversavam como se há muito se conhecessem. Eram todos novatos, sabia disso. Naquele ano, a Academia decidira fazer uma limpa na maioria dos alunos do ensino médio e do final do ensino fundamental. Havia um número limitado de vagas, mas o colégio recolhera todas as que lhes eram apresentadas e então recusara a dos alunos mais lentos. Não era muito diferente de escolher as melhores vacas num rebanho. Era uma coisa antiética e hipócrita, já que, tradicionalmente, os alunos veteranos tinham preferência sobre os novatos.

Mas ninguém precisava saber daquilo.

Seguindo aquela lógica, Ethan Lemnsack realmente era inteligente. Melchior tinha absoluta certeza de que Nicholas só fora aceito novamente no último ano do ensino fundamental por causa do irmão. Quando Ethan terminasse a escola, duvidava seriamente de que Nicholas conseguiria voltar ao ensino médio, se eles decidissem usar aquela manobra de novo.

E no primeiro dia de aula, ele já estava se enturmando com as novatas da Academia.

Bem, pelo menos não se pode dizer que Nicholas não é um rapaz simpático.

Acima do quadro branco, havia um retrato em preto e branco de um homem branco e magro, de um semblante agressivo e com um grande e farto bigode acima dos lábios.

Alphonse Willianno Melock Enoi. Foi general na Primeira Guerra Mundial, morreu em combate, mas não sem antes fundar uma cadeia de doze escolas particulares apenas para meninos, que seus doze filhos administraram após a sua morte. Uma a uma, as Academias foram falindo. Exceto por uma que, após um tempo, foi renomeada com o nome de seu fundador, cuja diretoria é passada familiarmente de pai para filho. Como um reino. Reinos sempre podem ser conquistados.

Um rapaz mais ou menos parecido com Ritchi aproximou-se de Melchior. Tinha o mesmo corpo, embora o cabelo pendesse mais ao louro do que ao ruivo, e os mesmos olhos azuis.

— Oi, qual seu nome? — ele perguntou, com um sorriso simpático.

Ele não ia dizer Melchior, não naquele momento.

— Melon — respondeu.

— E seu primeiro nome?

Melchior ficou confuso.

— Esse é meu primeiro nome.

— Eu estava falando do seu sobrenome. — Havia um resquício de impaciência em sua voz, pequeno, quase imperceptível, mas estava lá.

— Chioren.

— Oh. Não conheço, desculpa.

E se afastou.

Até que foi uma primeira interação bem interessante.

Melchior saiu da sala e começou a andar pela escola. Os corredores eram da largura de um tanque de guerra, mas ainda assim era difícil passar sem esbarrar em alguém. Alguns pareciam esbarrar nele de propósito. Perguntava-se se o fato de Ethan ser extremamente introvertido no âmbito escolar era uma coisa boa ou ruim. De um lado era bom, pois impedia-o de se machucar criando amizades falsas movidas por interesse e salpicadas por alguns belos xingamentos pelas costas, como o próprio Melchior já experimentara. E, do outro lado, era ruim pelos motivos óbvios de ele ter dificuldade extrema em fazer amigos.

E mantê-los também, talvez. Tornara-se amigo de Gabriel Melnick e o perdeu. E a filha do governador, Amy Bellafonte, a quem os sussurros contavam por ser a única pessoa com quem ele realmente falava naquela escola que não o irmão ou o namorado, havia terminado o ensino médio no ano passado.

Ethan podia ter uma patologia mais complicada do que Melchior pensava. Talvez não tivesse que conquistá-lo à força por meio de um segredo que nem sabia se existia. Talvez pudesse se tornar amigo dele. Ele parecia ser uma boa pessoa. Era maduro, inteligente, responsável. E bonito. Ritchi certamente não gostaria daquilo, mas Ritchi era uma confusão unida em pele, osso, músculo e cabelo ruivo.

Foi encontrar Ethan numa das quatro salas do terceiro ano. Os terceiranistas tinham aula a tarde todo dia, de modo que Nicholas teria que levar Lorenzo para casa sozinho. Era bom saber aquilo.

Ethan estava com um semblante estupidamente neutro. Seu cabelo brilhava como uma pérola negra, encimando um rosto branco que incrustava lábios finos e rosados e um nariz perfeitamente idêntico aos dos irmãos. Seus olhos não demonstravam nada além de um profundo e vago vazio que vira apenas algumas vezes, em Owl e em Terry. Tudo estaria bem, se não se contasse o fato de que eles eram autistas, e Ethan, não.

Porém, encheram-se de surpresa quando viram Melchior ali.

— Você? — murmurou, perplexo.

Melchior sorriu.

— Eu. Ninguém mais teria esse rostinho.

Os olhos de Ethan eram tão estranhos. Normalmente, olhos pretos nunca eram totalmente escuros, pois refletiam a luz de quase tudo, então sempre havia luminosidade neles. Os olhos dele eram dois buracos negros. Eles não refletiam a luz, sugavam-na para seu interior. Os de Nicholas eram iguais.

— O que você está fazendo aqui?

Melchior levou algum tempo para responder.

— Você pensa que essa pergunta é muito estúpida, o que é verdade. Mas decidiu que devia perguntar assim mesmo. — Sentou-se na carteira ao lado da de Ethan. Ele realmente é bonito. Não aquela beleza clássica de Nicholas, mas é algo… diferente. Exótico. — Vou fazer o ensino médio aqui. Com meu irmão e meu primo.

— Ah… — ele murmurou, sem desviar os olhos dos de Melchior. Rápido como a lâmina de uma faca em punho, mediu-o de cima a baixo. Ele me deseja. Gostou do que viu, garotão?

— Veja, eu sei que você não gosta muito de mim, embora não saiba por quê. E isso é engraçado, porque seu ex-namorado sentia a mesma coisa pelo seu irmão. E não sabia por quê. — Ethan entreabriu os lábios de surpresa. — Mas eu realmente gostaria de ser seu amigo. Eu acho que nós poderíamos nos dar bem.

Ethan, porém, franziu as sobrancelhas.

— Você acabou de me chamar de hipócrita.

— Oh. — Pensou um pouco. Era verdade. Eu nunca fui muito bom com garotos bonitos. Sempre atropelo as palavras. — Eu… eu não percebi, Ethan. Eu sinto muito.

— Eu não preciso da sua caridade, Melon.

Cerrou os punhos.

— Não me chame de Melon.

— E não me chame de Ethan. — Sua voz estava impregnada de sarcasmo. — Me chame de senhor Lemnsack.

Você é uma pessoinha difícil, hein.

— Não precisa descontar sua dor de cotovelo em mim — rosnou, olhando para aqueles olhos negros, tão negros. — Não fui eu quem desvirginou e depois chifrou um garoto de catorze anos.

