Como Vivem Os Anjos
19 Epílogo I
— Ethan, Ethan! — ele gritou. Tinha apenas onze anos, e estava brincando de algum jogo infantil que o irmão tinha arrumado para ele. Seus pais não estavam em casa, e Ethan ia sair com Ollie, de modo que teria de ficar sozinho. — Que horas você volta? Eu queria jogar com você.
— Vou voltar à meia-noite, garoto — ele respondeu. Estava tão bonito àquela noite, com uma calça jeans preta apertada demais e uma camisa de manga comprida cinza com detalhes verdes. O cabelo preto reluzia na luz. — E quero que você já esteja na cama, está bem?
— Não sou mais uma criança — argumentou, enquanto passava os dedos pelo tabuleiro do jogo infantil. — Eu perdi a virgindade mês passado.
— Porque eu deixei, e meus bolsos reclamam até hoje disso. Tem comida na geladeira e pode me ligar se precisar. Não deixe ninguém entrar em casa.
Ethan deu-lhe um beijo molhado na testa e outro na bochecha, murmurou-lhe um “eu te amo” e despediu-se. Desde que havia conhecido Oliver Castanelli, passava mais tempo com ele do que com Nick. Isso o irritava, mas não dizia a Ethan, pois sabia que Ollie fazia-o feliz. O garoto era estranho, muito estranho, por vezes falava consigo mesmo e em outras parecia estar falando com outra pessoa, mas quando se via, não havia ninguém perto dele.
Não importava. Mas não ia ficar em casa àquela noite. Ethan dissera que ele devia estar na cama à meia-noite, mas não disse onde deveria estar nesse meio tempo.
Ligou para Peter Marahana. Deveria encontrar-se com ele Timothy, Joshua, Derek, Pablo, Kenneth, Marion e Stewart no parque do centro da cidade. Nick não fazia ideia de como chegaria lá, já que Ethan não havia deixado dinheiro para emergências, assim não poderia pegar um táxi. Acabou tendo que pegar algum de sua caixa especial, aquela caixa pequena de madeira com um forro vermelho sangue em que guardava dinheiro. Ethan deu-lhe de aniversário, junto com a prostituta. Ainda lembrava-se dos seios dela e de como ela estremeceu quando ele chegou ao orgasmo, no momento mais maravilhoso de sua vida.
Amava Ethan por aquilo, amava-o por tudo. Embora seus amigos não parecessem sentir o mesmo. Na verdade, sabia que não sentiam. Odiavam-no, mas não estava muito certo do por quê. Era por que namorava um garoto, diziam, mas isso não fazia realmente muito sentido, de modo que simplesmente deixou pra lá.
Eles eram todos mais velhos que Nick. Peter, que era o mais novo, tinha dezesseis anos. Pablo era o mais velho, tinha dezenove. Ele o assustava. Falava pouco e tinha um olhar temível, com o rosto cheio de cicatrizes que ninguém parecia saber muito bem de onde vinham, ou não tinham coragem de perguntar. Ele mesmo não tinha.
Era difícil pegar um táxi. A maioria recusava-se a levá-lo por ser novo demais. Quando isso acontecia, apenas dizia:
— Tenho onze anos, e tenho certeza que já comi mais bocetas que você. — E nada dava-lhe mais prazer do que ver as diversas expressões dos motoristas.
Achou um que aceitou levá-lo ao parque do centro. A noite estava bonita, pensou. Com milhares de estrelas no céu e uma quantidade maior ainda de nuvens, muitas carregadas. Choveria, provavelmente.
Chegou ao parque. Estava deserto àquela hora. O vento estava forte e as folhas balançavam-se agressivas em seus galhos, mas com uma suavidade impressionante, sussurrando suas fantasmagóricas melodias. Peter saudou-o, assim como Timothy Watanabe, Derek Merriweather e Kenneth Ellenzweig. Pablo Choi, Marion Ward, Stewart Hetch e Joshua Scalamonti ignoraram sua presença, como quase sempre o faziam.
— Demorou — Stewart falou. Depois de Pablo, era dele que menos gostava. Mas gostava de Peter, e Peter era amigo de Stew. — Vamos.
Saíram do parque e seguiram por uma rua estreita até dar num cruzamento de quatro. Entraram por um beco escuro, onde nada mais se ouvia senão o ruído dos ratos no lixo e os latidos de cachorros vira-latas. Era daquilo que Nick mais gostava. Quando andava com eles, sentia-se como se pudesse ir a qualquer lugar sem ter medo.
