Como Vivem Os Anjos

72 O Lamento de Henry (B*Ô*N*U*S)


Notas iniciais
Outra one-shot, dessa vez sob o ponto de vista de Henry Beauchamp, que na segunda temporada se torna o melhor e o único amigo de Lorenzo na escola. Essa história se passa durante a segunda temporada.

Havia certos dias em que Henry Beauchamp acordava com nenhuma vontade maior do que a de ser inútil ao progresso de seu país e ficar deitado na cama o dia inteiro, mesmo nos dias de aula. As condições eram favoráveis, os pais saíam para trabalhar muito cedo e o irmão mais velho não podia se importar menos se Henry ia à escola ou ficava em casa, se vivia ou morria.

Por isso agarrava o celular, ligava para seu melhor amigo e exigia ao menos três razões para ir à escola. Precisava ligar, ele era cego e não podia ler mensagens.

Henry foi o primeiro a falar quando ele atendeu:

— Por que você está acordado tão cedo?

Que importa? Está reclamando de eu estar satisfazendo seus caprichos?

— Estou curioso. Responda.

Meu corpo ainda está no fuso horário da Sicília.

— Está o cacete. Você acorda cedo porque não tolera a ideia de perder um dia de aula, seu nerd. Por isso que está na turma dos avançados.

Você também está!

— Não vem ao caso. Por que eu deveria ir à escola hoje?

Se você estiver em casa quando seus pais voltarem, vai ficar de castigo. Vão te fazer lavar a louça. E você odeia lavar a louça. Lembra? Lembra, Henry? Eu lembro.

Numa ocasião em que Lorenzo visitara a casa de Henry, Henry o persuadira a lavar a louça do almoço por ele. Como conseguira, só Deus sabia.

— Certo, vou aceitar essa. Manda a próxima.

Um dia a menos na escola é um dia a menos sem ver Jill Nevarnost. E eu sei que você gosta muito de olhar para ela.

— Ei, cuidado com o que fala. Não tem medo de que o telefone esteja grampeado? Tudo é possível com vocês, os Hentz. Qual a terceira?

Não consigo pensar numa terceira. Deixe-me fazer chantagem emocional, então. Se você faltar, eu não vou ter ninguém para ir ao refeitório por mim.

— Não sei se vai funcionar. Eu não sou uma pessoa tão boa assim.

Essa não é a chantagem. A chantagem é que isso vai me irritar o suficiente para contar aos professores que você faltou às aulas de propósito. Vejo-o na escola.

Ele desligou o telefone e deixou Henry à própria sorte. Com muita dificuldade, levantou da cama, desligou o despertador que vinha tocando incessantemente há uns vinte minutos e se enfiou no banheiro.

Vinte minutos depois, descia as escadas para o hall. Sua cara era pequena e elegante, com paredes altas e austeras pintadas em cores neutras. Sentia-se numa igreja todas as vezes que entrava naquele hall, era como se se preparasse para uma procissão, só faltavam os murais multicoloridos. Certa vez, durante uma visita num dia ventoso, Lorenzo comentara que as correntes de ar da casa pareciam entoar uma melodia, como se a casa tentasse se comunicar. Era o tipo de coisa sinistra que ele gostaria de sussurrar assustadoramente se fosse convencido a lavar a louça de Henry por Henry.

Não havia ninguém na sala de estar, nem no escritório, nem na pequena sala de jantar. Os pais já haviam-se ido, depois teriam um intervalo para o almoço e então só voltariam após o jantar. Eram pessoas que trabalhavam demais e que amavam os filhos, mas não tinham muito tempo a dispor para eles. Henry supunha que parte das anualidades da Academia Lexington incluísse amor parental.

O irmão mais velho de Henry estava sentado ao balcão da cozinha. Terminava uma tigela de alguma coisa com uma mão e digitava no telefone avidamente com a outra. Ele era um garoto alto para a idade, de boa aparência e agradável de se ver; tinha cabelos curtos extremamente pretos e olhos azul-claros. Henry era igualzinho, só que em escala menor.

Ambos já vestiam o desconfortável uniforme da Lexington, calças e sapatos sociais; paletó e gravata.

— Bom dia — disse Henry.

