“Promete? Promete?”

“Prometo.”

OoO


London Weswalk estava cortando o próprio cabelo, enquanto falava com Melchior.



— Você tem que ir — disse, fechando a tesoura numa ponta dupla que há muito o irritava. Dentre as poucas habilidades que tinha das quais se orgulhava, conseguir cortar o próprio cabelo sozinho era uma delas.



— Não, não preciso. Ele está bem lá.


— Ele ficou uma semana em coma e está com os dois braços quebrados. Não está bem. — O dia lá fora chovia canivetes e trovoava horrivelmente.

Cortando mais um pedaço de cabelo negro e espesso, London se deu por satisfeito, muito embora seu banheiro estivesse uma bagunça.

— Você não quer ir porque não acredita que tenha sido uma tentativa de suicídio — falou a ele, enquanto pegava um punhado de cabelos de dentro da pia e jogava num saco plástico. — Você acha que, quando chegar lá, ele vai pensar que foi você quem fez isso.

— Fica quieto.

— Eu sou quieto. — Dando-se por satisfeito, London saiu do banheiro. Como Melchior pedira, deixara de usar pentagramas como estampas ou correntes. — Me sinto nu, saindo sem pentagramas.

Melchior não respondeu. Normalmente, sempre conservava uma expressão serena e despreocupada, que combinava incrivelmente bem com seu rosto pálido e liso. Mas, no momento, era difícil dizer o que sentia. Um misto de pesar, raiva, tristeza… e medo.

— Está com medo da Coruja? — perguntou.

— Não foi a Coruja quem fez isso. Ele deveria ter esfaqueado Ritchi, não o empurrado de uma janela.

— Ah, quem sabe. O mundo hoje está tão estranho e violento, pessoas alheias morrem do nada, por nada, com exata e diligentemente trinta e seis facadas, emprestam suas costas a pentagramas e então caem de prédios. Corujas, leões e fênix estão aterrorizadas, assim como o mestre dos segredos que pensava controlá-las.

— Eu as controlo.

— Mas não a si mesmo. Vamos, engula seu orgulho e vá ver seu melhor amigo. O hospital é o Saint Roese. É bem perto daqui. Dá pra ir andando, mas está chovendo. Desde que ele caiu, todos os dias têm estado chuvosos e tristes, assim como as pessoas.

— Você é tão deprimente.

— Obrigado, me esforço para ficar assim — sussurrou.

Após saírem de casa protegidos sob o teto do táxi, London Weswalk e Melchior permaneceram em silêncio o caminho todo. London divertia-se ao ver como Melchior era facilmente suscetível a traumas que envolviam diretamente algo ligado a ele. Era uma bomba-relógio esperando para explodir, e quando Ritchi Revonne caíra, a contagem regressiva iniciou.

Achava que isso tinha a ver com o que o tornara o que era.

Definitivamente, não gostava de hospitais, e por algum motivo cruel, vivia dentro deles. Ron e Jimmi frequentemente se machucavam fazendo aquelas estúpidas peripécias de crianças, e sobrava pra London. Com o divórcio de seus pais, sobraria mais ainda. Talvez eles fossem separados no processo de custódia. Seria interessante de se ver.

O cheiro característico logo invadiu suas narinas ao entrar. Após uma longa espera mais silenciosa ainda, finalmente entrou com Melchior no quarto de Ritchi.

Era uma figura triste de se ver. Ritchi Revonne, que fora sempre tão grande e forte como um touro, parecia ter perdido, pelo menos, quinze quilos. Sua pele estava acinzentada e doentia, e seu enorme cabelo, outrora vermelho-vivo, belo como uma fênix renascida, fora completamente raspado, dando lugar a hematomas roxos e desagradáveis, suturas e pontos. Os dois braços estavam enfaixados, e London não conseguia ver suas pernas, porque estavam cobertas por um lençol. Ritchi parecia ser meio século mais velho. Ou um paciente com câncer terminal.

Ele abriu os olhos quando os dois entraram no quarto. Seus olhos, azuis como piscinas, tristes como os de uma criança.

— Ritchi — London murmurou. — Que bom que acordou. Isto é, que bom que não morreu, também. Você está horrível.

O sorrisinho triste que ele deu foi estranhamente reconfortante.

— Você foi sempre tão doce.

Melchior, que ficara calado até então, sentou-se na beirada da cama, mesmo sabendo que não deveria fazer aquilo. Seus olhos púrpuras cruzaram-se com os azuis, secos e sem expressão. Seu rosto parecia feito de pedra, e estava levemente indagativo.