Quando viu os olhos dele arregalando e suas narinas dilatando, Melchior percebeu que o perdera.

De volta a sua sala, sentia um peso em sua nuca. Se não podia conquistar Ethan Lemnsack por bem, iria fazê-lo por mal. O amor era a única coisa mais poderosa que o medo, mas, Melchior já percebera, quando o amor não funcionava, quer dizer que o medo funcionaria dez vezes melhor.

Robb veio avisar-lhe alguns minutos mais tarde que Nicholas e Gabriel Melnick estavam na mesma sala, mas que ele estava numa diferente.

Ótimo, só mais dor de cabeça pra mim. Faltava pouco tempo para a primeira aula começar. Vamos começar a trabalhar essa Academia.

Começou com a coordenadora do nono ano.

Holga Hillls era o nome dela, com exatamente três L. Era uma mulher baixa, atarracada, mortalmente magra e com uma expressão eternamente sofrida num rosto enrugado e macilento. Um cabelo curto e artificialmente vermelho pouco contrastava com olhos castanhos sem vida. Estava no meio da meia-idade e, pelo visto, a velhice a estava atacando cruelmente. Enquanto sua coluna tendia a subir, criando uma terrível corcunda, sua pele tendia a descer.

Vestia vermelho de cima a baixo quando Melchior entrou timidamente em sua sala. Holga levantou a vista para ele, olhando através de grossas lentes um olhar de peixe morto.

— Posso ajudá-lo, rapaz? — A voz dela era lenta e hesitante. Parecia temer que ele fosse bater-lhe. Melchior quase se apiedou dela.

— Sim, senhora, na verdade, pode sim. — Sentou-se na cadeira em frente à escrivaninha dela. — Sabe, eu tenho um primo que estuda aqui, no nono ano, o nome dele é Robb… Robb Thanathos. Ele está na turma Primeira, aquela da sala 25. Eu queria muito saber se ele podia ser transferido para a turma Terceira, da sala 27.

— Oh, sim. — Holga digitou algo no computador. Olhos pequenos de rato seguiram a tela fixamente, enquanto Melchior esperava. — Oh, lamento, mas a turma Terceira já está totalmente preenchida. Receio que seja impossível realizar a transferência.

— Mas que pena. — Melchior passou o olho pela sala. Havia uma estante inteiramente cheia de livros dos mais variados tipos. Quando viu um dos exemplares, sorriu. — A senhora gosta de ler, eu diria.

Holga Hillls sorriu também. Era uma coisa meio grotesca, seus lábios enrugavam-se num arco mal feito e hesitante, as maçãs do rosto inchavam-se tanto que pareciam que iam explodir e o nariz torcia-se absurdamente para a esquerda. Frutos de uma cirurgia plástica mal sucedida, certamente.

— Sim, eu… gosto.

Melchior levantou-se da cadeira e passou o dedo sobre uma fileira de livros da mesma cor, espessura e com capas quase idênticas.

— E tem a coleção completa da série Lympharia.

— Oh, sim… quase completa. A série ainda está em andamento.

— Sei disso, sei disso. Eu a escrevi.

Viu com satisfação os pequenos olhos enrugados de Holga Hillls se arregalarem e sua boca mais enrugada ainda boquiabrir-se.

— Como disse?

— É isso mesmo. — Pegou o primeiro volume da série que já tinha seis livros e olhou fixamente a capa. Sereno Azul, chamava-se. — Não usei meu nome verdadeiro. Usei um alter-ego. Veja. — Apontou para as três primeiras letras da palavra única que compunha o nome do autor. — Mel. Vem de Melon, que é meu primeiro nome. — Depois, apontou para as cinco últimas. — Chior. Vem de Chioren, que é meu sobrenome.

Holga ainda estava abismada demais para falar.

— Usei esse nome porque meu editor acreditou que as pessoas não leriam um livro escrito por um garoto de doze anos. Eu tinha essa idade quando terminei esse primeiro volume.

— Santo Cristo — ela murmurou. Era tão baixa que mal batia no pescoço de Melchior. — Você é um gênio, Melon. De verdade… um gênio, um gênio. Com doze anos, criou um mundo inteiro com diversas culturas e tradições, povos e significados. — Ela sorriu jovialmente, o que a fez parecer ainda mais grotesca. — Sou uma grande fã sua desde o segundo livro.

Melchior achou divertido o fato de que Holga não citou as diversas cenas de sexo e estupros.

— Sempre usei inspirações reais. — Aproximou-se dela com um ar cúmplice. — Talvez, no sétimo livro, eu ponha uma personagem como a senhora. Admiro-a, de verdade. Dizem por aí que é a melhor coordenadora da Alphonse Enoi.

Diziam por aí que Holga Hillls ainda era virgem, mas Melchior não precisava citar isso.

— Oh, você é tão gentil.

Ela é minha.

— Obrigado. Bem, vou indo agora. É realmente uma pena que não possa colocar meu primo Robb na turma Terceira, seria tão bom pra mim. Bem, até mais.

— Oh, espere! — Holga voltou à escrivaninha e digitou algo no computador. — Darei um jeito nisso.

— Mas pensei que a turma estivesse lotada — Melchior disse, inocentemente. Um mestre dos segredos também precisa ser um mestre dos disfarces.

— Não quer dizer que não posso tirar alguém — ela murmurou, num tom malicioso. — Pronto, está feito. Robb Thanathos está na Turma Terceira, sala 27.

Um.

— Agradeço muito, senhora Hillls. — Ante de sair, virou-se mais uma vez para a velha e piscou o olho. — Eu nunca esqueço quem me ajuda. Nunca.

Quando saiu da sala, suspirou.

O próximo passo seria a coordenadora do quarto ano do ensino fundamental.

Totalmente ao contrário de Holga Hillls, Katherine Giucolani era uma mulher atraente e jovial. Com um enorme sorriso no rosto, logo abaixo de um nariz fino e perfeito e de bonitos olhos azuis, carregava uma cabeleira loira que batia em sua cintura.

Santo Deus, a barriga dela não existe, Melchior pensou, ao vê-la pela primeira vez. Usava uma blusa branca que mal passava do umbigo, além de uma calça de couro preta que era tão colada à pele que parecia fazer parte dela. Como uma mulher que é coordenadora de crianças vai ao trabalho vestida para matar?

Katherine Giucolani estava em sua sala quando Melchior entrou. Era um lugar ambientado para ser tranquilo, mas que tornava-se macabro quando viam-se pelo menos uma dúzia de quadros de sóis espalhados por todas as paredes amarelas.

— Olá, garotinho, posso te ajudar? — indagou, dando um sorriso perfeito para um comercial de pasta de dentes.

— Pode sim — ele respondeu. — Meu irmão, Marco Chioren, está na turma Segunda do quarto ano. Eu gostaria que ele fosse transferido à turma Primeira.