Harry Beauchamp não disse palavra e não interrompeu nenhuma das duas atividades. Henry então notou que ele tinha na tigela os restos de seu cereal favorito. Decidiu não reclamar e foi pegar outro. Menos açúcar faria bem a seus dentes, de qualquer forma.

— Com quem está falando? — indagou enquanto se servia.

— Por que você se importa? — ele resmungou. Quem não o conhecesse, podia pensar que estava mal-humorado, só que não estava.

— É uma garota? — Sabia muito bem que não era uma garota e Harry sabia que ele sabia. — Se deu bem na festa de Amber Mayer ontem?

Harry se levantou, colocou a tigela na pia — sem lavar, é claro, ele nunca lavava nada — e se dirigiu ao hall. O táxi havia chegado.

— Espere! — chamou Henry. — Você pode me esperar? É que meu dinheiro acabou, não posso pagar outro táxi.

— Então pegue um ônibus — respondeu Harry antes de sumir pela porta da frente.

Empurrou o copo para longe e suspirou, inconformado. Parecia que Harry fazia esse tipo de coisa como parte de uma vingancinha insignificante entre irmãos, mas a verdade era que ele não se importava mesmo.

Embora Jill Nevarnost houvesse faltado, o dia na escola foi bastante agradável. Lorenzo não estava com fome, afinal de contas, e Henry não teve que ir ao refeitório por ele. Seus dois irmãos mais velhos estavam doentes, os dois ao mesmo tempo, e haviam faltado também, ele fora sozinho e de táxi. É claro que passara meia hora falando sobre como fora uma experiência assustadora.

— Você mora a oitocentos metros da escola — cortou-o em dado momento. — Pare de se achar alguma coisa. Nenhum de nós significa nada.

Ele então colocou a mão em seu ombro e perguntou se o problema era seu irmão. Henry nem disse nada, Lorenzo saberia que sim. E também não queria conversar sobre aquilo ou seria obrigado a olhá-lo nos olhos… e os olhos dele podiam ser bem aterrorizantes. Mas não contaria isso a ele. Decidiu inventar outra coisa para falar até que o intervalo acabasse e eles pudessem voltar às aulas.

Foi quando deu meio-dia que Henry viu surgir bem a sua frente uma oportunidade de ouro. O irmão mais velho de Lorenzo, o famoso Nicholas Hentz, a pessoa mais popular da escola, veio perguntar se gostaria que o levasse para um restaurante como agradecimento por ter cuidado dele àquela manhã em que faltara.

A oportunidade de ouro existia pelo simples motivo de que Nicholas era um dos melhores amigos de Harry.

— Adoraria — respondeu Henry. — Por que você não chama Harry também? Mas não diga que eu vou.

— Por que não? — Nicholas perguntou, depois sorriu e assentiu, sem esperar resposta. Diferentemente de Harry, Nicholas era gentil e atencioso com Henry, o bastante para compreender os sentimentos conflitantes que se passavam entre os dois Beauchamp e fazer todo o possível para resolvê-los. — Tudo bem, vou chamar Harry e mais algumas pessoas, assim vai ficar menos óbvio.

Ele pediu aos dois garotos que em meia hora fossem encontrá-los num restaurante perto da Lexington e se despediu. Afastou-se dos dois com exuberância. Por algum motivo, ele não conseguia dar dez passos sem que alguém fosse chamá-lo para conversar.

— Sabe, Lorenzo — comentou com seu amigo, sabendo que ele não comentaria com mais ninguém por dois motivos: era confiável e, bem, nenhum dos dois tinha outro amigo. — Eu não sou gay. Juro que não sou. Harry é, você sabe disso, ele é gay como uma fada, mas eu não. Mas eu seria por Nicholas.

— Henry, você está querendo tirar meu apetite?

— Bem, o restaurante que ele escolheu é bem caro.

— É, mas Nicholas vai pagar por todos. Ele sempre faz isso.

Nicholas devia comer naquele restaurante com muita frequência porque os dois garotos foram imediatamente levados a uma mesa reservada nos fundos, uma das maiores e mais bem-localizadas, quando anunciaram quem estavam procurando. Henry precisou apenas ver o granito no piso para perceber que definitivamente não tinha capacidade de pagar nem por um copo d’água.