Encontraram um mendigo dormindo sob um pedaço de papelão num dos becos. O cheiro que ele exalava teria repugnado uma ratazana, e sua barba era comprida e estava praticamente putrefata. Era a vez de Joshua naquela noite.
Quando começou a andar com eles, Nick sempre virava a cara e cobria os ouvidos quando ouvia os mendigos e prostitutas gritando e gemendo de dor, mas Peter o encorajou a olhar, mas sem ver.
— Não é por que você está vendo que está enxergando — falara-lhe uma vez. Dera certo. Àquela altura, já não se importava com os guinchos que eles davam enquanto eram espancados.
Depois de Joshua começar, Pablo e Marion juntaram-se a ele. Kenneth e Stewart chutaram sua cabeça e seu estômago. Timothy e Derek ficaram apenas olhando. Eram ambos os rapazes bonitos, Derek tinha pele cor dourada e cabelos da mesma cor, além de profundos olhos azuis, e Timothy possuía uma enorme cabeleira ruiva, com sardas no rosto e enormes e expressivos olhos verdes.
Peter deixou uma mão em seu ombro enquanto assistia intrigado a cena. Quando Joshua, Pablo, Marion, Kenneth e Stewart separaram-se do mendigo, este não passava de um monte de carne inchada com sangue e sujeira por cima.
Seguiram por vários outros becos fazendo exatamente a mesma coisa. Alguns tentavam escapar, mas não por muito tempo. Durante todo esse tempo, Peter não foi sequer uma vez. Nick achou isso estranho, ele sempre ia pelo menos duas ou três vezes.
Perto da meia-noite, Peter puxou-o para um canto enquanto Timothy e Kenneth cuidavam de uma prostituta. Estavam estuprando-a, e não queria ver aquilo.
— Nicholas. — Ele segurou seu rosto com uma das mãos. — Está uma noite tão linda, não concorda?
— Concordo — disse Nick.
— Me admira que tenha vindo se juntar a nós hoje — Peter falou, olhando as estrelas com olhos castanhos. — Sei que seu irmão não gosta muito de mim.
— Você também não gosta dele — ponderou.
— É verdade. É verdade. — Peter voltou a fitá-lo. — Mas a vida é muito curta. Acho que deveríamos fazer as pazes, eu e ele.
Nick sorriu alegremente. Aquilo era tudo o que queria, tudo o que algum dia almejara mais profundamente.
— Seria… ótimo. Ótimo, de verdade.
— Eu sei. Ele está em casa?
— Não, saiu para jantar com Ollie no restaurante Jagger’s Voice. Disse que chegaria em casa perto de meia-noite. — Nick olhou seu relógio e esbugalhou os olhos. — Deus, ele já deve estar saindo do restaurante. Tenho que chegar em casa antes dele…
— Não se preocupe. Vamos alcançá-lo. Ele ficará feliz em ver que você está comigo, depois que eu fizer as pazes com ele.
O restaurante não estava a mais de um quilômetro de distância, de modo que, ao chegarem lá, Ethan já não mais estava. Decidiram seguir o caminho que se seguiria para chegar à Rua Boulevard. É claro que eles poderiam ter ido de táxi, mas quem desperdiçaria aquela noite tão linda num táxi?
Algumas dezenas de metros após o restaurante, Nick parou para amarrar os cadarços. Quando percebeu, eles haviam se afastado demais. Viraram a esquerda numa esquina e começaram a correr.
— Ei! — gritou. — Me esperem!
Foi quando virou a esquina que viu.
Pablo havia imobilizado Ethan, segurando seus braços por baixo das axilas dele. Seu rosto estava cheio de medo e pavor. Oliver estava bem em frente a ele, imobilizado por Marion, do mesmo modo que Ethan.
O que eles estão fazendo? Não era para machucá-los…
Sua confusão transformou-se em horror quando viu Kenneth socar o estômago de Oliver com um punho de ferro. O louro retorceu-se pra frente de dor e caiu no chão de joelhos.
— Não! — Ethan gritou, desesperado. — Por favor… não… não ele, deixem-no, não… Não Oliver. P-Por favor… N-Não!