Até que Ritchi falou…

— Você que fez isso?

… fazendo-o começar a chorar.

— E-eu…? N-Não… eu… eu nunca… eu nunca faria isso… — Limpou as lágrimas do rosto, irritado consigo mesmo, com a própria fraqueza humana. — Eu nunca faria isso com você. Ritchi. — Nunca, desde que London o conhecera, Melchior parecia tanto com o garoto que realmente era. Estava com medo, aterrorizado, triste, quase morto por dentro.

— Você disse que eu me arrependeria de ter terminado com você.

— Você me conhece. — Sua voz sussurrante estava embargada, e ele olhava para o chão. — Eu não machuco as pessoas. Fisicamente… — Fungou, voltando a olhar para maior, que provavelmente não era tão maior assim, naquele momento. — Deus, por que você é tão insuportavelmente teimoso? Eu disse para não sair de casa à noite. Eu te odeio por isso. — Irritação à parte, ainda lutava com as lágrimas. — Quero você de volta.

Ritchi pareceu ficar subitamente mais cansado.

— Por que você me quer de volta?

Melchior pareceu ficar subitamente mais desesperado.

— Eu não sei. Quer dizer, eu sei. Eu acho que sei. Eu sei de tudo. — Ele deu uma pausa. — Bem, parece, tudo indica, eu acho que decidi que… — Outra pausa. — Puta merda, eu amo você.

A bomba explodiu. Cabum.

Ritchi sorriu novamente. Estava claro que era muito esforço, mas ele o fez mesmo assim. Melchior o abraçou cuidadosamente, e assim eles ficaram por alguns minutos, Ritchi sentindo o calor do corpo dele, e ele sentindo o calor do corpo de Ritchi. Como deveria ser.

— Você vai ficar bem — sussurrou ao seu ouvido. — Você vai sair daqui, e seu cabelo vai crescer novamente, você vai tirar as tipoias dos seus braços e vamos procurar a Coruja e matá-la.

— Não vamos não — sussurrou de volta. — Eu não posso.

— Claro que pode, Ritchi…

— Não posso, Melchior, e não posso ficar com você, não quero ser um peso na sua vida. Você não sabe, mas eu quebrei a coluna quando caí. Eu nunca mais vou andar.

Um longo silêncio na sala. Até London ficou perplexo.

— Que coisa boa para os meus pais, não acham? — Ritchi deu um riso sem alegria. — Têm dois filhos, um é retardado e outro é aleijado.

Imperceptivelmente, Melchior torceu o nariz. London imaginou como contariam a Ritchi sobre Terrence. Foram os dois que o acharam perto do prédio queimado, com trinta e seis facadas nas costas e um pentagrama sobre elas. Ironicamente, seus olhos nunca estiveram tão vivos. O pior foi pouco depois, quando acharam o corpo quebrado de Ritchi dentro das cercas do prédio.

Os punhos de Melchior se fecharam com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ele não lutava mais com a vontade de chorar, as lágrimas desciam desgovernadas, mas sua expressão estava cheia de fúria. Estava horrivelmente assustador.

— Isso é injusto — sussurrou. — Não importa. — Levantou-se, com uma dureza áspera na voz que ele devia usar com os irmãos para impor autoridade. — Não importa. Você podia ter ficado tetraplégico que eu não me importaria. Não ouse achar que uma simples paraplegia mudaria isso.

— Por que está tão irritado?

— Porque o meu melhor amigo é uma bicha, e porque eu o amo.

— Fala como se algum dia eu fosse ser curado.

— E ora, quem sabe isso não aconteça? — London murmurou. — Quem sabe também você não crie asas de fogo. Quem sabe eu não possa sair por aí com pentagramas sem ser chamado de satanista. Quem sabe o socialismo seja implantado no mundo. Quem sabe a Coruja seja presa.

— Me abrace, London — Ritchi disse. London o fez. Então ele se virou para Melchior. — Prometem que não vão me abandonar?

London estremeceu. Promete, London? Promete? Promete?

Como uma vez já fizera, respondeu.

— Prometo. — Conseguiu perceber o olhar que Ritchi lhe deu, com o rabo do olho.

— Eu também — disse Melchior. Devia estar realmente perturbado, sequer percebeu a tensão que repentinamente se instalara entre os dois.