— Oh, muitos pais vêm aqui pedindo isso. — O tom de voz dela era tão condescendente que Melchior sentiu-se mais infantil que o irmão menor. Era como se o que falasse fosse tão óbvio que estivesse escrito em sua testa, e ela estivesse fazendo força para ser educada. — Mas as turmas estão todas lotadas. Seria extremamente antiético tirar um aluno de uma turma e colocar em outra para que outro possa ocupar seu espaço.

Foi ela quem sugeriu a Hellen Page para escolherem os novos alunos desse ano, passando novatos por cima de veteranos, para que pudessem ocupar seus lugares.

Perdeu a paciência.

— Não quero saber o que você ou a sua pouca moralidade acha. Escute bem — Baixou o tom perigosamente, forçando-a a prestar atenção —, sabe qual a pena que você poderia receber por transar com um menor de idade? Nicholas Hentz que o diga, hein.

O olhar de Katherine foi assustadoramente divertido.

— Você vai colocar Marco Chioren na turma Primeira. Tire qualquer aluno que for para pô-lo lá. Exceto Lorenzo Barcarolli. Acho melhor fazer o que eu digo, ou o único sol que você vai ver durante muito tempo vai ser o de através das grades da prisão. Entendeu? Entendeu?

Lentamente, Katherine Giucolani assentiu.

Dois.

O terceiro passo seria o zelador da Academia.

Não participou diretamente deste. Não sabia o nome do zelador, mas ele era chamado de Zig. Um nome medíocre para um homem medíocre. Zig estava saindo de um depósito com um macacão cinza horroroso e um molho de chaves do tamanho da cabeça de uma criança preso à parte de trás de sua cinta. Marco despontou a correr de um lado do corredor, chocou-se contra Zig, desculpou-se atarantado, e continuou correndo o resto do caminho.

Três.

Foi ter com Melchior alguns minutos depois, entregando-lhe o molho de chaves.

— O que vai fazer com elas? — ele perguntou.

— Nada que você possa ver — respondeu. Foi aí que o sinal tocou. — Vá para sua sala. Seja amigo de Lorenzo. Ele parece ser legal. Toca piano e fala italiano, vê se aprende uma palavra ou duas. E lembre-se: discrição.

O quarto e último passo deveria ser aplicado na hora do intervalo. Era o mais perigoso e delicado, se pisasse no lugar errado, seria comido por tubarões mais poderosos que ele. O Conselho escolar era formado por pessoas de boa influência, famosas e prestigiosas, como a família Overgreen. Sentia-se grato por Ethan ter matado Tommy Overgreen. Dizia-se que ele havia morrido de AVC, mas Melchior sabia que ele havia é exagerado na heroína naquele dia. A culpa não fora de Ethan, mas que ele ajudou, ajudou, mesmo que indiretamente.

Melchior sentia-se dando um golpe de estado quando entrou na sala da diretora da Academia Alphonse Enoi, Hellen Page. Fizera duas dúzias de tentativas, no mínimo, para acertar a chave do molho, mas, no fim, conseguiu.

O escritório era um ambiente bastante zen, com cores marrons e cinzas. Tinha até uma cascata de água. Hellen Page era, aparentemente, uma mulher bastante normal e quadrada. Era só aparência, como Melchior comprovou ao invadir o armário cheio de documentos de trás da sala. Saiu de lá carregando um maço de papeis, um copo e uma garrafa do vinho mais velho que encontrara dentro do frigobar escondido.

Sentou-se na grande poltrona de couro de trás da escrivaninha, pôs os pés em cima da mesa e as mãos atrás da cabeça, estirando a coluna. Serviu-se de uma taça do vinho, um líquido espesso e roxo tão escuro quanto era possível ser sem tornar-se preto, dando um gole. Queimava sua garganta. Repousou os papeis em cima da mesa. Agora, era só esperar.

Quando o sinal do intervalo tocou, indicando que ele havia terminado, Melchior soube que era hora. A porta do escritório de Hellen Page abriu-se, revelando a própria mulher.

Apesar de estar na meia-idade, ainda tinha uma beleza clássica. Olhos castanhos e um cabelo da mesma cor começando a ficar grisalho. Uma expressão dura e competente estava fixada naquela pele discretamente esticada, mas transformou-se numa surpresa ao ver Melchior ali.

Essa aí sabe onde fazer as cirurgias plásticas.

— Senhora Page — saudou-a alegremente. — Que prazer vê-la. Devo dizer que condiz com todas as minhas expectativas. — Deu outro gole, esvaziando a taça. — À sua saúde.

— O que está fazendo aqui? — ela indagou, com a voz cheia de uma fúria autoritária. — Como entrou aqui?

— Estava passando por aqui quando, acidentalmente, enfiei a chave da sua porta na fechadura, escorreguei para dentro e fui cair bem na sua poltrona, com os pés em cima da sua mesa, com o seu vinho de cento e doze anos e sua taça de cristal.

As narinas da diretora dilataram-se.

Ele é igual a Ethan. Isso vai ser divertido.

— Enquanto estava aqui, me dei à liberdade de olhar alguns dos seus arquivos pessoais — Melchior falou, jovialmente.

— Você fez o quê? — O tom de voz dela indicava que não havia nada que Hellen Page gostaria mais de fazer do que enfiar a cabeça de Melchior numa estaca e exibir em praça pública.

— Abaixe esse tom para falar comigo — disse, naquele tom perigosamente baixo que usava para falar com os irmãos quando eles faziam alguma malcriação. — Não vou tolerar uma corrupta me dirigindo a palavra.

— Corrupta? — Havia um certo asco em sua voz que fez Melchior achar que ela realmente discordava daquilo. — Como se atreve, seu… ora, vou chamar os seguranças…

— Chame! — Pulou da poltrona e engatinhou por cima da escrivaninha, até ficar, de quatro, face a face com ela. — Quem sabe eu possa mostrar a eles alguns de seus papeis.

Chutou o bolo de papeis de cima do móvel para o chão, cobrindo os calçados de trezentos dólares da diretora. Papeis que diziam coisas como Declaração de imposto de renda e Faturamento anual.

— Superfaturamento de obras é crime, sabia, senhora Page? — indagou, numa voz suave feita para sussurros e mentiras que condizia perfeitamente com aqueles lábios finos que mal se moviam e com aquele rostinho de anjo pálido, tão pálido. Saiu de cima da escrivaninha e olhou pela janela. — Realmente é um prédio muito bonito, essa nova unidade que a Academia criou para esse ano. Quanto o Conselho liberou para a construção dela, uns cinco milhões de dólares? — Virou-se para Page. — Quanto realmente foi utilizado, senhora Page? Eu vi os relatórios. Os números não batem. Há quase dois milhões de dólares que simplesmente sumiram. Provavelmente estão na sua conta bancária, mas a senhora não declarou esse dinheiro, declarou, diretora? Sonegação de impostos também é crime. Seis meses a dois anos de cadeia e uma multa de duas ou três vezes o valor sonegado.