Joshua arrancou a camisa de Oliver a força, rasgando-a do ombro à cintura. O som que Oliver soltou quando percebeu o que aconteceria foi tenebroso, horrendo. Parecia um grasno, e era uma mistura disso com um grito humano. Tocou a alma de Nick de um modo macabro. A calça dele foi arrancada também, e de repente o louro estava deitado no chão apenas com roupa de baixo, chorando lágrimas de cristal e suplicando que não, que não fizessem…
Ethan havia caído de joelhos, mas Pablo ainda o segurava firmemente.
O primeiro foi Timothy. Forçou Oliver a abrir as pernas compridas e tirou o membro para fora da calça. Não se deu ao trabalho sequer de tirar a cueca do louro, arrastando-a para o lado e penetrando-o daquele jeito mesmo.
Oliver gritou quando sentiu-o enterrar-se dentro dele, o grito mais horrível que Nick já ouvira em sua vida. Sentiu seu corpo tremer e os joelhos cederem. Eles ainda não o haviam visto ali.
Terminou tão rápido quanto terminou. Timothy saiu de dentro de Oliver e então foi a vez de Joshua. Nick engoliu em seco. Joshua fodia como um animal, sabia disso pelas prostitutas que escutava guincharem de dor.
Oliver debateu-se em baixo de seu corpo, mas não adiantou. Depois de Joshua, foi a vez de Derek, com aquele rosto bonito e aqueles lindos olhos azuis. Segurou o pescoço de Oliver enquanto o estuprava, de forma que, quando terminou, o louro tinha a cabeça roxa como uma uva. Não conseguia mais se debater.
Eles o mataram. O mataram por dentro.
Pablo obrigou Ethan a ver Kenneth, Marion e Stewart fazerem o mesmo, de novo e de novo. Stew fez Oliver sentar-se em seu colo e o obrigou a rebolar e a gemer de prazer e pedir por mais. Ele o fez, ainda chorando, mas sem gritar, sem questionar.
Marion trocou de lugar com Pablo, que montou em Oliver com a decência de um cachorro em uma cadela no cio. Arranhou suas coxas e suas nádegas durante o estupro, e seus gemidos foram mais altos do que qualquer gemido que o tivesse ouvido dar com qualquer prostituta.
De repente, lembrou-se de algo.
Peter. Onde está Peter? Ele vai fazer isso parar, vai fazer tudo parar, eu sei.
Peter Marahana surgiu da escuridão para onde Ethan estava. Agarrou um punhado de cabelos pretos e o forçou a olhar para si. O rosto de Ethan não se mexia, mas estava manchado de lágrimas e um fio de saliva escorria de seus lábios.
— Agora vê o que acontece com quem se mete comigo. — E deu um soco em seu rosto. Virou-se para os outros rapazes. — Deixem-no.
Peter pôs Oliver de quatro e o fodeu com tanta vontade quanto poderia ter. Puxou seus cabelos loiros para cima, forçando-o a levantar a cabeça e olhar para o namorado. Poças azuis cruzaram-se com negras, mas não se reconheceram. Gemeu cheio de vontade enquanto dava tapas em suas nádegas e coxas, deixando-as roxas.
Quando terminou, ejaculou no rosto do louro e o fez engolir. Oliver engoliu. Estava muito longe dali, voando, como Nick sabia que às vezes fazia.
Peter jogou uma faca pequena para o louro. Então tirou uma pistola e apontou para a cabeça de Ethan.
— Corte sua garganta, ou eu atiro nele.
Oliver olhou para a faca com olhos vagos, depois para Peter e então para Ethan. Seu rosto poderia ter sido esculpido em pedra.
Ele pegou a faca e, sem um grito de dor, enfiou a lâmina inteira na parte inferior da orelha esquerda. O sangue jorrou rubro e quente quando ele rasgou a própria garganta até a outra orelha, junto com sua vida.
Nick ouviu-o dizendo uma palavra antes de dar seu último suspiro e desfalecer, mas não sabia qual era. Percebeu que havia caído no chão, estava de joelhos. Devia estar chovendo, seu rosto estava cheio de gotas, e elas eram estranhamente salgadas.
— Não… Você não — Ethan murmurou, pouco antes de Peter, Timothy, Pablo, Kenneth, Marion, Stewart, Derek e Joshua caírem em cima dele, espancando-o.
Nick correu dali. Correu, correu, correu, correu e correu mais um pouco. Acabou por chegar à Rua Boulevard, não soube como. Passou pelo prédio de tijolos amarelos que era a casa de Oliver e pensou que talvez ele ainda estivesse ali, vivo, e que tudo aquilo não passara de um sonho.