A tarefa de contar à Mia sobre Ritchi recaiu sobre London. Melchior não a conhecia direito, e tinha outras coisas para se preocupar, tipo cuidar dos irmãos ou descobrir a identidade da Coruja e matá-la. Owl não estava na cidade, o que provava que ele não era o assassino. London nunca achara realmente que podia sê-lo.

Ela estava com Nicholas Hentz quando a encontrou, sentada no banco de uma praça do Jardim, aquela com o parque no qual Melchior costumava levar os irmãos menores.

Achava aquela união estranhamente afetiva. Mia não parecia ser o tipo de Nicholas, que, pelo que o mestre dos segredos contara, preferia as ninfetas. Ela era totalmente ao contrário disso. Tinha quadris estreitos e seios pequenos, o cabelo era negro como o de Ethan Lemnsack, mas embaraçado e volumoso. Nicholas era mais delicado que ela. Apesar disso, possuía um certo charme e carisma. Era a menina mais sexy de Jardim de Ouro.

Se London não a conhecesse, acharia que ela era lésbica.

Estavam se beijando quando se aproximou, estragando o clima. Adorou aquilo.

Mia se levantou ao vê-lo, subitamente apreensiva.

— Como ele está? Como está Ritchi?

Olhou para Nicholas com o canto do olho. Ele também prestava atenção.

— Está paraplégico. Rasparam o cabelo dele. Parece cinquenta anos mais velho. Mas ele vai se recuperar. Ele é Ritchi Revonne. Uma fênix. Fênix sempre renascem das próprias cinzas.

Mia estava calada, os lábios crispados, as sobrancelhas franzidas, triste e com raiva.

— Não acredito nisso — ela rosnou, olhando para o chão. — Ele… paraplégico… Oh, Deus. Isso não é certo. Ele não merecia isso. Vou achar a Coruja. E vou matá-la.

— Com tantas pessoas à procura da cabeça dessa Coruja, ela não vai mantê-la sobre os ombros por muito tempo. Há poucos lugares para ela se empoleirar.

— Eu sequer deixo Leon sair de casa mais — ela disse.

London suprimiu um gemido de descrença. O irmão de Mia era um dos garotos mais insuportáveis, teimosos e briguentos de Jardim de Ouro. Não aceitaria uma ordem de Deus, quanto mais da irmã. Tinha a idade de Nicholas, era quase idêntico a ele, na verdade. Cabelo dourado e comprido, traços delicados, olhos escuros. Era um autêntico aprendiz de delinquente. Mia era mais parecida com Ethan.

Mais parecida… com Ethan, London pensou, surpreendido com o que acabara de ver naquele casal tão estranhamente compatível. É por isso que eles fazem um casal tão bonito. Mia é uma versão feminina de Ethan. E Nicholas é como Leon.

— Sabe qual o pior? — indagou.

— Qual? — Foi Nicholas quem perguntou.

— Acharam uma leve quantidade de cocaína no sangue dele. A polícia não vai investigar, porque não acreditam que ele foi empurrado. Acham que caiu porque estava drogado. Na verdade, Ritchi bem pode enfrentar a reabilitação quando receber alta.

— Que horrível — o leão murmurou, mordendo os lábios de raiva. — Ele foi a única pessoa que defendeu Lorenzo quando Melchior falou aquilo dele. — Eu também defendi, mas tudo bem. — E Terry foi morto pela coruja a cinco metros de onde ele estava. A polícia não vai considerar isso?

— A polícia não considera muitas coisas. Ela não é muito eficiente. A propósito, Ritchi não sabe que Terry está morto, e nem deve saber.

Controlando a vontade de chorar, Mia encostou a cabeça no ombro de Nicholas. Ela era uns dez centímetros mais alta que ele, pelo menos. Na verdade, ele é quem parecia a menina da relação.

Quem diria que, um dia, o último leão dourado seria domado.

— Promete que vai me falar quando ele souber de Terry? — ela perguntou.

London estremeceu de novo. Promete, London? Promete? Promete? As pessoas andavam pedindo promessas demais.

— Prometo.

Naquela noite, sonhou que estava num prédio abandonado e queimado, olhando pela janela, e então vinha alguém e o empurrava para frente. E ele caía, mas não tocava o chão, continuava caindo até que aterrissasse em segurança num campo verde cheio de rosas brancas. O céu era azul escuro quase negro, e no lugar de estrelas como pequenos pontinhos brilhantes, ele tinha pentagramas prateados. Tudo estava estranhamente iluminado.