— Você não entende. — Toda aquela autoridade de sua voz simplesmente sumira. Hellen Page era agora quase tão digna de pena quanto Holga Hillls. — Eu sou uma refém do Conselho escolar. É impossível eu fazer algo sem a aprovação deles, não tenho um centavo em mãos sem que eles me liberem.

— Quer que eu acredite que estava guardando todo esse dinheiro para planos futuros? — Melchior deu uma risada divertida. — Se o fizesse, para encobrir o que fez no passado, teria que sonegar impostos novamente. Terrível, tsc, tsc, terrível. Eu sei que usaria o dinheiro para comprar votos no Conselho.

— Todos temos que fazer coisas erradas alguma hora.

Eu que o diga.

— Não pense que lhe quero mal, senhora Page. — Havia uma melodia quase inaudível em sua voz. — Por mais incrível que possa parecer, admiro a senhora. Casou-se com Fayonir Enoi, bisneto de Alphonse Enoi, diretor da única Academia restante em sua época. Eu sei como era a administração dele. A Academia era quase uma escola militar e ainda era apenas para garotos. Quando ele morreu, já que não tiveram filhos, a direção passou a você. O Conselho era contra, mas não queriam quebrar a tradição. Fayonir tem um sobrinho que ambiciona a direção há muito tempo. — E, coincidentemente, o sobrinho é um Overgreen. Tio de Tommy Overgreen, que esteja ardendo no inferno. Oh, Ethan. — Mas a senhora detém o trono há mais de uma década. E veja só! — Levantou os braços dramaticamente. — O que a Academia tornou-se? Um bordel.

— Do que está falando?

Deuses, ela realmente não sabe.

— Ponha uma discreta câmera de segurança naquele corredor atrás do espaço de eventos sem avisar a ninguém. Ao longo de uma semana, assista a fita. Vai ter algumas surpresas. Mas não é isso de que quero falar. — Voltou a sentar-se em sua poltrona. — Os terceiranistas estão tão ansiosos pelo ano letivo, pobres garotos, seus meninos de ouro. Acho que eles merecem um descanso. Mande-os a uma excursão.

Hellen Page piscou, como se fosse a primeira vez que visse Melchior ali.

— Uma excursão? No início do ano? Ficou louco? Onde pensa que eu arrumaria dinheiro para…? — E quando ela se calou, Melchior sorriu.

Quatro.

— A senhora tem até o fim da semana para anunciar a viagem e até o fim do mês para mandá-los para longe daqui por pelo menos um final-de-semana. Acho que podemos nos dar bem se nos entendermos, senhora Page. Tenha um bom dia.

Do lado de fora do escritório da diretora, Melchior soltou a respiração.

Eles viajaram três semanas mais tarde.

Mesmo com Ethan Lemnsack estando a centenas de quilômetros de distância de Middleland, convencer Nicholas Hentz a dar a maldita festa fora um estorvo.

— Os paparazzi vão saber — ele insistira. — Vai sair em capa de tudo quanto é revista de fofoca. Ethan vai saber.

Melchior imaginou como seria não se preocupar com o que acontece com seus irmãos e primos, bastando apenas comprar uma revista numa banca de esquina para saber se se comportaram ou não.

— Você me decepciona, Nicholas — sussurrara-lhe. — Pensei que fosse uma pessoa que gosta de aproveitar as chances que tem.

— Nunca mais terei chance de coisa alguma quando Ethan me matar.

Mexer com o orgulho dele não dá certo. Ele é mais Hentz do que Lemnsack, e não é apenas na cor do cabelo.

— Você é uma lenda. — Já que orgulho não dera certo, Melchior decidira cutucar sua arrogância. — Todos na Academia Alphonse Enoi sabem disso. Aliás, todos no mundo. O último Leão Dourado, tão jovem, tão bonito, tão rico e tão poderoso. Tão carismático. Tão emocionalmente forte. Sobreviveu à morte dos pais. Sobreviveu a um tiro no peito recebido ao salvar o seu irmão ilegítimo da morte, irmão esse que você aprendeu a amar. Sobreviveu a um acidente de avião. E ainda guarda esse lindo sorriso nesse rosto dourado. Todas as meninas querem você e todos os meninos querem ser como você. Eles são seus súditos. E você é o rei deles. Dê-lhes um baile, Nicholas Hentz. É seu dever.

— Oh. — Nicholas realmente parecera gostar do que ouviu. — Você tem razão. Sou o rei deles. É meu dever. Certo, darei a festa. Mas não pode ter muita divulgação. Tem que ser algo bem discreto. Umas quarenta pessoas no máximo, certo? E vamos controlar a bebida.

Melchior assentiu.

Tolinho.

Devia haver quarenta pessoas apenas no pátio da mansão. Dois enormes refletores de luz prostrados aos lados da porta da casa jorravam duas línguas douradas que lambiam as nuvens roxas do céu. Havia tantos carros estacionados no pátio que era difícil acreditar que a maioria ali era menor de idade. Provavelmente toda a Academia e Jardim de Ouro estavam ali.

No canto esquerdo do pátio, na área gramada que Nicholas chamava de Campina, pelo menos uma dúzia de casais de todos os sexos agarrava-se à sombra dos antigos carvalhos. A luz do sol se desvanecia no horizonte, de modo que os postes de luz estavam ligados. O ar estava frio e puro como o ar de inverno deveria ser.

Do lado direito da mansão, aquela afluente do Alto Cruzeiro cuja água antes era de uma cor límpida e transparente, adquirira uma estranha coloração amarelada. O nome Garganta de Ouro parecia bem mais apropriado agora.

Melchior estava vestindo, como sempre, um sobretudo. Aquele, em especial, era preto e seus quatro botões estavam abertos, revelando uma camisa de manga comprida cinza e branca com uma comprida gola por baixo. Usava uma calça preta, mas não jeans, e sapatos da mesma cor.

Entrou na mansão.

Nicholas tivera a ideia de trancar o primeiro andar da casa aos visitantes, mas quando a contagem de Melchior ultrapassou os cem convidados, ele foi obrigado a abri-lo. Uma música mais ou menos alta era ouvida por toda a mansão, em caixas de som estrategicamente colocadas. A sala principal havia sido transformada numa pista de dança. Luzes estroboscópicas lançavam suas línguas das cores do arco-íris que dançavam sobre corpos seminus em todo o recinto.

Atravessou a sala para o jardim interno que Nicholas chamava de Jardim Púrpura. Apesar do nome gramaticalmente errado, era um local bonito. Na verdade, deveria ter sido. Copinhos plásticos poluíam o ambiente, além de um estranho cheiro que mixava cerveja e urina. A árvore que florescia pequenas flores roxas estava agora quase nua e suas flores, no chão, pisoteadas.