Agradeceu a Nicholas por convidá-lo.

— Não há de quê — ele respondeu gentilmente. — Comecei a vir mais para cá depois de Lorenzo dizer que preciso aprender a melhorar minha postura. Olhe para ele. Parece uma estátua.

Era verdade. Lorenzo sentava-se com a coluna reta como uma régua, queixo empinado e sem cotovelos na mesa. Henry sentiu-se incrivelmente rudimentar.

Além dos três, estavam presentes na mesa duas amigas de Nicholas cujos nomes Henry acreditava serem Lucille e Andrie, Harry, uma prima de Harry e Henry chamada Mia e Cameron Pearl. Aquilo sim era uma surpresa. Ao que Henry soubesse, uma das poucas coisas que Harry lhe contara, era que Nicholas e Cam não se falavam há meses por causa de um desentendimento ou algo assim.

Mia estudava na Lexington também, mas era mais velha que todos eles e Henry sabia que ela não conhecia Nicholas. Havia duas possibilidades: ele pode tê-la convidado por educação ou porque estava mortalmente a fim dela. Henry apostava na segunda opção. Podia perguntar a Lorenzo, ele era bom com emoções.

Nicholas pediu as entradas enquanto entretinha seus admiradores. Ele falava só ocasionalmente com Cam e Harry porque preferia fazer as garotas rirem com suas piadinhas. Só que Mia não ria, só sorria educadamente. É, ela era uma muralha de pedra difícil de quebrar.

Em dado momento, Harry começou a falar sobre algo muito antigo que tinha acontecido pouco após ele e Don conhecerem Nicholas. Donald Finnigan era o outro melhor amigo de Nicholas, mas ele não estava presente.

— Foi em 2009, pouco antes das férias de inverno — dizia Harry ao resto da mesa. — Eu lembro direitinho porque havia acontecido uma raridade absurda: estava nevando. Tudo estava branco, tão branco quanto os alunos da Lexington. — Algumas pessoas riram, exceto Nicholas e Lucille, que apenas sorriram educadamente. Às vezes Harry sabia ser extremamente insensível. — E eu e Don havíamos aceitado o desafio dos cem exames.

O desafio dos cem exames foi um desafio criado por yearshipers para os alunos do ensino médio. O aluno que aceitasse o desafio deveria conseguir de forma consentida cem exames ou testes da escola de cem alunos diferentes, depois ir até o meio do Jardim das Gardênias, a área do fundamental, e tocar fogo neles.

— É, não podia ser no Campo Verde porque grama e fogo não combinam — continuou Harry. — Quem cumprisse o desafio teria o privilégio de andar nos terrenos do yearship para sempre, levando um acompanhante. Um paraíso.

Ele fazia isso parecer uma viagem às Bahamas.

— Não parecia ser muito difícil — comentou Andrie.

— E não era — confirmou Harry. — Só que duas pessoas há haviam conseguido e a reitoria estava de olho no Jardim das Gardênias o tempo todo. Eu implorei aos yearshipers que fizeram o desafio para mudarem o local, mas eles não deixaram. As férias estavam chegando e o prazo final era o último dia de aula antes delas. Eu estava meio desesperado. Queria muito poder andar no yearship.

“Don também queria, por isso juntamos forças. Achamos que, se fizéssemos um único desafio juntos, cada um ganharia. Fomos inocentes, os yearshipers provavelmente iriam tentar nos enrolar da mesma forma que tentamos enrolá-los, mas não importava na época. Don conseguiu cinquenta exames, cada um com a assinatura do dono para provar que ele ou ela nos deu consentimento, e eu consegui quarenta e seis.

“Me faltavam quatro exames, era o último dia de aula e antes de queimá-los nós tínhamos que mostrá-los a um dos yearshipers para ele conferir se estava tudo certo com quantidades e assinaturas antes que colocássemos fogo, por isso fiquei duplamente desesperado, mas eu e Don não conhecíamos mais ninguém que se dispusesse a nos dar testes. Ninguém queria arriscar se encrencar com a reitoria, sabe? Mas todos gostavam da fogueira.”