A grama era verde como esmeralda e seu suave farfalhar contra o vento acariciava seus ouvidos. Inspirou profundamente, sentindo aquele cheiro puro florestal.

Quando olhou para trás, viu um par de olhos vermelhos fitando-o.

Promete, London? Promete? Promete?

Prometo.

Uma fumaça começou do nada de lugar nenhum, e então tudo o que viu foi consumido por um beijo quente.

London Weswalk acordou suado e inquieto. Seu coração palpitava em seu peito, forte como um martelo. Há quanto tempo não sonhava com ele? Ou talvez já tivesse sonhado, mas esquecido. Instintivamente, tocou no pentagrama que usava como pingente, mas então percebeu que o havia tirado.

— Atena — sussurrou para a escuridão.

Levantou-se, vestiu algo simples e saiu sorrateiramente de casa. Já amanhecia, e na verdade não deveria sair de casa àquela hora sozinho, mas não podia se conter. Os idosos já se levantavam para caminhar, inclusive Olenna Olrwen, que parecia conversar animadamente com outra velha parecida com ela. Volta e meia, as duas passavam a discutir e a soltar impropérios, mas logo então voltavam a se falar como velhas amigas.

Afastando-se de Olenna e Odette Ovense, saiu de Jardim de Ouro até chegar a uma floricultura aberta. Comprou um buquê de rosas brancas. Era o mais caro que tinha, mas não podia ser outro.

Ainda tinha sentimentos nostálgicos quando se aproximava do prédio da família Gramp, queimado e negro como carvão. London ultrapassou a cerca e entrou no edifício, desviando de escombros e toras de madeira caídas. De algum modo, sentia-se bem ali, e ao mesmo tempo terrivelmente mal. Fora ali onde Sttan Molihnar fora assassinado. Fora ali onde Ritchi fora empurrado. E Terry morreu a um metro daquela cerca.

Cuidadosamente, pôs o buquê num canto do térreo, bem perto de uma coluna que parecia poder desabar a qualquer momento. O prédio inteiro parecia prestes a desabar, embora estivesse daquela forma há quatro anos.

— Dorme bem — sussurrou.

Foi depois que a família Gramp fora dizimada e London começara a deixar o buquê de rosas brancas ali, que os boatos de que ali havia fantasmas começaram. O Fantasma da Rosa Branca, chamavam-no. Achava engraçado como ninguém nunca havia percebido que era ele, tamanha a obviedade da coisa. Melchior certamente sabia, embora não fizesse a mínima ideia do porquê de ele fazer aquilo. Provavelmente, só Ritchi sabia.

Ainda conseguia se lembrar daqueles olhos castanhos, quase vermelhos, de Atena. Assim como London, Atena era um nome feminino. Assim como London, Atena era um menino. Devia ser por isso que eram ambos tão ligados, como se um fosse parte do outro, que se entendiam tão bem, tão perfeitamente bem.

Quando o fogo começou, London dormia profundamente, naquele tempo em que ainda era uma criança normal como todas as outras, que ria e brincava porque não tinha nenhuma outra preocupação na vida. Porque sua felicidade ainda estava incrustada em seu peito. Mas então ela fora arrancada cruelmente, e aquele London que usava lentes vermelhas e pentagramas aqui e acolá nasceu, frio e sem sentimentos.

Não era verdade, ele tinha sentimentos. Só que eles eram todos de Atena.

Quando chegou ao prédio, onde praticamente todo Jardim de Ouro se amontoava em volta, o fogo já estava apagado, e ele estava lá, deitado na maca, desfalecido, com quase cem por cento do corpo queimado.

Promete que vai me amar pra sempre? Promete, London? Promete? Promete?, ele perguntara, com os olhos vermelhos sob a luz da sirene da ambulância.

Prometo, London respondeu. E aquela fora, provavelmente, a última vez que chorara.

Atena suspirou e então o sopro da morte chegou. Seus olhos naturalmente vermelhos se fecharam para sempre. As roupas derretidas coladas à pele queimada eram algo triste de se ver, assim como aquele cheiro de queimado misturado com o de putrefação, mas London não se lembrava nem delas, nem do cheiro. Lembrava-se do pequeno pentagrama que Atena Gramp usava como pingente, prateado e metálico, refletindo a luz da lua, que assistia a tudo. Lembrava-se dos bombeiros em volta do prédio, dos corpos carbonizados dos pais de Atena, das pessoas queimadas.