Não era.
Chegou a sua casa, uma linda construção cor de vinho.
Ethan está morto. Oliver está morto. Eu os matei.
Sem saber como encontrou sanidade para isso, ligou para a polícia e falou de um assassinato ocorrido na rua da esquina posterior ao restaurante Jagger’s Voice, falou que eram oito assassinos e falou onde eles se esconderiam. Não havia como eles pudessem escapar daquilo. Bastava fazer um exame de DNA e perceberiam que todo o esperma em Oliver era deles e…
O que ganharia com isso?
Eu matei meu irmão. O que você fez, Nicholas? Nick… Nick… Nick…
Uma voz gritou dentro dele, gritou seu nome, e foi aumentando o tom.
Nick, Nick, Nick…
Nicholas Hentz caiu de joelhos e chorou.
Nick, Nick, Nick…
— O que é? — perguntou, irritado, envergonhado, desesperado. Estava tudo, mas não estava nada. Sem Ethan, não era nada. — O que você quer?
Nick, Nick, Nick… Nick… Nick? Nicholas!
Nick abriu os olhos lentamente. Enxergando, a princípio, apenas pontos luminosos parecidos com estrelas, uma silhueta indistinguível foi se tornando cada vez mais visível em seu campo de visão. Após certo tempo, pensou estar vendo coisas. Ethan estava morto, não poderia estar a sua frente, sacudindo-o levemente para acordar.
— Acorde — ele disse, numa voz suave de veludo que podia tornar-se poderosa como um trovão quando bem entendia.
Ele estava ali. Com seus olhos e cabelos pretos, o primeiro e único Leão Negro estava ali.
Suas últimas memórias vieram à mente. Os Nevarnost e a casa de Luca, Lorenzo, sua mãe e Enzo Granelli, o modo como Lore atirara nele, ao mesmo tempo em que ele atirava em Nick. Doera, doera muito.
Nick olhou para as próprias mãos. Tubos de silicone estavam enfiados em suas veias, ligados a máquinas ao lado da cama de hospital em que estava deitado. Sentia um incômodo em seu nariz. Quando tocou nele, percebeu dois outros tubos em suas narinas.
— A bala que Granelli atirou em você perfurou seu pulmão — Ethan disse, colocando suas mãos delicadamente onde estavam antes. — Precisa dos tubos para respirar. Não os tire.
Nick sentia-se pequeno e indefeso ali, todo vestido de branco, com aquele cheiro insuportável de álcool por todo lugar. Estava tonto e enjoado.
— Onde está Oliver? — indagou, subitamente desesperado.
O olhar de Ethan foi macabro.
— Você está confuso. Deve ser efeito da anestesia. Ele está morto, Nick.
Sim, ele está morto. E você também devia estar. Mas não… está vivo, na minha frente. Como conseguiu me perdoar? Eu mesmo não me perdoei.
— Ethan… — murmurou Nick — antes de ele morrer… ele murmurou algo a você. Uma palavra. E você respondeu “Não… Você não.” O que foi?
Ethan abaixou a cabeça e destituiu o rosto de qualquer emoção. Quando pensava que ele não responderia, ouviu a resposta.
— Ele disse… “Monstro.” Foi a última palavra dele. É a única coisa que me lembro com clareza daquela noite, além do fato de que estava chuvoso. — E da palavra jorrando da boca dele, de sua garganta cheia de sangue, do corpo violado e mutilado, Nick pensou. — A voz era praticamente um grasno àquela altura, ele já tinha cortado a própria garganta. Mas eu entendi. Ele referia-se a si mesmo, e falou pra mim.
Não, Nick pensou, sombriamente. Referia-se e eram para Peter Marahana, mas você prefere pensar que eram para você.
— O que aconteceu com Enzo Granelli? — indagou, numa voz débil.
— A bala de Lorenzo atingiu-o no ombro, de modo que ele não morreu. Mas foi preso por tentativa de assassinato. Sabe… Lorenzo cantou.
— Como assim?