Genesis Purpura. Uma das árvores mais raras do mundo. Só existem alguns exemplares. Não dá frutos, mas floresce em todas as estações e durante toda a vida. Dizem que pode viver mil anos se for bem cuidada. Suas flores têm propriedades curativas.

Quase sentiu pena.

A piscina estava apinhada de adolescentes se beijando. Melchior notou sutiãs e cuecas jogados no chão, o que indicava que alguns também deviam estar nus.

Espero que Nicholas tenha o bom-senso de esvaziar a piscina quando isso acabar.

Encontrou-o no fundo do Jardim Púrpura, nos braços de duas garotas. Beijava-as. Ao mesmo tempo.

Havia outro jardim interno, bem menor que o Púrpura, mas mais cômodo e pacato. Tinha o mesmo coreto hexagonal que seu irmão maior, além de roseiras sem espinhos. Ao invés de ser totalmente aberto ao ar livre, era acobertado por uma cúpula de vidro. Aquilo era o mais incrível, o jardim fora outrora uma estufa.

Gabriel Melnick estava ali, com um copo de plástico numa mão e um sorriso adoravelmente bobo no rosto. Ele estava bêbado, certamente. Se não estava, faltava pouco. O desejo de Nicholas de controlar a bebida falhara miseravelmente. Gabriel conversava com um garoto da altura de Melchior e parecido com Ethan, com olhos e cabelos escuros, rosto comprido e um sorriso fácil, parecia ser da idade dele também.

Gabriel é muito mais bonito que Nicholas. Como Ethan o deixou escapar? Deuses.

Usava uma blusa de manga comprida branca e uma calça parecida com a de Melchior, embora fosse jeans. O cabelo escuro brilhava na luz da lua, e os olhos verdes pareciam duas piscinas naturais sob o sol de verão, ardentes e provocantes. Melchior havia visto uma foto dele no ano passado. Era um garoto, uma criança, certamente. Pelo visto, namorar Ethan Lemnsack o havia tornado um homem. Parecia ser mais velho que ele, mas era mais novo que Nicholas.

Não permitira que Robb fizesse contato com Gabriel durante as primeiras semanas de aulas, de modo que os Chioren ainda eram um mistério para ele.

O rapaz a sua frente disse algo e ambos riram. Nada como um bom flerte para antecipar uma transa. Melchior pegou-se perguntando se Gabriel já havia se deitado com alguém diferente de Ethan, e em como ele seria na cama.

Deve ser muito bom, para conquistar para si um deus como Ethan Lemnsack.

Quando o rapaz se afastou, Melchior chegou por trás de Gabriel e, propositalmente, chocou-se com o braço com o qual ele segurava a bebida. O copo voou de sua mão e colidiu contra a camisa de Melchior.

— Oh, me desculpa — ele disse, cobrindo a boca com as mãos. — Foi acidente, eu não queria…

A culpa foi minha, mas ele está se culpando. Interessante.

— Tudo bem, a culpa foi minha, não se preocupe. Ah, meu nome é Melchior. — Estendeu a mão.

— Melchior? — ele sorriu com o canto da boca, revelando uma covinha. Ethan sorri igual. — Que nome… diferente. E bonito. Meu nome é Gabriel. Acho que sujei sua camisa inteira.

A Estufa estava vazia, Melchior percebeu. Todos haviam ido embora, exceto por ele e Gabriel.

— Eu nem gostava dessa camisa mesmo — riu. Tirou o sobretudo e jogou-o no chão. Sentia-se nu sem ele, mas era exatamente o que teria de ficar dentro de pouco tempo, se Gabriel não cooperasse. Então tirou a camisa. Divertiu-se ao ver quão pouco sutil ele era ao medi-lo. — Está gostando da festa?

Gabriel pareceu despertar de um transe.

— Estou. S-Sim. Estou.

— Ah, Nicholas Hentz vai morrer quando Ethan descobrir que ele deu essa festa. Ele fez sem a permissão de Ethan, sabia disso?

— Ah, é mesmo…? — Gabriel começou a ficar interessado demais em olhar para o céu. E ereção dele era evidente. — É, ele vai se dar mal. Ethan nunca o permitiria fazer uma festa assim. Ethan nunca o deixava fazer nada.

— Você parece achá-lo muito chato.

— Ele é.

— Por isso terminou com ele?

Gabriel olhou para ele. Melchior estava sentado no chão, com as pernas esticadas, o peito estendido, apoiado nos próprios braços, olhando para o céu.

— Como sabe que já o namorei?

— Todo mundo sabe disso, Gabriel Melnick. Todas as meninas te invejavam por isso. Alguns meninos também.

Gabriel sentou-se ao lado dele, abraçando as próprias pernas.

Ele é tão alto.

— Não terminei com ele por causa disso.

— O que houve, então? Ele te traiu? — Ele corou. — Não precisa ter vergonha de dizer isso — Melchior falou. Casualmente, passou a mão pelo próprio peito. — Todo mundo já foi traído alguma vez. Inclusive eu.

— É mesmo? Por que alguém trairia alguém como você? — Não havia nenhum resquício de flerte na voz dele.

— E por que alguém trairia alguém como você? — Na de Melchior, havia.

Gabriel deu um sorriso triste.

— Não sei. Simplesmente, não sei. Sempre pensei que era suficiente para ele. Eu o amava muito, de verdade. Mas acho que ninguém nunca será suficiente para Ethan Lemnsack. — Se nem Nicholas Hentz é, imagine você. — Sim, ele me traiu. Eu não consegui aguentar isso. Eu tentei… mas, no fim, acabei terminando com ele. Ele ainda quer voltar, mas não falo com Ethan desde o início do ano.

— Ele foi um estúpido — disse, bruscamente. — De verdade, um grande idiota. Que tipo de pessoa faria valer a pena te trair? Ninguém, eu digo, ninguém.

— Tenho certeza que Danny Nevarnost discorda disso.

Melchior ficou confuso.

— Quem?

— O garoto com quem ele me traiu.

Ficou sem palavras.

— Era vizinho de Ethan no antigo prédio em que eles moravam. Foi em Paris, ele me disse, quando viajou com Nicholas e Lorenzo, na metade do ano passado.

Melchior não podia acreditar. Depois de todo o esforço que empreendeu, todas as chantagens que aplicou, todas as pessoas que ameaçou, Gabriel Melnick dizia-lhe agora que Ethan traíra-lhe com um vizinho qualquer… não com seu irmão. Não com Nicholas. Talvez eles não tivessem um caso. Talvez fosse apenas coisa de sua cabeça. Já errara antes, por que não de novo? Afinal, se Nicholas Hentz gostasse de garotos, já deveria ter comido meia centena àquela altura da festa. Mas ele ficara apenas entre as garotas.