Ainda bem que Melchior ainda não tinha chegado ao Jardim naquela época. Ele nunca ficara sabendo de nada daquilo. Nem deveria saber.

Por que o mundo é tão cruel? Quando saiu do prédio, deixou suas emoções lá. Era o único lugar na Terra onde se permitia chorar, e sabia que, uma vez que começasse, não pararia mais. E então seus olhos ficariam vermelhos e alguém perguntaria se ele andara chorando, desmoronando toda a máscara de pedra que usava.

E ainda acreditam que o incêndio foi acidental, pensou, irritado. No fundo, imaginava que Melchior sabia da relação dele com Atena, por isso culpara Nottie do incêndio do armazém. Não fora ele quem o começara, muito menos Ritchi. De repente, era tudo tão claro. O mestre dos segredos atual era sempre cuidadoso, mas o que diria de um mais novo? Será que o Melchior de doze anos mediria as consequências de pôr fogo num armazém e então culpar outra pessoa? Será que ele fizera aquilo só por Ritchi, ou por que também achava que foi Nottie quem começara o fogo na casa da família Gramp? Se achou isso, achou certo. Deus, eu o vi lá, depois de Atena ter morrido, com aquele sorriso psicótico na cara.

Nottie sorrira para ele, de um jeito meigo, até, embora o isqueiro em sua mão azedasse a cena.

Mais irritado ainda, London chutou uma pedra na rua. Por que a polícia levava o depoimento de crianças tão pouco a sério? Se fosse o contrário, a Coruja já teria sido provavelmente pega. Mas não, estava voando sobre os narizes de todos os moradores de Jardim de Ouro. E ele estava ali, andando a esmo por uma rua vazia, com pouca luz.

Tomara que, se a Coruja me atacar, eu possa, pelo menos, ver a cor de suas penas.

Virou a esquina e realmente encontrou uma coruja, mas não a que procurava.

Owl estava empoleirado no meio-fio, como sempre.

— Owl — cumprimentou.

O garoto loiro como o sol tomou um susto tão grande com sua presença ali que se desequilibrou e caiu, embora sem ter ralado o joelho, como daquela outra vez de outrora, em que pessoas eram pessoas e animais eram animais, e nada se mixava. London quis ajudá-lo a levantar, mas sabia que era inútil.

— Owl — ele respondeu, alegremente, se levantando. Limpou a poeira do casaco. Seus olhos azuis eram tão brilhantes quanto duas lâmpadas.

Por que será que ninguém aqui pode ter olhos normais? Oh, olhe só quem diz. O demônio de olhos vermelhos. O demônio inocente. E quem saberá?

— Não sabia que já tinha voltado. Não é seguro andar sozinho pelas ruas. — Owl inclinou a cabeça para a esquerda, inquisidoramente.

— Owl? — Mediu-o de cima a baixo. — Owl… Owl.

— Sim, eu sei que estou sozinho, mas é diferente… você é diferente.

— Owl?

— Não importa como, mas você é, e sabe que é, não me obrigue a falar. — Sentou-se no meio-fio e ficou a observar um flamingo rosa choque encrustado no jardim de uma casa a frente. Owl sentou-se a seu lado, com um adorável e infantil sorriso despreocupado no rosto. — Como foi lá?

— Owl, Owl, Owl… Owl — respondeu, gesticulando quase que furiosamente no ar, fazendo desenhos que só ele podia ver.

— Legal. Sabe que alguém anda matando as pessoas daqui?

— Owl… Owl, Owl. Ooooooooowl. — Às vezes ele fazia aquilo, carregava nos O, e então continuava, quase que cantarolando. — Ooooooooowl. Ooooooooowl. Ooooooooowl.

A voz dele era tão doce.

— Machucaram Ritchi. Ele nunca mais vai andar.

Seus olhos encheram-se de tristeza.

— Owl…? Owl. Ooooooooowl…

— É, é triste. Aquele Sttan Molihnar também morreu, aquele que roubou suas facas.

— Owl… Owl, Owl.

— Não se importa com as facas?

— Owl. — Balançou a cabeça negativamente.

— Acho que as pessoas deviam ser como você, sem ligar para coisas supérfluas.

— Owl — disse Owl.

— Owl — concordou London. — O irmão de Ritchi também morreu. E você já sabe sobre o tio de Melchior. O mundo está tão cruel e perigoso hoje.