— Eu lembro disso — acrescentou Mia. — Todo o pessoal do fundamental cantou músicas de Natal, de mãos dadas, ao redor das duas primeiras fogueiras. Nunca vi Hellen Page tão furiosa com uma cena na minha vida.

— Ela não suportou a zombaria — disse Harry. — Por isso que reforçou a segurança no Jardim das Gardênias, para que não acontecesse mais. E entendam isso: ela sabia que ia acontecer. Sabia que havia uma última colheita de exames e assinaturas no último dia de aula. Eles estavam todos atentos e ainda precisávamos dos quatro exames. Tivemos medo de pedir a algum desconhecido que terminasse por ser um dos espiões de Page e ele nos delatar. Não sabíamos o que fazer.

— E então? — disse Lorenzo. Era muito engraçado que, quando ele falava, todos se calavam e ouviam, talvez porque ele falasse tão pouco. — O que aconteceu? Cumpriram o desafio?

— É claro — respondeu Harry.

— Como? — perguntou Lucille.

— Com este que vos fala — respondeu Nicholas com um orgulho sem-vergonha. A entrada chegou nesse exato momento, várias lagostas reluzentes em bandejas de prata, cada uma do tamanho de filhotes de golfinho. — E que vos paga. Peguem uma lagosta e então eu termino a história.

Depois que todos começaram a comer, Nicholas continuou:

— O último dia de aula antes das férias de inverno foi o meu primeiro dia na Lexington. Para ser sincero, eu deveria ter entrado antes, mas 2009 foi um ano relativamente difícil para mim e eu estava cheio de problemas. Não pensei na escola. Só que naquele dia eu decidi ir, sabem? Não sei por que, mas decidi ir. Era um belo dia de inverno e eu não queria ficar em casa. Fui passear na escola.

“Eu encontrei Harry e Don amontoados de papeis sentados num banco perto da entrada, discutindo entre si sobre onde arranjar mais papeis. Os dois maiores esquisitões que eu já vi na minha vida.” Todos na mesa riram, incluindo Mia. “Logo me afastei. Sentei no banco de frente para eles e fiquem ouvindo eles conversarem. Não demorei muito para entender o que diabos eles estavam fazendo, porque eu sou muito perspicaz, e decidi ser humilde e ajudá-los.”

— Mentira — disse Harry. — Você se aproximou, todo tímido, e perguntou se podia sentar do nosso lado.

— Eu prefiro a minha versão — teimou Nicholas. — Mas tudo bem, a verdade é que eu era patético. Eles me inteiraram do assunto e como eu não tinha nada melhor para fazer, fui ajudá-los. Eles precisavam de quatro exames e eu não via como ajudá-los nesse assunto poderia me prejudicar, por isso eu pedi para eles identificarem para mim qualquer grupo de garotas com quem não haviam falado porque achavam que podiam ser espiãs de reitora.

— Deixe-me adivinhar — pediu Lorenzo dando um exagerado suspiro. — Você as conquistou com seu charme.

— Pode apostar — respondeu Nicholas. Lorenzo fez uma careta. — Que é? Minha cara é minha única arma. Espere, não, não é verdade, eu tenho o meu cabelo e, na época, a minha voz de criança impúbere.

— Não seja modesto — ele disse condescendente. — Você ainda a tem.

— Calado. Eu disse que fazia parte do clube de reciclagem da escola e que estava procurando material para iniciarmos um bazar beneficente. Eu nem sei se a Lexington tem um clube de reciclagem, mas elas acreditaram e me deram todos os papeis inúteis que tinham, entre os quais mais exames do que precisávamos. Então eu pedi a assinatura delas para constar nos autos, agradeci e me afastei.

— Nós forjamos as assinaturas delas nos exames — disse Harry. — E completamos cem. Levamos ao yearshiper e ele nos deu o alvará que precisávamos. Agora só nos restava a fogueira.

— Eu queria ficar de fora dessa — lembrou-lhes Nicholas.