— Foi engraçado. — Deu um sorriso. — Ele me perguntou como se chamava quando uma pessoa delatava outra. Eu respondi que quando alguém delata algo, diz-se que ela canta. E, sabe, Granelli realmente tinha razão para matá-lo. O menino sabia de coisas que eu nem podia imaginar. Ele cantou, Nick. E cantou a canção mais linda que a polícia italiana poderia querer. Por todo o país, casas de tráfico e prostituição estão caindo, empresas fantasmas sendo fechadas, políticos corruptos sendo capturados, fábricas de drogas e de jogo, todas sendo fechadas. A identidade dele foi mantida sob proteção, de modo que provavelmente acharam que o Líder Supremo quem entregou todo o jogo após ter surtado ao levar um tiro no ombro. Ele provavelmente pegará prisão perpétua. — Deu um suspiro. — A máfia italiana caiu graças a um garotinho cego. E, de algum modo, descobriram sobre Lorenzo. Agora, todos sabem da existência dele, de Antonella, e do que ela fazia. Só não sabem o que pretendia fazer, nem sabem que o passarinho que cantou foi ele. Sabem também que Enzo Granelli pretendia matá-lo e que você o salvou. Salvou a todos nós.
Nick deu um riso sem alegria.
— O que aconteceu ao dinheiro que Antonella supostamente roubou?
— Foi confiscado. Sendo assim, Lorenzo não tem nada mais além da parte da herança que nosso pai nos deixou.
— E quanto a Luca? — pegou-se perguntando.
— Ele tem um parente na Itália, acho que é o último da família Granelli — Ethan respondeu.
— Quer dizer que ele vai voltar pra lá? — Ficou triste. Prometera algo a Luca, algo que, no estado em que estava, não poderia cumprir.
— Vai — Ethan confirmou. — Quando eu disse a Lorenzo que você havia levado um tiro, ele pensou que a bala viera do tiro que ele deu. Mas é impossível, pois se fosse verdade, Enzo Granelli teria atirado em si mesmo, pois ele também foi baleado e segurava a única outra arma daquela sala. Eu disse isso a ele, mas ele não quis me ouvir.
— Quero falar com ele — Nick murmurou. — Temos que ficar com ele, Ethan… Não podemos deixá-lo. Ele tem nove anos e já viu mais coisas do que pessoas na sua idade já viram. E ele é cego. Olha que ironia. — Tentou rir, mas o esforço era doloroso. — Traga-o aqui.
Ethan saiu e voltou dez minutos depois. Nick permitiu que Lorenzo sentisse seu rosto, com os cabos que estavam fincados lá, e suas mãos e braços. Até a parte enfaixada em seu peito, tão delicada.
— Eu deveria ter te ouvido — Lorenzo falou, numa voz chorosa. — Deveria ter largado a arma, não deveria ter atirado. Mas… ele… ele matou minha mãe.
— Eu sei. — Puxou Lorenzo para si e o abraçou suavemente. Perguntou-se se ele era cego porque seus olhos eram cinza, ou se eram cinza porque ele era cego. Quantos amantes Antonella poderia ter tido, além de seu pai? Enzo Granelli a amava, e ela já era espiã quando engravidou de Lorenzo… e não dava para evitar notar a considerável semelhança entre Lore e Luca. O mesmo formato de rosto, a mesma textura de cabelo, tão negro que era quase azul. O de Ethan era mais grosso. Poderia Lorenzo ser filho de…?
Não. Estava cansado daquela conversa, era melhor deixar pra lá. A história de Lorenzo saíra em todas as revistas de fofocas do mundo e agora todos viam o herói que Nick fora, e não seria assim tão legal se ele não fosse realmente seu irmão. Já não tinha mais a herança que Charles lhe deixou, de modo que a parte da herança de Nick e Ethan que tinha por direito de nascença era tudo o que lhe restava.
— Antes de ir embora — ele sussurrou a seu ouvido, com aquele sotaque italiano arranhando cada sílaba —, Jill me beijou. Eu gostei tanto. Acho que vou acabar sendo igual a você, Nick.
Deuses, espero que não.
Uma enfermeira veio avisar-lhes que o horário de visitas acabara, de modo que Ethan e Lorenzo deixaram-no. Nick virou-se de lado, mas seu peito doeu. Decidiu ficar na mesma posição, mesmo com a dormência que lhe agoniava as pernas. Talvez gostasse de ficar de repouso por algum tempo. Poderia faltar à escola e escravizar Ethan com mimos e carícias pelo resto do ano.
Eu deveria ser herói mais vezes. Tiros nem doem tanto assim, quando quase matam a gente.
OoO
Ethan realmente nunca vira seu rosto, e lá estava ele novamente, sentado no banco da praça em frente ao hospital, com seu sobretudo e chapéu marrons. Sentou-se ao lado dele e recebeu um dossiê.