O céu, que amanhecera estranhamente limpo e azul como os olhos de Owl, estava tornando-se cinza. O sol era coberto por nuvens pesadas. London esperava que aquilo não fosse um presságio para o dia que viria. Pessoas demais já haviam morrido e se machucado.

— É melhor você ir para casa. Há poucas pessoas nas ruas. Não quero que se machuque.

— Owl — ele se levantou. London se levantou também.

— Eu te daria um abraço, se eu pudesse. Mas, como não posso, bem… cuide-se.

— Owl — agradeceu, com a voz pura pesada, fazendo London se lembrar de uma tempestade de neve, por algum motivo. Depois daquela conversa, Owl parecia tão infeliz quanto ele. London achou que aquilo era um bom sinal.

— Não foi você, foi, Owl?

De novo, aquele olhar inquisidor e voador. Mesmo tentando prestar atenção, a coruja parecia sonhar acordada.

— Não foi você que matou aquelas pessoas, foi?

Ele pareceu ficar indignado, mas era sempre difícil determinar o que Owl estava sentindo. Mais difícil do que quando Melon vestia a máscara de Melchior e London vestia a de… a de London.

— Owl — disse, irritado. Virou as costas e foi embora, sem saltitar, como sempre fazia, nem murmurar Owls. Parecia meio grotesco, andando como uma pessoa normal.

— Eu devia ter aproveitado para chamá-lo de Rhanys — falou a ninguém em especial, só pra si mesmo. — Ele ficaria com raiva de mim, de qualquer forma.

Sozinho novamente na rua, instintivamente, pegou na corrente do pentagrama que pertencera a Atena, apenas para se lembrar de que não estava mais lá.

Preciso dos meus pentagramas assim como Melchior precisa dos sobretudos. Não sou London sem eles. Não sou London sem Atena.

Lembrava-se que Atena pedira para London dormir na casa dele, na noite do incêndio. Ele não fora, seu pai estava viajando e Ron e Jimmi tinham apenas cinco anos na época, tinham medo de dormir sem ele. Os gêmeos salvaram sua vida, e nem sabiam disso. Se soubessem, provavelmente caçoariam desse fato, enquanto cantavam London Bridge Is Falling Down apenas para irritá-lo, como sempre faziam.

Acabou não voltando pra casa. Andava passando tanto tempo lá que meio que se tornara uma prisão. Seus pais estavam se divorciando, e Jamie provavelmente sairia de casa. Ele e Brienne se digladiariam no tribunal pela guarda dos filhos, e no fim, sobraria para London escolher com quem gostaria de viver. E quem quer que escolhesse, seria provavelmente para onde os gêmeos iriam também, já que os dois idiotas não aceitariam guarda conjunta.

E isso enfiava-o num dilema. London preferia ser morto pela Coruja a morar com sua mãe. Mas se ficasse com Jamie, teria que sair de Jardim de Ouro. Melchior não estudava mais na mesma escola e Ritchi estava machucado demais para voltar a ela pelo resto do ano, no mínimo. No fim, acabaria se distanciando dos dois amigos enquanto a pressão social o forçava a encontrar novas amizades. Com o tempo, sua relação com os dois diminuiria até deixar de existir.

Assim era a vida, mas era uma vida que não aceitaria.

Sentou-se no banco de uma praça qualquer. Havia poucas pessoas, e a chuva ameaçava cair, mas não caía, como era frequente. As árvores agitavam-se violentamente com o vento, cantando sua canção de folhas, fantasmagórica e bonita.

Algumas crianças vieram e foram, alguns idosos também. Uma senhora grávida carregando uma sacola de compras com a ajuda da filha adolescente. Um rapaz e uma moça, provavelmente da idade de London, num abraço tão apertado que pareciam um só. Um grupo de crianças correndo de alguma malcriação que fizeram. Um adolescente usando fones de ouvido. Uma mãe com um carrinho de bebê. Uma criança, estranhamente sozinha. London pensou já tê-la visto passar por ali.

É um dos passarinhos de Melchior, concluiu, vendo a menina pré-adolescente se afastar. Ele está me vigiando.

Cerrando os punhos de raiva, levantou-se.

— Me disse para deixar os pentagramas, mas você não deixou o seu sobretudo, não é? — indagou ao vento e ao frio. Estava frio, muito frio. Uma fina garoa começava a cair. Por algum motivo, sentia-se sendo observado. O parque ficara subitamente vazio, todos haviam ido apressadamente para suas casas. Algo estava errado.