— Mas o obrigamos a ir conosco. — Harry sorriu para seu amigo. — Gostamos de Nicholas. E também precisávamos da mochila dele para que não nos aproximássemos do Jardim das Gardênias com os exames nas mãos. Mas a questão era nos livrar dos professores que, por algum motivo, foram todos lanchar ao ar-livre. Estava gelado do lado de fora, mas lá estavam eles, fumando cigarros, bebendo cafés e comendo sanduíches, tudo por causa da paranoia de Hellen Page. Novamente, ficamos desesperados. Nenhuma distração tiraria todos eles de lá ao mesmo tempo, então o que fizemos? Ouvimos a ideia de Nicholas.

— Eu fui maquiavélico e dobrei as autoridades à minha vontade — Nicholas explicou. — Ouvi as regras do desafio e percebi que elas ordenavam que os testes fossem levados ao Jardim das Gardênias e que fossem queimados. Fossem, entendem? Falava no plural, então tinha que ser mais que um, mas em nenhum momento as regras afirmavam que todos os testes tinham que ser queimados.

Eles ficaram em silêncio por algum tempo digerindo as informações. Henry aproveitou essa chance para notar como Cameron Pearl simplesmente não parecia saber como tirar os olhos de seu irmão. Alguma coisa muito ruim começou a se formar em seu peito, mas decidiu tentar reprimir.

— Nós três fomos ao meio do Jardim com as nossas mochilas — Nicholas continuou. — Ou seja, nós levamos os exames para o local que as regras ditavam. Então eu tirei apenas dois da minha mochila, acendi o isqueiro que Don me deu e toquei fogo neles. Um professor logo se aproximou para perguntar, alarmado, o que eu estava fazendo. Respondi que estava queimando notas baixas. Ele não podia fazer nada, podia? Eu não estava fazendo nada de errado.

— Nós três deixamos o Jardim com noventa e oito exames nas mochilas — disse Harry. — Um dos yearshipers que estava nos vigiando para saber se faríamos direito se aproximou para perguntar o que havia acontecido e Nicholas repetiu para ele tudo o que acabou de nos dizer. De alguma forma e por algum motivo, ele gostou muito do modo de pensar dele. Como fomos os únicos desafiantes a não serem pegos, ele decidiu considerar nós três como os últimos vitoriosos do desafio.

— Então vocês ganharam o privilégio? — perguntou Lorenzo.

— Não — respondeu Harry. — Eles só podiam dar o privilégio a um de nós. Eu e Don dissemos que Nicholas deveria tê-lo porque não teríamos chegado a lugar algum sem ele.

— Então é por isso que você pode andar nos terrenos do yearship — comentou Henry. Sabia que Nicholas tinha esse privilégio, mas não entendia o porquê. Pensava que era apenas porque ele era muito incrível.

— Sim, é por isso — ele comentou voltando a encher a boca de carne de lagosta. Quando engoliu, continuou: — Eu sei que sou ótimo, mas não a ponto de andar entre os deuses do yearship sem nunca ter-lhes feito uma oferenda. Ethan seria capaz disso, mas Ethan não se importa e não quer saber.

— Eu tenho outra pergunta — disse Lorenzo. — Que não tem nada a ver com nada. Sobre os seus problemas em 2009… onde estava Ethan nisso tudo?

Nicholas olhou fixamente para seu irmão cego e ele olhou-o de volta. Claro que não o via, mas não o impedia de desafiá-lo.

— Em nenhum lugar, ele nem me reconhecia — respondeu em tom de ponto final. — A sobremesa daqui é muito boa. Vamos terminar para pedir logo.

Nicholas tinha razão, a sobremesa era muito boa. Mas, sinceramente, Henry esperava que não se demorassem demais.

Não conseguia mais ignorar como Harry e Cam estavam olhando um para o outro. Eles conversavam animadamente sobre qualquer coisa trivial, sorrindo o tempo todo, como se se importassem mais com o que o outro dizia do que com seus rostos bonitos. Cam balançava seus longos cabelos dourado-escuros como uma prostituta de alta-classe. Henry admitia que ele era extremamente atraente, atraente como Nicholas, mas também era uma pessoa horrível.

Comentou isso com Lorenzo, o que foi um erro.

— Por que ele é uma pessoa horrível? — ele lhe sussurrou.

— Não sei e não importa — resmungou. — Ele é. Não queria que Nicholas tivesse convidado ele, só isso. Pensei que ainda se odiassem.