Ainda lembrava-se da cara do médico que lhe dera a notícia.
Como Nick perdera muito sangue, Ethan fizera um teste sanguíneo para ver se seu sangue era compatível com o dele, com a esperança de poder doar. O resultado tanto não fora compatível, quanto impossível de ocorrer entre irmãos.
— Veja, senhor Lemnsack — disse-lhe o médico, aos gaguejos. Era imensamente gordo, com uma careca reluzente e uma longa barba, com óculos que caiam por seu nariz largo o tempo todo, fazendo-o relembrar John Fauntleroy. — É comum, casos como esse, entende… trocas de bebês em maternidades não é algo tão anormal quanto pensa.
Quando pensara que o bebê trocado poderia ter sido ele, fez um teste de sangue com Lorenzo. Ele gritou quando enfiaram-lhe a agulha, mas suportou o resto de cabeça erguida.
O resultado foi compatível. Definitivamente, Ethan era irmão biológico de Lorenzo. Mas só dele.
— Meu irmão nasceu nesse hospital, sabia? — Ethan perguntara, com um sorriso congelado no rosto. — Sabia que posso processá-los em mais de vinte milhões de dólares e levá-los à falência?
Fora divertido ver o suor escorrendo da testa do médico.
— Mas não é meu desejo acabar com tão respeitada instituição — disse Ethan, com veneno na voz. — Desde que façam o que eu pedir.
— E… — gaguejara o médico — o que seria?
— Quero saber quem foi que minha mãe pariu há catorze anos.
— Oh, senhor Lemnsack… os dados dos pacientes são privativos…
O olhar de Ethan o calou.
E agora estava ali, sentado naquele banco com aquele estranho ao seu lado. Olhava uma foto de família. Uma mulher loura e um homem moreno, ambos desconhecidos, com um garoto em seu meio. Ethan sentiu-se olhando no espelho. O maxilar dele era forte, olhos pequenos da cor do petróleo, o cabelo escuro cor de azeviche. Não havia delicadeza em seu rosto, apenas traços marcantes e bonitos de adolescente. Não aparentava ser tão baixo, embora não fosse alto. Havia uma convicção e orgulho em seu sorriso que só vira uma vez, naquele com quem dividia a casa e os lençóis desde que se entendia por gente. O garoto chamava-se Lucas Fontanelle, o garoto que deveria ter sido seu irmão. Morava a milhares de quilômetros de Middleland.
No fim, não sou o único Leão Negro. Embora seja o primeiro.
Rasgou a foto em vários pedaços.
— Ninguém nunca deverá saber disso — murmurou, mais para si mesmo do que para o homem. — Nunca, nunca. O garoto deve viver a vida dele, que eu viverei a minha com o meu irmão de verdade. O último Leão Dourado.
Entregou um envelope de papel-pardo ao homem, que o recolheu, levantou-se e pôs-se a caminhar para longe dali. Caminhava muito estreitamente, sempre andando um pouco de lado, como se estivesse num corredor muito estreito, e temesse bater nos lados.
OoO
Ele sabia que aquele dia haveria de chegar.
Sentado na poltrona de couro marrom do escritório de John Fauntleroy, Ethan lembrava-se de como aquele lugar quente e abafado parecia a toca de um coelho. Fauntleroy estava como bem se lembrava. Gordo, calvo, com óculos de meia-lua sempre a despencar-lhe pelo nariz.
— Bem, creio que já enganei a Justiça do país demais, senhor Lemnsack — ele falou. — Não tem a guarda oficial de Lorenzo, e por isso ele deverá ser mandado a alguma família apta a criá-lo… a não ser que tome sua guarda.
Olhou furtivamente para a poltrona onde o vira pela primeira vez. Pálido, tímido, indefeso, usando um terno e com os cabelos empapados de gel. Então lembrou-se da criança corada que criou, com os cabelos despenteados como um redemoinho, os olhos cinza cheios de vida, tocando piano com uma paixão provocante e avassaladora, rindo infantilmente, com dentes brancos como porcelana.
Lorenzo era adorável, obediente e quieto por natureza. Tinha uma boa herança e vinha de uma família famosa. Dificilmente teria dificuldades em encontrar uma boa família que o quisesse e o criasse com mais experiência para tornar-se um adolescente equilibrado. Ethan poderia voltar a ficar sozinho com Nick e amá-lo como nos velhos tempos, sem ninguém por perto, apenas eles dois, como dois irmãos, como dois leões, como dois amantes.