Suprimindo o medo, começou a andar para casa. Chegou ao Cruzamento Apogeu dos Deuses, virou a rua para a Avenida Andante e então se deparou com uma multidão de pessoas em volta de uma casa de um andar marrom e vermelha.

Não, pensou. Por um segundo, achou que perderia a força das pernas, principalmente quando viu uma maca deixando a cerca de sua casa. Não. Não. Não, por favor, por favor, não… Eles são só crianças.

Com dificuldade, atravessou a multidão aos empurrões, mas todos o deixaram passar quando viram de quem se tratava, com um suspiro de pena e pesar.

Jimmi estava deitado na maca, que parecia tingida de vermelho, de tanto sangue que escorria.

— Não — murmurou, sentindo a cabeça rodar. — N-Não… J-Jimmi. Não, não você. Você não. — Um nó em sua garganta atravessava cada sílaba como um sotaque, como um maldito sotaque. Água da garoa caía em seu rosto e morria em seus lábios, mas era uma água estranha, salgada e quente. — Não, Jimmi!

Ele não ia deixá-los levá-lo. Não ia deixá-los enfiar seu corpo tão jovem naquele carro da morte. Não, não podia, tinha de impedi-los, mas alguém, não soube quem, o segurou pelas costas, para impedi-lo de derrubar a maca. Recobrando-se, London aproximou-se do corpo morto de seu irmão apenas para derramar suas últimas lágrimas sobre sua testa cinza.

Jimmi abriu os olhos, enxergando nada.

— London? — indagou, engasgando com sangue. Tocou num pingente encharcado que usava no pescoço. — Peguei seu pentagrama sem pedir. Desculpe. Só queria te irritar, faço isso porque amo você. — Ele engasgou de novo. Parecia tão feliz, à beira da morte. — Promete que vai me amar pra sempre, London? — Mas antes que pudesse ouvir uma resposta, Jimmi Weswalk segurou seu rosto com as duas mãos sanguinolentas. — Promete? — Suspirou, e morreu.

Meu rosto está tão molhado. Por que essas lágrimas têm todas de ser salgadas?

— Prometo — sussurrou.

As condolências vieram depois. Trancado no escuro de seu quarto, abriu a porta apenas para a voz suave de Melchior. Na verdade, ele teve de praticamente ameaçá-lo para que abrisse. Owl, que afinal não estava mais irritado, estava com ele.

— Eu não queria te encher de palavras vazias — Melchior sussurrou, com a cabeça de London apoiada em seu ombro. Owl estava sentado na cadeira da escrivaninha, com uma expressão preocupada, atento a tudo. — Mas é tudo o que eu posso fazer. E é o melhor. É de onde provém o meu poder. De palavras. Eu sinto muito, London.

— Você pode matar a Coruja por mim — rosnou, entre dentes. — Me faria um bem maior ainda.

— Owl — corroborou Owl.

— Está pensando só em si mesmo — Melchior repreendeu, segurando seu rosto com uma das mãos, olhando-o profundamente com aqueles olhos lilases, ardentes como duas chamas. — Já pensou em como estão seus pais? Em como está Ron? Você sequer limpou o sangue de seu rosto. Owl, dê-me aquela caixa de lenços.

— Owl — ele disse, entregando-o o objeto.

Melchior apanhou um punhado de lenços umedecidos e pressionou levemente contra a pele do amigo. London se sentiu uma criança.

— Estou falando sério, converse com Ron. Ele tem dez anos, London. Se algum dos meus irmãos morresse… Deus, não quero nem pensar. Mas todos nós perdemos alguém importante de nossa família, você percebeu? Lance, Terry, e agora Jimmi… Se ele disse que o ama antes de falecer, Ron certamente sente a mesma coisa.

— Como espera que eu console outra pessoa quando sequer consigo consolar a mim mesmo?

— E quem foi que disse que consolação não pode ser mútua? — Melchior sorriu um sorriso de anjo, um sorriso de Melon, agradável, bonito e meio triste. Perfeito para a ocasião, como não podia deixar de ser. — Vá tirar essas lentes. Seus olhos estão vermelhos. E não são apenas as íris. Há quanto tempo você não chora?

London se levantou e foi ao banheiro. Abriu o estojo das lentes e lavou as mãos cuidadosamente. Utilizando os dedos como uma pinça, puxou a lente gelatinosa direita com cuidado, guardando-a logo depois. Fez o mesmo com a esquerda. Então esfregou os olhos com os punhos.