— Nicholas não odeia ninguém — comentou Lorenzo. — Ele não consegue. Ele ama as pessoas quase tanto quanto a si mesmo. Por favor, se controle. Estou literalmente sentindo o ódio vindo do seu coração.

— O que você quer que eu faça? — indagou aos sussurros, furioso. — Olha como ele está sorrindo com aqueles dentes extremamente brancos. Esse almoço deveria ser a minha chance de ficar perto do meu irmão, mas aquela bicha dos infernos está tirando toda a atenção dele.

— Não diga coisas assim de Cam — Lorenzo pediu com a voz firme. — Porque afeta seu irmão também. Afeta Ethan. Tenho quase certeza de que afeta Don e de alguma forma também afeta Nicholas.

— Você é certinho demais.

— Eu sei.

Lorenzo colocou a mão em seu ombro, o que o reconfortou.

Mas foi só por alguns segundos. Assim que Harry perguntou a Nicholas se ele gostaria de dormir na casa dele àquele final-de-semana e Nicholas agradeceu mas disse que não poderia, e então virou-se para Cam e perguntou se ele gostaria de dormir, foi a gota d’água para Henry. Não deveria estar segurando um copo de vidro enquanto ouvia essas coisas, mas nem percebeu isso. Também não percebeu quando o apertou com tanta força que o fez se estraçalhar entre seus dedos.

O gritinho de Lorenzo quando a água caiu nele o acordou de seus devaneios. Mia se levantou da cadeira, exclamando seu nome, e abriu sua mão. Henry a viu avermelhada, ensanguentada e cheia de cacos de vidro. Nem sentiu a dor. Olhou para Cam e ele parecia surpreso e preocupado. Olhou para Harry, mas não encontrou no irmão o que esperava encontrar.

Por que estava com tanta raiva?

— Henry, pare de se mexer — pediu Mia enquanto tirava os cacos maiores de sua mão com a ajuda de Nicholas. Um garçom havia se aproximado com panos para enxugar sua mão e pedia que alguém buscasse ataduras. Henry sabia que o restaurante inteiro deveria estar olhando para ele, o que só o encheu de mais raiva.

Encarava Harry e Harry o encarava de volta. Nenhum dos dois dizia nada enquanto as pessoas se mobilizavam para tirar o sangue da mão de Henry. Ele parecia entender o que estava acontecendo, o grande lamento que Henry sentia e por que todos eles estavam almoçando juntos naquele restaurante, por que Nicholas os convidara em primeiro lugar. Pela primeira vez em todos os seus anos de negligência, Harry Beauchamp pareceu finalmente entender o quanto seu irmão mais novo o amava e necessitava de retribuição.

Então ele deu uma risada.

— Você só me faz passar vergonha, não é?

Ele não sorria mais ao dizer isso. Não era uma piada.

— Harry — murmurou Mia. Henry se surpreendeu ao vê-la tão absolutamente furiosa. — Cale a sua boca.

Ele olhou-a com surpresa.

— O quê?

— Cale a boca. Pelo amor de Deus, cale a boca.

Ele ficou furioso. Henry sabia que ficaria. Mia era sua prima favorita.

— Vá se foder — ele devolveu.

Então se levantou e deixou-os todos na mesa. Não o viram mais.

— Você está bem? — perguntou Mia em tom normal. Teve um pensamento louco: olhando-a mais de perto, bem de perto, achava-a estupidamente parecida com o irmão mais velho de Nicholas e Lorenzo.

Antes que respondesse, a última pessoa que queria ouvir falar falou. Ele tinha uma voz estranhamente aveludada e melódica, tão bonita quanto seu rosto.

— Eu tenho certeza de que ele estava apenas preocupado — disse Cam numa patética tentativa de fazer Henry se sentir melhor pelo que ele havia causado em primeiro lugar. — Harry não é muito bom expressando emoções.

Ainda bem que não tinha nenhum outro copo em mãos ou teria jogado na cara dele. Cam foi provavelmente a única pessoa daquela mesa que não percebeu que deveria ter ficado quieto.

— E o que é que você sabe sobre Harry?! — indagou aos gritos, levantando-se da cadeira. — Você não sabe nada sobre Harry, eu sou irmão dele! Eu!