Fitou John Fauntleroy e sorriu. Quanto a Lorenzo, não tinha dúvidas do que fazer.
Quando chegou em casa, chamou a criança.
Ele veio, obediente, como não podia deixar de ser.
— Lorenzo — Ethan ajoelhou-se para ficar mais baixo que ele. — Lembra-se de quando nos conhecemos, que eu te disse que você passaria um tempo conosco?
— Lembro — ele respondeu. Sua face ficou sombriamente apreensiva. — Esse tempo acabou?
— Acabou.
A expressão no rosto de Lore era de dar pena. Há alguns meses, não teria expressado nada além de um leve franzir de sobrancelhas e um murmúrio, mas, naquele momento, parecia estar prestes a chorar. Porém, respirou fundo e obrigou-se a se controlar.
— Mas bem que poderíamos renová-lo, não? — Ethan indagou. Lorenzo fitou-o sem entender. — Quer que eu tome sua guarda, para que você seja oficialmente nosso irmão e possa morar conosco para sempre? — Sua voz era quase um sussurro. — Quer ser parte da nossa família, Lorenzo Barcarolli?
O sorriso de alívio dele foi a coisa mais linda que Ethan já vira.
— Sim! — exclamou, e pulou em seu pescoço, abraçando-o. Ethan embalou-o em seus braços e deixou-o ficar por muito tempo, por muito, muito tempo.
OoO
Tomar a guarda de Lorenzo fora mil e uma vezes mais fácil do que a de Nick. Estavam todos convencidos de que Ethan Lemnsack conseguiria criar mais um irmão. E quando a história de que ele tomaria a guarda do filho de seu pai com a amante dele veio à tona, a imagem de pessoa responsável e madura que Ethan já tinha tornou-se tão mais forte que os assédios que recebiam no meio da rua dobraram de frequência. No fim, ele conseguiu, e ninguém se atrevera a dizer-lhe não. Lorenzo tinha agora direito a usar o nome Lemnsack, embora não o Hentz.
O tempo passou e o Natal chegou. Lentamente, Ethan, Nicholas e Lorenzo Lemnsack Hentz Barcarolli foram tomados por uma alegria indomável característica dessa data. Não nevava em Middleland, no sentido mais completo da palavra. O máximo que se conseguia era uma fina camada de água congelada que logo tratava de descongelar pouco depois de atingir o solo e cobri-lo com um lençol branco. Porém, por onde se passava, viam-se casas e mais casas enfeitadas com bugigangas natalinas. O apartamento do vigésimo terceiro andar principalmente. Uma árvore colossal que raspava o teto estava enfeitada com coisinhas brilhantes e badaluques, obra de Nick Hentz, além de fileiras de pisca-piscas dourados pendurados nas paredes. Uma guirlanda natalina decorava a porta de entrada do lado de fora e uma gêmea sua, do lado de dentro, uma coroa verde com lacinhos vermelhos e dourados.
À noite, crianças brincavam de guerra de bolas de neve na rua com o que conseguiam juntar da coisa pastosa que caía do céu, ao mesmo tempo em que ouvidos eram inundados com doces músicas natalinas e lojas dobravam o preço de seus produtos. Um sentimento de fraternidade assolava a todos.
Na noite de véspera de Natal, Nick parecia literalmente mais criança que Lorenzo. Ainda usava uma faixa em volta do peito por causa do ferimento de bala, mas vestia um macacão azul claro por cima com estampa de um ursinho sorridente. Tomava chocolate quente, criando um bigode de leite marrom. Suas bochechas estavam coradas e seu cabelo louro reluzia na luz dos pisca-piscas da árvore e das paredes.
Era muito tarde e Lorenzo já dormia. Haviam acabado de jantar a ceia, onde um monstruoso peru de cinco quilos estava agora com metade do corpo no estômago de Nick, que estava jogado no sofá, empanturrado e feliz.
Ethan deitou-se a seu lado e o aninhou em seus braços.
— Eu te amo tanto, criança — ele sussurrou ao seu ouvido.
— Já passa da meia-noite, Ethan — Nick sussurrou de volta, os olhos cheios de fogo e desejo. — Me ame nessa noite de Natal. Me ame aqui, agora, nesse sofá, sob a árvore e a luz dos pisca-piscas.