Mas o suposto caso deles era a única coisa que Melchior tinha para conquistar Ethan. O nome Hentz poderia estar perdido para ele.

— Eu ainda o amo — Gabriel admitiu. — Muito.

E aquilo acendeu uma luz em sua cabeça.

Talvez esteja aí a explicação de tanta apatia e agressividade por parte de Ethan Lemnsack. Eu ainda tenho como conquistá-lo. Se não pode ser por medo, terei que voltar ao amor. Vou devolver Gabriel Melnick a ele.

— Venha cá. — Segurou o rosto dele com uma das mãos e o beijou.

Ritchi sempre soubera que Melchior era sexualmente promíscuo por necessidade de angariar segredos sussurrados na calada da noite, no leito de uma cama, no calor de um beijo. Sob suspiros e gemidos, muito coisa era dita e deixada escapar. Ritchi sempre soubera disso e nunca se importara. Ele mesmo se prostituía às vezes, Melchior sabia disso.

Por isso não se importou em arrancar a calça de Gabriel e depois a própria e jogá-las junto com as outras roupas. Gabriel era realmente bom no que estava fazendo. Beijou Melchior em lugares onde nunca esperara ser beijado, chupou-o e mordeu-o do pescoço aos pés, parando realmente nestes. Pretendia montá-lo, mas, no último momento, Melchior se viu debaixo de Gabriel, com as pernas arqueadas, enquanto sentia seu membro foder-lhe com tanta vontade e vigor quanto há muito não sentia com Ritchi. Era maior que o dele, certamente, e machucava-o um pouco, mas fingiu não sentir nada além de um enorme e puro prazer, o que não foi muito longe da verdade.

Sentiu-se em chamas quando Gabriel ejaculou dentro dele. Seu orgasmo veio um pouco mais tarde, quando o mais novo meteu seu membro na boca e chupou-o até que gozasse, enchendo sua boca de semente branca e viscosa.

Quando acabaram, vestiram-se e só então limparam a sujeira das roupas.

— Meu nome é Melon Chioren, na verdade — sussurrou-lhe. — Esse é o meu primeiro segredo. Qual o seu?

Gabriel sorriu e deu-lhe um selinho nos lábios, coisa da qual Melchior gostou por demais.

— Você é a única pessoa com quem eu estive além de Ethan.

— E espero estar muito mais, muitas vezes mais…

Passaram as horas seguintes juntos, conversando, divertindo-se, bebendo, dançando e fodendo de novo nos incontáveis quartos da mansão, sozinhos, como dois amantes proibidos. Melchior percebeu que Gabriel era adoravelmente acanhado para falar de coisas como sexo, mas que, se encorajado, amava fazê-lo.

E Melchior fodeu com ele em todas as posições que conhecia. E eram muitas, muitas mesmo. Penetrou-o apenas uma vez, quando ele insistiu em cavalgar. Era maravilhoso. Parecia Ritchi em termos de fôlego na cama.

Ele foi embora à meia-noite. Despediram-se com um beijo caloroso.

Melchior encontrou Ritchi Revonne sentado no parapeito da janela de uma sala de TV do quarto andar, que estava vazia. Àquela altura, todos os andares da mansão estavam abertos. Devia ter quase trezentas pessoas dentro dos muros da casa.

— Não gosto que fique aí em cima. — Ritchi tinha uma mania irritante de se empoleirar nos lugares mais perigosos. Olhou através da janela. Era uma queda de quinze metros, no mínimo. — Tenho a impressão de que você vai cair e morrer.

— Talvez eu deva fazer isso — ele sussurrou, olhando para baixo. Algo em sua voz deixou Melchior apreensivo. — Talvez possamos todos pular do quarto andar de algum lugar e morrermos felizes, que nem Charles e Mary Lemnsack Hentz.

— Eles morreram num acidente de avião.

— E Ethan e Nicholas, não.

Ele sabe que transei com Gabriel, Melchior pensou.

— Sabia que Marco está aqui? — Ritchi indagou.

— Ele veio escondido. Mas não é estúpido, ele sabe que sei que ele está aqui. Está com Lorenzo. Saia da janela, Ritchi.

Ele saiu. Em pé, era tão alto quanto Melchior. Provavelmente tinha a altura de Gabriel, mas Gabriel era magro, enquanto Ritchi era todo músculos. Seus braços envolveram a cintura do menor e o puxaram para um beijo.

— Quero você — ele disse. Enfiou uma das mãos dentro da calça de Melchior, pela parte de trás. — Quero você montado em mim, aqui, agora.

— Eu… eu não posso, Ritchi. — Transara tanto com Gabriel que só de pensar em ter outra ereção, seu baixo-ventre doía.

— Gastou tudo com Gabriel Melnick? — ele rosnou, entre dentes. — Acho que vou foder com Ethan, assim ficamos quites.

Melchior se afastou dos braços dele.

— Por que está assim? Você sabe que eu só faço isso por necessidade. Escute, Gabriel não terminou com Ethan por causa de Nicholas. Ethan o traiu com outro garoto qualquer. Já que eu não posso conquistar o patriarca da família Hentz com uma chantagem, tenho que fazê-lo gostar de mim.

— Ethan odeia você.

— Ethan odeia todo mundo. Você não entende? Ele está um saco porque quer Gabriel de volta, e Gabriel o quer de volta também. Eles ainda se amam. Vou dá-lo de presente a ele.

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— Que adorável, você de cupido. — A voz dele estava impregnada de asco. — Não precisa esfregar a sua inteligência na minha cara estúpida, Melon Chioren, mestre dos segredos, mestre dos sussurros, rei de um império de segredos, mentiras e traições. Eu estou cansado da sua promiscuidade.

— Ela não é real.

— Isso mesmo! — ele exclamou. — Tudo isso é uma mentira, a sua vida, as suas relações. É tudo um jogo pra você, não é? O jogo da vida.

Manipula-os, tornas-te amigo deles, trai-lhes se necessário, mente, engana, chantageia, ameaça. É isso que tu és, é disso que tu és feito.

— Não se pode ser rei de um império, Ritchi. Impérios têm imperadores, não reis.

Ritchi cuspiu na cara de Melchior. Isso foi o que mais o assustou, não o que ele disse, mas o que ele fez. Melchior caiu pra trás sem necessidade, perdendo o controle das pernas.

— Seja imperador, rei ou o caralho a quatro, Melon. Eu cansei. De tudo. Principalmente de você.

Ele sentia lágrimas virem-lhe aos olhos. Melchior nunca chorava porque nunca precisava, mas ali estava ele, dilacerado por dentro. Palavras sempre foram seu forte, então por que aquelas machucavam-no tanto?