À maneira de Harry, deixou a mesa e, ao se dirigir à saída do restaurante, deu cinco passos e parou. Sim, ele era irmão de Harry, mas não era igual a Harry. Amava-o de todo o coração e queria muito que ele o deixasse fazê-lo feliz, que ele o amasse também e o acolhesse em seu coração… mas não era igual a ele e, pelo amor de Deus, esperava que nunca fosse igual a alguém tão egoísta e mesquinho.

Voltou à mesa de onde saíra e falou polidamente:

— Nicholas, obrigado de novo pelo almoço, foi quase todo agradável. Lorenzo, eu o vejo amanhã. Mia, te vejo por aí. E o resto de vocês, até outro dia.

Depois virou-se a um garçom qualquer e disse:

— Desculpe-me pelo copo quebrado.

Quando Henry deixou o restaurante, respirou fundo e apertou a mão cortada e cheia de bandagens. Ardia, mas gostava do ardor porque lhe lembrava que era um ser físico preso à terra que podia ser ferido e curado, e não os sentimentos conflitantes e dolorosos que guardava no coração e que era incapaz de controlar. Harry podia fazê-lo chorar à noite sem saber, mas jamais seria capaz de destruí-lo enquanto Henry se sentisse humano daquela forma.

Respirou fundo mais uma vez, sorriu para o céu azul e foi ao ponto de ônibus. É que seu dinheiro tinha acabado e não podia pagar um táxi.

Notas finais
Para ser exato, esse capítulo se passa no dia em que Ethan e Nicholas acordaram e descobriram que foram envenenados com arsênico pelos Nevarnost, por isso ambos faltaram à escola. Como devem saber, 2009 foi o ano em que Oliver morreu. Ele morreu no fim do verão, por volta de agosto, pouco antes deles se mudaram para Middleland. Ethan ainda estava se recuperando dos ferimentos na cabeça, por isso que "nem reconhecia" Nick. Ele e Nicholas só entraram de verdade na escola no segundo trimestre, já no começo de 2010. Eu sei que demorei para postar isso, mas isso é muito comum com escritores: enrolar durante 8 meses para escrever 600 palavras e então ter um surto de criatividade durante a madrugada e passar 4 horas terminando o capítulo. :3 Harry Beauchamp é um personagem que é citado na quinta temporada e aparece na sexta como um dos atores na série em que Nick atua, mas na reescrita eu o puxei para ser um dos amigos de Nick na escola. O irmão dele, Henry, também só é citado na sexta, eu fiz a mesma coisa com ele. Mia, a prima deles, é obviamente Mia Cinneto, que na terceira temporada se torna namorada de Nick, engravida dele e depois morre. Tem alguns termos aí com os quais vocês ainda não estão acostumados, como yearship/yearshipers. Mas tudo bem, porque, afinal de contas, a primeira temporada reescrita e reformulada finalmente saiu na Amazon. =D Formato e-book: https://www.amazon.com.br/Ca%C3%A7ador-Sonhos-Vivem-Anjos-Livro-ebook/dp/B01BXRM72M/192-9106888-3081538?ie=UTF8&keywords=o%20ca%C3%A7ador%20de%20sonhos&qid=1456182878&ref_=sr_1_5&sr=8-5 Livro físico: https://www.amazon.com.br/Cacador-Sonhos-Noah-Marmallade/dp/1517793122/192-3241762-9110450?ie=UTF8&keywords=o%20ca%C3%A7ador%20de%20sonhos&qid=1456182878&ref_=sr_1_4&sr=8-4 Eu só escolhi o preço do e-book. O físico é infelizmente calculado pela Amazon, então eu não tenho controle algum sobre o preço dele. A segunda temporada também já está reescrita e o livro se chamará "Um Fantasma Que Fala Italiano". Eu estou atualmente reescrevendo a terceira que, estatisticamente, é a favorita dos leitores. =D É muito bom poder revisitar Melchior & companhia. No mais, agradeço por lerem, se leram, e por acompanharem Como Vivem Os Anjos até os dias de hoje. A série já tem mais de quatro anos e eu espero que ainda dure bastante. Beijoss e deixem comentários. :*