A luz dos pisca-piscas era a única coisa que iluminava a sala, que estava banhada num jorro de claridade dourada que pouco contrastava com a pele e o cabelo de Nick, ambos da mesma cor. Mas seus olhos negros ardiam como as chamas de uma fogueira minúscula numa ilha densa e desabitada.
“Me ame”, ele disse, tão criança e tão crescido ao mesmo tempo.
Ethan o fez.
Amaram-se ao longo de toda a noite, deliciando-se com os sabores e os cheiros um com o outro, os toques e gemidos e carícias e arranhões e beliscões, unindo-se sexual e espiritualmente. Depois, uma segunda vez, e então uma terceira. Quando terminaram, exaustos, o nascer do sol se adiantava no horizonte.
Tudo estava bem, tudo estava feliz, como devia ser.
Então, um ruído. Começou baixo, como uma abelha zunindo em volta de um pote de mel, mas à medida que o tempo passava, assemelhava-se cada vez mais com algo muito pequeno, mas muito pesado, caindo de uma altura muito grande muito rapidamente, cortando o ar abaixo de si. O barulho aumentou até que se tornou o ronco monstruoso e inconfundível de um avião.
Mas estava baixo demais para ser um avião, eles nunca passavam por sobre a cidade. O aeroporto de Middleland ficava ao oeste, a quilômetros dali.
Ethan estava com a cabeça recostada no peito de Nick, que estava abaixo dele, nu, reluzente e dourado como ouro, abraçando-o com as pernas, mas quando o tremor começou, olhou furtivamente para a mesinha de centro. O copo do chocolate quente que Nick tomara estava arrastando-se lentamente para a borda. Um pouco mais, e ele caiu no chão.
O maior levantou-se ainda nu e abriu as cortinas da varanda, deixando a luz da aurora entrar.
Um monstro alado e branco, grande como um leviatã, brilhava à tênue luz do sol que nascia aos poucos, deixando por onde passava no céu roxo e laranja uma massa espessa de fumaça negra e tóxica. Parecia estar tão lento, mas estava tão rápido, tão incrivelmente rápido.
Estava caindo. E vinha em direção ao prédio.
Ethan virou-se e viu Nick em pé. Estava tão bonito.
— PRO CHÃO! — berrou, antes de ele mesmo fazê-lo.
Sentiu lascas de cimento arranharem-lhe as costas quando o avião arranhou o teto do prédio, levando-o consigo. Então um estrondo monstruoso e ensurdecedor, pouco antes de duzentas toneladas de metal incandescente explodir na rua e arrastar tudo o que encontrava, numa estrada de morte e destruição.
Ethan ficou cego e surdo por um momento, mas quando abriu os olhos e percebeu a fumaça e poeira e escombros no que outrora fora sua sala de estar, as pernas quase falharam em mantê-lo em pé. Olhou para o alto e viu o céu, o céu, e fumaça, fumaça negra e tóxica. Toda a parte superior do prédio havia sido arrancada pelo avião com a mesma facilidade que um homem o faria com a tampa de uma vasilha.
Lorenzo. Droga, Lorenzo.
Nick estava jogado num canto perto do sofá, tremendo de medo, mas ileso. O avião havia passado direto, mas não sem antes levar uma boa parte do prédio consigo. O telhado do apartamento sumira, assim como tudo acima dele. Havia água saindo do chão da cozinha, assim como fios elétricos pendendo do que restava das paredes. Seu coração martelava violentamente no peito. Sentia o cheiro de queimado. Sentia o rosto queimar. O gosto da fumaça impregnava o ar.
Levantou-se devagar, percebendo que Ethan sumira. Estava vendo Lorenzo, provavelmente. Os quartos deviam ter sido assolados pela colisão. Escombros de cimento e metal espalhavam-se pela sala, tudo parecia estar revirado ou queimado. A parede da porta de entrada do apartamento desaparecera. A árvore de Natal jazia em cinzas.
É Natal, Nick compreendeu. Olhou para a fumaça no céu. Eu pedi a Ethan para nos mudarmos para Jardim de Ouro de presente, mas ele não me respondeu. A fumaça dissipou-se e Nicholas Hentz percebeu que fitava o céu que timidamente amanhecia.
— Então, Deus — murmurou. — Nunca acreditei em você, mas, depois desse presente, acho que vou rever minhas crenças.
E riu, riu para não chorar.
Fale com o autor