— Por que você não me bate logo, Ritchard? — indagou. — Vamos, use esses punhos enormes para algo que não seja bater uma para mim. Destrua meu rosto, acabe com a minha promiscuidade.

— Eu não me rebaixaria a tanto.

— Depois de tudo o que eu fiz por você? Depois de três anos juntos, Ritchi? Depois de termos transado pela primeira vez naquela clareira na floresta em que eu te escondi após você ter posto fogo naquele armazém? Vai jogar isso fora?

Por um momento, uma centelha de dúvida passou pelos olhos azuis do ruivo.

— Por mais que eu tentasse esquecer o que você já fez… eu não conseguiria deixar de pensar que você faria tudo de novo sem remorso.

Ele me conhece bem demais para acreditar nas minhas mentiras.

— Você é um monstro, Melon. — Não havia nojo em sua voz, daquela vez. Era mais algo como… pena. — Você mesmo me disse uma vez para não confiar em você. Nunca. Desobedeci a essa regra tantas vezes, tantas… e olha só. Você não quer se assumir. Tem medo de como seus pais reagiriam, mesmo sabendo que não há ser humano na terra que possa fazer mal a Melchior. Temos que nos esconder na minha casa para que eu possa te amar em paz, e você tem vergonha de dizer o que sente até quando estamos a sós. Fala pra mim, Melon. Fala “eu te amo”, só uma vez. Só pra provar. Pra que eu possa voltar a acreditar em você. “Dinheiro e poder são tudo”, você já me disse. Prova pra mim que isso não é verdade, Melon. Que você me ama.

O amor é teu inimigo. Torna-te fraco e covarde, faz-te ansiar por experiências egoístas e mesquinhas. Quebra teu império. Amas alguém e ele tornar-se-á teu maior amigo, teu maior confidente, teu braço direito… e, eventualmente, teu inimigo mais perigoso.

Eram pensamentos de Melchior, e Ritchi não estava falando com ele, estava falando com Melon.

— Meu nome é Melchior — disse, levantando-se. — Melchior. Não Melon. Não me chame disso. Nunca mais. Você sabe o que acontece com quem me trai. Você sabe o que, eventualmente, acontecerá a você. Você escolheu o que escolheu, Ritchard. Eu juro que vou te fazer se arrepender.

Saiu da sala, com o peito e a cabeça erguidos. Ele era Melchior, manipulador de fantoches, mestre de segredos e sussurros, imperador de um império feito de segredos e mentiras, traições e chantagens, um império erguido das cinzas apenas com palavras. Ele era Melchior e não iria ser derrubado por um garoto estúpido e simplório como Ritchard Revonne.

London Weswalk estava sentado numa poltrona de uma sala do terceiro andar, vestido completamente de preto, com uma corrente de pentagrama no pescoço e bebericando uma bebida muito clara e com um cheiro muito forte. A seus pés, Owl estava sentado no chão de pernas cruzadas, com as roupas de sempre, fazendo círculos com os dedos, murmurando uma palavra da qual só ele sabia o significado.

— Você parece péssimo — London disse, muito baixinho. Ele sequer levantou a vista para olhá-lo. — Isso é péssimo. — Afastou a bebida de si. — Owl, experimente.

O garoto-criança pegou o copo com curiosidade e levou-o aos lábios. Deu um gole, murmurou um Owl e entornou todo o resto da vodka como se fosse água. Limpou os lábios com as costas das mãos, agradeceu a London com outro Owl e voltou à antiga tarefa de fazer círculos no chão com os dedos.

— Por que nós não apenas nos jogamos do quarto andar de um prédio e acabamos com o sofrimento da vida? — Melchior perguntou, jogando-se no sofá. Havia apenas eles três na sala, ninguém mais.

— Porque a vida tem que ser vivida, é pra isso que ela serve. — Os artificiais olhos vermelhos de London brilhavam, dando-lhe um ar demoníaco. — Nós nascemos, crescemos, amamos, lutamos e morremos. Como sempre foi. Foi Ritchi?

Melchior ficou surpreso.

— Como sabe disso?

— Ritchard Revonne é a única coisa que consegue abalar Melchior. E você está bem abalado, Melon.

— Meu nome é…

— Estou falando com Melon, não com Melchior. Ponha abaixo essa muralha que você construiu para si mesmo e deixe-me ver o que há por trás dela. — Apesar da voz de London ser incrivelmente baixa, havia um rosnado natural nela, fazendo-o parecer sempre enraivecido. Mas ele raramente estava assim. London raramente estava qualquer coisa. — Melchior construiu seu império com palavras, e as mesmas podem derrubá-lo. Melon é um garoto de quinze anos apaixonado por seu melhor amigo, que acabou de irritá-lo, que terminou um namoro de três anos, que está acabado por dentro, que é insuportavelmente teimoso e tudo o que quer é chorar. E Melchior é um imperador cruel e perverso que o impede de fazer isso porque pensa que demonstrará fraqueza.

— Quem você pensa que é para me julgar por mostrar ou não mostrar sentimentos?

— Há uma diferença entre suprimir sentimentos, criando uma neutralidade artificial, e simplesmente ser neutro por natureza. — London fez uma pausa. — Você sabe o passado de todo mundo, mas ninguém sabe o seu. Eu gostaria de saber. Como você se tornou isso que é hoje? Como Melchior nasceu? O que você era antes de se mudar para Jardim de Ouro? O que aconteceu no seu passado que você não quer que ninguém saiba, Melon Chioren?

Melchior virou a cara. London não precisava saber, não devia saber… ninguém devia saber, nunca mais.

— Você não quer dizer. Mas tudo bem. Você tem sete irmãos e quatro primos. Perguntarei a algum deles.

— Eles nunca vão cantar pra você — rosnou. — A lealdade deles é minha. De todos os meus passarinhos.

— Acho que não é não, Melchior — ele retorquiu. — Se fosse, como eu saberia que brigou com Ritchi? Todo Jardim de Ouro sabe disso, e até quem não te conhece. Há alguém cantando. E se cantou isso, cantará um pouco mais.

Melchior engoliu em seco. Marco.

— Owl — concordou Owl. O garoto levantou-se e, com cuidado para não pisar nas linhas do piso, saiu da sala, saltitando.

Logo depois, ouviu-se um grito desesperado.

London e Melchior saíram da sala e viram Owl encolhido contra a parede do corredor, com os olhos azuis cheios de medo e confusão. Lance Chioren estava logo a sua frente, com um sorriso estúpido na cara.

Era tão parecido com Melchior que dava nojo. A mesma cor de cabelo, castanho claro quase cinza, os mesmos olhos azuis quase púrpuras, mesmos lábios, nariz e formato de rosto. A diferença é que Lance era uns vinte anos mais velho que Melchior, embora ainda fosse o irmão mais novo de seu pai e aparentasse dez anos a menos do que tinha. Comportava-se como um adolescente.