— Há cinco anos — respondeu. Melchior ficou impassível, mas sabia que sua mente ágil trabalhava. O que acontecera há cinco anos, que ele sabia? O incêndio dos Gramp seria o mais óbvio, certamente. Ele procuraria saber mais sobre isso, provavelmente perguntaria a Ritchi, ele daria com a língua nos dentes e mencionaria o nome de Atena, Melchior descobriria o amor infantil que nunca se concretizara e teria mais um sussurro em seu banco de dados.

Era sempre assim.

Como esperava, Melchior sorriu meigamente, sempre com aquele educado pesar salpicado por cima de seus lábios finos e compridos. Não adiantava. Enquanto ele não experimentasse a dor que era perder um ente querido realmente querido, ele não poderia entender.

— Owl… — murmurou Owl, deprimido. Então, para a monumental surpresa de todos, o garoto se levantou e abraçou London por meio segundo. No momento em que tocou sua pele na dele, se afastou rápido, esfregando levemente os braços, murmurando seus Owls, com um sorriso cândido no rosto infantil. — Owl — repetiu, feliz.

— Obrigado, Owl — disse London, acanhadamente. — Você é uma boa coruja.

— Owl — ele concordou, orgulhosamente.

Quando os dois meninos foram embora, London se obrigou a falar com Ron. No momento em que o viu, se arrependeu de não tê-lo feito antes. Ron parecia ter emagrecido desde aquela manhã. Seus olhos estavam fundos e vermelhos. Ele não parecia estar prestando atenção, sentado no sofá em frente à TV, e nem se mexeu quando o irmão mais velho sentou-se a seu lado. Até que a TV foi desligada.

— Eu estava assistindo — disse, com a voz rouca.

— Não estava não. Estava no canal de estática.

Ron ficou calado.

Olhando bem para o irmão, London o envolveu nos braços e o apertou contra si. Sentiu um arrepio contra a espinha. Abraços eram tão bons. Por que ele não abraçava mais? Foi essa a pergunta que Ron sussurrou a ele.

— Porque eu sou uma pessoa fechada — respondeu. — Meus sentimentos foram para o túmulo. — Junto com Atena Gramp.

— Assim como Jimmi — ele sussurrou, sem um pingo de tristeza na voz.

Não. Ele não pode suprimir, não como eu.

— Chore — disse.

— Como?

— Chore. Eu quero que você chore.

— Por quê? — indagou, sem interesse.

London olhou firmemente para seus olhos castanhos e tristes. A voz podia mentir, mas os olhos não.

— Porque ele era seu irmão gêmeo. Nosso irmão. Porque ele merece nossas lágrimas. Porque ele morreu, Ron. Porque nosso irmão morreu, temos de chorar porque nosso irmão morreu. Não seja como eu. Seja você.

Seus lábios tremeram. A criança enxugou os olhos com raiva, empurrando o mais velho, mas quando London o puxou de volta para abraçá-lo, sentiu seu peito tremer e então ele começou, tremendo violentamente a princípio, mas quando sussurrou em seu ouvido que o amava e o beijou na bochecha, os tremores pararam.

— Nossos pais estão se separando — falou a ele. Sabia que nem Jamie nem Brienne haviam conversado com os filhos sobre isso, mas não poderia mais fingir que nada acontecia. Ron e Jimmi há muito sabiam, e mereciam ouvir a verdade. Pelo menos um deles. — Eu vou ter que escolher com quem ficar, e você provavelmente virá comigo, por ordem do tribunal. — Suspirou. — Nosso pai vai sair de Jardim de Ouro.

— É com ele que você quer morar? — Ron indagou, o rosto infantil cheio de pesar. Aquilo estava errado, completamente errado.

— Não importa o que eu quero, quero saber com quem você quer morar. — Pela primeira vez na vida, London Weswalk fazendo algo que preste por alguém. Não consegui salvar Atena. Não consegui salvar Ritchi. Não consegui salvar Jimmi. Vou salvar Ron.

— Não me importa. Só quero sair daqui. — Ele virou o rosto, deitando-se em posição fetal.

London permaneceu olhando para o menor por um longo tempo antes de perceber a mudança que aquilo acarretaria em sua vida.

É isso aí. Quando tudo isso acabar, vou embora de Jardim de Ouro.

Notas finais
Vou começar a postar um pouco mais frequentemente, pois meu plano é postar o último capítulo da temporada no dia 31 de dezembro. :3