— O que está fazendo com Owl? — London indagou.

— O que está fazendo aqui? — Melchior quase gritou. Se todo mundo realmente sabia que tinha brigado com Ritchi, não poderia dizer o quanto Lance sabia, e o quanto contaria a seus pais, e quanto tempo eles levariam para somar dois mais dois.

— Ora, rapazes, eu é que pergunto isso — ele riu. Owl tentou sair do cárcere em que se encontrava, mas, quando se esquivou pela esquerda, Lance cobriu-lhe a passagem. Ele voltou para onde estava, desesperado para sair.

— Owl — gemeu, triste.

Melchior sentiu a ira inflamando dentro de si.

— Deixe-o ir, qual o seu problema? Não vê que ele… — Lance passou a mão pelo cabelo louro prateado de Owl. — Não!

Melchior já vira aquilo acontecer, alguém tocando no cabelo dele. A reação fora assustadora. Naquela vez, não foi diferente. Owl deu o grito mais estridente que já ouvira na vida, tão alto que jurou que toda a mansão conseguira ouvir. Lágrimas começaram a descer de seus olhos azuis e ele se encolheu em posição fetal, começando a se debater horrivelmente. Parecia estar tendo um ataque epiléptico.

Lembrava-se de que, um dia, a Senhora da Língua de Aço dissera-lhe que, quando ele ficava naquele estado, era seguro tocá-lo por um tempo. Na verdade, era crucial, ou ele não pararia quieto.

Melchior empurrou Lance bruscamente para longe da coruja e fê-lo sentar-se. Sentou-se em frente a ele e abraçou-o com força, sentindo seu corpo tremer. Owl não tentou se soltar, apenas continuou chorando e murmurando o próprio nome.

— Shhh… Rhanys — Também era necessário chamá-lo pelo nome verdadeiro —, Rhanys, pequena coruja. Acalme-se. Acalme-se. Sabe quem está aqui, com você? Melon. Seu amigo, Melon Chioren. Melchior. — Sua voz era um sussurro. Owl ainda se lamentava. — Rhanys, eu to aqui com você, te abraçando, te protegendo. Ninguém mais vai te tocar, está bem? Eu prometo. Ele nunca mais vai te tocar. Rhanys. — Limpou as lágrimas que escorriam pelas bochechas. Elas pararam de descer, e seus olhos passavam de um profundo vácuo para um medo e confusão hesitantes. — Rhanys. — Beijou-lhe as duas bochechas, como um dia vira Olenna Olrwen fazer, então sua testa e, por último, a ponta de seu nariz. — Está tudo bem agora. Levante-se.

Levantou-se e ofereceu a mão a Owl para levantar-se também. Não havia nada no rosto dele, mas havia vida naqueles diamantes azuis incrustrados onde deveriam estar seus olhos.

Owl pegou-lhe a mão, levantou-se, olhou para a própria mão que segurava a de Melchior, arregalou os olhos e afastou-se rápido.

— Owl — agradeceu. Limpou o casaco branco e saiu saltitando pelo corredor, feliz. — Owl, Owl, Owl, Owl, Owl, Owl…

Quando ele sumiu de vista, Melchior pulou em cima de Lance.

O primeiro soco que deu na cara dele deu-lhe uma sensação tão boa que deu um segundo, e ia dar um terceiro quando London o puxou para trás.

— Melchior, não! — ele ralhou, enquanto o prendia entre os braços. Era muito mais forte do que parecia ser. — Não vale a pena.

— Vai valer a pena quando eu arrancar todos os dentes desse filho da puta. — Lance já havia perdido um ou dois, sua boca estava cheia de sangue. — Qual o seu problema?! Você sabe que não pode tocar nele, todo mundo sabe disso.

Lance levantou-se e cuspiu uma bola de sangue aos pés de Melchior.

— O que eu sei é que você brigou com seu namorado, isso todo mundo sabe. O que Leoh e Any pensarão quando descobrirem que o filho deles é um viadinho, hein?

— O que todo mundo pensará quando descobrirem que você tem um caso com Brienne? — Melchior podia sentir London resetando-se por trás dele.

— Jamie Weswalk é um retardado. Não consegue nem chupar a boceta da mulher dele direito.

E, de repente, era Melchior quem segurava London.

— Não se atreva a abrir essa boca pra falar do meu pai! — ele rosnou, sua voz parecendo um rugido esganado.

— Já me dei com vocês — Lance falou. Limpou o sangue da boca com as costas da mão e deixou o corredor.

Melchior soltou London. Seu rosto era água parada, ocultando tudo, não deixando passar nada. Uma máscara de ferro para London, assim como Melchior era para Melon.

— London… — murmurou.

— Preciso ir — ele disse.

— Vá.

Ele foi.

Os minutos passaram e Melchior sentiu-se subitamente sufocado.

Vou achar Marco e ir para casa. Tenho mais alguns pecados a cometer.

Marco estava entre duas garotas com peitos do tamanho do universo, fazendo-as rir com aquele papo fácil e aquele rostinho bonito que tinha. Puxou-o do meio delas sob o protesto do menor, mas não ligou. Tinha contas a acertar com ele também.

Antes de sair, viu Nicholas com Lorenzo. Marco acenou para o menor, mas ele obviamente não acenou de volta.

Manipula-os, tornas-te amigo deles, trai-lhes se necessário, mente, engana, chantageia, ameaça.

Estava escuro lá fora. O ar ainda estava frio, o que tornava o clima gostoso.

É isso que tu és, é disso que tu és feito.

Não havia mais ninguém no pátio, os carros se foram quase todos, deixando apenas sujeira, muita sujeira…

O amor é teu inimigo. Torna-te fraco e covarde, faz-te ansiar por experiências egoístas e mesquinhas.

Marco se debatia em sua mão, mas Melchior não se importava…

Quebra teu império.

… camisinhas cobriam a grama da Campina…

Amas alguém e ele tornar-se-á teu maior amigo, teu maior confidente, teu braço direito… e, eventualmente, teu inimigo mais perigoso.

… e uma cor avermelhada tingira a água do Garganta de Ouro.

Espera… avermelhada?

Melchior aproximou-se do riacho. Sua margem era protegida por um muro de cimento, mas era tão baixo que até Marco podia saltar por cima. Ao longe, do lado esquerdo, o rio atravessava os muros de Jardim de Ouro e desaguava no Alto Cruzeiro.

— Melchior… — murmurou Marco. Ele havia parado de se mexer. Seus olhos eram duas bolas azuis e púrpuras. Apontou para o lado direito, para um tronco de madeira que represava o rio.

Não é um tronco de madeira. Santo Deus… a água… vermelha…

Murmurou um nome.